PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…vai profetizar ao meu povo…” (cf. Amós 7, 15)

O caminho do profeta está cheio de obstáculos. Na sua missão de anunciar Deus e o seu projecto encontra entraves de todo o tipo. Não se esperaria que alguns deles viessem de gente conotada com o serviço de Deus, com a actividade religiosa, com a missão de ser presença do divino no coração da vida. Pela nossa experiência, muitas vezes constatamos que são os de dentro – os que frequentam a igreja, os que colaboram nas actividades paroquiais, os que se afirmam cristãos, os da nossa casa, os da nossa comunidade – a erguer mais obstáculos à concretização do desígnio de Deus de salvar todos os homens, pelo caminho da bondade, da misericórdia e do perdão. Hoje, é importante que, de coração sincero e vida transparente, os cristãos afirmem, convictamente, a sua adesão a Cristo; o desejo de uma conversão autêntica; a disponibilidade para a missão evangelizadora; a abertura de espírito para acolher e reconciliar; a vontade firme da fidelidade e da coerência; o amor à Igreja e à comunidade de que fazem parte. Cada cristão, como bom fermento, deve transfigurar a vida e os ambientes na alegria do Evangelho.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro , Roma, no dia 10 de Janeiro

Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!
No percurso das catequeses sobre a celebração eucarística, vimos que o ‘Acto penitencial’ nos ajuda a despojar-nos das nossas presunções e a apresentar-nos a Deus como realmente somos, conscientes de sermos pecadores, na esperança de sermos perdoados.
Precisamente do encontro entre a miséria humana e a misericórdia divina, adquire vida a gratidão expressa no “Glória”, «um hino antiquíssimo e venerável, com o qual a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro» (Ordenamento Geral do Missal Romano, 53).
O início deste hino — “Glória a Deus nas alturas” — retoma o cântico dos Anjos no nascimento de Jesus, em Belém, anúncio jubiloso do abraço entre o céu e a terra. Este cântico inclui-nos também a nós, reunidos em oração: «Gloria a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade».
Após o “Glória”, ou então, na sua ausência, imediatamente depois do ‘Acto penitencial’, a oração adquire forma particular na prece denominada “colecta”, por meio da qual se expressa o carácter próprio da celebração, que varia de acordo com os dias e os tempos do ano (cf. ibid., 54). Mediante o convite «oremos», o sacerdote exorta o povo a recolher-se com ele num momento de silêncio, com a finalidade de tomar consciência de estar na presença de Deus e fazer emergir, cada qual no próprio coração, as intenções pessoais com as quais participa na Missa (cf. ibid., 54). O sacerdote diz «oremos»; e, depois, há um momento de silêncio, e cada um pensa naquilo de que precisa; no que deseja pedir, na oração.
O silêncio não se reduz à ausência de palavras, mas consiste em predispor-se a ouvir outras vozes: a do nosso coração e, sobretudo, a voz do Espírito Santo. Na liturgia, a natureza do silêncio sagrado depende do momento em que se realiza: «Durante o ‘Acto penitencial’ e após o convite à oração, ajuda ao recolhimento; depois da leitura ou da homilia, é uma exortação a meditar, brevemente, sobre o que se ouviu; após a Comunhão, favorece a prece interior de louvor e de súplica» (ibid., 45). Portanto, antes da oração inicial, o silêncio ajuda a recolher-nos em nós mesmos e a pensar por que estamos ali. Eis, então, a importância de ouvir o nosso espírito para o abrir depois ao Senhor. Talvez tenhamos vivido dias de cansaço, de alegria, de dor, e queremos dizê-lo ao Senhor, invocar a sua ajuda, pedir que esteja próximo de nós; temos familiares e amigos doentes, ou que atravessam provações difíceis; desejamos confiar a Deus o destino da Igreja e do mundo. É para isto que serve o breve silêncio antes que o sacerdote, recolhendo as intenções de cada um, recite em voz alta a Deus, em nome de todos, a oração comum que conclui os ritos de introdução, realizando precisamente a “colecta” das intenções individuais. Recomendo vivamente aos sacerdotes que observem este momento de silêncio e não se apressem: «oremos», e que se faça silêncio. Recomendo isto aos presbíteros. Sem este silêncio, corremos o risco de descuidar o recolhimento da alma.
O sacerdote recita esta súplica, esta oração de colecta, de braços abertos: é a atitude do orante, assumida pelos cristãos desde os primeiros séculos — como testemunham os frescos das catacumbas romanas — para imitar Cristo de braços abertos no madeiro da cruz. Ali, Cristo é o Orante e, ao mesmo tempo, a oração! No Crucificado, reconhecemos o Sacerdote que oferece a Deus o culto que lhe é agradável, ou seja, a obediência filial.
No Rito Romano, as orações são concisas, mas ricas de significado: podem fazer-se muitas meditações bonitas sobre estas preces. Muito belas! Voltar a meditar os seus textos, até fora da Missa, pode ajudar-nos a aprender como dirigir-nos a Deus, o que pedir, que palavras usar. Possa a liturgia tornar-se para todos nós uma verdadeira escola de oração. (cf. Santa Sé)