PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “…Um homem semeou boa semente no seu campo… ” (cf. Mateus 13, 24) A página evangélica de hoje propõe três parábolas com as quais Jesus fala às multidões sobre o Reino de Deus. Analiso a primeira: a do grão bom e da erva daninha, que ilustra o problema do mal no mundo e ressalta a paciência de Deus (cf. Mt 13, 24-30.36-43). Quanta paciência tem Deus! Também cada um de nós pode dizer isto: «Quanta paciência tem Deus comigo!». A narração situa-se num campo com dois protagonistas opostos. Por um lado, o dono do campo que representa Deus e espalha a semente boa; por outro, o inimigo que representa Satanás e espalha a erva daninha. Com o passar do tempo, no meio do trigo cresce também o joio, e face a esta realidade o dono e os seus servos têm atitudes diferentes. Os servos queriam intervir arrancando o joio; mas o dono, que se preocupa sobretudo com a salvação do trigo, opõe-se dizendo: «Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele» (v. 29). Com esta imagem, Jesus diz-nos que neste mundo o bem e o mal estão tão interligados, que é impossível separá-los e arrancar todo o mal. Só Deus pode fazer isto e fá-lo-á no juízo final. Com as suas ambiguidades e com o seu carácter multifacetado, a situação presente é o campo da liberdade, o campo da liberdade dos cristãos, no qual se cumpre o difícil exercício do discernimento entre o bem e o mal. E, por conseguinte, trata-se de conjugar neste âmbito, com grande confiança em Deus e na sua providência, duas atitudes aparentemente contraditórias: a decisão e a paciência. A decisão consiste em querer ser grão bom — todos o queremos —, com todas as nossas forças, e portanto afastarmo-nos do maligno e das suas seduções. A paciência significa preferir uma Igreja que é fermento na massa, que não teme sujar as mãos lavando as roupas dos seus filhos, e não uma Igreja de «puros», que pretende julgar antes do tempo quem está no Reino de Deus e quem não. O Senhor, que é a Sabedoria encarnada, ajuda-nos hoje a compreender que o bem e o mal não se podem identificar com territórios definidos ou determinados grupos humanos: «Estes são os bons, este são os maus». Ele diz-nos que a linha de fronteira entre o bem e o mal passa pelo coração de cada pessoa, passa pelo coração de cada um de nós, ou seja: somos todos pecadores. Sinto vontade de vos perguntar: «Quem não é pecador levante a mão». Ninguém! Porque todos o somos, somos todos pecadores. Jesus Cristo, com a sua morte na cruz e a sua ressurreição, libertou-nos da escravidão do pecado e concedeu-nos a graça de caminhar rumo a uma nova vida; mas com o Batismo concedeu-nos também a Confissão, porque temos sempre necessidade de ser perdoados dos nossos pecados. Olhar sempre e unicamente para o mal que está fora de nós, significa não querer reconhecer o pecado que está também em nós. E depois Jesus ensina-nos um modo diverso de olhar para o campo do mundo, de observar a realidade. Somos chamados a aprender os tempos de Deus — que não são os nossos tempos — e também o “olhar” de Deus: graças à influência benéfica de uma expectativa trepidante, aquilo que era joio ou parecia joio, pode tornar-se um produto bom. É a realidade da conversão. É a perspetiva da esperança! (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 23 de Julho de 2017, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

sábado, 18 de julho de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XVI DOMINGO COMUM

 

“…Não há Deus, além de Vós,
que tenha cuidado de todas as coisas;
a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente.
O vosso poder é o princípio da justiça
e o vosso domínio soberano
torna-Vos indulgente para com todos.
Mostrais a vossa força
aos que não acreditam na vossa omnipotência
e confundis a audácia daqueles que a conhecem.
Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade
e governais-nos com muita indulgência,
porque sempre podeis usar da força quando quiserdes.
Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo
que o justo deve ser humano
e aos vossos filhos destes a esperança feliz
de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento…
(cf. Sabedoria  12,13.16-19)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Oração do Angelus, na Praça da Liberdade, Castel Gandolfo, no dia 12 de Julho de 2026
 
Queridos irmãos e irmãs, boa tarde e bom domingo!
 
Na liturgia de hoje, o evangelista Mateus apresenta-nos a parábola do semeador (cf. Mt 13, 1-23), que descreve a generosidade e a confiança com que Deus espalha a sua Palavra no nosso coração e o seu poder em nós.
O próprio Jesus, o Verbo que se fez homem, que deu a sua vida pela nossa salvação, é a semente que o Pai continua a espalhar pelo mundo para que, ao morrer, dê muito fruto (cf. Jo 12, 24). É verdade que Ele, às vezes, encontra em nós um terreno duro e insensível; outras vezes, distraído, semelhante ao solo batido dos caminhos, ao terreno pedregoso ou aos arbustos espinhosos; mas há momentos em que encontra uma terra receptiva e fértil, e então desencadeiam-se milagres de amor capazes de mudar tudo, como também nós certamente já experimentámos na nossa vida. Por isso, o Pai não desiste de semear, porque sabe que o poder do seu amor é mais forte do que a nossa fraqueza (cf. 2 Cor 12, 9-10).
É o que afirma São João Crisóstomo, referindo-se à “semente” da Palavra de Deus: «Como pode ser razoável semear entre espinhos, em terreno pedregoso, à beira do caminho? No caso das sementes e da terra, isso não seria razoável, mas no caso das almas e dos ensinamentos, isso é muito louvável» (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 44, 3). Na verdade, é possível que, nas mãos de Deus, «o terreno pedregoso se transforme, tornando-se terra fértil; que o caminho deixe de ser pisado e de estar exposto a todos os transeuntes, passando a ser solo fértil; que os espinhos sejam eliminados e as sementes desfrutem de uma situação de grande segurança» (ibid.).
A generosidade de Deus para conosco não é ingénua, mas sábia, e sabe aproveitar em nós a possibilidade de um bem do qual, por vezes, nem sequer nos apercebemos. Por isso, o Senhor, que conhece o terreno do nosso coração melhor do que nós próprios, não deixa de acreditar em nós: naquilo que somos e naquilo em que nos podemos tornar, dia após dia, se nos entregarmos a Ele com fé.
Assim, a partir da gratuidade e confiança com que a semente é lançada e da humildade e disponibilidade com que é recebida, crescem em nós e difundem-se, como ensina São Paulo, os frutos do Espírito Santo: «amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gl 5, 22-23). Como o nosso mundo precisa destes frutos e de ser preenchido e transformado por eles!
Com efeito, especialmente nestes dias de férias, empenhemo-nos em dedicar tempo à escuta, à leitura e à meditação da Palavra de Deus, cultivando, a par do descanso e da diversão saudável, momentos significativos de silêncio e oração. Retornaremos às nossas ocupações habituais renovados no corpo e no espírito, prontos para anunciar a Boa Nova do Evangelho e cada vez mais capazes de cooperar no crescimento do Reino de Deus. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR


 

- SALMO 85

Refrão: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.

 

Vós, Senhor, sois bom e indulgente,
cheio de misericórdia para com todos os que Vos invocam.
Ouvi, Senhor, a minha oração,
atendei a voz da minha súplica.

Todos os povos que criastes virão adorar-vos, Senhor,
e glorificar o vosso nome,
porque Vós sois grande e operais maravilhas,
Vós sois o único Deus.

Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo,
paciente e cheio de misericórdia e fidelidade.
Voltai para mim os vossos olhos
e tende piedade de mim.


SANTOS POPULARES

 


SANTA LÍDIA

 

Lídia nasceu na Rússia, no dia 20 de Março de 1901. O seu pai era sacerdote, da Igreja Ortodoxa, na cidade de Ufa. Lídia, desde muito jovem, destacou-se pela sua sensibilidade, ternura amorosa e aversão ao mal, qualidades que lhe renderam o amor universal.

Depois de concluir o ensino médio, aos dezanove anos, casou-se, mas, pouco tempo depois, perdeu o marido, durante a Guerra Civil.

Em 1922, contra a sua vontade, o seu pai, aderiu ao cisma da "Igreja Viva", organizado pelos bolcheviques. A jovem viúva ansiava pelo martírio, na Igreja das Catacumbas. Prostrou-se aos pés do pai e implorou: "Pai, dê-me a sua bênção para ir-me embora; para sair daqui, para que a minha salvação não seja impedida".

O sacerdote, já idoso, tinha consciência de que estava a pecar por pertencer à "Igreja Viva". Assim, em lágrimas, ele abençoou-a para que vivesse de forma independente, dizendo-lhe profeticamente: "Minha filha, quando conquistares a tua coroa, diz ao Senhor que, embora me tenha mostrado fraco demais para a batalha, não a impedi. Que tu sejas abençoada."

Lídia conseguiu emprego como escriturária no departamento florestal. Dessa forma, entrou em contacto com o povo russo simples, a quem amava profundamente. E o povo simples amava-a e respeitava-a muito. Os lenhadores e os motoristas, que trabalhavam em condições difíceis, contavam, com espanto, que, ao encontrarem Lídia no escritório, sentiam algo semelhante ao que sentiam quando iam venerar a imagem milagrosa da Theotokos (Maria, Mãe de Deus) perto da sua aldeia, antes da Revolução de 1917.

No escritório, deixaram de se ouvir obscenidades, insultos e discussões. Todos o notaram, inclusive, é claro, os líderes do Partido. Secretamente, a polícia começou a seguir e a vigiar Lídia, na expectativa de encontrar alguma coisa suspeita: mas não encontraram nada. Lídia nunca frequentou as igrejas legalizadas pelos bolcheviques e, muito raramente e com muita cautela, aparecia nas celebrações da Igreja das Catacumbas.

A polícia secreta sabia da existência de uma rede de igrejas das catacumbas, naquela região e, para as destruir, chamou do exílio o Bispo André Ukhtomsky, muito venerado pelo povo. Porém, ordem secreta do Bispo André, apenas uma igreja, em Ufa, o acolheu oficialmente, enquanto todos os habitantes da diocese o contactavam secretamente. A polícia percebeu que o seu plano havia falhado. Então, prendeu-o e exilou-o novamente. O Bispo André foi martirizado, no dia 26 de Dezembro de 1937.

Lídia teve a oportunidade de estar com ele e de conversar com ele durante cerca de uma hora. O assunto da conversa permanece desconhecido; mas, quando um jovem e zeloso padre criticou o pai de Lídia, na frente do Bispo André, este respondeu: “Aquele padre tem uma grande intercessora junto a Deus: Santa Lídia”, e encerrou a conversa.

Lídia foi, finalmente, presa no dia 9 de Julho de 1928, quando a polícia secreta descobriu que ela distribuía livretos datilografados, contendo vidas de santos, orações, homilias e ensinamentos de bispos, antigos e novos. Eles perceberam que a máquina de escrever, na qual os livretos haviam sido datilografados, tinha a letra K defeituosa e, assim, começaram a tentar descobrir a sua origem.

A polícia percebeu que Lídia tinha a chave para a descoberta de todas as igrejas das catacumbas da região. Durante dez dias, pressionaram-na continuamente para que confessasse, mas ela recusou-se terminantemente a falar. No dia 20 de Julho de 1928, o interrogador perdeu a paciência e enviou-a para o "comando especial", localizado numa cela subterrânea.

Exausta, Lídia não teve forças para descer os degraus. Foi, então, dada ordem, ao guarda que estava de plantão, no corredor, Cirilo Ataev, de 23 anos, para a ajudar a descer. "Cristo te salve!", disse Lídia, em agradecimento.

Estas palavras e os seus olhos, cheios de dor e desamparo, comoveram profundamente Cirilo. Ele não podia, portanto, ouvir indiferente os gritos e choros incessantes, vindos da cela onde torturavam Lídia, havia mais de hora e meia.

"Não sentes as dores?", perguntavam exaustos os torturadores. "Estás a gritar e a chorar. Isso significa que está a doer”.

" Senhor, estou a sofrer muito! Como é doloroso!", gemeu Lídia, em oração.

"Confessa!... Por que não confessas? Se não confessares, a tortura vai ser ainda mais dolorosa!"

"Não posso confessar... Não posso... Ele não vai permitir..." respondeu ela.

"Quem não vai permitir?", perguntaram os torturadores.

"Deus não vai permitir!..."

Por fim, os torturadores decidiram violá-la e pediram ajuda ao jovem guarda, Cirilo Ataev. Quando Cirilo entrou na cela escura e porca, compreendeu, imediatamente, as intenções daqueles energúmenos. Tomado por uma santa indignação, puxou da sua pistola e matou os dois torturadores, ali mesmo. Agarrou um terceiro torturador pelo pescoço, mas um quarto torturador disparou sobre ele.

Cirilo caiu ao lado de Lídia, que estava amarrada com uma corda, e olhando-a directamente nos olhos, disse: "Santa, leva-me contigo!" Então, algo surpreendente aconteceu: uma luz divina emanou da santa mártir Lídia; com um sorriso celestial, ela respondeu: "Eu levar-te-ei para lá."

Estas palavras encheram de terror os dois torturadores sobreviventes e foram dominados por um medo tremendo. Com gritos frenéticos, dispararam todas as suas balas contra os dois mártires indefesos. Aqueles que, entretanto, vieram ajudá-los, levaram-nos para fora, ainda gritando como loucos. Finalmente, todos foram embora, dominados por um medo indefinível.

Um dos dois torturadores enlouqueceu, completamente. Pouco depois, o outro morreu de choque nervoso. Antes de morrer, relatou tudo o que havia acontecido ao seu amigo, o Sargento Alexei Ikonnikov que, tocado pela fé e pelo amor de Deus, divulgou esta história extraordinária. Por isso, também foi preso e martirizado.

Os três, Lídia, Cirilo e Alexei, foram considerados santos pela Igreja das Catacumbas.

A memória de Santa Lídia, a nova Mártir da Rússia, e dos seus companheiros Alexei e Cirilo, é celebrada no dia 20 de Julho.


sábado, 11 de julho de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XV DOMINGO COMUM

 

“…Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
“Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça”…” (
cf. Mateus 13, 1- 9)


PALAVRA DO PAPA LEÃO


- na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 5 de Julho de 2026

 

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!

O Evangelho da liturgia de hoje (Mt 11, 25-30) convida-nos a partilhar o louvor que Jesus eleva ao Pai, «Senhor do Céu e da Terra» (v. 25). O Filho de Deus feito homem manifesta o seu amor, envolvendo todas as criaturas nesta acção de graças.

A simplicidade de um gesto tão espontâneo e alegre corresponde ao estilo de Deus, que gosta de se revelar «aos pequeninos», enquanto permanece escondido «aos sábios e aos entendidos» (v. 25). Na verdade, estes estão de tal forma cheios das próprias ideias que não reconhecem a presença de Cristo, o Messias que visita o seu povo. A sabedoria humana torna-se, então, arrogância e a doutrina degenera em soberba. Pelo contrário, a verdadeira sabedoria de Deus revela-se na humildade da carne e o seu ensinamento dirige-se aos que passam por maiores dificuldades: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos» (v. 28), diz o Senhor. Ir ao encontro de Jesus significa corresponder ao seu amor e partilhar a sua vida, até à cruz, como Ele próprio nos explicou: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (Mt 16, 24). É precisamente o dom de si mesmo por amor que constitui o “jugo” de Jesus (cf. Mt 11, 29), ou seja, a síntese do seu ensinamento, o cerne da sua sabedoria, ardente de caridade para com todos.

Irmãos e irmãs, como pode ser “leve” e “suave” o peso da cruz (cf. v. 30)? Só por uma razão: porque o Senhor o carrega primeiro e com todos nós, sem nunca nos deixar sozinhos diante do que nos oprime. Como autêntico mestre, Jesus toma sobre si a humanidade ferida pelo mal, para cuidar dela. A sabedoria que Ele nos dá é um anúncio de salvação e o seu jugo levanta-nos de todas as quedas. Ao seguir Cristo, o nosso caminho não é, portanto, uma ascese que mortifica: é uma escola de liberdade, que leva a sério o drama da história e ilumina sempre o seu sentido, sobretudo nos momentos mais sombrios. Com efeito, só na cruz de Jesus é que o mal é redimido: só na sua paixão é que o nosso cansaço mortal encontra consolo e resgate.

Em situações de escravidão, Cristo é libertação. No flagelo da guerra, Cristo é esperança. Na hora do pecado, Cristo é perdão. Esta é a verdadeira sabedoria, ou seja, o caminho que queremos percorrer juntos, unidos como discípulos em seu nome. Jesus ensina-nos isto como Filho, tornando-se nosso irmão: com a força do Espírito Santo, Ele mesmo manifesta à Igreja a verdade de Deus e do homem, pois «ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (v. 27).

Caríssimos, ao darmos graças ao Senhor por esta sua confidência cheia de amor, imploremos a intercessão de Maria, Rainha da Paz, pelo bem da Igreja e do mundo inteiro. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 64

Refrão: A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.

 

Visitastes a terra e a regastes,
enchendo-a de fertilidade.
As fontes do céu transbordam em água
e fazeis brotar o trigo.

 

Assim preparais a terra;
regais os seus sulcos e aplanais as leivas,
Vós a inundais de chuva
e abençoais as sementes.

 

Coroastes o ano com os vossos benefícios,
por onde passastes brotou a abundância.
Vicejam as pastagens do deserto
e os outeiros vestem-se de festa.

 

Os prados cobrem-se de rebanhos
e os vales enchem-se de trigo.

Tudo canta

e grita de alegria.

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SANTOS POPULARES

 


SÃO CAMILO DE LELLIS

 

Camilo nasceu no dia 25 de Maio de 1550, em Bucchianico di Chieti, na província de Abruzzo, Itália. Foi o segundo filho - muito desejado e esperado - dos nobres João de Lellis e Camila de Compellis. No baptismo deram-lhe o nome ‘Camilo’ em homenagem à sua mãe, nome que significa "ministro do sacrifício".

Camilo foi um gigante de força, coragem, caridade e bondade. De facto, toda a vida de Camilo foi extraordinária.

Camilo era um menino vivaz e inquieto. Aprendeu a ler e escrever e, quando a sua mãe morreu, aos treze anos, partiu para a vida agitada de um vagabundo. Seguindo os passos do pai - um soldado de carreira, no exército espanhol - começou a frequentar os grupos de soldados, aprendendo a sua língua e os seus passatempos, incluindo jogos de cartas e de dados. Aperfeiçoou-se no seu ofício e alistou-se no exército da "Liga Santa", onde já se encontrava o seu pai. Entretanto, quando se preparava para embarcar, juntamente com o seu pai, este morreu repentinamente. Esse acontecimento trágico foi seguido pelo aparecimento de uma dolorosa úlcera purulenta - talvez de osteomielite - no seu tornozelo direito. Isso obrigou Camilo a viajar para Roma, para tratamento no hospital São Tiago dos Incuráveis.

 Parcialmente curado, Camilo decidiu que o melhor para ele seria tornar-se um soldado mercenário e, com a Segunda Liga, foi enviado, a soldo da Espanha, primeiro para a Dalmácia e, depois, para Túnis. Foi dispensado, em 1574. Perdeu toda a sua riqueza em jogos de azar e foi acolhido pelos Capuchinhos de San Giovanni Rotondo (São João Redondo), [é uma pequena cidade, na Província de Foggia na região da Puglia, conhecida pelo seu turismo religioso. Aí viveu o Santo Padre Pio, um frade capuchinho, a quem são atribuídos vários milagres. Foi canonizado em 2002. Os seus restos mortais estão exposto no belíssimo e grandioso Santuário, construído em sua homenagem] perto de Manfredonia, para trabalhar como operário, depois de vaguear por ali, pedindo esmolas. As palavras bondosas de um frade daquele convento e a graça do Senhor transformaram o coração e a vida deste andarilho. Então, com quase vinte e cinco anos, em Fevereiro de 1575, converteu-se a Jesus. A ferida, que entretanto alastrara para a perna, levou-o, de novo, ao Hospital de São Tiago dos Incuráveis, em Roma, onde, com um espírito muito diferente do da sua primeira estada, começou, mais do que pensando em si mesmo, a perceber o estado de abandono e miséria em que os pacientes se encontravam, à mercê de uma equipa indiferente e insuficiente. Ali, enquanto tratavam da sua perna, dedicou-se a servir os seus companheiros de sofrimento e fê-lo com tanta delicadeza e diligência que os administradores o promoveram a chefe da equipa e dos serviços do hospital.

Mas, não conseguindo alterar a situação geral, Camilo, após a alta médica, decidiu reunir um grupo de amigos que, consagrados a Cristo Crucificado, se dedicassem, inteiramente, ao cuidado dos enfermos. Mais tarde, este grupo formaria a Companhia dos Ministros dos Enfermos, que o Papa Sisto V, aprovou em 1586, permitindo a cada um usar o hábito preto como os clérigos regulares, mas com o privilégio de uma cruz de pano vermelho no peito, como expressão da Redenção, realizada pelo dom do Preciosíssimo Sangue de Cristo.

Entretanto, Camilo encontrou tempo para estudar e, em 1584, foi ordenado sacerdote, em São João de Latrão, ao tempo, a Catedral do Papa.

Naquela época, Roma abrigava o grande hospital do Espírito Santo, que o Papa Inocêncio III havia fundado, em 1204, e cuja renovação e ampliação foram supervisionadas pelo próprio Papa Sisto V. Camilo e os seus companheiros começaram a servir ali e, durante vinte e oito anos, dedicaram-se integralmente aos enfermos, nos quais ele, frequentemente, contemplava misticamente o próprio Jesus Cristo. Ele também se certificou de que as enfermarias fossem bem ventiladas; que a ordem e a limpeza fossem constantes; que os pacientes recebessem refeições saudáveis ​​e que aqueles que sofriam de doenças contagiosas fossem colocados em quarentena.

Entretanto, o Papa Gregório XIV elevou a Companhia à categoria de Ordem Religiosa e, em 8 de Dezembro de 1591, o Padre Camilo, juntamente com vinte e cinco companheiros, fez a sua primeira profissão de votos, acrescentando aos três votos usuais de pobreza, castidade e obediência, um quarto voto: "assistência corporal e espiritual perpétua aos enfermos, mesmo aos que sofrem da peste". Na sua prática de caridade, os Ministros dos Enfermos, que mais tarde se tornaram os ‘Camilianos’, estabeleceram o seguinte paradigma: ‘o corpo antes da alma; o corpo pela alma; e ambos por Deus’.

Durante algum tempo, o Padre Camilo governou, pessoalmente, a Ordem, fundando casas em diversas cidades italianas. Mas, em 1607, renunciou ao cargo, devido a desentendimentos entre os seus Irmãos e voltou a dedicar-se inteiramente ao cuidado dos doentes, dos pobres e dos desfavorecidos.

A úlcera no seu tornozelo nunca o abandonou e, após o surgimento de problemas renais e gástricos, faleceu no dia 14 de Julho de 1614. Os seus restos mortais permanecem sepultados na pequena igreja de Santa Maria Madalena, em Roma.

O Padre Camilo de Lellis foi beatificado em 1742 e canonizado, quatro anos depois, pelo Papa Bento XIV. Leão XIII declarou-o padroeiro dos enfermos e dos hospitais, em 1886. Pio XI proclamou-o padroeiro dos enfermeiros, em 1930, O Papa Paulo VI, algumas décadas depois, tornou-o protector especial da saúde militar italiana.

A Ordem dos Camilianos desenvolveu-se progressivamente ao longo dos quatro séculos que compõem a sua história, com excepção de alguns momentos difíceis, nos séculos XVIII e XIX. Com o tempo, formaram-se comunidades de religiosas, seguidas pelos Ministros dos Enfermos e, em várias partes do mundo, surgiram grupos de leigos e leigas que abraçaram o carisma e a missão de São Camilo: todos juntos, com a Ordem à frente, constituem a "Família Camiliana".

A sua memória litúrgica é celebrada no dia 14 de Julho.

 

 


sábado, 4 de julho de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR


 

- XIV DOMINGO COMUM

 

“…Eis o que diz o Senhor:
“Exulta de alegria, filha de Sião;
solta brados de júbilo, filha de Jerusalém.
Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro,
humildemente, montado num jumentinho, filho duma jumenta.
Destruirá os carros de combate de Efraim
e os cavalos de guerra de Jerusalém;
e será quebrado o arco de guerra.
Anunciará a paz às nações:
o seu domínio irá de um mar ao outro mar
e do Rio até aos confins da terra…” (
cf. Zacarias 9, 9-10)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Oração do Angelus, na solenidade de São Pedro e São Paulo, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 29 de Junho de 2026

Irmãos e irmãs, bom dia!
Celebramos, hoje, a solenidade dos Santos Pedro e Paulo, padroeiros de Roma. Esta festa recorda o vínculo originário que une, numa comunhão de fé e caridade, a Igreja que está em Roma a todas as outras Igrejas do mundo.
O testemunho destes dois Apóstolos é quase um selo do Novo Testamento. O sangue por eles derramado, nesta cidade, revela até onde chega o amor de Deus que o Senhor Jesus nos concedeu. Sim, foi graças à sua palavra e ao seu martírio que o Evangelho de Cristo se enraizou, por assim dizer, em Roma, manifestando precisamente aqui, na capital do império, a sua capacidade de renovação: um novo conhecimento de Deus e da infinita dignidade de cada ser humano; uma nova experiência da força, não como domínio, mas como serviço à vida.
Ainda hoje, o Senhor, que morreu e ressuscitou por amor, torna-se presente nas suas testemunhas; chega aos centros e às periferias, às capitais e às regiões mais remotas, através das vozes, dos rostos e das escolhas corajosas daqueles que responderam ao seu convite: “Segue-me!”. Assim, este dia de festa envolve-nos na missão de Pedro e Paulo, ou seja, na missão do próprio Jesus. Deus confia em nós, que somos pecadores, perdoados por Ele; em nós que não somos perfeitos, para que a Sua graça brilhe nas nossas histórias e se revele a sua força, que muda o mal em bem.
Caríssimos, talvez Pedro e Paulo não pudessem ter sido mais diversos um do outro. Diversos na origem, na formação e no carácter; não só antes de terem sido chamados, mas também depois; e o seu único Senhor não os uniformizou. O Evangelho é compreendido e anunciado com um sotaque específico por cada um deles; e o Espírito Santo, ao inspirar os autores bíblicos, não quis que ficassem escondidas as suas divergências, as quais, na verdade, nos são narradas como uma boa nova. Todavia, no colégio dos Apóstolos, Pedro e Paulo não foram adversários. Pelo contrário, tornaram-se quase o símbolo de muitas outras diversidades que o único Espírito compõe em unidade. Assim, os Padroeiros da Igreja de Roma viveram o esforço da comunhão, conhecendo-a, servindo-a e anunciando-a como sacramento da vida divina. O seu testemunho contribuiu, de forma determinante, para que a presença cristã na história se orientasse não para o domínio, mas para o serviço, a unidade e a reconciliação.
Por intercessão de São Pedro e São Paulo, o Senhor nos conceda apreciar, cada vez mais, a catolicidade da Igreja; reconhecer o seu valor ao serviço do encontro fraterno entre as pessoas e os povos; evitar tudo o que desgasta ou prejudica a comunhão, e perseverar no caminho ecuménico e no diálogo atento e franco com todos.
Que Maria, Rainha dos Apóstolos, proteja sempre o Povo de Deus, em Roma e no mundo inteiro. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 144

Refrão: Louvarei para sempre o Vosso nome,

              Senhor, meu Deus e meu Rei

 

Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Rei,
e bendizer o vosso nome para sempre.
Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

Graças Vos dêem, Senhor, todas as criaturas
e bendigam-Vos os vossos fiéis.
Proclamem a glória do vosso reino
e anunciem os vossos feitos gloriosos.

O Senhor é fiel à sua palavra
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor ampara os que vacilam
e levanta todos os oprimidos.


SANTOS POPULARES

 


BEATA MARIA TERESA LEDOCHOWSKA

 

Maria Teresa nasceu, no dia 29 de Abril de 1863, em Loosdorf, no sul da Áustria: era uma dos sete filhos do Conde António Ledóchowski, nascido na Polónia, e da Condessa suíça, Josefina Salis-Zizers, sua segunda esposa. Teve uma educação muito esmerada e aristocrática, tornando-se uma requintada fidalga, muito culta e fluente em várias línguas.

 O Seu ambiente familiar era muito piedoso: o seu irmão Vladimir tornar-se-ia, mais tarde, Superior-Geral dos Jesuítas; a sua irmã Júlia – Irmã Maria Úrsula, após os seus votos - foi canonizada pelo João Paulo II, em 2003.

Maria Teresa cresceu em paz, na sua família numerosa e rica. Com um talento notável para a música e a pintura, frequentou aulas com o tutor beneditino dos seus irmãos mais velhos.

Em 1882, mudou-se, com os seus pais, para Lipnica, próximo de Cracóvia, na Polónia, onde continuou a cultivar as belas artes e a letras, tendo estudado na Congregação Mariana das Damas Inglesas.

A semente da vocação foi plantada; mas foi a dor que a fez germinar.

Aos vinte e dois anos, em 1885, para não ser um peso para a sua família, que enfrentava dificuldades económicas, com o consentimento do tio, o Cardeal Miecislao Ledóchowski, foi nomeada dama de honor da Grã-Duquesa da Toscana, Alicia de Bourbon e Parma, que tinha residência na corte austríaca, no palácio imperial de Salzburgo. A Grã-Duquesa não dispensava a sua presença alegre e brilhante, e a estimava muito.

Todo o tempo que permaneceu na corte, embora tendo que tomar parte em festas, bailes e caçadas, manteve um comportamento sério; frequentava a Santa Missa diariamente e comungava com frequência.

Contraiu varíola e também foi atacada na rua. Foi então que ouviu a voz do Senhor ressoar dentro de si. Assim que se recuperou, consagrou-se com o voto de castidade e tornou-se terciária franciscana, aprofundando a sua devoção à Paixão do Senhor. Mas isso não foi suficiente. Um dia, conheceu duas Irmãs Missionárias Franciscanas de Maria que andavam a tentar arranjar fundos para financiar as suas missões, na Índia.

Ao ler uma palestra do Cardeal Carlos Lavigerie, fundador dos Padres Brancos para a evangelização da África, sentiu-se iluminada pelo Espírito e decidiu dedicar a sua vida à abolição da escravatura, que ainda existia no continente: isto tornou-se a sua grande missão.

Começou, imediatamente, fundando quatro comitês anti esclavagistas, em quatro cidades; depois, compôs uma peça, Zaida, para consciencializar para as terríveis consequências da escravidão, especialmente para as mulheres. Em seguida, fundou duas revistas: L'Eco dell'Africa (O eco da África) para adultos e ‘ll fanciullo nero’ (A criança negra) para jovens, ambas com o objectivo de consciencialização. Dedicou-se com tanto fervor à sua vocação que recebeu o apelido de "a louca das missões", chegando a experimentar certa antipatia, da parte de muitos.

O trabalho de Maria Teresa intensificou-se cada vez mais, e, assim, ela começou a cultivar a ideia de transformar tudo o que havia feito até então num instituto religioso, também para dar maior estabilidade à sua obra. Foi a Roma apresentar a sua ideia ao Papa Leão XIII. Voltou a Salzburgo, onde alugou uma casa e começou a reunir jovens sob a inspiração dos ideais missionários de São Pedro Claver. [Pedro Claver nasceu em Verdú, na Espanha, no ano de 1580. Fez os estudos de Letras e Artes na Universidade de Barcelona e, em 1602, entrou na Companhia de Jesus. Na sua vocação missionária exerceu notável influência santo Afonso Rodriguez, porteiro do Colégio de Maiorca. Ordenado presbítero, em 1616, na missão da Colômbia, aí exerceu até à morte o apostolado entre os escravos negros, conforme o voto a que se tinha obrigado de ser «escravo dos negros para sempre». Debilitadas as forças, morreu em Cartagena, na Colômbia, no dia 8 de Setembro de 1654. Foi canonizado, pelo Papa Leão XIII, no dia 15 de Janeiro de 1888, em Roma]. Em 1894, fundou a Congregação das Missionárias de São Pedro Claver.

Em 1897, o Bispo da Diocese aprovou o Instituto. A congregação, finalmente, tinha um objectivo: apoiar os missionários em África, financeira e espiritualmente, por meio da oração e da Adoração Eucarística. Em 1910, recebeu a aprovação da Santa Sé.

Maria Teresa continuou, incansavelmente, as suas viagens; fundou novas casas e supervisionou a educação das noviças. Em 1921, contraiu malária, doença que acabou por levá-la à morte.

Faleceu no dia 6 de Julho de 1922,

Mais de oito mil cartas suas sobreviveram, escritas em polaco, italiano, francês, inglês e alemão. Ela foi beatificada por Paulo VI, mo dia 18 de Outubro de 1975.

A sua memória litúrgica é celebrada no dia 6 de Julho.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 

- XIII DOMINGO COMUM

 

“…Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
«Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,
não é digno de Mim;
e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,
não é digno de Mim.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não é digno de Mim.
Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;
e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Quem vos recebe, a Mim recebe;
e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou.
Quem recebe um profeta por ele ser profeta,
receberá a recompensa de profeta;
e quem recebe um justo por ele ser justo,
receberá a recompensa de justo.
E se alguém der de beber,
nem que seja um copo de água fresca,
a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,
em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa»...” (
cf. Mateus 10, 37-42)



PALAVRA DO PAPA LEÃO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 24 de Junho de 2026

Estimados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
 
Continuamos as catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II, de modo particular a respeito da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC) sobre a Liturgia.
Quando Santo Agostinho quer explicar o mistério do Corpo de Cristo aos recém-baPtizados, retoma a passagem de São Paulo que ouvimos: «Vós sois o corpo de Cristo e, cada um segundo a sua parte, os seus membros» (1 Cor 12, 27). E acrescenta: «É o vosso mistério que recebeis. Àquilo que sois, respondeis: Amém, e a vossa resposta é como a vossa assinatura. Diz-se: “Corpo de Cristo”, e vós respondeis: “Amém”. Sede, pois, membros do Corpo de Cristo, para que o vosso amém seja verdadeiro. […] Sede o que vedes e recebei o que sois» (Sermão 272: PL 38, 1247).
Imediatamente, depois de ter evocado a Última Ceia de Jesus, a Constituição sobre a Liturgia fala da Eucaristia com estas conotações agostinianas. Para os cristãos, participar na mesa do Senhor significa, realmente, «ser instruído pela Palavra de Deus, alimentar-se à mesa do Corpo do Senhor, dar graças a Deus» (cf. SC, 48). É recebendo-o na sua Palavra e na Eucaristia que nos tornamos aquilo que recebemos. Tornamo-nos o Corpo cuja Cabeça é Cristo ressuscitado, sentado à direita do Pai (cf. Cl 1, 18), que nos prepara um lugar nos céus (cf. Jo 14, 3): assim, a Eucaristia é o sacramento do Reino que vem. É o Pão do caminho, que nos conduz rumo à Pátria celestial, até ao dia bem-aventurado em que «Deus for tudo em todos» (cf. 1 Cor 15, 28).
 
A assembleia litúrgica oferece o Sacrifício «não só pelas mãos do sacerdote, mas juntamente com ele» (SC, 48). Nesta perspectiva, a Eucaristia é a forma do sacrifício espiritual dos cristãos (cf. Hb 13, 16; Rm 12, 1), enquanto caminho da união com Deus e da união recíproca. Participando nela, eles aprendem «a oferecer-se a si mesmos e, dia após dia, por Cristo mediador, progredir na unidade com Deus e entre si» (cf. ibid.). Assim, incorporando-nos a Cristo, a Eucaristia ensina-nos a adoptar o estilo de vida do próprio Senhor Jesus, marcado pela doação gratuita de si. Por isso, esta doação faz-nos entrar na dinâmica da unidade, que oferece um poderoso antídoto contra os fermentos de divisão que minam o nosso mundo, as nossas comunidades, as nossas famílias, o nosso coração (cf. SC, 47).
Caríssimos, quando participamos na Eucaristia, somos convidados a ouvir a Palavra de Deus e a alimentar-nos à mesa do Senhor, onde Ele próprio se oferece ao Pai. Estas duas partes da Missa, a Liturgia da Palavra e a Liturgia eucarística, «estão tão intimamente ligadas entre si [...] que formam um só acto de culto» (SC, 56).
No que se refere à Palavra, é preciso recordar que não se trata apenas de adquirir um conhecimento intelectual das Escrituras, mas de receber a Palavra «viva e eficaz» (Hb 4, 12), dirigida por Deus a todos e, ao mesmo tempo, a cada um; Palavra que nutre e alimenta com o Pão eucarístico, levando-nos a passar da decadência do pecado para a vida nova em Cristo. «A Eucaristia abre-nos à inteligência da Sagrada Escritura, assim como esta, por sua vez, ilumina e explica o Mistério eucarístico» (Bento XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, 55).
O Concílio Ecuménico Vaticano II pediu que se abrissem mais amplamente os tesouros da Bíblia, a fim de oferecer aos fiéis, com maior abundância, a mesa da Palavra de Deus (cf. SC, 51). A reforma litúrgica traduziu este pedido naquele tesouro que é o Leccionário, ou seja, o livro que reúne todas as Leituras bíblicas para as celebrações litúrgicas. Esta amplitude inspirou-se na fonte mais pura da Tradição viva, que une a fidelidade à tradição, com a abertura a um progresso legítimo (cf. SC, 23).
O início do capítulo II da Constituição sobre a Liturgia está repleto de referências ao grande rio da Tradição, que vai desde os Padres da Igreja até aos nossos dias. Cito: «O nosso Salvador instituiu, na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar, pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua amada esposa, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura» (SC, 47).
Caros irmãos e irmãs, bebamos com fé desta nascente de vida divina, deixando-nos transformar pelo mistério que celebramos. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 88

Refrão: Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor
e para sempre proclamarei a sua fidelidade.
Vós dissestes: “A bondade está estabelecida para sempre”,
no céu permanece firme a vossa fidelidade.

Feliz do povo que sabe aclamar-Vos
e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto.
Todos os dias aclama o vosso nome
e se gloria com a vossa justiça.

Vós sois a sua força,
com o vosso favor se exalta a nossa valentia.
Do Senhor é o nosso escudo
e do Santo de Israel o nosso rei.


SANTOS POPULARES

 


SÃO PIER GIORGIO (Pedro Jorge) FRASSATI
 
Nasceu em Turim, Itália, no dia 6 de Abril de 1901, numa das famílias mais importantes e mais influentes da cidade. Era filho de Alfredo Frassati e de Adelaide Ametis, uma família abastada, dona do jornal ‘La Stampa’. [em português "A Prensa"; é um jornal diário italiano, com sede em Turim. É um dos jornais de referência em Itália com uma tiragem de mais de 400.000 exemplares. O jornal foi fundado por Vittorio Bersezio, jornalista e romancista, em Fevereiro de 1867, com o nome ‘Gazzetta Piemontese’. Em 1895, o jornal foi comprado e editado por Alfredo Frassati, pai de Pier Giorgio Frassati, que lhe deu o seu nome actual, uma nova perspectiva informativa e uma dimensão nacional]
Recebeu a sua educação inicial, em casa; depois, frequentou a escola pública Massimo D'Azeglio. Aos 10 anos, recebeu a Primeira Comunhão, juntamente com a sua irmã Luciana, na capela da Congregação das Irmãs Auxiliadoras das Almas do Purgatório. No verão seguinte, se inscreveu-se na Associação dos Pequenos Rosarianti. Durante a sua formação, passou vários anos no Instituto Social, administrado pelos jesuítas, onde entrou no Apostolado da Oração e na Liga Eucarística. A sua fé profunda era alimentada pela Eucaristia diária, pela oração e pela confissão frequente.
No Outono de 1918, após concluir o ensino médio, matriculou-se na Faculdade de Engenharia Industrial Mecânica, com especialização em Engenharia de Minas, na Real Universidade Politécnica de Turim.
O seu nome aparece entre os inscritos na Sociedade de São Vicente, do Beato Cottolengo, que reunia alguns ex-alunos do Instituto Social. Alegre e extrovertido, viveu os valores da amizade e da proximidade com todos, na comunidade universitária, sem medo de viver a sua fé.
Foi membro zeloso e activo da Federação Universitária Católica Italiana. Tornou-se membro do Centro estudantil católico Cesare Balbo e passou a fazer parte, também, da Conferência de São Vicente de Paulo, que havia surgido no seu interior. Dedicava a maior parte do seu tempo livre a visitar famílias pobres e a partilhar o seu dinheiro para ajudar os mais desfavorecidos. Também passou a fazer parte das Milícias de Maria, na sua paróquia, em Crocetta, e participou da secção ‘Jovens Adoradores noturnos Universitários’.
A actividade que viveu com maior amor e dedicação foi o seu compromisso com a Juventude Católica, que, mais tarde, se tornou a Acção Católica Italiana.
No dia 28 de Maio de 1922, recebeu o hábito da Ordem Terceira Dominicana, sob o nome Fra Girolamo (Frei Jerónimo).
Durante os anos do fascismo, enfrentou dificuldades, devido ao seu envolvimento em associações católicas e nas fileiras do Partido Popular, no qual se filiou aos 19 anos.
Apaixonado pelo montanhismo, desde a infância, manteve esse passatempo durante toda a sua breve vida, tendo-se filiado no Club Alpino Italiano e na Associação ‘Giovane Montagna’.
Juntamente com alguns dos seus amigos, fundou a Società dei Tipi Loschi (Sociedade dos Tipos Sombrios, em tradução livre), onde os momentos de diversão se transformavam em oportunidades para construir fraternidade e compartilhar a fé.
Certa vez, apaixonou-se por uma jovem mas, movido por um incomum senso de modéstia e por não querer magoá-la, nunca lhe declarou os seus sentimentos.
No final de Junho de 1925, desenvolveu sintomas graves de poliomielite, que, em poucos dias, o levaram à perda de apetite e à paralisia. Após receber os sacramentos, entrou em coma e faleceu no dia 4 de Julho de 1925. Tinha 24 anos.
Uma grande multidão compareceu no seu funeral, manifestando a sua tristeza e a sua admiração, pelo testemunho de vida e de fé que espalhou à sua volta.
Pier Giorgio foi sepultado na Catedral de Turim.
Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, no dia 20 de Maio de 1990, na Praça de São Pedro. Na homilia da missa, o Papa disse: «… “No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça “ ( 1 Pedro 3, 15).
No nosso século, Pier Giorgio Frassati, a quem, hoje, tenho a alegria de proclamar beato, em nome da Igreja, encarnou na sua própria vida estas palavras de São Pedro. O poder do Espírito da verdade, unido a Cristo, fez dele uma testemunha moderna da esperança que brota do Evangelho e da graça salvadora que opera no coração humano. Ele tornou-se, assim, a testemunha viva e o defensor corajoso dessa esperança, em favor dos jovens cristãos do século XX.
A fé e a caridade, as verdadeiras forças motrizes da sua existência, tornaram-no activo e diligente no ambiente em que vivia, na sua família, na escola, na universidade e na sociedade; transformaram-no num apóstolo de Cristo alegre e entusiasmado, um seguidor apaixonado da sua mensagem e da sua caridade.
O segredo do seu zelo apostólico e da sua santidade reside no caminho ascético e espiritual que trilhou; na oração, na adoração perseverante, mesmo à noite, do Santíssimo Sacramento; na sua sede da palavra de Deus, examinada nos textos bíblicos; na serena aceitação das dificuldades da vida, inclusive as familiares; na castidade vivida como uma disciplina alegre e intransigente; na sua predileção diária pelo silêncio e pela "normalidade" da existência.
É precisamente nesses factores que descobrimos a profunda fonte da sua vitalidade espiritual. De facto, é através da Eucaristia que Cristo comunica o seu Espírito; é através da escuta da sua palavra que cresce a disposição para acolher os outros, e é, também, através da entrega orante à vontade de Deus que amadurecem as grandes decisões da vida. Somente adorando a Deus, presente nos seus corações, os baptizados podem responder àqueles que “perguntam a razão da esperança” que há neles. E o jovem Frassati sabe disso, experimenta isso, vive isso. Na sua vida, a fé une-se à caridade: firme na fé e actuante na caridade, pois a fé sem obras é morta.
Certamente, à primeira vista, o estilo de Pier Giorgio Frassati, um jovem moderno e cheio de vida, não apresenta nada de extraordinário. Mas é precisamente essa originalidade da sua virtude que convida à reflexão e inspira imitação. Nele, a fé e os acontecimentos do dia-a-dia fundem-se harmoniosamente, de tal forma que a adesão ao Evangelho traduz-se numa atenção amorosa aos pobres e necessitados, num crescendo contínuo até aos últimos dias da doença que o levaria à morte. O seu gosto pela beleza e pela arte, a sua paixão pelo desporto e pelas montanhas, e a sua atenção aos problemas da sociedade não o impedem de manter uma relação constante com o Absoluto.
Completamente imerso no mistério de Deus e inteiramente dedicado ao serviço constante dos outros: assim se resume a sua vida terrena! A sua vocação de leigo cristão realizou-se nos seus numerosos compromissos associativos e políticos, numa sociedade em turbulência, indiferente e, por vezes, hostil à Igreja. Com este espírito, Pier Giorgio pôde impulsionar os diversos movimentos católicos aos quais se juntou com entusiasmo, mas sobretudo à Acção Católica, bem como à FUCI, onde encontrou um verdadeiro campo de formação cristã e terreno fértil para o seu apostolado. Na Acção Católica, viveu a sua vocação cristã com alegria e orgulho e dedicou-se a amar Jesus e a ver n’Ele os irmãos que encontrava pelo caminho ou que procurava em lugares de sofrimento, marginalização e abandono, para os fazer sentir o calor da sua solidariedade humana e o consolo sobrenatural da fé em Cristo.
Ele morreu jovem, no final de uma vida curta, mas extraordinariamente rica em frutos espirituais, partindo «para sua verdadeira pátria, para cantar os louvores de Deus» …Foi canonizado pelo Papa Leão XIV, no dia 7 de Setembro de 2025. A propósito de Pier Giorgio, o Papa disse: “…Pier Giorgio encontrou o Senhor através da escola e dos grupos eclesiais - a Acção Católica, as Conferências Vicentinas, a FUCI, a Ordem Terceira Dominicana - e testemunhou-O com a sua alegria de viver e de ser cristão na oração, na amizade, na caridade. A tal ponto que, ao vê-lo circular pelas ruas de Turim com carrinhos cheios de ajuda para os pobres, os amigos o rebaptizaram de “Empresa de Transportes Frassati”! Ainda hoje, a vida de Pier Giorgio representa uma luz para a espiritualidade leiga. Para ele, a fé não era uma devoção privada: impulsionado pela força do Evangelho e pela pertença a associações eclesiais, comprometeu-se generosamente na sociedade, deu o seu contributo à vida política, dedicou-se com ardor ao serviço dos pobres….
Tinha uma grande devoção pelos santos e pela Virgem Maria, e praticava generosamente a caridade. Pier Giorgio dizia: «Em torno dos pobres e dos doentes, vejo uma luz que nós não temos». Definia a caridade como «o fundamento da nossa religião» e praticava-a sobretudo através de pequenos gestos concretos, muitas vezes ocultos, vivendo aquela que o Papa Francisco chamou de «a santidade “ao pé da porta”» (Exort. ap. Gaudete et exsultate, 7).
Quando a doença o atingiu e ceifou a sua jovem vida, nem mesmo isso o impediu de amar, de se oferecer a Deus, de bendizê-Lo e de orar por si próprio e por todos. Um dia, Pier Giorgio disse: «O dia da morte será o dia mais bonito da minha vida»; [4] e na última foto, que o retrata a escalar uma montanha do Val di Lanzo, com o rosto voltado para a meta da sua escalada, ele escreveu: «Para cima» ….”
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 4 de Julho.
 

terça-feira, 23 de junho de 2026

EM DESTAQUE

 




As inscrições do 1º ano de catequese na igreja matriz de Santa Maria da Feira realizam-se no dia 27 junho 2026 das 16 às 18 horas contamos com todos. Jesus precisa de vós.

Será necessário:

Cartão de cidadão ou boletim de nascimento.

Data e paroquia onde a criança foi baptizada

 

domingo, 21 de junho de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XII DOMINGO COMUM

 

“…Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
“Não tenhais medo dos homens,
pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se,
nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia;
e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda?
E nem um deles cairá por terra
sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais:
valeis muito mais do que os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim
diante dos homens
também Eu Me declararei por ele
diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens,
também Eu o negarei
diante do meu Pai que está nos Céus”… (
cf. Mateus 10, 26-33)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro – Roma, no dia 17 de Junho de 2026

Estimados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Hoje, desejo propor algumas reflexões sobre a Viagem Apostólica que na semana passada realizei à Espanha, visitando Madrid, Barcelona, a Abadia de Montserrat e as Ilhas Canárias.
Após a longa viagem a quatro países africanos, desta vez encontrei-me imerso num país europeu de antiga e riquíssima tradição católica. E ficou evidente que, na Espanha de hoje, que passou por notáveis mudanças sociais e culturais, o Papa foi acolhido em toda a parte com entusiasmo e abertura à escuta. Por isto dou graças a Deus e a todo o povo espanhol, ao Rei e às Autoridades civis, aos Bispos e às Comunidades eclesiais.
O povo de Deus confortou-me muito com a manifestação festiva da sua fé e carinho. Por minha vez, confirmei os fiéis e, como Bispo de Roma, encorajei-os a superar todas as formas de divisão e de oposição, cultivando sempre a comunhão, o diálogo, a unidade na diversidade. Este é o serviço próprio do Sucessor de Pedro, serviço que nas viagens apostólicas encontra uma expressão específica, sempre adaptada às situações eclesiais e sociais dos países visitados.
No caso da Espanha, pude constatar com alegria como o povo, de todas as idades e condições, aguardava a visita do Papa: em toda a parte encontrei multidões que me receberam com grande afeto. Isto não era dado por certo e merece uma reflexão. Naturalmente, tal participação expressa em primeiro lugar, como eu dizia, a fé do povo espanhol; ao mesmo tempo, acho que manifesta a necessidade generalizada de se unir sobre um alicerce verdadeiro e profundo, que não seja ideológico nem de interesse parcial. Aquele fundamento que, em última análise, só Cristo pode garantir e que o Evangelho, através das necessárias “inculturações”, pode transmitir na vida dos povos. Pode fazê-lo porque a sua mensagem responde plenamente a ambas estas exigências: a busca da verdade e a sede de justiça.
Em Madrid e Barcelona, reunimo-nos nas grandes Catedrais, assim como nos estádios ultramodernos. Recitamos o santo Rosário na Abadia de Montserrat. Pudemos celebrar na Sagrada Família, símbolo majestoso, sinfonia de pedra e luz que fala a todos do mistério cristão. Este encontro de antigo e moderno, de tradição católica e cultura contemporânea, fez-me sentir pessoalmente a índole própria da Europa, a sua riqueza inestimável, como realidade atual, não ultrapassada. Trata-se de uma herança a preservar com cuidado, para a poder investir no presente global com os seus desafios epocais: a paz, a ecologia integral, o desenvolvimento equitativo e sustentável, o respeito pela dignidade humana. São desafios que já o Concílio Vaticano II tinha reconhecido claramente e que o Magistério sucessivo voltou a abordar, até à minha recente Encíclica Magnifica humanitas, que visa tutelar a pessoa humana na era da inteligência artificial.
Ao longo dos vários encontros, senti a necessidade de ouvir na voz do Papa o Evangelho da esperança para a nossa humanidade de hoje, duramente provada pelas consequências negativas de um modelo de desenvolvimento enganador. Esta necessidade, manifestada nos numerosos testemunhos que pude ouvir — testemunhos às vezes comoventes, por vezes edificantes — reconheci-a também e sobretudo no rosto das crianças e dos pobres que encontrei: do menino que, na paróquia, me leu a sua carta; de algumas vítimas de abuso, que pedem para ser ouvidas; dos presos que me esperavam na cadeia; dos jovens cheios de inquietude e de projetos; dos migrantes nos centros de primeiro acolhimento nas Ilhas Canárias.
Foi precisamente lá, nas Ilhas Canárias, última etapa do nosso itinerário, que me ofereceram uma chave de leitura global. Ela foi-me oferecida, por um lado, pela própria posição geográfica daquele arquipélago; e, por outro, pela realidade de uma Igreja local que acolhe um grande número de migrantes forçados, provenientes principalmente da África. Sabemos que o fenómeno migratório é complexo e exige planos de ação orgânicos e concertados. Mas esta chave de leitura abre uma perspetiva diferente e mais ampla: faz-nos compreender que somos chamados a reler o Evangelho no mundo de hoje, intercambiando os dons das nossas respetivas culturas e, em particular, os frutos nelas produzidos pela fecundidade da mensagem de Cristo. E um destes frutos é precisamente o diálogo entre as pessoas e entre os povos, o encontro em espírito de fraternidade, que permite descobrir e apreciar reciprocamente os valores dos quais o outro é portador. Este percurso não é fácil, exige boa vontade e a ajuda de Deus, mas é o caminho que leva à civilização do amor.
Caros irmãos e irmãs, o lema desta Viagem Apostólica foi “Alzad la mirada”, “Elevai o olhar!” (cf. Jo 4, 35). São palavras de Jesus, dirigidas aos seus primeiros discípulos, para lhes ensinar a ver nas pessoas e nas multidões o desejo de vida, verdade, plenitude. É a mim, em primeiro lugar, que o Senhor repete essas palavras e, com a sua graça, experimentei-as inclusive durante a Viagem. Hoje gostaria de partilhar convosco este convite: elevemos o olhar! Aprendamos com Jesus a fitar o próximo, as pessoas, o mundo “com o olhar de Deus”, isto é, com amor, respeito e compaixão.
Para concluir, quero agradecer a todos aqueles que rezaram pelo bom êxito desta Viagem Apostólica, de modo especial às comunidades de monjas contemplativas, que na Espanha, graças a Deus, são deveras numerosas. Continuai a rezar para que, pela intercessão da Virgem Maria, as sementes que espalhei deem frutos abundantes. Obrigado! (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 68

Refrão: Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor.

 

Por Vós tenho suportado afrontas,
cobrindo-se meu rosto de confusão.
Tornei-me um estranho para os meus irmãos,
um desconhecido para a minha família.
Devorou-me o zelo pela vossa casa
e recaíram sobre mim os insultos contra Vós.

 

A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,
no momento propício, meu Deus.
Pela vossa grande bondade, respondei-me,
em prova da vossa salvação.
Tirai-me do lamaçal, para que não me afunde,
livrai-me dos que me odeiam e do abismo das águas.

 

Vós, humildes, olhai e alegrai-vos,
buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.
O Senhor ouve os pobres
e não despreza os cativos.
Louvem-n’O o céu e a terra,
os mares e quanto neles se move.

 


SANTOS POPULARES



SÃO JOÃO FISHER
 
"Povo cristão, estou aqui para morrer pela minha fé na Santa Igreja Católica de Cristo." Estas foram as últimas palavras de João (John) Fisher, antes de ser decapitado. Era o dia 22 de Junho de 1535, e o Bispo de Rochester, após reiterar, três vezes, a sua rejeição à submissão do clero ao Rei da Inglaterra, morreu como mártir, tendo sido "o homem mais erudito e o bispo mais santo" da sua época, como o chamou Erasmo de Roterdão, um amigo muito próximo.
João nasceu numa rica família de Yorkshire e demonstrou, desde cedo, uma inteligência extraordinária. Aos 14 anos, entrou na Universidade de Cambridge e formou-se em teologia. Aos 22 anos, foi ordenado sacerdote e tornou-se confessor pessoal e capelão da Condessa Margarida Beaufort, a futura avó de Henrique VIII. Juntos, fundaram o Saint John's College e o Christ's College, do qual ele se tornou vice-reitor, impondo o estudo de latim, grego e hebraico, as línguas da Bíblia, para que os alunos se familiarizassem melhor com as Escrituras. Grande latinista, aos 48 anos começou a estudar grego e, aos 50, hebraico.
Em 1504, João foi nomeado bispo de Rochester, uma das menores e mais pobres dioceses do país, da qual nunca quis sair - apesar de ter tido condições para tal - e que sempre chamaria "minha pobre noiva". Apoiado pela sua profunda cultura, em 1523 lançou-se na luta contra a Reforma Luterana, que também se espalhava pela Inglaterra. Foram esses os anos em que apoiou o rei na defesa da primazia da Igreja de Roma e publicou ‘De veritate corporis et sanguinis Christi in Eucharistia’, obra que lhe valeu o apelido de "defensor da fé".
O seu relacionamento com Henrique VIII deteriorou-se quando o Rei se divorciou de Catarina de Aragão - de quem João era confessor - para se casar com Ana Bolena; o Papa recusou-se a conceder-lhe a nulidade do casamento anterior. O rei, então, procurou a ajuda do Bispo de Rochester, que, no entanto, se recusou a desafiar o Pontífice Romano. O soberano ficou irritado e ordenou ao prelado que jurasse fidelidade ao rei. A resposta de João foi clara: "Apenas até onde a lei de Cristo permitir". Essa foi a ruptura. Em 1534, Henrique VIII preparou o ‘Acto de Supremacia’, que todos os bispos eram obrigados a assinar e ao qual deveriam submeter-se: foi, na prática, o nascimento da Igreja Anglicana, que reconhecia o rei como a suprema autoridade religiosa, em vez do Papa. João recusou-se e, em 13 de Abril, foi preso e encarcerado na Torre de Londres. A sé episcopal de Rochester foi declarada vacante.
Durante o seu encarceramento e o julgamento em que seria condenado à morte, João reencontrou, na prisão, um velho amigo: Tomás Moro, um jurista leigo também condenado à morte por não jurar obediência ao rei. Eles não estão na mesma cela, mas naqueles dias apoiam-se mutuamente, ajudando-se e consolando-se um ao outro, compartilhando o pouco que têm. Enquanto isso, em Roma, o Papa Paulo II decide nomear João cardeal numa tentativa desesperada de o salvar do martírio, mas Henrique VIII recusa-se a libertá-lo e enviá-lo a Roma. Assim, chega o dia 22 de Junho, quando João é acordado pelos guardas com a notícia de que a sua execução está marcada para as 10 horas, daquele mesmo dia. No cadafalso, antes de morrer, ele nega a sua lealdade a Henrique VIII, mais três vezes. Tomás Moro segui-lo-á alguns dias depois: por essa razão, a Igreja Católica institui a memória dos dois santos, no mesmo dia. Eles foram beatificados, pelo Papa Leão XIII, juntamente com outros 54 mártires ingleses. Foram canonizados pelo Papa Pio XI. Os eus restos mortais repousam na capela de São Pedro in Vincoli da Torre. Ambos são agora venerados, também, pela Igreja Anglicana.
A memória litúrgica de São João Fisher, bispo e mártir, é celebrada no dia 22 de Junho.