PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Recebei o Espírito Santo…” (cf. João 20, 22) Hoje celebramos a grande festa de Pentecostes, em memória da efusão do Espírito Santo sobre a primeira comunidade cristã. O Evangelho de hoje (cf. Jo 20, 19-23) leva-nos à tarde do dia de Páscoa e mostra-nos Jesus ressuscitado que aparece no Cenáculo, onde os discípulos se refugiaram. Eles tinham medo. «Colocou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz seja convosco!”» (v. 19). Estas primeiras palavras pronunciadas pelo Ressuscitado: «A paz seja convosco» devem ser consideradas mais do que uma saudação: exprimem o perdão, o perdão concedido aos discípulos que, para dizer a verdade, o tinham abandonado. São palavras de reconciliação e de perdão. E também nós, quando desejamos a paz aos outros, estamos a perdoar e a pedir perdão. Jesus oferece a sua paz precisamente a estes discípulos que têm medo, que sentem dificuldade em acreditar no que viram, ou seja, no túmulo vazio, e que subestimam o testemunho de Maria de Madalena e das outras mulheres. Jesus perdoa - perdoa sempre - e oferece a paz aos seus amigos. Não vos esqueçais: Jesus nunca se cansa de perdoar. Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. Ao perdoar e reunir os discípulos à sua volta, Jesus faz deles uma Igreja, a sua Igreja: uma comunidade reconciliada e pronta para a missão. Reconciliada e pronta para a missão. Quando uma comunidade não está reconciliada, não está pronta para a missão: está pronta para discutir consigo mesma; está pronta para discussões internas. O encontro com o Senhor ressuscitado inverte a existência dos Apóstolos e transforma-os em testemunhas corajosas. Na verdade, imediatamente a seguir, Jesus diz: «Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós» (v. 21). Estas palavras deixam claro que os Apóstolos são enviados para prolongar a mesma missão que o Pai confiou a Jesus. «Eu envio-te»: não é tempo de ficar preso, nem de se lamentar: de lamentar os “bons tempos”, aqueles tempos passados com o Mestre. A alegria da Ressurreição é grande, mas é uma alegria expansiva, que não deve ser guardada para si mesmo, mas deve ser doada. Nos domingos do Tempo pascal, ouvimos, primeiro, este mesmo episódio; em seguida, o encontro com os discípulos de Emaús; depois, o Bom Pastor; os discursos de despedida e a promessa do Espírito Santo: tudo isto com o objectivo de fortalecer a fé dos discípulos - e também a nossa - tendo em vista a missão. E, precisamente para animar a missão, Jesus dá aos Apóstolos o seu Espírito. O Evangelho diz: «soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”» (v. 22). O Espírito Santo é fogo que queima os pecados e cria novos homens e mulheres; é fogo de amor com o qual os discípulos poderão “incendiar o mundo”: esse amor de ternura que prefere os pequeninos, os pobres, os excluídos... Nos sacramentos do Baptismo e da Confirmação, recebemos o Espírito Santo com os seus dons: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento, piedade, temor de Deus. Este último dom - o temor de Deus - é precisamente o oposto do temor que antes paralisava os discípulos: é o amor ao Senhor; é a certeza da sua misericórdia e bondade; é a confiança de que podemos avançar no rumo por Ele indicado, sem nunca perder a sua presença e apoio. A festa de Pentecostes renova a consciência de que a presença vivificante do Espírito Santo habita em nós. Também nos dá a coragem de sair das paredes protectoras dos nossos “cenáculos”, pequenos grupos, sem nos acomodarmos numa vida tranquila nem nos fecharmos em hábitos estéreis. Elevemos agora o nosso pensamento a Maria. Ela estava lá, com os Apóstolos, quando o Espírito Santo veio; foi protagonista da primeira Comunidade, da admirável experiência do Pentecostes. Peçamos-Lhe para que obtenha para a Igreja um espírito missionário fervoroso. (Papa Francisco na Oração Regina Cae-li, no dia 31 de Maio de 2020, Solenidade do Pentecostes, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

SANTOS POPULARES



BEATA MARIA DE JESUS D’HOOGHVORST

Emília d’Oultremont nasceu no dia 11 de Outubro de 1818, em Wégimont - Liége, Bélgica, numa família nobre e impregnada dos valores cristãos. Era filha do Conde Emílio d’Oultremont e da Condessa Maria de Lierneux de Presles. Recebeu uma sólida formação humanística e religiosa, que resultou num carácter enérgico, quer no plano físico – era uma óptima atleta - quer no plano moral. Coragem e energia foram dois traços fundamentais da sua personalidade.
A devoção ao Sagrado Coração, à Virgem Maria e, sobretudo, à Eucaristia, enraizou-se na sua alma juvenil e caracterizou sempre o desenvolvimento da sua espiritualidade. A personalidade da jovem desenvolveu-se de forma serena e equilibrada, enriquecida com os seus extraordinários dons humanos e espirituais. Ainda muito jovem, sente-se atraída fortemente por Deus, como o absoluto, e descobre a pessoa e a espiritualidade de Santo Inácio de Loyola.
Sendo o seu pai Embaixador de Bélgica na Santa Sé, Emília acompanha-o em muitas das suas viagens através de Europa. Encontrando-se em Roma, durante uma cerimónia, num palácio, Emília sentiu-se envolvida pela graça e pelo amor de Deus que a levaram pronunciar, no íntimo do coração, estas palavras: “Mestre, só Tu na minha vida!”. Naquele momento, pensou consagrar-se inteiramente ao Senhor.
Mas, aos 18 anos, seguindo o costume da época, os seus pais falaram-lhe do matrimónio. Como qualquer outra jovem, Emília teve diversas propostas de casamento. Mas, quando conheceu o Conde Victor d’Hooghvorst van der Linden - “um jovem de virtude sólida e de piedade excepcional”, como ela mesma referiu - Emília reconheceu que o Senhor a queria conduzir pelo caminho do matrimónio. O seu casamento com o Conde Victor foi celebrado no dia 19 de Outubro de 1837. Viveu, em plenitude, a vida de uma esposa jovem e feliz. Deste casamento, nasceram quatro filhos: Adriano, Edmundo, Olímpia e Margarida. A alegria de ser mãe e a responsabilidade de cuidar e educar os seus filhos não a desviaram de seu esforço de crescer na santidade e na fidelidade a Jesus. Por isso, procurou ajuda espiritual, encontrando-a nos Padres Jesuítas, que a compreenderam e orientaram no seu caminho de busca da perfeição.
De 1839 a 1846, Emília permaneceu em Roma e foi brindada com experiências interiores que a dirigiram, sempre mais, para um amor total a Deus. Aos 24 anos, quando já era mãe de dois filhos, enquanto rezava na capela de Santo Inácio de Loyola, perto da Igreja de Jesus, em Roma, teve uma visão do santo fundador dos Jesuítas que, com a Constituição da Ordem nas mãos, lhe assegurou que, um dia, haveria de seguir a sua Regra.
Porém, a felicidade de Emília e de Victor seria de curta duração. Em 10 de Agosto de 1847, o seu marido faleceu, vítima de malária. Emília viveu esta prova com fé e prosseguiu com coragem a sua missão de mãe e educadora. Aos 29 anos, Emília encontrou-se viúva e com quatro filhos, entre os 2 e os 9 anos, que ela educou com amor. Consagrou-se a Deus com o voto de castidade, dedicando-se ainda mais às obras de caridade. Nos quatro anos seguintes à morte do seu marido, falecem também os seus pais. Nessa circunstância, decidiu pôr os seus filhos num colégio, em França, e ela, com suas filhas, faz os preparativos necessários para se estabelecer em Paris. Em 1854, deixou, definitivamente, a Bélgica e transferiu-se para Paris, para seguir, mais de perto, a formação dos seus filhos, no Colégio dos Jesuítas.
Quando, no dia 8 de Dezembro de 1854, o Papa Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, Emília pediu a Nossa Senhora que lhe inspirasse o que era mais agradável a Deus. Durante uma longa e intensa oração, na capela do Castelo da família, foi-lhe revelado, por Nossa Senhora, o que Deus esperava dela: a fundação de uma Congregação Religiosa destinada à reparação dos ultrajes cometidos contra o Santíssimo Sacramento.
Com algumas jovens, de diversas nacionalidades, iniciou, no ano seguinte, uma experiência de vida comunitária. Mas, o início oficial da nova família religiosa teve lugar no dia 1 de Maio de 1857, em Estrasburgo. A nova congregação religiosa surgiu com o nome de ‘Instituto de Maria Reparadora’. Neste dia, Emília vestiu o hábito de religiosa e assumiu o nome de Irmã Maria de Jesus; as suas companheiras assumiram compromissos idênticos; a Irmã Maria de Jesus foi eleita a primeira superiora do Instituto, que seria guiado pelo espírito de Santo Inácio.
Apesar dos trabalhos que que a direcção do Instituto lhe exigiam, a Madre Maria de Jesus acompanhou, sempre e com solicitude, os seus filhos, respeitando as suas opções de vida: os dois rapazes seguiram o caminho do matrimónio; as duas filhas decidiram seguir os passos da mãe na vida religiosa e entraram na Congregação por ela fundada. Desde as origens, a unidade do grupo, na nova congregação religiosa, faz-se à volta da Eucaristia, vivida na sua dupla dimensão de adoração e anúncio da Palavra, cuidando um equilíbrio entre oração e actividade apostólica.
O espírito inaciano foi a alma que animou todo o seu zelo apostólico, ao ponto de tomou decisões bastante arriscadas, como foi a resposta ao pedido dos Jesuítas para que construísse uma casa na Índia. Com apenas dois anos de fundação, as Irmãs do Instituto de Maria Reparadora partiram para a Índia para se dedicarem à promoção humana e espiritual das jovens relegadas a uma situação de inferioridade, devido à divisão das castas. Foi o lançamento definitivo de uma expansão por vários países da Europa.
Os últimos anos de vida da Madre Maria de Jesus foram marcados por sofrimentos de diversos géneros: lutos familiares; preocupação pelos seus filhos; separações e dificuldades no seio da Congregação.
Com a saúde muito debilitada, quando se encontrava de passagem por Florença - de regresso à Bélgica - estando na casa do seu filho Adriano, a Madre Maria de Jesus faleceu, no dia 22 de Fevereiro de 1878. Tinha 59 anos de idade. O seu túmulo encontra-se na Igreja da Santa Cruz e de São Bartolomeu, na Via Lucchesi, em Roma.
A Irmã Maria de Jesus - Emília d’Oultremont d’Hooghvorst - foi beatificada, em Roma, no dia 12 de Outubro de 1997, pelo Papa João Paulo II. A propósito desta nova Beata, na homilia da Missa, o Papa disse: “… «A palavra de Deus é viva...penetra até dividir a alma» (Hb 4, 12). Emília d’Hooghvorst acolheu esta palavra no mais íntimo de si mesma. Aprendendo a submeter-se à vontade de Deus, realizou, em primeiro lugar, a missão de todo o casal cristão: tornar o seu lar «um santuário doméstico da Igreja» Quando ficou viúva, animada pelo desejo de participar no mistério pascal, a Madre Maria de Jesus fundou a Sociedade de Maria Reparadora. Pela sua vida de oração, ela recorda-nos que, na adoração eucarística, onde bebemos como na fonte da vida que é Cristo, encontramos a força para a missão quotidiana. Que cada um de nós, qualquer que seja o seu estado de vida, saiba «escutar a voz de Cristo», «que deve ser a regra da nossa existência», como ela gostava de dizer! Esta beatificação é também para as religiosas de Maria Reparadora um encorajamento a prosseguirem o seu apostolado, com uma renovada atenção aos homens deste tempo. Segundo o seu carisma próprio, elas responderão à missão: despertar a fé entre os seus contemporâneos e ajudá-los no seu crescimento espiritual, participando assim activamente na edificação da Igreja…”
A memória litúrgica da Beata Maria de Jesus celebra-se no dia 22 de Fevereiro.