PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…vai profetizar ao meu povo…” (cf. Amós 7, 15)

O caminho do profeta está cheio de obstáculos. Na sua missão de anunciar Deus e o seu projecto encontra entraves de todo o tipo. Não se esperaria que alguns deles viessem de gente conotada com o serviço de Deus, com a actividade religiosa, com a missão de ser presença do divino no coração da vida. Pela nossa experiência, muitas vezes constatamos que são os de dentro – os que frequentam a igreja, os que colaboram nas actividades paroquiais, os que se afirmam cristãos, os da nossa casa, os da nossa comunidade – a erguer mais obstáculos à concretização do desígnio de Deus de salvar todos os homens, pelo caminho da bondade, da misericórdia e do perdão. Hoje, é importante que, de coração sincero e vida transparente, os cristãos afirmem, convictamente, a sua adesão a Cristo; o desejo de uma conversão autêntica; a disponibilidade para a missão evangelizadora; a abertura de espírito para acolher e reconciliar; a vontade firme da fidelidade e da coerência; o amor à Igreja e à comunidade de que fazem parte. Cada cristão, como bom fermento, deve transfigurar a vida e os ambientes na alegria do Evangelho.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, no dia 22 de Novembro, na Praça de São Pedro – Roma

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
Prosseguindo as catequeses sobre a Missa, podemos questionar-nos: o que é, no essencial, a Missa? A Missa é o memorial do Mistério Pascal de Cristo. Ela torna-nos participantes da sua vitória sobre o pecado e a morte e confere pleno significado à nossa vida.
Por esta razão, a fim de compreender o valor da Missa, devemos entender, em primeiro lugar, o significado bíblico do “memorial”. Ele «não é somente a lembrança dos acontecimentos do passado, mas eles tornam-se, de certo modo, presentes e actuais. É assim que Israel entende a sua libertação do Egipto: sempre que se celebra a Páscoa, os acontecimentos do Êxodo tornam-se presentes à memória dos crentes, para que conformem com eles a sua vida» (Catecismo da Igreja Católica, 1363). Jesus Cristo - com a sua paixão, morte, ressurreição e ascensão ao céu - levou a cumprimento a Páscoa. E a Missa é o memorial da sua Páscoa, do seu “êxodo”, que cumpriu por nós, para nos fazer sair da escravidão e nos introduzir na terra prometida da vida eterna. Não é somente uma lembrança: não! É mais do que isso: significa evocar o que aconteceu há vinte séculos.
A Eucaristia leva-nos sempre ao ponto mais alto da acção de salvação de Deus: o Senhor Jesus, tornando-se pão partido para nós, derrama sobre nós toda a sua misericórdia e o seu amor, como fez na cruz, de modo a renovar o nosso coração, a nossa existência e a nossa forma de nos relacionarmos com Ele e com os irmãos. O Concílio Vaticano II afirma: «Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, na qual Cristo, nossa Páscoa, foi imolado, realiza-se também a obra da nossa redenção» (Cost. dogm. Lumen gentium, 3).
Cada celebração da Eucaristia é um raio daquele sol sem ocaso que é Jesus ressuscitado. Participar na Missa, em particular aos domingos, significa entrar na vitória do Ressuscitado; ser iluminados pela sua luz; abrasados pelo seu calor. Através da celebração eucarística, o Espírito Santo torna-nos participantes da vida divina que é capaz de transfigurar todo o nosso ser mortal. E, na sua passagem da morte para a vida, do tempo para a eternidade, o Senhor Jesus arrasta-nos, também, com Ele para fazer a Páscoa. Na Missa, faz-se a Pascoa. Nós, na Missa, estamos com Jesus, morto e ressuscitado e Ele arrasta-nos em frente, para a vida eterna. Na Missa, unimo-nos a Ele. Aliás, Cristo vive em nós e nós vivemos n’Ele: «Estou crucificado com Cristo - diz Paulo -, já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim» (Gl 2, 19-20). Paulo pensava desta forma.
Com efeito, o seu sangue liberta-nos da morte e do medo da morte. Liberta-nos não só do domínio da morte física, mas da morte espiritual que é o mal, o pecado, que se apodera de nós todas as vezes que somos vítimas do pecado nosso e alheio. E, então, a nossa vida é contaminada, perde beleza, perde significado, desflorece.
Ao contrário, Cristo restitui-nos a vida; Cristo é a plenitude da vida e, quando enfrentou a morte, aniquilou-a para sempre: «ressuscitando dos mortos, venceu a morte e renovou vida», confessa a Igreja celebrando a Eucaristia (Oração eucarística IV). A Páscoa de Cristo é a vitória definitiva sobre a morte, porque Ele transformou a sua morte em acto supremo de amor. Morreu por amor! E na Eucaristia, Ele quer comunicar-nos este seu amor pascal, vitorioso. Se o recebermos com fé, também nós podemos amar verdadeiramente a Deus e ao próximo; podemos amar como Ele nos amou, oferecendo a vida.
Se o amor de Cristo estiver em mim, posso doar-me plenamente ao outro, na certeza interior de que, mesmo se o outro me ferir, eu não morrerei; caso contrário, teria que me defender. Os mártires ofereceram a sua vida devido a esta certeza da vitória de Cristo sobre a morte. Só se experimentarmos este poder de Cristo, o poder do seu amor, seremos realmente livres de nos doarmos sem medo. É este o significado da Missa: entrar nesta paixão, morte, ressurreição, ascensão de Jesus. Quando vamos à Missa é como se fôssemos ao calvário: é a mesma coisa. Mas, pensai: no momento da Missa vamos ao calvário - usemos a imaginação - e sabemos que o homem que ali está é Jesus. Sabendo isso, será que nos permitiríamos conversar, tirar fotografias, dar um pouco de espectáculo? Não! Porque é Jesus! Certamente, estaríamos em silêncio, no pranto e, também, na alegria de sermos salvos. Quando entrarmos na Igreja para celebrar a Missa, pensemos nisto: entro no calvário, onde Jesus oferece a sua vida por mim. E, assim, desaparece o espectáculo, desaparecem as tagarelices e os comentários. Estas coisas afastam-nos de algo tão bonito que é a Missa, o triunfo de Jesus.
Penso que agora ficou mais claro como a Páscoa se torna presente e operante todas as vezes que celebramos a Missa, e este é o sentido do memorial. A participação na Eucaristia faz-nos entrar no mistério pascal de Cristo, concedendo-nos a oportunidade de passar, com Ele, da morte à vida, ali no calvário. A Missa é refazer o calvário, não é um espectáculo. (cf. Santa Sé)