
BEATA MARIA DE JESUS DELUIL-MARTINY
Maria de Jesus Deluil-Martiny nasceu em
Marselha, França, em 28 de maio de 1841, filha de Paulo Deluil-Martiny,
advogado e administrador de instituições de caridade, e de Anaïs Maria de Solliers,
sobrinha-neta da Beata Ana Madalena Remuzat (1696-1730). No baptismo, realizado
no dia seguinte, recebeu os nomes de Maria, Carolina e Filomena. Depois dela
nasceram o seu irmão Júlio e as suas irmãs Amélia, Clementina e Margarida.
Educada, em casa, segundo os valores
cristãos, viveu momentos de particular fervor, por ocasião da sua Primeira
Comunhão, no dia 22 de Dezembro de 1853, e do seu Crisma, em 29 de Janeiro de
1854. A sua mãe incutiu nela a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Em casa,
também aprendeu a ler e a escrever, e até mesmo latim, com extraordinário
sucesso. Possuía um carácter vivaz e uma inteligência aguçada.
Aos oito anos, entrou no internato do
Mosteiro da Visitação, em Marselha, para completar os seus estudos iniciais.
Quando as Irmãs Visitandinas comentavam a sua vivacidade, com o Arcebispo de
Marselha, Santo Eugênio de Mazenod, ele respondeu com uma previsão profética:
"Não se preocupem... é coisa de criança... Vocês verão que, um dia, ela
será Santa Maria de Marselha".
Maria passou os dois últimos anos da sua formação,
em Lyon, como interna no Convento do Coração, de Ferrandière, onde concluiu,
com sucesso, os seus estudos superiores. Antes de voltar a casa, fez um curso
de exercícios espirituais - um retiro - durante o qual sentiu claramente o
chamamento à vida religiosa; tinha, então, dezassete anos. Em Maio de 1858, foi
a Ars consultar o pároco, São João Maria Vianney; ele advertiu-a de que levaria
muito tempo para realizar a sua vocação.
Tendo rejeitado o casamento, proposto
pelos seus pais, envolveu-se, cada vez mais, nos cuidados com eles, à medida
que as suas irmãs Clementina, Margarida e Amélia, e o seu irmão Júlio, faleciam
sucessivamente. Apesar desse compromisso familiar, Maria começou a substituir a
sua mãe, que estava doente, em todas as suas obras de caridade. Em 1864, a
convite da fundadora da Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus, a Irmã Maria
do Sagrado Coração Bernaud, do Mosteiro da Visitação, em Bourg-en-Bresse, ela
tornou-se a sua primeira e zelosa defensora, e colaborou, activamente, na
difusão da Obra, que foi fundada em 1863 e elevada à categoria de
arquiconfraria em 26 de Novembro de 1878.
Este foi, apenas, o início da sua missão.
Pouco a pouco, o plano divino tomou forma, de maneira cada vez mais concreta,
como havia previsto São Daniel Comboni, apóstolo do Norte da África. Em
Dezembro de 1866, colocou-se sob a direcção espiritual do jesuíta Padre João
Calage, que a orientou durante o resto da sua vida.
Em 1867, o desejo de se consagrar
totalmente a Deus tornou-se ainda mais intenso e, em 8 de Dezembro de 1869, fez
o voto de virgindade perpétua. Nos diversos impulsos interiores que
experimentou, em Bourg e Saint-Giniez, a sua vocação tornou-se clara: fazer da
sua vida uma imolação contínua com Jesus, na Eucaristia. Estava convencida de
que Jesus desejava uma Obra: "a adoração da Santíssima Trindade, pelo
Coração Eucarístico de Jesus, o único e verdadeiro Adorador da Divina
Majestade". Os membros desta Obra unir-se-ão a Ele, sacerdote e vítima, numa
única oblação para obter, para a Santa Igreja, para o ministério sacerdotal e
para as almas, os frutos da Redenção. O seu modelo será a Virgem Maria,
associada com coração materno, ao sacrifício de Jesus, no Calvário. "Há
algum tempo", escreveu Maria, "Nosso Senhor parece ter criado um
altar na minha alma, onde Ele se oferece incessantemente ao Pai e à Santíssima
Trindade. Ele deseja que eu permaneça diante deste altar, na Sua presença, em
adoração incessante, contente em contemplá-Lo e unir-me aos actos divinos que
Ele realiza." Daí o seu desejo de ser imolada para obter esta glória para
Deus.
Encorajada por seu director espiritual, o
Padre Calage, Maria respondeu ao convite do Bispo Van den Berghe, com quem já
mantinha contacto há algum tempo, que a incentivou a estabelecer a sua própria
obra, na Bélgica. Em 17 de Junho de 1873, ela fez uma peregrinação a
Paray-le-Monial e, em 20 de Junho, juntamente com quatro freiras e quatro postulantes,
fundou o primeiro Mosteiro do Instituto das Filhas do Coração de Jesus, em
Berchem-Antuérpia. Uma nova família religiosa de clausura foi então fundada, e
Maria recebeu o nome de Madre Maria de Jesus. Em Julho de 1875, ela escreveu as
Constituições com o objectivo específico de "responder, na medida do
possível, ao amor tão desconhecido deste divino Coração", pretendendo
"oferecer ao Coração de Jesus, sacerdote e vítima no Santíssimo Sacramento
do altar, reparação perpétua pelos horríveis ultrajes cometidos contra a divina
Majestade", "agradecer continuamente ao Coração de Jesus pelos seus
benefícios tão desconhecidos; pela sua grande misericórdia para com os pecadores
e, sobretudo, pelas bênçãos especiais que concede às almas sacerdotais e
religiosas"; finalmente, com o objectivo de oferecer orações especiais
para obter "a vinda do Reino de Cristo, a extinção das sociedades secretas
e, sobretudo, a perfeição e santidade, cada vez maiores, do sacerdócio católico
e das ordens religiosas", unida em tudo à Virgem Maria, "aos pés da
Cruz", que ofereceu "à justiça divina, para a salvação do mundo, o
precioso sangue do seu divino Filho".
A Regra adoptada pela Irmã Maria de Jesus
foi a de Santo Inácio, com as devidas adaptações. As Constituições, assim
redigidas, receberam a sua primeira aprovação em 2 de Fevereiro de 1876, pelo
Cardeal Deschamps, que, após ver Maria pela primeira vez, ficou tão
impressionado com sua inteligência e cordialidade que a chamou "a Teresa
do nosso século". Maria foi verdadeiramente uma superiora prudente e
sábia. A comunidade religiosa cresceu rapidamente em número e virtude. Já em 15
de Junho de 1877, outra casa foi inaugurada em Aix.
Em 17 de Agosto de 1878, a
Basílica-santuário - que a Bélgica Católica havia erguido ao Sagrado Coração e
confiado às Filhas do Coração de Jesus - foi consagrada em Berchem-Antuérpia. Naquele
mesmo dia, iniciou o serviço de adoração, ali.
Poucos dias depois, em 22 de Agosto, a
Madre Maria de Jesus e as suas primeiras companheiras professaram os votos
perpétuos. Para que as suas filhas estivessem intimamente unidas à oração
expiatória da Igreja, ela providenciou para que se reunissem, a cada meia hora,
em suas casas diante do Santíssimo Sacramento exposto, unindo-se, em espírito,
ao Sacrifício divino que é oferecido a cada instante em alguma parte do mundo.
Em 1876, Maria perdeu o pai e a mãe. Antes
de falecerem, expressaram o desejo de que uma casa fosse fundada em Servianne,
perto de Marselha. Cumprindo o último desejo da mãe, Maria inaugurou uma
terceira casa na propriedade da mãe, em Servianne, no dia 24 de Junho, onde
fundou o noviciado. No dia em que a primeira missa foi celebrada naquela antiga
casa de família, ela exclamou: "Meu Deus, que um dia sejas glorificado
ali!". E, de facto, foi ali que ela deu ao Senhor a suprema prova do seu
amor. "Unimo-nos ao amor com amor, e unimo-nos ao sacrifício com
sacrifício, e o sacrifício requer sangue, o sangue do coração...".
Como suprema prova desse amor, ela chegou
a oferecer a sua própria vida: "Se a minha pobre vida puder servir para
conduzir ao vosso Coração as almas de que tendes sede, e para cobrir os vossos
sagrados altares com hóstias vivas, aceitai-a". Escrevendo ao Papa Leão
XIII, ela suplicou-lhe que a oferecesse como vítima pelas suas intenções. O
Senhor mostrou-lhe a sua graça. Em 27 de Fevereiro de 1884, Quarta-feira de
Cinzas, na residência de "La Servianne", Maria de Jesus Deluil-Martiny
foi assassinada por Luís Chave - que fora acolhido, com grande caridade, como
jardineiro no Convento - por ódio à religião, alimentado pela leitura de
jornais anarquistas. Transportada para a enfermaria, piedosamente entregou a sua
alma ao Senhor, murmurando: "Eu o perdoo... pela Obra! ...pela Obra".
Os seus restos mortais, inicialmente
depositados no túmulo da família, no cemitério de São Pedro, foram transferidos,
em 11 de Novembro de 1899, para o das Filhas do Coração de Jesus e,
posteriormente, em 21 de Outubro de 1906, transportados para a Bélgica, onde
repousaram numa urna, sob o altar do Sagrado Coração, na Basílica de
Berchem-Antuérpia. Actualmente, estão sepultados na Casa-Geral, em Roma.
O instituto que ela fundou recebeu
aprovação definitiva em 1896.
No dia 22 de Outubro de 1989, Maria de
Jesus Deluil-Martiny foi beatificada pelo Papa João Paulo II. Na Homilia, o
Papa disse: “… “Eis que venho para fazer a tua vontade” ( Hb 10,9).
Estas palavras atribuídas a Cristo na carta aos Hebreus mostram bem o que Maria
Deluil - Martiny foi chamada a realizar ao longo da sua vida.
Muito cedo, foi movida de compaixão pelas “feridas infligidas ao amor de Jesus”
e pela frequente rejeição de Deus, na sociedade. Ao mesmo tempo, descobriu a
grandeza do dom feito por Jesus ao Pai para salvar a humanidade, a riqueza do
amor que irradia do seu Coração, a fecundidade do sangue e da água que fluem do
seu lado aberto. Convenceu-se da necessidade de participar do sofrimento
redentor do Crucificado, em espírito de reparação pelos pecados do mundo. Maria
de Jesus ofereceu-se ao Senhor, através de provações e constante purificação.
Ela podia dizer verdadeiramente: “Tenho uma grande paixão por Jesus... A sua
vida em mim; a minha vida n’Ele” (1884).
Maria compartilhou, com os que estavam ao
seu redor, o seu desejo de viver a oblação do Salvador, por meio da
participação fervorosa no sacrifício da Missa. Quando fundou as Filhas do
Coração de Jesus, colocou a adoração eucarística no centro da vida religiosa.
Compreendendo profundamente o sacrifício de Cristo, desejava unir-se
incessantemente à oferta do sangue de Cristo à Santíssima Trindade. Com uma
compreensão adequada da Eucaristia, incluiu entre as directrizes do Instituto
tanto a "acção de graças contínua" ao Coração de Jesus pelos seus
benefícios e misericórdia, quanto as "súplicas contínuas para obter a
vinda do Reino de Jesus Cristo ao mundo". Entre as suas intenções de
oração, os sacerdotes, a sua santidade e a sua fidelidade ocupavam um lugar de
destaque.
Ao serviço dessa exigente espiritualidade,
Maria de Jesus estabeleceu uma vida religiosa simples e austera, marcada por
ofícios solenes, permeada pela adoração, e na qual a vida consagrada era uma
autêntica doação de si mesma para que o amor de Cristo pudesse ser conhecido e
estimado. Ela escreveu um dia: “Meu coração está cheio de grandes coisas:
oblação, imolação, comunhão... Ó Deus, se o sacrifício da minha miserável vida
puder servir para propagar este amor secreto, recebe-o...” ( Diário ,
23 de outubro de 1874). Quando a sua vida foi tirada, ela estava pronta para se
oferecer com Cristo.
Maria de Jesus contemplou a Mãe do
Salvador, aos pés da Cruz e presente no seio da Igreja nascente. A Virgem Maria
foi seu verdadeiro modelo. Com Maria, a fundadora das Filhas do Coração de
Jesus reza e vela pelos discípulos do Filho de Deus, para que jamais cessem de
proclamar ao mundo as maravilhas do Seu amor…”
A sua memória litúrgica é celebrada no dia
27 de Fevereiro.