PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Jesus veio ter com João Baptista para ser baptizado por ele…” (cf. Mateus 3, 13) A liturgia deste Domingo propõe-nos o acontecimento do Baptismo de Jesus, segundo a narração do Evangelho de Mateus (cf. 3,13-17). O evangelista descreve o diálogo entre Jesus, que pede o baptismo, e João Baptista, que se opunha e observa: «Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?» (v. 14). Esta decisão de Jesus surpreende o Baptista: de facto, o Messias não precisa de ser purificado; é Ele quem purifica. Mas Deus é o Santo, os seus caminhos não são os nossos, e Jesus é o Caminho de Deus, um caminho imprevisível. Lembremo-nos de que Deus é o Deus das surpresas. João tinha declarado que havia uma distância abismal e intransponível entre ele e Jesus. «Não sou digno de lhe descalçar as sandálias» (Mt 3, 11), dissera ele. Mas o Filho de Deus veio precisamente para colmar esta distância entre o homem e Deus. Se Jesus está todo do lado de Deus, ele também está todo do lado do homem, e reúne o que estava dividido. É por isso que ele responde a João: «Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça» (v. 15). O Messias pede para ser baptizado para que se cumpra toda a justiça, para que se realize o desígnio do Pai, que passa pelo caminho da obediência filial e da solidariedade com o homem frágil e pecador. É o caminho da humildade e da total proximidade de Deus aos seus filhos. O profeta Isaías também anuncia a justiça do Servo de Deus, que cumpre a sua missão no mundo com um estilo contrário ao espírito mundano: «não gritará, não levantará a voz, não clamará nas ruas. Não quebrará a cana rachada, não apagará a mecha que ainda fumega» (42, 2-3). É a atitude de mansidão - é isto que Jesus nos ensina com a sua humildade, a mansidão -, a atitude de simplicidade, de respeito, de moderação e de escondimento, que também hoje é exigida aos discípulos do Senhor. Quantos - é triste dizê-lo - quantos discípulos do Senhor se pavoneiam por serem discípulos do Senhor. Aquele que se pavoneia não é um bom discípulo. O bom discípulo é humilde, é manso, é aquele que pratica o bem sem o ostentar. Na acção missionária, a comunidade cristã é chamada a ir ao encontro dos outros, propondo sempre e nunca impondo, dando testemunho, partilhando a vida concreta do povo. Assim que Jesus foi baptizado no rio Jordão, os céus abriram-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele como uma pomba, enquanto do alto ressoou uma voz que dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado» (Mt 3,17). Na festa do Baptismo de Jesus, redescubramos o nosso baptismo. Assim como Jesus é o Filho amado do Pai, também nós, renascidos da água e do Espírito Santo, sabemos que somos filhos amados - o Pai ama-nos a todos! -, objecto do agrado de Deus, irmãos de muitos outros, investidos de uma grande missão para testemunhar e anunciar a todos os homens o amor sem limites do Pai. Esta festa do Bapismo de Jesus faz-nos recordar o nosso Baptismo. Também nós renascemos no Baptismo. No Baptismo, o Espírito Santo veio para permanecer em nós. Por isso é importante saber qual é data do meu Baptismo. Nós sabemos qual é a data do nosso nascimento, mas nem sempre sabemos a data do nosso Baptismo. Certamente alguns de vós não a sabem... trabalhos de casa. Quando voltardes para casa perguntai: quando fui batizada? Quando fui batizado? E festejai, no coração, a data do Baptismo todos os anos. Fazei-o. É também um dever de justiça para com o Senhor, que tem sido tão bom connosco. Que Maria Santíssima nos ajude a compreender cada vez mais o dom do Baptismo e a vivê-lo com coerência nas situações de cada dia. (cf. Papa Francisco, na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 12 de Janeiro de 2020, Festa do Baptismo do Senhor)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Oração do Angelus, no dia 8 de Novembro, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Iniciamos, hoje, uma nova série de catequeses, que fixará o nosso olhar no “coração” da Igreja, ou seja, na Eucaristia. Para nós cristãos, é fundamental compreender bem o valor e o significado da Santa Missa, a fim de viver cada vez mais plenamente a nossa relação com Deus.
Não podemos esquecer o grande número de cristãos que, no mundo inteiro, em dois mil anos de história, resistiram, até à morte, para defender a Eucaristia; e quantos, ainda hoje, arriscam a vida para participar na Missa dominical. No ano de 304, durante as perseguições de Diocleciano, um grupo de cristãos, do norte de África, foram surpreendidos a celebrar a Missa, numa casa, e foram aprisionados. O procônsul romano, no interrogatório, perguntou-lhes por que o fizeram, sabendo que era absolutamente proibido. E eles responderam: «Sem o Domingo não podemos viver», que significava: se não podemos celebrar a Eucaristia, não podemos viver, a nossa vida cristã morreria.
Com efeito, Jesus disse aos seus discípulos: «se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia» (Jo 6, 53-54).
Aqueles cristãos do norte de África foram assassinados porque celebravam a Eucaristia. Deixaram o testemunho de que se pode renunciar à vida terrena pela Eucaristia, porque ela nos dá a vida eterna, tornando-nos participantes da vitória de Cristo sobre a morte. Um testemunho que nos interpela a todos, e exige uma resposta acerca do que significa, para cada um de nós, participar no Sacrifício da Missa e aproximarmo-nos da Mesa do Senhor. Estamos à procura daquela nascente da qual “jorra água viva” para a vida eterna?... E que torna a nossa vida um sacrifício espiritual de louvor e de agradecimento e faz de nós um só corpo com Cristo? É este o sentido mais profundo da sagrada Eucaristia, que significa “agradecimento”: agradecimento a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que nos abrange e nos transforma na sua comunhão de amor.
Nas próximas catequeses, gostaria de responder a algumas perguntas importantes sobre a Eucaristia e a Missa, a fim de redescobrir, ou descobrir, como o amor de Deus resplandece através deste mistério da fé.
O Concílio Vaticano II foi fortemente animado pelo desejo de levar os cristãos a compreender a grandeza da fé e a beleza do encontro com Cristo. Por este motivo, era necessário, antes de mais, realizar, com a ajuda do Espírito Santo, uma adequada renovação da Liturgia, porque a Igreja vive continuamente dela e renova-se graças a ela.
Um tema central que os Padres conciliares frisaram foi a formação litúrgica dos fiéis, indispensável para uma verdadeira renovação. E é precisamente esta também a finalidade deste ciclo de catequeses que hoje iniciamos: crescer no conhecimento do grande dom que Deus nos concedeu na Eucaristia.
A Eucaristia é um acontecimento maravilhoso, no qual Jesus Cristo, nossa vida, se faz presente. Participar na Missa «é viver outra vez a paixão e a morte redentora do Senhor. É uma teofania: o Senhor torna-se presente no altar para ser oferecido ao Pai, pela salvação do mundo» (Homilia, Santa Marta, 10 de fevereiro de 2014). O Senhor está ali connosco, ali presente. Muitas vezes, nós vamos ali, olhamos para as coisas, falamos entre nós, enquanto o sacerdote celebra a Eucaristia... e não celebramos ao lado d’Ele. Mas é o Senhor! Se hoje viesse aqui o Presidente da República ou qualquer pessoa muito importante do mundo, certamente todos estaríamos perto dela, e gostaríamos de a saudar. Mas repara: quando tu vais à missa, o Senhor está lá! E tu distrais-te. É o Senhor! Devemos pensar nisto. “Padre, mas as missas são tediosas" — “Que dizes, o Senhor é tedioso?" - Não, a Missa não! Os sacerdotes…" - "Ah, que os sacerdotes se convertam… Mas é o Senhor quem está ali!”. Está claro? Não o esqueçais. «Participar na Missa é como viver outra vez a paixão e a morte redentora do Senhor».
Procuremos, agora, fazer-nos algumas perguntas simples. Por exemplo: por que fazemos o sinal da cruz e o acto penitencial, no início da Missa? Aqui gostaria de fazer outro parêntesis. Vistes como fazem as crianças o sinal da cruz? Não se sabe o que fazem. Não se sabe se é o sinal da cruz ou um desenho. Fazem uma gatafunhada [o Papa fez um gesto desajeitado]. É preciso ensinar bem as crianças a fazer o sinal da cruz. Assim começa a Missa, assim começa a vida, assim começa o dia. Isto significa que somos remidos com a cruz do Senhor. Olhai para as crianças e ensinai-lhes a fazer bem o sinal da cruz. E aquelas Leituras, na Missa, porque se fazem? Por que se lêem, ao Domingo, três Leituras e nos outros dias duas? Por que estão ali, o que significa a Leitura da Missa? Por que se lêem e o que têm a ver? Ou então, por que a um certo ponto o sacerdote que preside à celebração diz: “Corações ao alto?”. Não diz: “Telefones ao alto para fazer fotografias!”. Não, não é agradável! E digo-vos que me causa muita tristeza quando celebro, aqui na Praça ou na Basílica, e vejo tantos telefones elevados, não só dos fiéis, mas até de alguns sacerdotes e bispos. Por favor! A Missa não é um espectáculo: significa ir encontrar a paixão e a ressurreição do Senhor. Por isso, o sacerdote diz: “Corações ao alto”. Que significa isto? Recordai-vos: não levanteis os telefones.
É muito importante voltar aos fundamentos, redescobrir aquilo que é essencial, através do que se toca e se vê na celebração dos Sacramentos. O pedido do Apóstolo São Tomé (cf. Jo 20, 25), para poder ver e tocar as chagas dos pregos, no corpo de Jesus, é o desejo de poder, de alguma forma, “tocar” Deus para acreditar n’Ele. O que São Tomé pede ao Senhor é aquilo de que todos nós precisamos: vê-lo e tocar n’Ele para O poder reconhecer. Os Sacramentos vêm ao encontro desta exigência humana. Os Sacramentos, e a celebração eucarística de maneira especial, são os sinais do amor de Deus, os caminhos privilegiados para nos encontrarmos com Ele.
Assim, através destas catequeses que hoje começam, gostaria de redescobrir, juntamente convosco, a beleza que se esconde na celebração eucarística, e que, quando é revelada, dá pleno sentido à vida de cada um. Nossa Senhora nos acompanhe neste novo percurso. Obrigado! (cf. Santa Sé)