PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Ficai connosco, Senhor, porque vem caindo a noite …” (cf. Lucas 24, 29) O Evangelho de hoje, ambientado no dia de Páscoa, narra o episódio dos dois discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35). É uma história que começa e acaba a caminho. Na verdade, há a viagem de ida dos discípulos que, tristes devido ao epílogo da vicissitude de Jesus, deixam Jerusalém e voltam para casa, para Emaús, percorrendo cerca de onze quilómetros. É uma viagem feita de dia, com grande parte do percurso em declive. E há a viagem de regresso: mais onze quilómetros, mas percorrida ao cair da noite, com parte do caminho em subida, após o cansaço da viagem de ida e o dia inteiro. Duas viagens: uma fácil, de dia, e outra cansativa, de noite. E no entanto, a primeira tem lugar na tristeza; a segunda, na alegria. Na primeira, há o Senhor que caminha ao lado deles, mas não o reconhecem; na segunda, já não o veem, mas sentem-no próximo. Na primeira estão desanimados e sem esperança; na segunda, correm a levar aos outros a boa notícia do encontro com Jesus Ressuscitado. Os dois caminhos diferentes daqueles primeiros discípulos dizem-nos, a nós discípulos de Jesus hoje, que na vida temos à nossa frente dois rumos opostos: há o caminho de quem, como aqueles dois na ida, se deixa paralisar pelas desilusões da vida e vá em frente com tristeza; e há o caminho de quem não se coloca em primeiro lugar a si próprio e os seus problemas, mas Jesus que nos visita, e os irmãos que esperam a sua visita, ou seja, os irmãos que nos esperam para que cuidemos deles. Eis o momento decisivo: deixar de orbitar em torno de si próprio, das desilusões do passado, dos ideais não realizados, das muitas coisas negativas que aconteceram na vida. Muitas vezes somos levados a orbitar, orbitar... Deixemos isto e vamos em frente, olhando para a maior e mais verdadeira realidade da vida: Jesus está vivo, Jesus ama-me. Esta é a maior realidade. E eu posso fazer algo pelos outros. É uma realidade boa, positiva, solar, bela! Eis a inversão de marcha: passar dos pensamentos sobre o meu eu para a realidade do meu Deus; passar - com outro jogo de palavras - do “se” para o “sim”. Do “se” para o “sim”. O que significa? “Se Ele nos tivesse libertado, se Deus me tivesse ouvido, se a vida tivesse corrido como eu queria, se eu tivesse isto e aquilo...”, em tom de queixa. Este “se” não ajuda, não é fecundo, não ajuda nem a nós nem aos outros. Eis os nossos “se”, semelhantes aos dos dois discípulos. Mas eles passam para o sim: “Sim, o Senhor está vivo, Ele caminha connosco. Sim, agora, não amanhã, voltamos a percorrer o caminho para o anunciar”. “Sim, posso fazer isto para que as pessoas sejam mais felizes, para que as pessoas sejam melhores, para ajudar muitas pessoas. Sim, sim, eu posso”. Do “se” para o “sim”, da lamentação para a alegria e a paz, pois quando nos queixamos, não estamos na alegria; estamos na melancolia, na consternação, no ar cinzento da tristeza. E isto não ajuda, e nem sequer nos faz crescer bem. Do “se” para o “sim”, da lamentação para a alegria do serviço. Como se verificou nos discípulos esta mudança de passo, do eu para Deus, do “se” para o “sim”? Encontrando Jesus: os dois de Emaús primeiro abrem-lhe o coração; em seguida, ouvem-no explicar-lhes as Escrituras; depois, convidam-no para sua casa. São três passos que também nós podemos dar na nossa casa: primeiro, abrir o coração a Jesus, confiando-lhe os pesos, os cansaços, as desilusões da vida, confiando-lhe os “se”; e depois, segundo passo, ouvir Jesus, pegar no Evangelho, ler hoje este trecho, no capítulo vinte e quatro do Evangelho de Lucas; terceiro, rezar a Jesus, com as mesmas palavras daqueles discípulos: «Senhor, fica connosco» (v. 29). Senhor, fica comigo. Senhor, fica com todos nós, pois precisamos de ti para encontrar o caminho. E sem ti, não há noite! Prezados irmãos e irmãs, na vida estamos sempre a caminho. E tornamo-nos aquilo rumo ao que caminhamos. Escolhamos a vereda de Deus, não a do eu; o caminho do “sim”, não o do “se”. Descobriremos que não há imprevisto, não há subida, não há noite que não se possa enfrentar com Jesus. Que Nossa Senhora, Mãe do Caminho que, acolhendo a Palavra, fez de toda a sua vida um “sim” a Deus, nos indique a senda. (Papa Francisco na Oração Regina Caeli, no dia 26 de Abril de 2020, na Biblioteca do Palácio Apostólico, Vaticano, Roma)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

EM DESTAQUE


- TEMPO DO ADVENTO



A Igreja inicia, neste Domingo, 3 de Dezembro, o tempo litúrgico chamado “Advento”. Esta palavra, de origem latina, significa “vinda”, “chegada”. O Advento é o tempo de preparação da vinda do Senhor: a celebração da vinda histórica de Cristo - na Festa do Natal – e a vinda de Cristo, no final dos tempos, realizando a plenitude da salvação.
O tempo do Advento começa no Domingo a seguir à Solenidade de Cristo Rei e termina na véspera do dia de Natal.
Na liturgia deste tempo, aparecem duas figuras bíblica de especial relevo: Maria e João Baptista. Ambos exprimem a vocação a que os crentes são chamados: acolher Deus e testemunha-lo na vida.
 O Tempo do Advento deveria ser marcado, na vida dos cristãos, pela vivência da esperança e da oração.
Para ajudar a nossa reflexão sobre o Advento, apresentamos a palavra do Papa Bento XVI, na oração do Angelus, do Primeiro Domingo do Advento de 2011: “…Iniciamos hoje com toda a Igreja o novo Ano litúrgico: um caminho novo de fé, para viver juntos nas comunidades cristãs, mas também, como sempre, para percorrer no âmbito da história do mundo, a fim de a abrir ao mistério de Deus, à salvação que vem do seu amor. O Ano litúrgico começa com o Tempo do Advento: tempo maravilhoso no qual desperta nos corações a expectativa do retorno de Cristo e a memória da sua primeira vinda, quando se despojou da sua glória divina para assumir a nossa carne mortal.
«Vigiai!». Este é o apelo de Jesus no Evangelho de hoje. Dirige-o não só aos seus discípulos, mas a todos: «Vigiai!» (Mt 13, 37). É uma chamada saudável a recordar-nos de que a vida não tem só a dimensão terrena, mas está projectada para um «além», como uma pequena planta que germina da terra e se abre para o céu. Uma pequenina planta pensante, o homem, dotada de liberdade e de responsabilidade, pelo que cada um de nós será chamado a prestar contas de como viveu, como utilizou as suas capacidades: se as conservou só para si ou se as fez frutificar inclusive a favor dos irmãos.
Também Isaías, o profeta do Advento, nos faz reflectir hoje com uma oração amargurada, dirigida a Deus em nome do povo. Ele reconhece as faltas da sua gente, e a um certo ponto diz: «Ninguém invocava o teu nome, nem se esforçava por se apoiar em ti; porque escondias de nós a tua face, e nos entregavas às nossas iniquidades» (Is 64, 6). Como não permanecer admirado com esta descrição? Parece reflectir certos panoramas do mundo pós-moderno: as cidades onde a vida se torna anónima e horizontal, onde parece que Deus está ausente e o homem é o único dono, como se fosse o artífice e o realizador de tudo: as construções, o trabalho, a economia, os transportes, as ciências, a técnica, parece que tudo depende só do homem. E por vezes, neste mundo que parece quase perfeito, acontecem coisas arrasadoras, ou na natureza, ou na sociedade, pelo que nós pensamos que Deus se retirou, que nos tenha, por assim dizer, abandonado a nós mesmos.
Na realidade, o verdadeiro «dono» do mundo não é o homem, mas Deus. O Evangelho diz: «Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não seja que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir» (Mc 13, 35-36). O Tempo do Advento chega todos os anos para nos recordar isto, para que a nossa vida encontre a sua orientação justa, rumo ao rosto de Deus. O rosto não de um «dono», mas de um Pai, de um Amigo. Com a Virgem Maria, que nos guia no caminho do Advento, façamos nossas as palavras do profeta. «Mas Tu, Senhor, é que és o nosso Pai. Nós somos a argila e Tu és o oleiro. Todos nós fomos modelados pelas tuas mãos» (Is 64, 7)…”


- SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO



No próximo dia 8 de Dezembro, a Igreja celebra a Solenidade da Imaculada Conceição, dogma da fé católica, segundo o qual a Mãe do Jesus foi preservada do pecado desde o momento da sua concepção, ou seja, desde o instante em que começou a sua vida humana.
Em 8 de Dezembro de 1854, o Papa Pio IX, depois de receber inúmeros pedidos de bispos e fiéis de todo o mundo, perante mais de 200 cardeais, bispos, embaixadores e milhares de fiéis católicos, declarou, com sua bula “Ineffabilis Deus”: “A doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio do Deus omnipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, foi preservada imune de toda a mancha da culpa original, é revelada por Deus e, por isso, deve ser crida firme e constantemente por todos os fiéis”.
Lembrando, neste dia, a memória do Sr. D. António Francisco dos Santos, transcrevemos um trecho da sua homilia, na Festa da Imaculada Conceição de 2016: “…A Igreja celebra hoje a solenidade litúrgica da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, Padroeira de Portugal. Este é, por isso, um dia solene, um dia de graça e um dia de bênção para a Igreja e para o Mundo. Somos chamados a olhar Maria como a eleita de Deus, para ser Mãe de seu Filho e por Deus isenta de todo o pecado. Ela é a “cheia de graça”; a “bendita entre todas as mulheres” (cf. Luc 1, 28-42).
Em Maria cumpre-se o sonho de Deus, ao preparar e predispor, desde a sua conceição, a vida e o coração de uma filha de Eva para ser a Mãe do Redentor.
Em Maria concretiza-se a esperança do povo de Israel e desenha-se o caminho daqueles povos que procuram a verdade, a concórdia, o bem, a dignidade, a justiça e a paz.
Em Maria espelha-se o rosto da nova Humanidade, enriquecida pela graça de Deus, como o provam as palavras do Evangelho de hoje na saudação do Anjo, que proclama: «O Senhor está contigo, encontraste graça diante de Deus» (Luc 1, 28-30).
Maria converte-se, assim, na figura por excelência do Advento. Ela é sinal da presença de Deus no meio dos homens, ao anunciar-nos que o Natal vai acontecer. Ela abre a porta do coração humano ao sonho de Deus.
Ela é a casa e a família que Deus escolhe para que o seu Filho tenha Mãe, casa e família. Ela é esta porta que se abre para que a todas as famílias, com Maria, se renovem nas fontes da alegria do Natal e do amor vivido em família.
Ela é o modelo da Igreja, verdadeira Mãe de coração aberto, que acolhe, acompanha, educa e semeia esperança no horizonte daqueles a quem dá a vida. Ela é modelo de uma Igreja de gente feliz, porque acredita nas bem-aventuranças do evangelho e se predispõe a praticar com alegria as obras de misericórdia.
Ela é anúncio de uma nova Humanidade que ama e espera, que recebe e aceita Deus, que acolhe a Sua Palavra e a põe em prática. No horizonte da esperança de uma Humanidade que Deus salva, encontra-se a resposta de Maria: «Faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Luc 1,38)…” (cf. Diocese do Porto)

- ORAÇÃO DO PAPA FRANCISCO
no dia 8 de Dezembro de 2013, em Roma, diante da imagem da Imaculada Conceição

Virgem Santa e Imaculada:
a Ti, que és a honra do nosso povo e a defensora atenta da nossa cidade,
nos dirigimos com confiança e amor.
Tu és a Toda Bela, ó Maria! Em Ti não há pecado.
Suscita em todos nós um renovado desejo de santidade:
brilhe na nossa palavra o esplendor da caridade,
habitem no nosso corpo pureza e castidade,
torne-se presente na nossa vida toda a beleza do Evangelho
Tu és a Toda Bela, ó Maria! Em Ti se fez carne a Palavra de Deus.
Ajuda-nos a permanecer na escuta atenta da voz do Senhor:
nunca nos deixe indiferentes ao grito dos pobres,
não nos encontre distraídos o sofrimento dos doentes e dos carecidos,
comovam-nos a solidão dos idosos e a fragilidade das crianças,
seja sempre amada e venerada por todos nós cada vida humana.
Tu és a Toda Bela, ó Maria! Em Ti, a alegria plena da vida bem-aventurada, com Deus.
Faz com que não percamos o significado do nosso caminho terreno,
ilumine os nossos dias a luz gentil da fé,
oriente os nossos passos a força consoladora da esperança,
anime o nosso coração o calor contagioso do amor
permaneçam os olhos de todos nós bem fixos em Deus, onde se encontra a verdadeira alegria.
Tu és a Toda Bela, ó Maria!
Escuta a nossa oração, escuta a nossa súplica:
haja em nós a beleza do amor misericordioso de Deus em Jesus,
seja esta divina beleza a salvar-nos e a salvar a nossa cidade e o mundo inteiro.

Amém!