PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Ele [Jesus] dar-te-ia a água viva…” (cf. João 4, 10) O trecho evangélico deste terceiro domingo da Quaresma apresenta o encontro de Jesus com uma Samaritana (cf. Jo. 4, 5-42). Ele está a caminho com os seus discípulos e param perto de um poço, na Samaria. Os samaritanos eram considerados hereges pelos judeus, e muito desprezados, como cidadãos de segunda categoria. Jesus está cansado, tem sede. Uma mulher vem buscar água e Ele pede-lhe: «Dá-me de beber» (v. 7). Assim, rompendo todas as barreiras, começa um diálogo em que revela àquela mulher o mistério da água viva, isto é, do Espírito Santo, dom de Deus. Com efeito, à reacção de surpresa da mulher, Jesus responde: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: “Dá-me de beber”, tu mesma pedir-lhe-ias e Ele dar-te-ia a água viva» (v. 10). No centro deste diálogo está a água. Por um lado, a água como elemento essencial para viver, que sacia a sede do corpo e sustenta a vida. Por outro, a água como símbolo da graça divina, que dá a vida eterna. Na tradição bíblica, Deus é a fonte da água viva – assim se diz nos Salmos, nos profetas – e afastar-se de Deus, fonte de água viva, e da sua Lei causa a pior seca. Tal é a experiência do povo de Israel no deserto. No longo caminho rumo à liberdade, abrasado pela sede, ele protesta contra Moisés e contra Deus, porque não há água. Então, pela vontade de Deus, Moisés faz brotar água de um rochedo, como sinal da providência de Deus que acompanha o seu povo e lhe dá vida (cf. Êx 17, 1-7). E o Apóstolo Paulo interpreta aquele rochedo como símbolo de Cristo. Assim dirá: «E a rocha é Cristo» (cf. 1 Cor 10, 4). É a figura misteriosa da sua presença no meio do povo de Deus a caminho. Com efeito, Cristo é o Templo do qual, segundo a visão dos profetas, brota o Espírito Santo, ou seja, a água viva que purifica e dá vida. Quem tem sede de salvação pode haurir gratuitamente de Jesus, e n'Ele o Espírito Santo tornar-se-á uma nascente de vida plena e eterna. A promessa da água viva que Jesus fez à Samaritana tornou-se realidade na sua Páscoa: do seu lado trespassado saiu «sangue e água» (Jo 19, 34). Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado, é a fonte da qual brota o Espírito Santo, que perdoa os pecados e regenera para a vida nova. Este dom é também a fonte do testemunho. Assim como a Samaritana, quem encontrar Jesus vivo sente a necessidade de o contar aos outros, para que todos cheguem a confessar que Jesus «é verdadeiramente o Salvador do mundo» (Jo 4, 42), como disseram, mais tarde, os conterrâneos daquela mulher. Também nós, gerados para uma nova vida através do Baptismo, somos chamados a dar testemunho da vida e da esperança que há em nós. Se a nossa busca e sede encontrarem plena satisfação em Cristo, manifestaremos que a salvação não está nas “coisas” deste mundo, as quais no final produzem a seca, mas n'Aquele que nos amou e nos ama sempre: Jesus, nosso Salvador, na água viva que Ele nos oferece. Que Maria Santíssima nos ajude a cultivar o desejo de Cristo, fonte de água viva, o único que pode saciar a sede de vida e de amor que sentimos no nosso coração. (cf. Papa Francisco, na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 15 de Março de 2020)

sábado, 7 de março de 2026

EM DESTAQUE:

 


*DIA NACIONAL DA CÁRITAS
            - Mensagem de D. José Traquina, Bispo de Santarém, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana
 
 “Esta é a hora do amor”
Os dias que estamos a viver são marcados pela catástrofe das tempestades que atingiram o território do continente português. Portugal não tem memória de nada semelhante. A Cáritas Portuguesa e demais organismos da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana lamentam o falecimento das pessoas por efeito da catástrofe e saúda o envolvimento global na resposta às necessidades das populações. Os sinais de solidariedade revelam o melhor da sociedade que somos na preocupação pelo bem comum. A Cáritas Portuguesa, representando a Rede e união das Cáritas Diocesanas, é um serviço da Conferência Episcopal Portuguesa; promove apoio e formação para que as Cáritas Diocesanas funcionem com a melhor eficiência e identidade. Neste sentido, a Cáritas Portuguesa desenvolve campanhas organizadas de apoio solidário para as necessidades das populações, em Portugal, a ser coordenado pelas respectivas Cáritas Diocesanas. Não podemos deixar de valorizar as Cáritas Paroquiais que prestam apoio de proximidade à população, com a colaboração da respectiva Cáritas Diocesana.
Representando a Rede Cáritas em Portugal, a Cáritas Portuguesa preocupa-se com as necessidades dos mais pobres, mas, também, com as situações de emergência e com as necessidades de reconstrução que se seguem para assegurar as condições da vida com estabilidade. Cáritas Portuguesa e Cáritas Diocesanas, desejam cooperar para corresponder à sua vocação e missão: cuidar do bem comum da sociedade, tendo como força e identidade o mandamento do Amor ao próximo que Jesus nos deixou no Evangelho.
De 1 a 8 de Março ocorre a “Semana Cáritas”. É uma oportunidade para promover a solidariedade através da Cáritas, reconhecendo a responsabilidade que a Cáritas Portuguesa assume de gerir os donativos e o peditório anual para os fins do bem comum da sociedade, para as situações emergentes e situações de carência, com o dever de prestação de contas e a necessária transparência. A “Semana Cáritas” é, também, uma oportunidade para aprofundar o ensinamento sobre a missão da Igreja. O cuidado pelo bem comum e pela promoção da justiça social fazem parte da missão da Igreja. Os cristãos que celebram a sua fé são chamados a interessar-se pela sociedade, pois não são um grupo fechado que se interessa apenas pelos seus! Como afirmou o Papa Leão XIV, no início do seu pontificado, “sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo, nem nos sentirmos superiores ao mundo, somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo. Irmãos, irmãs, esta é a hora do amor! A caridade de Deus, que faz de nós irmãos, é o coração do Evangelho” .
 

DA PALAVRA DO SENHOR



III DOMINGO DA QUARESMA  

 

“… O povo israelita, atormentado pela sede,
começou a altercar com Moisés, dizendo:
«Porque nos tiraste do Egipto?
Para nos deixares morrer à sede,
a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?»
Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo:
«Que hei de fazer a este povo?
Pouco falta para me apedrejarem».
O Senhor respondeu a Moisés:
«Passa para a frente do povo
e leva contigo alguns anciãos de Israel.
Toma na mão a vara com que fustigaste o rio
e põe te a caminho.
Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb.
Baterás no rochedo e dele sairá água;
então o povo poderá beber».
Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel.
E chamou àquele lugar Massa e Meriba,
por causa da altercação dos filhos de Israel
e por terem tentado o Senhor, ao dizerem:
«O Senhor está ou não no meio de nós?»…” (
cf. Êxodo 17, 3-7)


PALAVRA DO PAPA LEÃO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Roma,  no dia 4 de Março de 2026
 
Prezados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Hoje, damos continuidade ao nosso aprofundamento sobre a Constituição conciliar ‘Lumen Gentium’, Constituição dogmática sobre a Igreja.
No primeiro capítulo, onde se tenciona responder, sobretudo, à pergunta sobre o que é a Igreja, ela é descrita como «uma realidade complexa». Agora, perguntemo-nos: em que consiste tal complexidade? Alguém poderia responder que a Igreja é complexa porque “complicada” e, portanto, difícil de explicar; outros poderiam pensar que a sua complexidade deriva da constatação de ser uma instituição com dois mil anos de história, com características diferentes em relação a qualquer outra agregação social ou religiosa. Mas, na língua latina, a palavra “complexa” indica, sobretudo, a união ordenada de diferentes aspectos ou dimensões, no seio de uma única realidade. Por isso, a ‘Lumen gentium’ pode afirmar que a Igreja é um organismo bem articulado, no qual coexistem a dimensão humana e a dimensão divina, sem separação nem confusão.
A primeira dimensão é, imediatamente, percetível, pois a Igreja é uma comunidade de homens e mulheres que partilham a alegria e o esforço de ser cristãos, com as suas qualidades e os seus defeitos, anunciando o Evangelho e tornando-se sinal da presença de Cristo que nos acompanha ao longo do caminho da vida. No entanto, este aspecto – que se manifesta inclusive na organização institucional – não é suficiente para descrever a verdadeira natureza da Igreja, dado que ela possui, também, uma dimensão divina. Esta última não consiste numa perfeição ideal, nem numa superioridade espiritual dos seus membros, mas na constatação de que a Igreja é gerada pelo desígnio de amor de Deus para a humanidade, realizado em Cristo. Por isso, a Igreja é comunidade terrena e ao mesmo tempo corpo místico de Cristo; assembleia visível e mistério espiritual; realidade presente na história e povo peregrino, rumo ao céu (LG, 8; CIC, 771).
A dimensão humana e a dimensão divina integram-se harmoniosamente, sem que uma se sobreponha à outra; assim, a Igreja vive neste paradoxo: é uma realidade humana e, ao mesmo tempo, divina que acolhe o homem pecador, conduzindo-o a Deus.
Para iluminar esta condição eclesial, a ‘Lumen Gentium’ refere-se à vida de Cristo. Com efeito, quem encontrava Jesus ao longo das estradas da Palestina, experimentava a sua humanidade, os seus olhos, as suas mãos, o som da sua voz. Quem decidia segui-lo era impelido, precisamente, pela experiência do seu olhar acolhedor, pelo toque das suas mãos abençoadoras, pelas suas palavras de libertação e de cura. Mas, ao mesmo tempo, seguindo aquele Homem, os discípulos abriam-se ao encontro com Deus. Sim, a carne de Cristo, o seu rosto, os seus gestos e as suas palavras manifestam, de modo visível, o Deus invisível.
À luz da realidade de Jesus, agora podemos voltar à Igreja: quando olhamos de perto para ela, descobrimos uma dimensão humana feita de pessoas concretas, que, às vezes, manifestam a beleza do Evangelho, e outras esforçam-se e erram, como todos. No entanto, precisamente através dos seus membros e dos seus limitados aspectos terrenos, manifestam-se a presença de Cristo e a sua acção salvífica. Como dizia Bento XVI, não há oposição entre Evangelho e instituição; aliás, as estruturas da Igreja servem precisamente para «a realização e a concretização do Evangelho no nosso tempo» (Discurso aos bispos da Suíça, 9 de Novembro de 2006). Não existe uma Igreja ideal e pura, separada da terra, mas apenas a única Igreja de Cristo, encarnada na história.
É nisto que consiste a santidade da Igreja: na constatação de que Cristo habita nela e continua a doar-se através da pequenez e fragilidade dos seus membros. Contemplando este milagre perene que acontece nela, compreendemos o “método de Deus”: Ele torna-se visível através da debilidade das criaturas, continuando a manifestar-se e a agir. Por isso na ‘Evangelii gaudium’, o Papa Francisco exorta que todos aprendam «a tirar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3, 5)» (n. 169). Isto torna-nos, ainda hoje, capazes de edificar a Igreja: não só organizando as suas formas visíveis, mas construindo aquele edifício espiritual que é o corpo de Cristo, através da comunhão e da caridade entre nós.
Com efeito, a caridade gera constantemente a presença do Ressuscitado. «Queira o céu — afirmava Santo Agostinho — que todos prestem atenção unicamente à caridade: sim, só ela vence tudo, e sem ela, todas as coisas não valem nada; onde quer que ela esteja, atrai tudo a si» (Serm. 354, 6, 6).  (cf. Santa Sé)
 

PARA REZAR

 


- SALMO 94

 

Refrão: Hoje, s escutardes a voz do Senhor,

              não fecheis os vossos corações

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus nosso salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras.


SANTOS POPULARES

 


BEATO FRANCISCO XAVIER TRU'O'NG BǙU DIỆP

 

Francisco Xavier Tru'o'ng Bǚu Diệp nasceu no dia 1 de Janeiro de 1897, filho de pais católicos, na província vietnamita de An Giang, então eclesiasticamente dependente do Vicariato de Phnom Penh (que na verdade fica no Camboja). Foi baptizado no dia 2 de Fevereiro e recebeu o nome do grande santo missionário jesuíta: Francisco Xavier. Depois da morte da sua mãe, em 1904, o seu pai mudou-se para o Camboja, onde viveu durante algum tempo. Quando voltaram a casa, em 1909, Francisco foi aceite no Seminário Menor, da província de An Giang. De lá, transferiu-se para o Seminário Maior, em Phnom Penh e, após concluir os seus estudos, foi ordenado sacerdote, em 1924, pelo bispo Jean-Claude Bouchut, das Missões Estrangeiras de Paris.
Nos primeiros anos do seu sacerdócio, de 1924 a 1927, foi vigário paroquial, em Hố Trư, uma aldeia de imigrantes vietnamitas, no Camboja; de 1928 a 1930, foi professor no Seminário Menor. Em 1930, foi nomeado pároco de Tắc Sậy, na província de Bạc Liêu (actual diocese de Cần Thơ), onde permaneceu até à morte.

A paróquia não tinha muitos fiéis e ele dedicou-se a visitar outras paróquias próximas e a cuidar de, pelo menos, seis novas missões, em cidades vizinhas, como Bà Đốc e Đồng Gò, em 1932; Đầu Sấu, em 1933; Cam Bô, em 1937; Chủ Chí, em 1940, e An Hải, em 1941. Ao longo do seu trabalho pastoral, demonstrou total fidelidade à sua vocação e um zelo exemplar pelo bem das almas.
Trabalhou, incansavelmente, para levar as águas do baptismo a muitos, durante os anos do seu ministério paroquial, inclusive no dia da sua morte. A sua preocupação com a vida cristã manifestou-se, também, no envio de candidatos ao sacerdócio para o seminário, incluindo o futuro Cardeal João Baptista Phạm Minh Mẫn.

Os seus escritos falam da sua vida exemplar - que, infelizmente, não era a realidade de muitos sacerdotes - e da sua vida de virtude, oração e proximidade com os necessitados, cristãos e não cristãos. Ele providenciou a distribuição de terras, doadas à Igreja, entre os pobres, situação que desagradou a um grande proprietário de terras local, que viu a sua propriedade diminuir e nutriu ressentimento contra ele.

O assassinato do Padre Trương Bửu Diệp ocorreu durante o período turbulento do final da Segunda Guerra Mundial. No fim da guerra, o Japão Imperial expulsou os franceses e ocupou o Vietname, permitindo que o movimento de libertação Viet Minh se organizasse. Com a rendição do Japão e a subsequente Revolução de Agosto, a independência da recém-formada República Democrática do Vietname foi proclamada, no dia 2 de Setembro de 1945. A França, então, restabeleceu imediatamente o seu domínio colonial, mas foi derrotada pelo Viet Minh, na Guerra da Indochina, em 1954. Os subsequentes Acordos de Genebra dividiram o país em dois, com a promessa de eleições democráticas e eventual reunificação, que só ocorreu após a Guerra do Vietname
Em retrospectiva, em Março de 1945, os japoneses expulsaram os franceses, e o fim da guerra viu a ocupação do Vietname por tropas chinesas e britânicas. Os franceses, retornando ao sul, firmaram um armistício com Ho Chi Minh, que, em Hanói, proclamou a independência da República Democrática do Vietname, visando à reunificação do país. A situação agravou-se devido à presença de grupos armados e gangues, bem como de desertores japoneses ao serviço de vários comandantes. Este é o contexto da dramática história do Padre Francisco Xavier. Vendo que o perigo se alastrava pelas aldeias - e até mesmo por Tắc Sậy - os franceses e outros padres insistiram para que ele partisse, oferecendo-lhe refúgio seguro. No entanto, ele recusou, para não "abandonar o seu rebanho", expressando a sua consciência da possibilidade da morte.
De facto, na manhã de 12 de Março de 1946, um grupo de milicianos da seita Caodaísta, subordinados a um político influente com quem ele havia entrado em conflito, por causa de terras concedidas aos pobres, chegou, frente à igreja, e deteve cerca de 70 pessoas, cristãs e não cristãs, incluindo o próprio Padre Francisco Xavier. Trancaram-nos em dois celeiros, a poucos quilômetros de distância, inicialmente com a intenção de os matar e queimar. Nas horas seguintes, ele foi levado para fora, três vezes. Na primeira vez, voltou sem demonstrar preocupação; mas, na segunda, deixou claro que a situação estava a piorar. Preparou os seus fiéis para o pior e chegou a baptizar alguns não-cristãos.

Infelizmente, após a terceira saída, o Padre Francisco nunca mais voltou, o que gerou suspeitas do pior, que, mais tarde, se confirmaram com a descoberta do seu corpo, em condições que denunciavam a grande crueldade dos assassinos.

Ao fim de algum tempo, os prisioneiros foram liberados, mas obrigados a abandonar a aldeia. Viram que os guerrilheiros tinham jun materiais haviam sido levados para os celeiros para incendiar tudo.

Francisco Xavier Tru'o'ng Bǚu Diệp será beatificado, no dia 2 de Julho de 2026, pelo Papa Leão XIV, em cerimónia a ser presidida pelo Cardeal Luís António Tagle, Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização dos Povos.

 


segunda-feira, 2 de março de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR



II DOMINGO DA QUARESMA    

 

“…Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos»…” (
cf. Mateus 17, 1-9)

 

PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma,  no dia 22 de Fevereiro de 2026, primeiro Domingo da Quaresma.
 
Caros irmãos e irmãs, bom dia e bom Domingo!
Hoje, primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho fala-nos de Jesus que, conduzido pelo Espírito, vai para o deserto e é tentado pelo diabo (cf. Mt 4, 1-11). Depois de jejuar durante quarenta dias, sente o peso da sua humanidade: a fome, sob o plano físico, e as tentações do diabo, sob o plano espiritual. Ele experimenta o mesmo cansaço que todos nós vivenciamos no nosso caminho e, resistindo ao demónio, mostra-nos como vencer os seus enganos e insídias.
Com esta Palavra de vida, a liturgia convida-nos a olhar para a Quaresma como um itinerário luminoso no qual, com a oração, o jejum e a esmola, podemos renovar a nossa cooperação com o Senhor ao realizar da obra-prima única da nossa vida. Trata-se de permitir que Ele remova as manchas e cure as feridas que o pecado pode ter causado nela, e de nos comprometermos em fazê-la florescer em toda a sua beleza até à plenitude do amor, fonte exclusiva da verdadeira felicidade.
Trata-se, sem dúvida, de um percurso exigente, e o risco é desanimar ou deixarmo-nos seduzir por formas de gratificação menos árduas, como a riqueza, a fama e o poder (cf. Mt 4, 3-8). Estas, que também foram as tentações que Jesus enfrentou, são, no entanto, apenas míseros substitutos da alegria para a qual fomos criados e, no final, deixam-nos inevitável e eternamente insatisfeitos, inquietos e vazios.
Por isso, São Paulo VI ensinava que a penitência, longe de empobrecer, enriquece a nossa humanidade, purificando-a e fortalecendo-a no seu movimento em direção a um horizonte que tem «como finalidade o amor e o abandono no Senhor» (Const. ap. Paenitemini, 17 de fevereiro de 1966, I). Assim, a penitência, ao mesmo tempo que nos torna conscientes das nossas limitações, dá-nos a força para as superar e, com a ajuda de Deus, viver uma comunhão cada vez mais intensa com Ele e entre nós.
Neste tempo de graça, pratiquemo-la generosamente, a par da oração e das obras de misericórdia. Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que nos fala ao coração, e escutemo-nos uns aos outros, nas famílias, nos locais de trabalho, nas comunidades. Dediquemos tempo a quem vive sozinho, especialmente aos idosos, aos pobres e aos doentes. Renunciemos ao supérfluo e partilhemos o que pouparmos com quem carece do necessário. Então, como diz Santo Agostinho, «a nossa oração, feita com humildade e caridade, com jejum e esmola, com temperança e perdão, distribuindo coisas boas e não retribuindo na mesma moeda as más, afastando-nos do mal e fazendo o bem» (cf. Sermão 206, 3), alcançará o Céu e nos dará paz.
Confiemos o nosso caminho quaresmal à Virgem Maria, Mãe que sempre assiste os seus filhos nas provações. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

- SALMO 32

 

Refrão: Dai-nos a Vossa misericórdia,

              de Vós a esperamos, Senhor.

A palavra do Senhor é reta,
na fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protetor.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor. 

SANTOS POPULARES


BEATO ELÍAS DO SOCORRO 

Mateus Elias Neves del Castillo nasceu na ilha de São Pedro, Yuriria - Guanajuato, México, no dia 21 de Setembro de 1882. Era filho de Ramón Nieves e Rita del Castillo, um casal profundamente religioso de origem humilde, que trabalhava na agricultura.
Teve que esperar bastante tempo para poder entrar na Ordem dos Agostinianos, como tanto desejava, quer por motivos de saúde, quer pela sua pobreza. Por essa razão, foi ordenado sacerdote somente em 1916, aos 34 anos. Após as suas primeiras experiências pastorais, foi-lhe confiada a paróquia de La Cañada de Caracheo, um povoado muito pobre. Ali viveu a sua breve, porém intensa, vida sacerdotal, dedicando-se, integralmente, aos seus paroquianos, transmitindo-lhes conforto e esperança cristã, e compartilhando todas as suas dificuldades e sofrimentos.
Mas, o México vivia um dos momentos mais trágicos da sua história. Tendo-se libertado do domínio espanhol, com a Guerra da Independência, de 1822, jamais conseguira alcançar uma verdadeira unidade nacional. As nações ricas, reivindicando enormes direitos sobre o petróleo e outros recursos minerais, fomentaram todas as divisões internas possíveis, ecoadas pelos latifundiários e, infelizmente, até mesmo por clérigos de alta patente, todos defendendo ferozmente os seus antigos privilégios. O clima contra todos eles era intenso, chegando a transbordar para formas de severo anticlericalismo, muitas vezes às custas dos padres que viviam entre os pobres. Praticamente não havia um poder central real; nenhuma certeza quanto à lei; nenhuma esperança de apelação ou justiça.
Quem conseguisse recrutar homens e acumular armas fazia a lei e tornava-se "a lei". Ódio, rivalidades e lutas mútuas e impiedosas explodiam como bolhas numa massa de magma incandescente. Todos tinham medo de que, um dia, um grupo dessas pessoas pudesse chegar, talvez até mesmo na menor e na mais remota aldeia do interior. E, de facto, eles chegaram a Cañada de Caracheo. Era o dia 7 de Março de 1928.
Alguns anos antes, o governo havia promulgado regulamentos drásticos, com o objectivo de impedir qualquer actividade religiosa que não estivesse sob o controlo directo das autoridades civis. Esses regulamentos, geralmente, não eram respeitados, mas permitiam excessos àqueles que nutriam rancor contra a religião.
Por isso, a vida religiosa continuava mais ou menos normalmente, mas num clima de grande risco. Todos sabiam disso. Tudo ia bem enquanto as coisas corriam, mas se algo desse errado, havia problemas.
O Padre Elias, por prudência, vivia escondido numa caverna, naquelas montanhas. Uma caverna de verdadeiro eremita. Saía, regularmente, para dar aos seus paroquianos toda a assistência religiosa de que precisavam, como se nada tivesse mudado. Prudência, sim!... Mas sem medo. Os seus paroquianos, que não entendiam nada das medidas do governo, compreendiam-no e amavam-no, cada vez mais.
Então, o dia 7 de Março, um destacamento de soldados chegou, aparentemente à procura de ladrões de gado. Como já era tarde, decidiram passar a noite na igreja paroquial. Mas, ao tentarem arrombar as portas, os moradores revoltaram-se contra eles e houve tiroteio. Os soldados, então, pediram reforços, e outro destacamento chegou à aldeia. No dia 9, encontraram o Padre Neves, disfarçado de camponês; mas ele próprio declarou-se sacerdote quando foi questionado acerca dos seus dados pessoais. Foi imediatamente feito prisioneiro, juntamente com dois jovens camponeses, os irmãos Sierra, que tentavam mantê-lo escondido.
Na manhã do dia 10, os soldados e os prisioneiros partiram para Cortazar, cidade da qual La Cañada dependia. Mas, os prisioneiros não chegaram lá. Os irmãos Sierra foram os primeiros a serem condenados. Permitiram que o Padre Neves ouvisse as suas confissões e, em seguida, foram fuzilados, enquanto gritavam: "Viva Cristo Rei!".
Continuaram sua jornada. Já perto de Cortázar, o comandante parou o destacamento e disse ao Padre Neves, de modo sarcástico: "Agora é consigo. Mostre-nos que sabe morrer tão bem, quanto sabe celebrar a Missa." O Padre respondeu: "Isso mesmo. Morrer pela religião é um sacrifício que agrada a Deus."
A seu pedido, deram-lhe meia hora para se preparar para o grande passo, que para ele era como o ofertório de uma Missa, com Jesus. Foi ele que quebrou o peso daquele momento de espera, dizendo: "Aqui estou, estou pronto." Quando as espingardas foram apontadas, ele disse decisivamente: "Agora ajoelhem-se. Quero abençoá-los como sinal de perdão."
Todos se ajoelharam, excepto o comandante, que gritou: "Não quero bênçãos. Basta-me aminha arma! “ E, enquanto o Padre, ainda de mão erguida, os abençoava, ele disparou directo ao seu coração. O Padre Mateus Neves ainda teve tempo de gritar, claramente: "Viva Cristo Rei!"
O povo, imediatamente, começou a venerá-lo como um santo mártir.
O seu funeral foi acompanhado por uma multidão que enaltecia o seu amor e o seu exemplo de fidelidade a Cristo e ao Povo. A terra encharcada do seu sangue foi preservada como relíquia; o local da sua execução tornou-se, imediatamente, o seu santuário, lugar de piedade e de peregrinação. O seu sacrifício foi uma oferenda pela pacificação do povo.
Foi beatificado no dia 12 de Outubro de 1997, pelo Papa João Paulo II. Na homilia da celebração da Missa, a propósito do Padre Mateus Neves, o Papa disse: “…Aos discípulos, assombrados ante as dificuldades para entrar no Reino, Jesus adverte: «aos homens é impossível, mas a Deus não, pois a Deus tudo é possível» (Mc 10, 27). Acolheu esta mensagem o Padre Elias do Socorro Neves, sacerdote agostiniano, que hoje é elevado à glória dos altares como mártir da fé. A total confiança em Deus e na Virgem do Socorro, de quem era muito devoto, caracterizou toda a sua vida e o seu ministério sacerdotal, exercido com abnegação e espírito de serviço, sem se deixar vencer pelos obstáculos, os sacrifícios ou o perigo. Este fiel religioso agostiniano soube transmitir a esperança em Cristo e na Providência divina.
A vida e o martírio do Padre Neves, que não quis abandonar os seus fiéis apesar do perigo que corria, são por si mesmos um convite a renovar a fé em Deus que tudo pode. Enfrentou a morte com integridade, abençoando os seus verdugos e dando testemunho da sua fé em Cristo. A Igreja no México conta, hoje, com um novo modelo de vida e um poderoso intercessor, que o ajudará a renovar a sua vida cristã; os seus irmãos agostinianos têm mais um exemplo a imitar, na sua constante busca de Deus, na fraternidade e no serviço ao Povo de Deus; para a Igreja inteira é uma demonstração eloquente dos frutos de santidade, que o poder da graça de Deus produz no seu seio…”
A memória litúrgica do Beato Mateus Elias do Socorro é celebrada no dia 10 de Março. 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

EM DESTAQUE:

 


*TEMPO DA QUARESMA
 
A Igreja Católica iniciou, na Quarta-Feira de Cinzas, o Tempo da Quaresma: tempo de conversão para uma vida renovada, preparando a celebração da Páscoa.
O Papa Leão XIV fez publicar a sua mensagem, para a Quaresma de 2026, com o tema “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão”.
Na sua mensagem, o Papa explica que “a Quaresma é o tempo em que a Igreja nos convida a colocar novamente o mistério de Deus no centro da nossa vida”, de modo que “o itinerário quaresmal se torne uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo, com Ele, o caminho que sobe a Jerusalém”.
O Papa convida-nos a pedir “a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos” e nos permita deixar-nos "instruir hoje por Deus para escutar como Ele”.
Do mesmo modo, “as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum”.
O Papa encorajou a pedir "a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo”. “Comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor”.
 O Santo Padre destacou a importância de dar espaço “à Palavra através da escuta, pois a disposição para ouvir é o primeiro sinal que manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”.
Acerca do jejum, o Papa explicou que “constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus”, por isso é importante “manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo”. Disse o Papa: “O jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna forte e autêntica a vida cristã» ”. (cf. Dicastério para o serviço do Desenvolvimento Humano Integral – Santa Sé)
 


*QUARESMA 2026
-MENSAGEM DO SENHOR DOM MANUEL LINDA, BISPO DO PORTO
 
A lógica da fé e do amor
 
- A mensagem da conversão constitui um dos núcleos fundamentais do Evangelho. São Marcos, que foi o primeiro a pôr por escrito a Boa Nova de Jesus, diz-nos que este tema constituiu o início da sua pregação: “Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mt 1, 15). Como se lembram, usamos estas mesmas palavras no rito de imposição das cinzas, no começo da quaresma. São Lucas, por sua vez, na conhecida parábola do filho pródigo, sublinha os dois elementos fundamentais da conversão: o regresso a Deus e a mudança no modo de se viver.
De facto, no hebraico, o próprio termo bíblico que exprime a noção de conversão quer dizer literalmente «andar na direção oposta». Foi o que fez esse grande Santo Agostinho. A princípio, muito longe de Deus, viria a converter-se radicalmente. E referem-se a essa mudança de caminho as suas palavras muito conhecidas: “Tarde te amei! Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Eis que estavas dentro de mim e eu fora de mim. Estavas comigo e eu não estava contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a tua luz afugentou a minha cegueira. Exalaste o teu perfume e, respirando-o, suspirei por ti e te desejei. Eu te provei, te saboreei e, agora, tenho fome e sede de ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos pela tua paz!”.
 
 - Esta mudança de estilo de vida não é, portanto, teórica ou somente intelectual: ela implica com a vida concreta e com as escolhas que fazemos. Implica com as nossas atitudes e comportamentos, formas de ver e de nos tornarmos presentes. Implica com o amor concretizado: na aceitação e resposta ao amor de Deus e na difusão que dele fazemos, em gestos de benignidade, aos irmãos e a toda a sociedade.
Na relação com Deus, a prioridade deve ser concedida ao timbre de uma fé que, cada vez mais, nos identifica e configura com Ele. Por isso, insistimos tanto na leitura orante da palavra de Deus, se possível em família, e também na oração, no sacramento da confissão e nos gestos de penitência, tais como a privação voluntária de alguma coisa de que gostamos, a abstinência de comidas mais requintadas e o jejum, especialmente na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa.
 
- Mas o amor de Deus é inseparável do amor aos outros. Por isso, sempre esteve na mente da Igreja viver a quaresma com uma especialíssima dimensão de solidariedade fraterna. E daqui nasce a proposta de gestos de paz e de harmonia, de reconciliação com os outros quando isso se impõe, a preocupação mais viva para com esse grande presente de Deus que é o mundo material e todas as criaturas e os indispensáveis gestos de solidariedade e fraternidade.
Nesta linha, escutados todos os organismos de aconselhamento diocesanos, decidi que, quer a renúncia quaresmal, quer o contributo penitencial, neste ano de 2026, serão repartidos em quatro partes iguais: 25% para as vítimas das recentes tempestades em Portugal; outro tanto para a Missão de Calumbo (Angola) onde um sacerdote português, passionista, mantém um belo projeto social de desenvolvimento de crianças, mormente por intermédio das «Sopas nutritivas»; para o projeto «Renascer p’ra Esperança», em Chirrundzo (Moçambique), da Juventude Missionária Vicentina, que desenvolve catividades de internato e cantina social para crianças; e o restante destina-se a dar resposta aos muitos pedidos de ajuda, provenientes do estrangeiro, que, por motivo de guerras ou de outras calamidades, nos chegam ao longo do ano.
 
- Irmãs e irmãos, na lógica de Deus, a primazia de tudo é a fé, entendida como confiança e amor. Mas precisamente por isso, inerente à fé está a noção de conversão, ou seja, a reorientação de toda a nossa vida para Deus e sua vontade. Sem isto não há fé. E a vontade de Deus é que todos vivamos como irmãos. São palavras de Jesus: “Quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 50). Nesta linha, o duplo mandamento do amor –o «amar a Deus sobre todas as coisas e amar os outros como a nós mesmos»- é o único caminho que se nos exige enquanto crentes. Caminho exclusivo. Mas caminho que, sendo tão essencial, tantas vezes nos afastamos dele…
É altura de regressarmos a essa via de salvação. É altura de acelerarmos os passos para a percorrer com alegria. Então, coragem! Caminhemos! Caminhemos na via de salvação, pois esta é a própria felicidade. Santa quaresma em ordem à Páscoa do Senhor!

DA PALAVRA DO SENHOR

 


I DOMINGO DA QUARESMA     

 

“…Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Demónio conduziu-O à cidade santa,
levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito:
‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,

para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus:
«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Demónio levou-O consigo a um monte muito alto,
mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus:
«Vai-te, Satanás, porque está escrito:
‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’».
Então o Demónio deixou-O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus…” (
cf. Mateus 4, 1-11)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 18 de Fevereiro de 2026.
 
Caros irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
O Concílio Vaticano II, a cujos documentos dedicamos estas catequeses, quando quis descrever a Igreja, preocupou-se antes de tudo em explicar onde encontra ela a sua origem. Para o fazer, na Constituição dogmática Lumen gentium, aprovada a 21 de novembro de 1964, inspirou-se no termo “mistério”, tirado das Cartas de São Paulo. Escolhendo este vocábulo, não quis dizer que a Igreja é algo obscuro ou incompreensível, como normalmente se pensa quando se ouve pronunciar a palavra “mistério”. Exatamente o contrário: com efeito, quando São Paulo usa esta palavra, especialmente na Carta aos Efésios, quer indicar uma realidade que antes estava escondida e agora foi revelada.
Trata-se do desígnio de Deus, que tem uma finalidade: unificar todas as criaturas graças à ação reconciliadora de Jesus Cristo, ação que se concretizou na sua morte na cruz. Isto é experimentado antes de tudo na assembleia congregada para a celebração litúrgica: ali as diversidades são relativizadas, o que importa é estar juntos porque atraídos pelo Amor de Cristo, que derrubou o muro de separação entre pessoas e grupos sociais (cf. Ef 2, 14). Para São Paulo, o mistério é a manifestação daquilo que Deus quis realizar para toda a humanidade, dando-se a conhecer em experiências locais, que gradualmente se dilatam até incluir todos os seres humanos e até o cosmos.
A condição da humanidade é uma fragmentação que os seres humanos não são capazes de reparar, não obstante a tensão para a unidade habite o seu coração. É nesta condição que se insere a ação de Jesus Cristo que, mediante o Espírito Santo, vence as forças da divisão e o próprio Divisor. Reunir-se para celebrar, tendo acreditado no anúncio do Evangelho, é vivido como atração exercida pela cruz de Cristo, suprema manifestação do amor de Deus; é sentir-se convocado por Deus: é por isso que se usa o termo ekklesía, ou seja, assembleia de pessoas que reconhecem ter sido convocadas. Por isso, há uma certa coincidência entre este mistério e a Igreja: a Igreja é o mistério que se torna percetível.
Contudo esta convocação, precisamente porque é atuada por Deus, não pode limitar-se a um grupo de pessoas, mas está destinada a tornar-se experiência de todos os seres humanos. Por isso, o Concílio Vaticano II, no início da Constituição Lumen gentium, afirma assim: «A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (n. 1). Com o recurso ao termo “sacramento” e a consequente explicação, deseja-se indicar que, na história da humanidade, a Igreja é expressão do que Deus quer realizar; por isso, olhando para ela, compreende-se de certa forma o desígnio de Deus, o mistério: neste sentido, a Igreja é sinal. Além disso, ao termo “sacramento” acrescenta-se também o de “instrumento”, exatamente para indicar que a Igreja é um sinal ativo. Com efeito, quando Deus age na história, envolve na sua atividade as pessoas destinatárias da sua ação. É mediante a Igreja que Deus alcança o objetivo de unir a si as pessoas e de as reunir entre elas.
A união com Deus encontra o seu reflexo na união das pessoas humanas. Esta é a experiência de salvação. Não é por acaso que na Constituição Lumen gentium, no capítulo VII, dedicado à índole escatológica da Igreja peregrina, no n. 48, se utiliza de novo a descrição da Igreja como sacramento, com a especificação “de salvação”: «Na verdade Cristo – diz o Concílio – elevado sobre a terra, atraiu todos a si (cf. Jo 12, 32 gr.); ressuscitado de entre os mortos (cf. Rm 6, 9), infundiu nos discípulos o seu Espírito vivificador e por Ele constituiu a Igreja, seu corpo, como universal sacramento de salvação; sentado à direita do Pai, atua continuamente na terra, a fim de levar os homens à Igreja e os unir mais estreitamente por meio dela e, alimentando-os com o seu próprio corpo e sangue, os tornar participantes da sua vida gloriosa».
Este texto permite compreender a relação entre a ação unificadora da Páscoa de Jesus, mistério de paixão, morte e ressurreição, e a identidade da Igreja. Ao mesmo tempo, torna-nos gratos por pertencer à Igreja, corpo de Cristo ressuscitado e único povo de Deus peregrino na história, que vive como presença santificadora no meio de uma humanidade ainda fragmentada, como sinal eficaz de unidade e reconciliação entre os povos. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 50

Refrão: Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós.

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.

Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos.

Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor.


SANTOS POPULARES



BEATA MARIA DE JESUS DELUIL-MARTINY
 
Maria de Jesus Deluil-Martiny nasceu em Marselha, França, em 28 de maio de 1841, filha de Paulo Deluil-Martiny, advogado e administrador de instituições de caridade, e de Anaïs Maria de Solliers, sobrinha-neta da Beata Ana Madalena Remuzat (1696-1730). No baptismo, realizado no dia seguinte, recebeu os nomes de Maria, Carolina e Filomena. Depois dela nasceram o seu irmão Júlio e as suas irmãs Amélia, Clementina e Margarida.
Educada, em casa, segundo os valores cristãos, viveu momentos de particular fervor, por ocasião da sua Primeira Comunhão, no dia 22 de Dezembro de 1853, e do seu Crisma, em 29 de Janeiro de 1854. A sua mãe incutiu nela a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Em casa, também aprendeu a ler e a escrever, e até mesmo latim, com extraordinário sucesso. Possuía um carácter vivaz e uma inteligência aguçada.
Aos oito anos, entrou no internato do Mosteiro da Visitação, em Marselha, para completar os seus estudos iniciais. Quando as Irmãs Visitandinas comentavam a sua vivacidade, com o Arcebispo de Marselha, Santo Eugênio de Mazenod, ele respondeu com uma previsão profética: "Não se preocupem... é coisa de criança... Vocês verão que, um dia, ela será Santa Maria de Marselha".
Maria passou os dois últimos anos da sua formação, em Lyon, como interna no Convento do Coração, de Ferrandière, onde concluiu, com sucesso, os seus estudos superiores. Antes de voltar a casa, fez um curso de exercícios espirituais - um retiro - durante o qual sentiu claramente o chamamento à vida religiosa; tinha, então, dezassete anos. Em Maio de 1858, foi a Ars consultar o pároco, São João Maria Vianney; ele advertiu-a de que levaria muito tempo para realizar a sua vocação.
Tendo rejeitado o casamento, proposto pelos seus pais, envolveu-se, cada vez mais, nos cuidados com eles, à medida que as suas irmãs Clementina, Margarida e Amélia, e o seu irmão Júlio, faleciam sucessivamente. Apesar desse compromisso familiar, Maria começou a substituir a sua mãe, que estava doente, em todas as suas obras de caridade. Em 1864, a convite da fundadora da Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus, a Irmã Maria do Sagrado Coração Bernaud, do Mosteiro da Visitação, em Bourg-en-Bresse, ela tornou-se a sua primeira e zelosa defensora, e colaborou, activamente, na difusão da Obra, que foi fundada em 1863 e elevada à categoria de arquiconfraria em 26 de Novembro de 1878.
Este foi, apenas, o início da sua missão. Pouco a pouco, o plano divino tomou forma, de maneira cada vez mais concreta, como havia previsto São Daniel Comboni, apóstolo do Norte da África. Em Dezembro de 1866, colocou-se sob a direcção espiritual do jesuíta Padre João Calage, que a orientou durante o resto da sua vida.
Em 1867, o desejo de se consagrar totalmente a Deus tornou-se ainda mais intenso e, em 8 de Dezembro de 1869, fez o voto de virgindade perpétua. Nos diversos impulsos interiores que experimentou, em Bourg e Saint-Giniez, a sua vocação tornou-se clara: fazer da sua vida uma imolação contínua com Jesus, na Eucaristia. Estava convencida de que Jesus desejava uma Obra: "a adoração da Santíssima Trindade, pelo Coração Eucarístico de Jesus, o único e verdadeiro Adorador da Divina Majestade". Os membros desta Obra unir-se-ão a Ele, sacerdote e vítima, numa única oblação para obter, para a Santa Igreja, para o ministério sacerdotal e para as almas, os frutos da Redenção. O seu modelo será a Virgem Maria, associada com coração materno, ao sacrifício de Jesus, no Calvário. "Há algum tempo", escreveu Maria, "Nosso Senhor parece ter criado um altar na minha alma, onde Ele se oferece incessantemente ao Pai e à Santíssima Trindade. Ele deseja que eu permaneça diante deste altar, na Sua presença, em adoração incessante, contente em contemplá-Lo e unir-me aos actos divinos que Ele realiza." Daí o seu desejo de ser imolada para obter esta glória para Deus.
Encorajada por seu director espiritual, o Padre Calage, Maria respondeu ao convite do Bispo Van den Berghe, com quem já mantinha contacto há algum tempo, que a incentivou a estabelecer a sua própria obra, na Bélgica. Em 17 de Junho de 1873, ela fez uma peregrinação a Paray-le-Monial e, em 20 de Junho, juntamente com quatro freiras e quatro postulantes, fundou o primeiro Mosteiro do Instituto das Filhas do Coração de Jesus, em Berchem-Antuérpia. Uma nova família religiosa de clausura foi então fundada, e Maria recebeu o nome de Madre Maria de Jesus. Em Julho de 1875, ela escreveu as Constituições com o objectivo específico de "responder, na medida do possível, ao amor tão desconhecido deste divino Coração", pretendendo "oferecer ao Coração de Jesus, sacerdote e vítima no Santíssimo Sacramento do altar, reparação perpétua pelos horríveis ultrajes cometidos contra a divina Majestade", "agradecer continuamente ao Coração de Jesus pelos seus benefícios tão desconhecidos; pela sua grande misericórdia para com os pecadores e, sobretudo, pelas bênçãos especiais que concede às almas sacerdotais e religiosas"; finalmente, com o objectivo de oferecer orações especiais para obter "a vinda do Reino de Cristo, a extinção das sociedades secretas e, sobretudo, a perfeição e santidade, cada vez maiores, do sacerdócio católico e das ordens religiosas", unida em tudo à Virgem Maria, "aos pés da Cruz", que ofereceu "à justiça divina, para a salvação do mundo, o precioso sangue do seu divino Filho".
A Regra adoptada pela Irmã Maria de Jesus foi a de Santo Inácio, com as devidas adaptações. As Constituições, assim redigidas, receberam a sua primeira aprovação em 2 de Fevereiro de 1876, pelo Cardeal Deschamps, que, após ver Maria pela primeira vez, ficou tão impressionado com sua inteligência e cordialidade que a chamou "a Teresa do nosso século". Maria foi verdadeiramente uma superiora prudente e sábia. A comunidade religiosa cresceu rapidamente em número e virtude. Já em 15 de Junho de 1877, outra casa foi inaugurada em Aix.
Em 17 de Agosto de 1878, a Basílica-santuário - que a Bélgica Católica havia erguido ao Sagrado Coração e confiado às Filhas do Coração de Jesus - foi consagrada em Berchem-Antuérpia. Naquele mesmo dia, iniciou o serviço de adoração, ali.
Poucos dias depois, em 22 de Agosto, a Madre Maria de Jesus e as suas primeiras companheiras professaram os votos perpétuos. Para que as suas filhas estivessem intimamente unidas à oração expiatória da Igreja, ela providenciou para que se reunissem, a cada meia hora, em suas casas diante do Santíssimo Sacramento exposto, unindo-se, em espírito, ao Sacrifício divino que é oferecido a cada instante em alguma parte do mundo.
Em 1876, Maria perdeu o pai e a mãe. Antes de falecerem, expressaram o desejo de que uma casa fosse fundada em Servianne, perto de Marselha. Cumprindo o último desejo da mãe, Maria inaugurou uma terceira casa na propriedade da mãe, em Servianne, no dia 24 de Junho, onde fundou o noviciado. No dia em que a primeira missa foi celebrada naquela antiga casa de família, ela exclamou: "Meu Deus, que um dia sejas glorificado ali!". E, de facto, foi ali que ela deu ao Senhor a suprema prova do seu amor. "Unimo-nos ao amor com amor, e unimo-nos ao sacrifício com sacrifício, e o sacrifício requer sangue, o sangue do coração...".
Como suprema prova desse amor, ela chegou a oferecer a sua própria vida: "Se a minha pobre vida puder servir para conduzir ao vosso Coração as almas de que tendes sede, e para cobrir os vossos sagrados altares com hóstias vivas, aceitai-a". Escrevendo ao Papa Leão XIII, ela suplicou-lhe que a oferecesse como vítima pelas suas intenções. O Senhor mostrou-lhe a sua graça. Em 27 de Fevereiro de 1884, Quarta-feira de Cinzas, na residência de "La Servianne", Maria de Jesus Deluil-Martiny foi assassinada por Luís Chave - que fora acolhido, com grande caridade, como jardineiro no Convento - por ódio à religião, alimentado pela leitura de jornais anarquistas. Transportada para a enfermaria, piedosamente entregou a sua alma ao Senhor, murmurando: "Eu o perdoo... pela Obra! ...pela Obra".
Os seus restos mortais, inicialmente depositados no túmulo da família, no cemitério de São Pedro, foram transferidos, em 11 de Novembro de 1899, para o das Filhas do Coração de Jesus e, posteriormente, em 21 de Outubro de 1906, transportados para a Bélgica, onde repousaram numa urna, sob o altar do Sagrado Coração, na Basílica de Berchem-Antuérpia. Actualmente, estão sepultados na Casa-Geral, em Roma.
O instituto que ela fundou recebeu aprovação definitiva em 1896.
No dia 22 de Outubro de 1989, Maria de Jesus Deluil-Martiny foi beatificada pelo Papa João Paulo II. Na Homilia, o Papa disse: “… “Eis que venho para fazer a tua vontade” ( Hb 10,9). Estas palavras atribuídas a Cristo na carta aos Hebreus mostram bem o que Maria Deluil - Martiny foi chamada a realizar ao longo da sua vida. Muito cedo, foi movida de compaixão pelas “feridas infligidas ao amor de Jesus” e pela frequente rejeição de Deus, na sociedade. Ao mesmo tempo, descobriu a grandeza do dom feito por Jesus ao Pai para salvar a humanidade, a riqueza do amor que irradia do seu Coração, a fecundidade do sangue e da água que fluem do seu lado aberto. Convenceu-se da necessidade de participar do sofrimento redentor do Crucificado, em espírito de reparação pelos pecados do mundo. Maria de Jesus ofereceu-se ao Senhor, através de provações e constante purificação. Ela podia dizer verdadeiramente: “Tenho uma grande paixão por Jesus... A sua vida em mim; a minha vida n’Ele” (1884).
Maria compartilhou, com os que estavam ao seu redor, o seu desejo de viver a oblação do Salvador, por meio da participação fervorosa no sacrifício da Missa. Quando fundou as Filhas do Coração de Jesus, colocou a adoração eucarística no centro da vida religiosa. Compreendendo profundamente o sacrifício de Cristo, desejava unir-se incessantemente à oferta do sangue de Cristo à Santíssima Trindade. Com uma compreensão adequada da Eucaristia, incluiu entre as directrizes do Instituto tanto a "acção de graças contínua" ao Coração de Jesus pelos seus benefícios e misericórdia, quanto as "súplicas contínuas para obter a vinda do Reino de Jesus Cristo ao mundo". Entre as suas intenções de oração, os sacerdotes, a sua santidade e a sua fidelidade ocupavam um lugar de destaque.
Ao serviço dessa exigente espiritualidade, Maria de Jesus estabeleceu uma vida religiosa simples e austera, marcada por ofícios solenes, permeada pela adoração, e na qual a vida consagrada era uma autêntica doação de si mesma para que o amor de Cristo pudesse ser conhecido e estimado. Ela escreveu um dia: “Meu coração está cheio de grandes coisas: oblação, imolação, comunhão... Ó Deus, se o sacrifício da minha miserável vida puder servir para propagar este amor secreto, recebe-o...” ( Diário , 23 de outubro de 1874). Quando a sua vida foi tirada, ela estava pronta para se oferecer com Cristo.
Maria de Jesus contemplou a Mãe do Salvador, aos pés da Cruz e presente no seio da Igreja nascente. A Virgem Maria foi seu verdadeiro modelo. Com Maria, a fundadora das Filhas do Coração de Jesus reza e vela pelos discípulos do Filho de Deus, para que jamais cessem de proclamar ao mundo as maravilhas do Seu amor…”
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 27 de Fevereiro.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


VI DOMINGO DO TEMPO COMUM    

 

“…Se quiseres, guardarás os mandamentos:
ser-lhe fiel depende da tua vontade.
Deus pôs diante de ti o fogo e a água:
estenderás a mão para o que desejares.
Diante do homem estão a vida e a morte:
o que ele escolher, isso lhe será dado.
Porque é grande a sabedoria do Senhor,
Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas.
Seus olhos estão sobre aqueles que O temem,
Ele conhece todas as coisas do homem.
Não mandou a ninguém fazer o mal,
nem deu licença a ninguém de cometer o pecado…” (
cf.  Ben-Sirá 15, 16-21)


PALAVRA DO PAPA LEÃO


 


- na Audiência-Geral, na Sala Paulo VI, Vaticano - Roma, no dia 11 de Fevereiro de 2026.
 
Caros irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Na catequese de hoje, concentrar-nos-emos na profunda e vital conexão que existe entre a Palavra de Deus e a Igreja, conexão expressa na Constituição conciliar Dei Verbum , no seu sexto capítulo. A Igreja é o lugar próprio da Sagrada Escritura. Sob a inspiração do Espírito Santo, a Bíblia nasceu do povo de Deus e destinada ao povo de Deus. Na comunidade cristã ela tem, por assim dizer, o seu habitat : na vida e na fé da Igreja, ela encontra o espaço para revelar o seu significado e manifestar sua força. 
O Vaticano II recorda que "a Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor. Nunca deixou de receber e oferecer aos fiéis, sobretudo na sagrada liturgia, o pão da vida da mesa da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo". Além disso, "juntamente com a Sagrada Tradição, a Igreja sempre as considerou e continua a considerá-las como a regra suprema da sua fé" ( Dei Verbum , 21).
A Igreja nunca deixa de reflectir sobre o valor da Sagrada Escritura. Após o Concílio, um momento muito importante a este respeito, foi a Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema “A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”, em Outubro de 2008. O Papa Bento XVI colheu os frutos deste encontro na Exortação Pós-Sinodal Verbum Domini (30 de Setembro de 2010), onde afirma: “O vínculo intrínseco entre a Palavra e a fé põe em evidência que a autêntica hermenêutica da Bíblia só pode ser encontrada na fé eclesial, que tem o seu paradigma no ‘sim’ de Maria. […] O lugar original da interpretação bíblica é a vida da Igreja” ( n. 29 ).
Na comunidade eclesial, a Escritura encontra, assim, o contexto para realizar a sua tarefa específica e alcançar o seu objectivo: dar a conhecer Cristo e abrir ao diálogo com Deus. «A ignorância da Escritura é, de facto, ignorância de Cristo». Esta famosa expressão de São Jerónimo recorda-nos o objectivo último da leitura e da meditação da Escritura: conhecer Cristo e, por meio d'Ele, entrar em relação com Deus, relação que pode ser entendida como uma conversação, um diálogo. E a Constituição Dei Verbum  apresentou-nos a Revelação precisamente como um diálogo, no qual Deus fala aos homens como amigos (cf. DV , 2). Isto acontece quando lemos a Bíblia em atitude interior de oração: então, Deus vem ao nosso encontro e entra em conversa connosco.
A Sagrada Escritura, confiada à Igreja e, por ela, guardada e explicada, desempenha um papel activo: de facto, com a sua eficácia e poder, dá sustento e vigor à comunidade cristã. Todos os fiéis são chamados a beber desta fonte, antes de mais, na celebração da Eucaristia e dos outros Sacramentos. O amor pela Sagrada Escritura e a familiaridade com ela devem guiar os que exercem o ministério da Palavra: bispos, presbíteros, diáconos e catequistas. É precioso o trabalho dos exegetas e dos que estudam as ciências bíblicas; e a Escritura ocupa um lugar central na teologia, que encontrão seu fundamento e a sua alma na Palavra de Deus.
O que a Igreja ardentemente deseja é que a Palavra de Deus possa alcançar cada um dos seus membros e alimente o caminho da fé. Mas, a Palavra de Deus também impulsiona a Igreja para além de si mesma, abrindo-a continuamente à missão de alcançar a todos. De facto, vivemos rodeados por tantas palavras, mas quantas delas são vazias! Às vezes, ouvimos, também, palavras sábias, que, no entanto, não dizem respeito ao nosso destino último. A Palavra de Deus, ao contrário, vem de encontro à nossa sede de sentido, de verdade acerca da nossa vida. Ela é a única Palavra sempre nova: revelando-nos o mistério de Deus, é inesgotável, jamais cessando de oferecer-nos as suas riquezas.
Caríssimos: vivendo na Igreja, aprendemos que a Sagrada Escritura está inteiramente relativa a Jesus Cristo, e experimentamos que esta é a razão profunda de seu valor e do seu poder. Cristo é a Palavra viva do Pai, o Verbo de Deus feito carne. Todas as Escrituras anunciam a sua Pessoa e a sua presença que salva, a cada um de nós e a toda a humanidade. Abramos, portanto, o coração e a mente para acolher este dom, na escola de Maria, Mãe da Igreja. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 118

Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor

Felizes os que seguem o caminho perfeito
e andam na lei do Senhor.
Felizes os que observam as suas ordens
e O procuram de todo o coração.

Promulgastes os vossos preceitos
para se cumprirem fielmente.
Oxalá meus caminhos sejam firmes
na observância dos vossos decretos.

Fazei bem ao vosso servo:
viverei e cumprirei a vossa palavra.
Abri, Senhor, os meus olhos
para ver as maravilhas da vossa Lei.

Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos
para ser fiel até ao fim.
Dai-me entendimento para guardar a vossa lei
e para a cumprir de todo o coração.


SANTOS POPULARES



SANTA LÚCIA YI ZHENMEI
 
Yi Zhenmei nasceu no dia 17 de Janeiro de 1815, em Mainyang, Sichuan, na China. Era a mais nova de cinco filhos O seu pai era católico, tinha aderido ao catolicismo há algum tempo. Até então, fora budista.
Aos doze anos, adoptou o nome ‘Lúcia’ e consagrou-se ao Senhor, apesar dos seus pais, segundo o costume, a terem prometido em casamento. Incapaz de se libertar da situação que criara, Lúcia Yi fingiu insanidade, anulando assim o acordo matrimonial, também para o futuro.
Retomou os seus estudos para se tornar professora, dedicando-se, também, ao desenvolvimento da sua vida espiritual.
Missionários católicos confiaram-lhe o ensino do catecismo, e ela dedicava-se, com alegria, às tarefas domésticas, ao cuidado dos doentes e ao apostolado catequético.
Quando jovem, decidiu separar-se da família e foi viver com freiras missionárias. Uma grave doença acometeu-a, obrigando-a a retornar a casa. Durante esse período, pessoas maldosas lançaram dúvidas sobre a sua moralidade, a ponto de, até mesmo, a sua superiora acreditar nisso. A sua família desejava vingança; mas ela resistiu, suportando tudo com paz e paciência.
Foi, então, convocada pelo Bispo de Kweichow, que lhe confiou o ensino do catecismo nas aldeias do Vicariato. Superando as dificuldades impostas pela sua família, que temia novos perigos para ela, Lúcia Yi Zhenmei pôs-se imediatamente ao trabalho, auxiliando, também, a obra missionária do Padre João Pedro Néel, das Missões Estrangeiras de Paris, também mártir e canonizado no dia 1 de Outubro de 2000.
Durante a perseguição desencadeada pela seita da "Ninfa Branca", ela foi capturada por soldados: Durante o interrogatório de praxe, fizeram-lhe propostas vantajosas, caso renunciasse à religião cristã: um pedido, também, apoiado pelo seu ex-noivo, que ainda nutria afecto e respeito por ela.
Lucia Yi recusou firmemente e, por isso, foi condenada à decapitação. Ela aceitou a sentença com dignidade, rebelando-se apenas quando tentaram despi-la antes da execução, conseguindo evitar tal humilhação. Foi decapitada no dia 19 de Fevereiro de 1862 em Kaiyang, Guizhou (China), aos 47 anos. Nos dias 18 e 19 de Fevereiro de 1862, foram mortos o Padre Néel e três catequistas. O lenço da sua cabeça, encharcado de sangue, foi levado para casa e curou, instantaneamente, a sua sobrinha Paula, gravemente doente, em cujo corpo o lenço havia sido colocado.
Lúcia Yi Zhenmei foi beatificada, no dia 2 de Maio de 1909, pelo Papa São Pio X, e canonizada, pelo Papa João Paulo II, no dia 1 de Outubro do ano 2000, juntamente com outros mártires chineses.
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 19 de Fevereiro.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


V DOMINGO DO TEMPO COMUM     

 

“…Eis o que diz o Senhor:
«Reparte o teu pão com o faminto,
dá pousada aos pobres sem abrigo,
leva roupa ao que não tem que vestir
e não voltes as costas ao teu semelhante.
Então a tua luz despontará como a aurora
e as tuas feridas não tardarão a sarar.
Preceder-te-á a tua justiça
e seguir-te-á a glória do Senhor.
Então, se chamares, o Senhor responderá,
se O invocares, dir-te-á: “Aqui estou”.
Se tirares do meio de ti a opressão,
os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
se deres do teu pão ao faminto
e matares a fome ao indigente,
a tua luz brilhará na escuridão
e a tua noite será como o meio-dia».,,,” (
cf.  Isaías 58, 7-10)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Sala Paulo VI, Vaticano - Roma, no dia 4 de Fevereiro de 2026.
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
A Constituição conciliar Dei Verbum, sobre a qual reflectimos nestas semanas, indica na Sagrada Escritura, lida na Tradição viva da Igreja, um espaço privilegiado de encontro em que Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos, a fim de que, ouvindo-o, possam conhecê-lo e amá-lo. Contudo, os textos bíblicos não foram escritos numa linguagem celestial ou sobre-humana. Com efeito, como nos ensina também a realidade quotidiana, duas pessoas que falam línguas diferentes não se entendem, não podem dialogar, não conseguem estabelecer uma relação. Em certos casos, fazer-se compreender pelo outro constitui um primeiro acto de amor. Por isso, Deus escolhe falar, servindo-se de linguagens humanas, e assim vários autores, inspirados pelo Espírito Santo, redigiram os textos da Sagrada Escritura. Como recorda o documento conciliar, «as palavras de Deus, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens, tomando a carne da fraqueza humana» (DV, 13). Portanto, não só no seu conteúdo, mas também na linguagem, a Escritura revela a condescendência misericordiosa de Deus para com os homens e o seu desejo de se aproximar deles.
Ao longo da história da Igreja, estudou-se a relação existente entre o Autor divino e os autores humanos dos textos sagrados. Durante vários séculos, muitos teólogos preocuparam-se em defender a inspiração divina da Sagrada Escritura, considerando os autores humanos quase como simples instrumentos passivos do Espírito Santo. Em tempos mais recentes, a reflexão revalorizou a contribuição dos hagiógrafos na redacção dos textos sagrados, a tal ponto que o documento conciliar fala de Deus como «autor» principal da Sagrada Escritura, mas chama também aos hagiógrafos «verdadeiros autores» dos livros sagrados (cf.  DV, 11). Como observava um perspicaz exegeta do século passado, «rebaixar a operação humana à de um simples amanuense não significa glorificar a operação divina». Deus nunca mortifica o ser humano e as suas potencialidades!
Portanto, se a Escritura é Palavra de Deus com palavras humanas, qualquer abordagem sua que negligencie ou negue uma destas duas dimensões é parcial. Daí decorre que uma interpretação correcta dos textos sagrados não pode prescindir do ambiente histórico em que amadureceram, nem das formas literárias utilizadas; pelo contrário, a renúncia ao estudo das palavras humanas, de que Deus se serviu, corre o risco de levar a leituras fundamentalistas ou espiritualistas da Escritura, que atraiçoam o seu significado. Este princípio é válido também para o anúncio da Palavra de Deus: se ele perder o contacto com a realidade, com as esperanças e os sofrimentos dos homens; se utilizar uma linguagem incompreensível, pouco comunicativa ou anacrónica, será ineficaz. Em todas as épocas, a Igreja é chamada a repropor a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de alcançar os corações. Como recordava o Papa Francisco, «sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual».
Por outro lado, igualmente redutora é uma leitura da Escritura que descuide a sua origem divina e acabe por a entender como mero ensinamento humano, como algo a estudar simplesmente do ponto de vista técnico, ou como «um texto só do passado». Pelo contrário, sobretudo quando é proclamada no contexto da liturgia, a Escritura tenciona falar aos crentes de hoje; tocar a sua vida presente com as suas problemáticas; iluminar os passos a dar e as decisões a tomar. Isto só é possível quando o crente lê e interpreta os textos sagrados sob a orientação do mesmo Espírito que os inspirou (cf.  DV, 12).
Neste sentido, a Escritura serve para alimentar a vida e a caridade dos crentes, como recorda Santo Agostinho: «Quem pensa ter compreendido as Escrituras divinas [...], se mediante esta compreensão não consegue levantar o edifício da dupla caridade, de Deus e do próximo, ainda não as entendeu».  A origem divina da Escritura recorda também que o Evangelho, confiado ao testemunho dos baptizados, não obstante englobe todas as dimensões da vida e da realidade, transcende-as: ele não pode ser reduzido a uma mera mensagem filantrópica ou social, mas é o anúncio jubiloso da vida plena e eterna que Deus nos concedeu em Jesus.
Caros irmãos e irmãs: demos graças ao Senhor porque, na sua bondade, não deixa faltar à nossa vida o alimento essencial da sua Palavra, e oremos a fim de que as nossas palavras, e ainda mais a nossa vida, não ofusquem o amor de Deus nelas narrado. (cf. Santa Sé)