PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Se o teu irmão te ofender…” (cf. Mateus 18, 15) O Evangelho deste Domingo (cf. Mt 18, 15-20) é tirado do quarto discurso de Jesus na narração de Mateus, conhecido como sermão “comunitário” ou “eclesial”. O trecho de hoje fala da correcção fraterna, e convida-nos a reflectir sobre a dupla dimensão da existência cristã: a dimensão comunitária, que exige a tutela da comunhão, ou seja, da unidade da Igreja; e a dimensão pessoal, que requer atenção e respeito por cada consciência individual. Para corrigir o irmão que cometeu um erro, Jesus sugere uma pedagogia de recuperação. E a pedagogia de Jesus é sempre uma pedagogia de recuperação; Ele procura sempre recuperar, salvar. E esta pedagogia da recuperação articula-se em três etapas. Primeiro diz: «repreende-o a sós» (v. 15), ou seja, não ponhas o seu pecado na praça. É uma questão de se dirigir ao irmão com discrição, não para o julgar, mas para o ajudar a dar-se conta do que fez. Quantas vezes já fizemos esta experiência: alguém vem e diz-nos: “Mas, ouve, erraste nisto. Devias mudar um pouco naquilo”. Talvez no início nos zanguemos, mas depois agradecemos, porque é um gesto de fraternidade, de comunhão, de ajuda, de recuperação. E não é fácil pôr em prática este ensinamento de Jesus, por várias razões. Há o receio de que o irmão ou irmã reaja mal; por vezes não se tem muita confidência com ele ou com ela... E outros motivos. Mas todas as vezes que o fizemos, sentimos que era precisamente o caminho do Senhor. No entanto, pode acontecer que, apesar das minhas boas intenções, a primeira intervenção falhe. Neste caso, é bom não desistir e dizer: “Mas que se desenrasque, eu lavo as mãos”. Não, isso não é cristão. Não desistas, mas recorre ao apoio de algum outro irmão ou irmã. Jesus diz: «Se não der ouvidos, toma contigo ainda uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas» (v. 16). Este é um preceito da Lei Moisaica (cf. Dt 19, 15). Embora possa parecer contra o acusado, na realidade serviu para o proteger de falsos acusadores. Mas Jesus vai mais longe: as duas testemunhas são obrigadas a não acusar nem julgar, mas a ajudar. “Mas vamos concordar, tu e eu, vamos falar com este, com este que está a cometer um erro, que está a fazer má figura. Vamos como irmãos e falemos com ele”. Esta é a atitude de recuperação que Jesus quer de nós. Jesus, de facto, calcula que esta abordagem - a segunda abordagem - com testemunhas também possa falhar, ao contrário da Lei Moisaica, para a qual o testemunho de dois ou três é suficiente para a condenação. Na verdade, mesmo o amor de dois ou três irmãos pode ser insuficiente, porque este ou esta são teimosos. Neste caso - acrescenta Jesus -, «comunica-o à Igreja» (v. 17), ou seja, à comunidade. Em algumas situações, toda a comunidade está envolvida. Há coisas que não podem deixar os outros irmãos indiferentes: é necessário um amor maior para recuperar o irmão. Mas, por vezes, até isto pode não ser suficiente. Jesus diz: «E se ele se recusar a atender à própria Igreja seja para ti como um pagão ou um publicano» (ibidem). Esta expressão, aparentemente tão desdenhosa, convida-nos, de facto, a reconduzir o irmão para as mãos de Deus: só o Pai poderá demonstrar um amor maior do que o de todos os irmãos juntos. Este ensinamento de Jesus ajuda-nos muito, porque - pensemos num exemplo - quando vemos um erro, um defeito, um deslize, naquele irmão ou irmã, geralmente a primeira coisa que fazemos é ir e dizer aos outros, para coscuvilhar. E a tagarelice fecha o coração à comunidade, fecha à unidade da Igreja. O grande bisbilhoteiro é o diabo, que está sempre a dizer coisas negativas dos outros, porque é o mentiroso que procura desunir a Igreja, para afastar os irmãos e não fazer comunidade. Por favor, irmãos e irmãs, façamos um esforço para não bisbilhotar. Tagarelar é uma peste pior que o Covid! Vamos fazer um esforço: nenhuma conversa fiada. É o amor de Jesus, que acolheu publicanos e pagãos, escandalizando as pessoas bem-pensantes da época. Não se trata, portanto, de uma condenação sem apelo, mas do reconhecimento de que, por vezes, as nossas tentativas humanas podem falhar, e que só estando diante de Deus é possível pôr o irmão perante a sua consciência e a responsabilidade pelas suas acções. Se isto não correr bem, silêncio e oração pelo irmão e irmã que estão errados, mas nunca a tagarelice. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 6 de Setembro de 2020, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

sábado, 5 de setembro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XXIII DOMINGO COMUM

 

“…Eis o que diz o Senhor:
«Filho do homem,
coloquei-te como sentinela na casa de Israel.
Quando ouvires a palavra da minha boca,
deves avisá-los da minha parte.
Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás-de morrer’,
e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho,
o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade,
mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte.
Se tu, porém, avisares o ímpio,
para que se converta do seu caminho,
e ele não se converter,
morrerá nos seus pecados,
mas tu salvarás a tua vida»…”  
(cf. Ezequiel 33, 7-9)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 2 de Setembro de 2026
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
 
Com o encontro de hoje, começamos a reflectir sobre a Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’, com a qual o Concílio Vaticano II pretendeu aprofundar um tema fundamental, ou seja, a relação da Igreja com o mundo contemporâneo. São João XXIII, já no Discurso inaugural, de 11 de Outubro de 1962, quisera discordar dos «profetas da desventura» que, ardorosos «sem dúvida no zelo […] vão repetindo que a nossa época, em comparação com as passadas, foi piorando; e portam-se como quem nada aprendeu da história» (Discurso Gaudet Mater Ecclesia, 11 de Outubro de 1962, 4.2). Daqui decorre a tarefa confiada aos Padres conciliares: «No presente momento histórico, a Providência está a levar-nos para uma nova ordem de relações humanas, que, por obra dos homens e, o mais das vezes, para além do que eles esperam, se dirigem para o cumprimento de desígnios superiores e inesperados; e tudo, mesmo as adversidades humanas, dispõe para o maior bem da Igreja» (Gaudet Mater Ecclesia, 4.4).
Três anos depois, a promulgação da ‘Gaudium et spes’ reconhecia, nesse discernimento, um elemento essencial da natureza da Igreja, descrevendo, como constitutiva, a sua índole pastoral: eis por que a definição de “Constituição pastoral”. Não se trata de um optimismo ingénuo, mas de uma renovada fidelidade ao Mistério de Cristo que, encarnando-se, escolhe partilhar a nossa vida: Ele tornou-se «em tudo» semelhante «aos Seus irmãos» (Heb 2, 17; cf. 4, 15) e assumiu sobre si as consequências do pecado, morrendo «em resgate por todos» (1 Tm 2, 6). Esta partilha com a humanidade é o caminho que Cristo pede à Igreja; por isso, a Constituição conciliar ‘Gaudium et spes’ abre com a declaração de que a Igreja sente, como suas, «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem» (GS 1).
É uma partilha que nos chama a sair de toda a passividade e indiferença perante os acontecimentos, a história e a vida das pessoas, sobretudo perante a mudança rápida e profunda que, hoje, experimentamos. Não é possível permanecer espectadores desinteressados; é necessário, pelo contrário, escutar com o coração, deixar-se interpelar, deixar-se envolver. Com Cristo e amparados pela força do seu Espírito, os crentes são chamados a assumir as dificuldades dos irmãos, sobretudo daqueles que são esmagados pela injustiça, pela discriminação, pela violência. Com efeito, só na partilha e no empenho é possível chegar a respostas adequadas, sempre sustentados pela certeza de que «os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há-de revelar-se em nós» (Rm 8, 18).
Neste sentido, a proximidade à humanidade abre a uma leitura mais profunda dos acontecimentos e da própria Revelação e, na mesma perspectiva, a ‘Gaudium et spes’ recorda que «é dever da Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho» (GS 4). Esta Constituição conciliar chamou, assim, a Igreja a um permanente compromisso de conversão, para testemunhar que ela não é movida por «nenhuma ambição terrena», mas visa apenas: «continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade; para salvar e não para julgar; para servir e não para ser servido» (GS 3).
De facto, não se trata de uma disposição simplesmente moral. O Papa Francisco recordou-nos que, para a Igreja, «a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. […] Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz, nas suas causas, mas, também, a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles» (Exort. Ap. ‘Evangelii gaudium’, 198).
A partilha cristã compromete a assumir a realidade e, também, a desmascarar as contradições que caracterizam a vida pessoal e social do mundo contemporâneo: por exemplo, um progresso científico e tecnológico, que oferece sempre novas possibilidades, mas apenas a alguns, e que o ser humano nem sempre consegue colocar «ao seu serviço»; ou um conhecimento mais claro das «leis da vida social», acompanhado, porém, de incertezas «quanto à direcção que a esta deve imprimir»; ou, ainda, uma maior disponibilidade de «riquezas, possibilidades e poderio económico» que, infelizmente, hoje, como no tempo do Concílio, deixa «uma imensa parte dos habitantes da terra […] atormentada pela fome e pela miséria» (GS 4); ou, então, uma consciência partilhada de que está em jogo o futuro do planeta e, ao mesmo tempo, a incapacidade de renunciar ao consumo egoísta e à ilusão de que a guerra seja um caminho eficaz para construir a paz.
Num tempo marcado por profundas mudanças, das quais derivam desequilíbrios preocupantes, a Igreja é chamada a servir o ser humano, escutando e acolhendo as interrogações mais profundas do seu coração e os anseios que nele habitam, indicando, em Cristo, «a chave, o centro e o fim de toda a história humana» (GS 10). Por isso, na Igreja, a todos os níveis e em todas as épocas, deve realizar-se a kenosis misericordiosa de Cristo, que «não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-se a Si mesmo tomando a condição de servo, […] feito obediente até à morte e morte de cruz» (Fl 2, 6-8).
Caros irmãos e irmãs, que a alegria e a esperança – gaudium et spes – sejam os traços distintivos de uma Igreja que anuncia e testemunha o Evangelho, fazendo-se próxima das mulheres e dos homens do nosso tempo. (cf. Santa Sé)
 

PARA REZAR

 


- SALMO 94

 

Refrão: Hoje, se escutardes a voz do Senhor,

              não fecheis os vossos corações

 

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso Salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras».


SANTOS POPULARES



BEATO ANTÓNIO GONZÁLEZ ALONSO
 
António González Alonso nasceu no dia 11 de Abril de 1912, em Nembra, na comunidade autónoma das Astúrias, Espanha. Os seus pais, Severino González e Josefa Alonso, tiveram dez filhos, dois dos quais morreram na infância; ele era o oitavo. A família sustentava-se com a agricultura e a criação de gado. O tio paterno de António era frade dominicano e missionário nas Filipinas, um factor que influenciou, profundamente, a sua vocação.
O seu pai, Severino, era o responsável pela Confraria das Almas e membro da Associação de Adoração Eucarística Nocturna, na qual inscreveu todos os seus filhos, à medida que cresciam.
Três deles seguiram os passos do tio e tornaram-se dominicanos: Julio, missionário nas Filipinas; Jesús, missionário no Texas; e Severina, na Congregação das Irmãs Dominicanas da Anunciação, em Gijón.
O jovem António também se sentiu chamado para o mesmo caminho: em 1923, entrou na escola apostólica dominicana (instituição para jovens aspirantes), em La Mejorada, perto de Valladolid, onde o seu irmão Jesús já estudava.
Estudou literatura, até 1927, com excelentes resultados, iniciando, então, o postulantado. Mudou-se para o Convento de São Tomás, em Ávila, onde recebeu o hábito, completou o noviciado e fez a sua profissão temporária.
Contudo, contraiu tuberculose e teve de retornar à sua casa, ainda que temporariamente, para se recuperar. Como a sua saúde não melhorou rapidamente, decidiu, por conselho dos seus médicos e irmãos, abandonar a vida dominicana.
Mesmo assim, permaneceu um bom crente: participava, todos os dias, na celebração da missa, desempenhando a missão de acólito. Continuou a participar na Adoração Nocturna e chegou a dirigir a secção ‘São Tarcísio’, para as crianças e os jovens. Em 1935, decidiu matricular-se na Escola Normal de Oviedo, para frequentar o curso de formação de professores.
No dia 20 de Julho de 1936, apenas quatro dias após o início da Guerra Civil Espanhola, António foi feito prisioneiro, juntamente com o seu irmão Cristóvão. Mais tarde, disse-lhe: "Tenho a oportunidade de entregar minha vida a Deus como mártir; não gostaria de desprezar essa graça. Tu faz o que puderes para continuar a viver e a cuidar dos nossos pais. Do céu, acho que rezarei muito pela nossa família."
Os carcereiros obrigaram-no a destruir alguns símbolos religiosos, incluindo a pintura do Sagrado Coração de Jesus, venerada na igreja paroquial, e a pedra do altar (pedra d’ara: no centro do altar, há uma pequena cavidade, onde se coloca uma pedra, comumente de mármore, denominada “Pedra d’ara”, que contém dentro relíquias de santos mártires, recordando o costume primitivo cristão de celebrar o Santo Sacrifício do Calvário sobre o túmulo dos mártires): ele recusou-se, para não violar a sua consciência.
Deram-lhe então vinte e quatro horas para reconsiderar; caso contrário, matá-lo-iam. Depois desse tempo, ele não mudou de ideia: "Pensei cuidadosamente e cheguei à conclusão de que, em consciência, não posso e não devo destruir esta pintura pelo que ela representa."
No dia 11 de Setembro de 1936, foi tirado da prisão onde se encontrava e levado, de carro, para Moreda. No caminho, passou frente à sua casa, onde a sua mãe estava sentada à porta. Ele gritou para ela: "Adeus, mãe, até nos encontrarmos no céu." Ele disse isso da melhor maneira que pôde, visto que, segundo o depoimento do motorista, a sua língua havia sido cortada porque ele se recusou a jurar.
Foi levado para a cidade de Puerto de San Emiliano, entre Mieres e Sama. O motorista afirmou que não ouviu nenhum tiro; então, é provável que ele tenha sido espancado até à morte e o seu corpo atirado para um poço. O seu corpo nunca foi encontrado, mas presume-se que tenha sido encontrado e enterrado no cemitério de Sama. António tinha 24 anos.
Quando os autores do seu assassinato foram capturados, perguntaram à sua mãe o que gostaria que lhes fizessem. Ela respondeu: "Quero ver-me, com eles e com o meu António, no céu".
A causa da sua beatificação foi unida à de Genaro Fueyo Castañón, pároco de San Jaime Apostolo, em Nembra, que foi assassinado no dia 21 de Outubro de 1936, juntamente com os seus paroquianos Segundo Alonso González e Isidro Fernández Cordero.
No dia 21 de Janeiro de 2016, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que declara as mortes do Padre Genaro, de Segundo, de Isidro e de António como martírio por ódio à fé católica.
A beatificação destes mártires foi celebrada na Catedral de Oviedo, no dia 8 de Outubro de 2016 - a primeira celebração desse tipo, na diocese - presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, em nome do Papa Francisco.
A memória litúrgica do Beato António González Alonso é celebrada no dia 11 de Setembro.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XXII DOMINGO COMUM

 

“…Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus,
que vos ofereçais a vós mesmos
como vítima santa, viva, agradável a Deus,
como culto racional.
Não vos conformeis com este mundo,
mas transformai-vos,
pela renovação espiritual da vossa mente,
para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus,
o que é bom,
o que Lhe é agradável,
o que é perfeito…”  
(cf. Romanos 12, 1-2)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 26 de Agosto de 2026
 
Estimados irmãos e irmãs!
Nesta última catequese sobre a Constituição Sacrosanctum concilium, hoje, desejo reflectir sobre as razões pelas quais os Padres conciliares quiseram promover uma reforma da liturgia. Neste sentido, é esclarecedora a terceira Carta do Concílio que o Cardeal Giovanni Battista Montini, então Arcebispo de Milão, enviou, a 28 de Outubro de 1962, aos fiéis da sua Igreja. A liturgia — escrevia — «é expressão sincera tanto do divino como do humano. É linguagem. É, por um lado, veículo do ensinamento divino e, por outro, voz de diálogo com Deus. É claro que ela não pode renunciar à sua função didática, nem pode deixar de oferecer à fé e à piedade a possibilidade de se manifestar com inteligibilidade espontânea». Impelido por estas convicções, o futuro Papa São Paulo VI afirmava que os fiéis «já não podem, nem devem, continuar a permanecer emudecidos e passivos. A sua presença material não pode concordar com a sua ausência espiritual»
É evidente a consonância destas declarações com aquelas que aparecerão no n. 48, da Constituição conciliar: «A Igreja preocupa-se, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na acção sagrada, consciente, activa e piedosamente, por meio de uma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer - juntamente com o sacerdote, não só pelas mãos dele - a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si». Nestas palavras, sente-se uma renovada consciência do valor da liturgia. Através das acções rituais da Igreja, enquanto se actua o memorial da obra de salvação, é oferecida a possibilidade de viver a verdadeira relação com Deus, entrando em contacto com o acontecimento salvífico. Uma vez que os gestos e as palavras da sagrada liturgia são decisivos para realizar esta experiência, a participação dos fiéis não pode ser passiva.
Colocando no centro aquilo que constitui o coração da experiência eclesial, a reforma conciliar quis fazer resplandecer a liturgia como «fonte primeira da vida divina que nos é comunicada». Desta convicção, nasceu a exigência de tornar a riqueza dos textos bíblicos e das orações mais acessível a todos os fiéis e de tornar a ordem da celebração mais linear do que previsto nos livros litúrgicos, então, em vigor.
Com efeito, sendo uma realidade viva, ao longo dos séculos, a liturgia esteve sempre sujeita a desenvolvimentos e mudanças. O Magistério adaptou as suas formas às exigências das diferentes épocas. Portanto, não surpreende que, até o Concílio Vaticano II, com o máximo respeito pelo acervo da tradição e, precisamente, com o objectivo de o tornar mais acessível, tenha considerado necessária uma revisão dos livros litúrgicos.
O objectivo que os Padres tinham no coração está explicitado no nº 21 da Constituição Sacrosanctum concilium: «A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia. Na verdade, a Liturgia compõe-se de uma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes suscetíveis de modificação, que podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados. Nesta reforma, proceda-se, quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam, com mais clareza, as coisas santas que significam e, quanto possível, o povo cristão possa, mais facilmente, apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária». Remonta à Encíclica Mediator Dei, do Papa Pio XII, a distinção, na liturgia, entre elementos divinos e imutáveis, e elementos humanos que, por sua vez, «podem sofrer várias modificações, aprovadas pela sagrada Hierarquia, assistida pelo Espírito Santo, de acordo com as exigências dos tempos, das realidades e das almas» (Acta Apostolicae Sedis 39, 1947, 541-542).
De resto, o desejo de uma “reforma geral” não nasceu de repente, mas manifestou-se na acção dos Papas que se sucederam, desde o início do século XX, em sintonia com as instâncias do Movimento litúrgico. A afirmação da necessidade de que os fiéis não assistissem às celebrações «como estranhos, nem como espectadores mudos» já tinha sido retomada pela Constituição apostólica Divini cultus, do Papa Pio XI. Além disso, podem ser recordadas as intervenções de Pio XII sobre a ordem dos ritos da Semana Santa, que ele reinseriu nas horas correspondentes aos acontecimentos pascais, depois de, durante séculos, terem sido antecipados para as horas matutinas. Além disso, não se deve esquecer que São João XXIII considerou necessária uma simplificação das rubricas do Breviário e do Missal, aprovando-a com o Motu próprio Rubricarum instructum, de 25 de Julho de 1960, no qual remetia para o anunciado Concílio ecuménico a proposta dos princípios fundamentais para uma reforma da liturgia.
Por conseguinte, a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II insere-se no sulco da tradição viva da Igreja. A sua correcta compreensão permite também rejeitar os abusos que se verificaram em certos sectores da Igreja, no período pós-conciliar e que, infelizmente, às vezes, ainda hoje, ocorrem, absolutizando ou interpretando erroneamente alguns dos princípios que estavam na base da própria reforma.
A este propósito, vale a pena recordar que a Constituição conciliar afirma que «as acções litúrgicas não são acções privadas, mas celebrações da Igreja, que é “sacramento de unidade”, isto é, Povo santo, reunido e ordenado sob a direcção dos Bispos. Por isso, tais acções pertencem a todo o Corpo da Igreja, manifestam-no» e implicam-no (Sacrosanctum concilium, n. 26).
Por isso, é responsabilidade principal dos pastores, dos bispos, mas também de cada sacerdote, preservar e promover uma liturgia que, no respeito pelas normas litúrgicas, resplandeça pela sua nobre simplicidade (cf. n. 34) e manifeste, assim, a Igreja una, santa, católica e apostólica. Tal liturgia será, também, um veículo fundamental de evangelização; o instrumento de graça através do qual, como ensina o Concílio, poderemos aprender a oferecer-nos a nós próprios e, pela mediação de Cristo, seremos aperfeiçoados na unidade com Deus e entre nós (cf. n. 48). (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 

- SALMO 62

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus!

Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro.
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro,
como terra árida, sequiosa, sem água.

Quero contemplar-Vos no santuário,
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais do que a vida;
por isso, os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

Assim Vos bendirei toda a minha vida
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares,
e com vozes de júbilo Vos louvarei.

Porque Vos tornastes o meu refúgio,
exulto à sombra das vossas asas.
Unido a Vós estou, Senhor,
a vossa mão me serve de amparo.


SANTOS POPULARES

 


SANTA TERESA DE CALCUTÁ
 
Inês Gonxha Bojaxhiu, nasceu no dia 26 de Agosto de 1910, em Skopje (antiga Iugoslávia), na actual Macedónia do Norte, numa família católica albanesa. Aos 18 anos, decidiu entrar na Congregação das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora de Loreto. Partiu para a Irlanda, em 1928, e daí embarcou para a Índia, onde chegou um ano depois.
Em 1931, a jovem Inês fez os seus primeiros votos, adoptando o nome ‘Irmã Maria Teresa do Menino Jesus’, escolhido pela sua devoção a Santa Teresinha do Menino Jesus (Santa Teresa de Lisieux).
Durante vinte anos, leccionou história e geografia a meninas de famílias abastadas, no internato das Irmãs de Loreto, em Entally, na zona leste da cidade de Calcutá. Para além dos muros do convento ficava Motijhil - com os seus odores acre e sufocantes - uma das favelas mais miseráveis ​​da megalópole indiana, o lugar mais sujo do mundo.
De longe, a Irmã Teresa conseguia sentir o fedor que chegava até ao seu luxuoso internato, mas não sabia disso. Era o outro lado da Índia, um mundo à parte para ela, pelo menos até aquela noite de 10 de Setembro de 1946, quando sentiu o "segundo chamamento" enquanto viajava de comboio para Darjeeling, para fazer os seus exercícios espirituais (retiro).
Durante toda aquela noite, uma frase martelou a sua cabeça, durante a viagem: o grito lancinante de Jesus, na cruz: "Tenho sede!". Um chamamento misterioso que, com o passar das horas, se tornou cada vez mais claro e urgente: ela precisava de deixar o convento para ir ao encontro dos mais pobres entre os pobres: o tipo de gente que não é nada; que vive à margem de tudo; o mundo dos desamparados que agonizavam todos os dias nas calçadas de Calcutá, sem ter sequer a dignidade de morrer em paz.
A Irmã Teresa deixou o convento de Entally - com cinco rúpias (moeda da Índia) no bolso e o sari de borda azul das mulheres indianas mais pobres - após quase 20 anos na Congregação das Irmãs de Loreto. Era o dia 16 de Agosto de 1948.
A pequena Gonxha, de Skopje, tornou-se Madre Teresa e, a partir daquele momento, começou a sua grande aventura.
No dia 7 de Outubro de 1950, a nova Congregação recebeu o seu primeiro reconhecimento: a aprovação diocesana. Este dia é dedicado a Nossa Senhora: Festa da Virgem Santa Maria do Rosário. Uma feliz coincidência, já que a nova Congregação religiosa é dedicada a Maria.
O profundo amor da Madre Teresa por Nossa Senhora tinha raízes sólidas na sua infância, em Skopje, a sua mãe, Drone, muito religiosa, levava, sempre, os seus filhos à igreja, a visitar os pobres e, todas as noites, rezavam o terço, juntos.
“A ‘Nossa Congregação’ - lê-se no primeiro capítulo das Constituições - é dedicada ao Imaculado Coração de Maria, Causa da nossa Alegria e Rainha do Mundo, porque nasceu a seu pedido e, graças à sua constante intercessão, desenvolveu-se e continua a crescer”.
A figura da Virgem inspirou o Estatuto das Missionárias da Caridade, a tal ponto que cada um dos dez capítulos das Constituições é introduzido por uma citação de passagens marianas dos Evangelhos. Nossa Senhora é chamada a primeira Missionária da Caridade, por causa da sua visita a Isabel, na qual demonstrou ardente caridade no seu serviço abnegado à sua prima idosa e necessitada. Além dos três votos de pobreza, castidade e obediência, cada Missionária da Caridade faz um quarto voto de "serviço dedicado e abnegado aos mais pobres dos pobres", reconhecendo em Maria o ícone do serviço de todo o coração, da caridade mais autêntica.
(...) A devoção ao Imaculado Coração de Maria é o outro aspecto do carisma mariano e missionário da obra de Madre Teresa, praticado com os meios mais tradicionais e simples: o Santo Rosário, rezado todos os dias e em todos os lugares, até mesmo na rua; o culto das festas marianas (a profissão religiosa das suas freiras sempre coincide com as festas de Nossa Senhora); a oração confiante a Maria, também confiada às "medalhas milagrosas" (que Madre Teresa distribuía em grande quantidade, a todos os que encontrava); a imitação das virtudes da Mãe de Deus, especialmente a humildade, o silêncio e a profunda caridade.
"Tenho sede" está escrito no crucifixo da Casa-Mãe e em todas as capelas - em todo o mundo - de todas as casas da família religiosa de Madre Teresa. Essa frase, o grito angustiado de Jesus na cruz, que ecoou no seu coração naquela noite do "segundo chamamento", é a chave de sua espiritualidade.
A pequena figura da Madre Teresa; o seu físico frágil, curvado pelo cansaço; o seu rosto sulcado por inúmeras rugas, são agora conhecidos em todo o mundo. Quem a encontrou, mesmo que uma única vez, jamais a esqueceu: a luz de seu sorriso reflectia a sua imensa caridade. Ser olhado por ela, pelos seus olhos profundos, amorosos e claros, proporcionava a curiosa sensação de ser olhado pelos próprios olhos de Deus.
Activa e contemplativa ao mesmo tempo, Madre Teresa personificava o idealismo e a concretude, o pragmatismo e a utopia. Gostava de se chamar "pequeno lápis de Deus", um instrumento pequeno e simples nas Suas mãos. Reconhecia, humildemente, que, quando o lápis se tornasse um toco inútil, o Senhor o descartaria, confiando a sua missão apostólica a outros: "Quem crê em mim fará também as obras que eu faço e fará, ainda, obras maiores do que estas" (cf. Jo 14,12).
Graças à generosidade de pessoas ricas, Madre Teresa construiu a "Casa das Crianças" e um hospital. Activa e trabalhadora, sempre buscava ajuda para aqueles a quem assistia e, graças à sua tenacidade, a congregação espalhou-se por todos os continentes. Vencedora do Prêmio Nobel da Paz, em 1979, pediu que os fundos do banquete, organizado em sua homenagem, fossem doados aos pobres
Madre Teresa faleceu, em Calcutá, na noite de sexta-feira, 5 de Setembro de 1997, às 21h30. Tinha 87 anos.
Os seus filhos e as suas filhas espirituais continuam a servir “os mais pobres entre os pobres” em todo o mundo, em orfanatos, leprosários, lares para idosos, mães solteiras e moribundos. No total, são 5.000, incluindo os dois ramos masculinos, menos conhecidos, distribuídos em aproximadamente 600 lares ao redor do mundo; sem mencionar os milhares de voluntários e leigos consagrados que dão continuidade ao seu trabalho. “Quando eu morrer”, disse ela, “poderei ajudá-los ainda mais…”
Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, no dia 19 de Outubro de 2003 e canonizada, pelo Papa Francisco, no dia 4 de Setembro de 2016. Na homilia, o Papa disse: “…Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que «quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável». Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes ― diante dos crimes! ―  da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento.
A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres. Hoje entrego a todo o mundo do voluntariado esta figura emblemática de mulher e de consagrada: que ela seja o vosso modelo de santidade! Parece-me que, talvez, teremos um pouco de dificuldade de chamá-la de Santa Teresa: a sua santidade é tão próxima de nós, tão tenra e fecunda, que espontaneamente continuaremos a chamá-la de “Madre Teresa”. Que esta incansável agente de misericórdia nos ajude a entender mais e mais que o nosso único critério de ação é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia e de qualquer vínculo e que é derramado sobre todos sem distinção de língua, cultura, raça ou religião. Madre Teresa gostava de dizer: «Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir». Levemos no coração o seu sorriso e o ofereçamos a quem encontremos no nosso caminho, especialmente àqueles que sofrem. Assim abriremos horizontes de alegria e de esperança numa humanidade tão desesperançada e necessitada de compreensão e ternura…”
A memória litúrgica de Santa Teresa de Calcutá é celebrada no dia 5 de Janeiro.
 

domingo, 23 de agosto de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXI DOMINGO COMUM

 

“…Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus!
Como são insondáveis os seus desígnios
e incompreensíveis os seus caminhos!
Quem conheceu o pensamento do Senhor?
Quem foi o seu conselheiro?
Quem Lhe deu primeiro,
para que tenha de receber retribuição?
D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.
Glória a Deus para sempre. Amém.
(cf. Romanos 11, 33-36)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 12 de Agosto de 2026
 
Prezados irmãos e irmãs!
 
O sexto capítulo da Constituição Sacrosanctum concilium (SC) do Concílio Vaticano II é dedicado à música sacra. Nele afirma-se: «A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene» (SC, 112) e específica: «A música sacra será [...] tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à acção litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como factor de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas» (ibid.).
Encontramos aqui o núcleo do ensinamento conciliar, que confirma e aprofunda a função ministerial da música na liturgia, já salientada por São Pio X no Motu Próprio Inter sollicitudines (22 de Novembro de 1903). Com efeito, a música faz parte da acção litúrgica e não é mero adorno da celebração. Na liturgia, cantar e tocar significa rezar, sintonizando o próprio coração com o das irmãs e irmãos e com Deus, na participação activa no mistério celebrado. Em particular, a música expressa a dimensão afectiva da oração, como afirma Santo Agostinho: «Cantare amantis est», ou seja, «cantar é próprio de quem ama» (Sermo 336, 1). Isto é muito importante, pois ajuda a abrir o coração à acção de Deus na graça e a deixar-se modelar por ela.
Além disso, o canto favorece a comunhão. Através da sinfonia das vozes, contribui para a união das almas, superando as diferenças entre as pessoas e congregando todos no louvor a Deus. Assim, torna-se epifania da Igreja, manifestação sensível da comunhão que pertence à sua própria natureza.
Do profundo significado teológico do canto sacro, como parte integrante da acção litúrgica, derivam algumas exigências. Uma primeira é que, além das modas ou das sensibilidades particulares dos autores, ele deve corresponder, a todos os níveis, àquilo que é mais apropriado para o momento celebrativo. Além disso, a forma, especialmente no seu aspecto melódico, deve ser nobre e simultaneamente simples, de elevada qualidade musical e facilmente executável, sobretudo quando se destina a ser entoada por toda a assembleia (cf. SC, 121).
Pelo mesmo motivo, o Concílio recomenda que, também, os textos sejam adequados, profundos e, ao mesmo tempo, de fácil compreensão, inspirados principalmente na Sagrada Escritura, nos livros litúrgicos e na Tradição espiritual da Igreja. É necessário velar sobre isto, a fim de que se mantenha viva e cresça a dinâmica expressa no antigo princípio “lex orandi lex credendi”, ou seja, a lei da oração é também lei da fé.
Sacrosanctum concilium dedica amplo espaço ao tema da participação activa dos fiéis (cf. n. 114). Ela «deve ser entendida […] a partir de uma maior consciência do mistério que é celebrado e da sua relação com a vida quotidiana» (Bento XVI, Exort. ap. Sacramentum caritatis, 52), em «espírito de constante conversão que deve caracterizar a vida de todos os fiéis» (ibid., 55). Além disso, quanto ao modo concreto como ela se pode realizar, através do papel específico da música sacra, a Constituição oferece uma resposta clara: «Promovam-se as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos» e «um silêncio sagrado» (SC, 30), exortando cada um, ministro ou fiel, a fazer «tudo e só o que é da sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas» (SC, 28), no equilíbrio harmonioso entre os diferentes ministérios, as várias intervenções e os momentos de silêncio.
Depois, o Concílio atribui grande valor ao canto gregoriano, mas sem excluir da celebração outros tipos de música sacra. Uma atenção especial é dedicada inclusive ao órgão (cf. SC, 120), enquanto é admitida a utilização de outros instrumentos, «contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis» (SC, 120).
Um tema caro à reforma conciliar é o da inculturação, também no campo da música sacra. Salienta-se, em particular, no que se refere às tradições musicais das diferentes culturas, a importância de as ter seriamente em consideração, como parte da vida religiosa e social das pessoas. Por isso, recomenda-se, por um lado, que se implemente em todos uma adequada «educação do sentido religioso» (SC, 119) e, por outro, «na medida do possível», que se promova «a música tradicional desses povos nas escolas e nas acções sagradas» (ibid.).
No contexto litúrgico, uma tarefa especial é reconhecida à schola cantorum, instrumento pastoral cuja promoção é recomendada, com a função de «assegurar a justa interpretação das partes que lhe pertencem, conforme os distintos géneros de canto, e promover a participação aciva dos fiéis no canto» (Sagrada Congregação dos Ritos, Instrução Musicam sacram, 19).
Para tal finalidade, o compositor de música sacra é chamado a conhecer e a preservar o acervo musical da Igreja, deixando-se inspirar por ele para dar vida a novas composições ao serviço da liturgia, no respeito pela sensibilidade contemporânea e pelas diferentes tradições culturais, de maneira a «purificar o culto de dispersões de estilos, de formas descuidadas de expressão, de músicas e textos descurados e pouco conformes com a grandeza do acto que se celebra, para assegurar dignidade e singeleza de formas à música litúrgica» (São João Paulo II, Quirógrafo sobre a música sacra, 22 de Novembro de 2003, 3).
Por todas estas razões, os Padres conciliares recomendam que se promova a formação e a prática da música sacra, «nos seminários, noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas» (SC, 115), e que aos músicos e cantores se assegure uma sólida formação litúrgica (cf. ibid.).
Caros irmãos e irmãs, os Padres da Igreja atribuíram grande importância ao canto litúrgico, símbolo da comunhão eclesial. Por isso, podemos concluir com estas bonitas expressões de Santo Inácio de Antioquia: «Vós, um por um, tornai-vos um coro a fim de que, harmoniosos no acorde e assumindo a tonalidade de Deus na unidade, canteis em uníssono por meio de Jesus Cristo ao Pai, para que vos ouça e, pelas boas obras que realizais, reconheça que sois membros do seu Filho» (Carta aos Efésios, 4, 2).  (cf. Santa Sé)
 

PARA REZAR

 


- SALMO 137

Refrão: Por vossa misericórdia, não nos abandoneis, Senhor.

 

De todo o coração, senhor, eu Vos dou graças
porque ouvistes as palavras da minha boca.
Na presença dos Anjos Vos hei-de cantar
e Vos adorarei, voltado para o vosso templo santo.

Hei-de louvar o vosso nome pela vossa bondade e fidelidade,
porque exaltastes acima de tudo o vosso nome e a vossa promessa.
Quando Vos invoquei, me respondestes,
aumentastes a fortaleza da minha alma.

O Senhor é excelso e olha para o humilde,
ao soberbo conhece-o de longe.
Senhor, a vossa bondade é eterna,
não abandoneis a obra das vossas mãos.


SANTOS POPULARES

 


BEATO LUÍS DA CONSOLATA (da Consoladora)
 
André Bordino nasceu em Castellinaldo, na província de Cuneo e diocese de Alba, Itália, no dia 12 de Agosto de 1922. Aos sete anos, recebeu a Primeira Comunhão e, aos 13, o Crisma. Após concluir o ensino básico, ajudou o pai a trabalhar nas vinhas de Langhe. Atlético e exuberante, passou a adolescência entre a paróquia e o trabalho. A sua formação cristã fez-se pelo contacto de amizade com o padre coadjutor (vigário paroquial/ padre auxiliar) da Paróquia de Castellinaldo, que, reconhecendo os seus excelentes talentos e a sua prestabilidade, nomeou-o presidente da Acção Católica da paróquia, aos 19 anos.
Em Janeiro de 1942, com 20 anos, foi convocado para o serviço militar, na artilharia alpina do Regimento Cuneense, tendo, por isso, sido apanhado na imprudência da Segunda Guerra Mundial. Ele e o seu irmão foram forçados a partir para a infame "Campanha Russa", onde, além dos perigos e sofrimentos devido à inadequação das tropas italianas ao clima gélido da Rússia, sofreu também a humilhação do cativeiro. Um ano após a sua chegada, os dois irmãos foram feitos prisioneiros em Valuiki, e os seus caminhos separaram-se.
André Bordino foi enviado para a Sibéria, para o infame "Campo 99". Reduzido a um mero invólucro humano, no meio de tamanha desesperança - que resultou na morte de dezenas de milhares de soldados alpinos - fez o que pôde para proporcionar conforto discreto, humano e cristão aos moribundos, aos que sofriam e aos sobreviventes.
Continuou este trabalho de caridade mesmo quando foi transferido para o Uzbequistão, entre os pacientes terminais, que foram isolados em quartéis por estarem infectados. Durante dois anos, recusou qualquer vantagem pessoal, confortado pela presença do seu irmão, recém-encontrado, também prisioneiro e a trabalhar nas cozinhas.
Com o fim da guerra, os dois irmãos regressaram a Itália, em Outubro de 1945. As terríveis experiências e a visão da morte de tantos jovens compatriotas marcaram, para sempre, André Bordino. Uma vez libertado e com as forças recuperadas, decidiu dedicar-se aos que sofriam com a doença e o sofrimento. Uma vocação para a caridade floresceu no seu coração.
No dia 23 de Julho de 1946, bateu à porta da "Pequena Casa da Divina Providência", chamada ‘o Cottolengo´, em Turim, com a intenção de se entregar aos outros como leigo consagrado. [o termo Cotolengo refere-se a instituições de caridade e saúde, dedicadas a acolher pessoas com deficiências múltiplas, doenças graves ou em situação de abandono, inspiradas no legado de São José Benedito Cottolengo e de São Luís Orione]
Em 23 de Julho de 1947, iniciou o seu noviciado e, em 1948, fez a sua profissão religiosa entre os Irmãos de São José Cottolengo, ou "Irmãos Cottolenghini", dedicando-se ao cuidado e assistência dos muitos pacientes do Instituto, fundado em 1832 por São José Benedito Cottolengo, que sofriam de uma grande variedade de doenças, deformidades e deficiências físicas e mentais. Neste momento, adoptou o nome ‘Irmão Luís da Consolata’.
Entre 1950-51, concluiu, com sucesso, um curso de enfermagem e começou a trabalhar nos departamentos de ortopedia e cirurgia, do Instituto Cottolengo. Enfermeiro e anestesista excepcionalmente habilidoso, foi pioneiro entre os dadores de sangue, compartilhando, com alegria, o seu tempo com os sofredores e desafortunados que constantemente o cercavam.
À noite, dedicava-se aos pobres que vinham da cidade e arredores, lavando e tratando feridas de todos os tipos, pois nelas, especialmente nas mais graves, via o sofrimento de Jesus. De 1959 a 1967, os seus companheiros da Ordem e o Cardeal Pellegrino, Arcebispo de Turim, conferiram-lhe cargos de responsabilidade entre os 'Irmãos Cottolenghini' e na administração do próprio 'Cottolengo'.
Em Junho de 1975, sentindo-se indisposto, foi submetido a exames que diagnosticaram leucemia mieloide, doença que conhecia muito bem e cujo desfecho era fatal.
O Irmão Luís, sem desespero, louvou a Providência com a oração de Cottolengo "Deo gratias". Durante dois anos, suportou a sua dolorosa enfermidade como se fosse a de outra pessoa, até que faleceu no dia 25 de Agosto de 1977. Num gesto de verdadeira caridade, ofereceu as suas córneas a dois cegos: eram os únicos órgãos do seu corpo que permaneceram saudáveis.
O Irmão Luís da Consolata veio do frio da Sibéria e dedicou os seus 55 anos de vida a aliviar o sofrimento alheio, especialmente o dos mais vulneráveis, no espírito da caridade de Cristo.
Foi beatificado, no dia 2 de Maio de 2015, em Turim, Itália. A cerimónia de beatificação foi presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, em representação do Papa Francisco.
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 25 de Agosto.

sábado, 15 de agosto de 2026

EM DESTAQUE:



*SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA
 
A Igreja celebra, no dia 15 de Agosto, a Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria. O Papa Pio XII, no dia 1 de Novembro de 1950, definiu o dogma da Assunção de Maria, através  da Constituição Apostólica ‘Munificentissimus Deus’, proclamando que “A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta, em corpo e alma, à glória celestial”.
Assim, o dogma da Assunção refere a que a Mãe de Deus, no termo da sua vida terrena, foi elevada ao Céu, em corpo e alma, participando da glória de Jesus ressuscitado.
Na celebração desta solenidade, em 2010, o Papa Bento XVI destacou a importância desta data. “Nesta solenidade da Assunção, contemplamos Maria: Ela enche-nos de esperança num futuro repleto de alegria e ensina-nos o caminho para alcançá-lo: acolher, na fé, o Seu Filho; nunca perder a amizade com Ele, deixando-nos iluminar e guiar pela Sua Palavra; segui-lo, cada dia, inclusive naqueles momentos nos quais sentimos que as nossas cruzes ficam mais pesadas.
Maria, a arca da Aliança que habita no santuário do céu, indica-nos, com claridade luminosa, que estamos a caminho à nossa verdadeira Casa, a comunhão da alegria e da paz com Deus”.
O Catecismo da Igreja Católica explica que “a Assunção da Santíssima Virgem constitui uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da Ressurreição dos demais cristãos”
A importância da assunção para os homens e as mulheres do começo do terceiro milênio da era cristã reside na relação que existe entre a Ressurreição de Cristo e nossa. A presença de Maria, ser humano como nós, que se encontra em corpo e alma já glorificada no Céu, é isso: uma antecipação da nossa própria ressurreição.
O Papa João Paulo II, numa das suas catequeses sobre a assunção, explicou isto nos seguintes termos: “O dogma da Assunção, afirma que o corpo de Maria foi glorificado depois da sua morte. Com efeito, enquanto para os demais homens a ressurreição dos corpos ocorrerá no fim do mundo, para Maria a glorificação do seu corpo antecipou-se por singular privilégio”.
“Contemplando o mistério da Assunção da Virgem, é possível compreender o plano da Providência Divina com respeito a humanidade: depois de Cristo, Verbo Encarnado, Maria é a primeira criatura humana que realizou o ideal escatológico, antecipando a plenitude da felicidade prometida aos eleitos mediante a ressurreição dos corpos”, declarou São João Paulo II, na audiência-geral de 9 de Julho de 1997.
Ao celebrar esta solenidade, em 1997, o Papa João Paulo II indicou: “Maria Santíssima mostra-nos o destino final dos que ‘escutam a Palavra de Deus e a cumprem’ (Lc 11,28). Estimula-nos a elevar o nosso olhar para as alturas onde se encontra Cristo, sentado à direita do Pai, e onde, também, está a humilde escrava de Nazaré, já na glória celestial”. (cf. Acidigital)

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XX DOMINGO COMUM

 

“…Eis o que diz o Senhor:
«Respeitai o direito, praticai a justiça,
porque a minha salvação está perto
e a minha justiça não tardará a manifestar-se.
Quanto aos estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor
para O servirem, para amarem o seu nome e serem seus servos,
se guardarem o sábado, sem o profanarem,
se forem fiéis à minha aliança,
hei-de conduzi-los ao meu santo nome,
hei-de enchê-los de alegria na minha casa de oração.
Os seus holocaustos e os seus sacrifícios
serão aceites no meu altar,
porque a minha casa
será chamada casa de oração para todos os povos»…
(cf. Isaías 56, 1.6-7)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 12 de Agosto de 2026
 
Estimados irmãos e irmãs!
O quinto capítulo da Constituição conciliar Sacrosanctum concilium (SC) é dedicado ao ano litúrgico, tema sobre o qual, hoje, queremos meditar, para explicar o seu valor, na vida de cada crente.
Em primeiro lugar, convém recordar que esta forma de definir o ciclo das festas cristãs como “ano litúrgico” se difundiu, na linguagem eclesial, graças à obra do Servo de Deus, o abade Prosper Guéranger (1805-1875).
Na Encíclica Mediator Dei, o Papa Pio XII afirma que não se trata de «uma fria e inerte representação de acontecimentos que pertencem ao passado, nem de uma simples […] evocação de realidades de outros tempos. [O ano litúrgico] é, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado […] nesta vida mortal […] com a finalidade de colocar as almas humanas em contacto com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes» (III Divinum Officium et Annus Liturgicus, II Cyclus Mysteriorum). Por conseguinte, o ano litúrgico deve ser entendido como uma actualização constante da obra da salvação, que Cristo realiza na história. Percorrendo este ciclo temporal, a Igreja permanece em contacto com a acção redentora do Senhor, de tal modo que todos os fiéis fiquem repletos da sua graça (cf. SC, 102c). O encontro com Jesus, morto e ressuscitado por nós, é a finalidade que a Igreja sempre persegue, colocando no centro de cada momento a celebração do evento pascal.
Por isso, os Padres conciliares consideram precisamente o domingo, «o principal dia de festa», como «o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico» (cf. SC, 106). Em várias línguas modernas, o seu nome atesta que é o “dies Domini”, “o dia do Senhor”. Até nas línguas em que prevaleceu a referência ao “dia do sol” (Sunday, Sonntag) se entrevê o vínculo com Cristo: Cristo é o verdadeiro “sol de justiça” que ilumina cada homem!
Na Carta apostólica Dies Domini (31 de Maio de 1998), São João Paulo II ensina que o domingo é dia do Senhor, dia da Igreja, dia do homem e, em síntese, “dia dos dias”: «Sendo o domingo a Páscoa semanal que evoca e torna presente o dia em que Cristo ressuscitou dos mortos, ele é, também, o dia que revela o sentido do tempo. […] Nascendo da Ressurreição, ele sulca os tempos do homem, os meses, os anos, os séculos como uma seta lançada que os atravessa, orientando-os para a meta da segunda vinda de Cristo. O domingo prefigura o dia final, o da Parusia» (n. 75), quando todos nós ressuscitaremos.
Para santificar o domingo, é fundamental celebrar a Eucaristia. A escuta da Palavra e a participação no Corpo de Cristo implicam, segundo os Padres conciliares, o convenire in unum (cf. SC, 106), ou seja, a convocação festiva dos fiéis. Nesta assembleia, a comunidade cristã torna visível a sua comunhão com o Senhor, testemunhando a sua pertença a Cristo e a sua fidelidade à Igreja. Esta assembleia não é substituível por uma simples presença virtual, nem se reduz a uma reunião meramente passiva. Com efeito, a assembleia litúrgica concretiza-se na participação activa de irmãos e irmãs, convocados em conjunto para «dar graças a Deus, que os “regenerou para uma esperança viva, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos” (1 Pd 1, 3)» (ibid.).
A este propósito, exorto todos a procurar as melhores condições a fim de que possam participar na Santa Missa, também, quantos, aos domingos, não têm a possibilidade de se ausentar do trabalho.
Caríssimos: o ano litúrgico, ritmado pelos domingos, tem uma história interessante, na qual se entrelaçam a fé e a devoção da Igreja. Com efeito, a partir do século II d.C., à celebração da Páscoa semanal acrescentou-se a da Páscoa anual, «a maior solenidade» (SC, 102), estendida ao “jubiloso período” de cinquenta dias, que culminam no Pentecostes, e preparada pelo tempo de Quaresma com a sua índole penitencial (cf. SC, 109). O desenvolvimento do ciclo natalício, ocorrido sucessivamente segundo o modelo do ciclo pascal, permitiu reviver os mistérios da encarnação do Verbo de Deus, do seu nascimento e da sua manifestação ao mundo. Depois, a Igreja inseriu nos vários tempos a veneração da Bem-Aventurada Virgem Maria, «indissoluvelmente unida à obra de salvação do seu Filho» (SC, 103) e «a memória dos Mártires e de outros Santos que […] hoje entoam a Deus no céu o louvor perfeito e intercedem por nós» (SC, 104).
Assim, o ano litúrgico repropõe, de modo sacramental, a pedagogia da história da salvação, conduzindo os fiéis, desde a espera do Messias, até à plenitude do mistério pascal e à antecipação da glória futura. Nele, a Igreja celebra a actualidade salvífica do mistério de Cristo, permitindo que os crentes participem nele, cada vez mais profundamente. Por isso, o ano litúrgico constitui o princípio inspirador e o quadro de referência essencial de cada acção pastoral. (cf. Santa Sé)
 

PARA REZAR

 


- SALMO 66

Refrão: Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.

 

Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção,
resplandeça sobre nós a luz do seu rosto.
Na terra se conhecerão os vossos caminhos
e entre os povos a vossa salvação.

 

Alegrem-se e exultem as nações,
porque julgais os povos com justiça
e governais as nações

sobre a terra.

Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos Vos louvem.
Deus nos dê a sua bênção
e chegue o seu temor aos confins da terra.


SANTOS POPULARES



SANTA JOANA DA CRUZ
 
Joana Delanou (Jeanne) nasceu em Saumur, às margens do rio Loire, no dia 18 de Junho de 1666. Era a mais nove de doze irmãos. Os seus pais administravam uma modesta loja de retrosaria, perto do Santuário de Nossa Senhora das Argilas [Notre-Dame-des-Ardilliers: Situada nas margens do Loire, esta antiga capela real foi erguida em meados do século XVI, antes de passar por grandes transformações no século XVII, época em que se tornou um dos mais importantes santuários de peregrinação do país. Este santuário real teve origem na descoberta de uma Pietà (Nossa Senhora da Piedade) perto de uma nascente com reputação de possuir propriedades curativas.]
Joana perdeu o pai aos seis anos e, apesar da pouca idade, ajudava a mãe no trabalho para sustentar toda a família. As suas qualidades eram notáveis: habilidosa, activa e incansável, a ponto de manter a loja aberta até mesmo aos domingos e feriados.
Poder-se-ia pensar que o seu sonho fosse apenas expandir e fazer prosperar o seu negócio. Mas, então, aos vinte e sete anos, durante os dias de Pentecostes, recebeu um convite inesperado da idosa e fiel peregrina Francisca Souchet, cuidadora do referido santuário, para se dedicar aos muitos pobres.
Joana manteve uma intimidade mística com a Virgem Maria, seguindo o exemplo do então jovem Luís Maria Grignion de Montfort (São Luís de Monfort) que a encorajou no seu caminho de espiritualidade e de discernimento da vontade de Deus.
Saumur, a sua cidade natal, passava por grandes dificuldades materiais e sociais, desde o século XVII, por causa dos invernos rigorosos e dos prejuízos das colheitas ruins. Estas dificuldades eram ainda mais severas e dramáticas para as mulheres.
Conhecida como uma comerciante prudente e egoísta, Joana, repentinamente, tornou-se "muito generosa na caridade" quando o Espírito Santo, extinguindo "o fogo da sua avareza", a fez compreender que a sua fé ardente também exigia "o fogo da caridade".
Apesar do aumento das suas responsabilidades profissionais, após a morte da sua mãe, Joana começou a cuidar dos pobres, em resposta ao chamamento que sentia vir de Deus.
Começou a visitar aqueles que viviam como animais nos estábulos escavados na encosta, levando-lhes comida e roupas; lavando as suas roupas e, se necessário, doando-lhes as suas próprias, garantindo que esses abrigos precários fossem aquecidos.
Distribuía, generosamente, bens essenciais pelos pedintes da rua, mas, também, começou a acolhê-los na sua própria casa. Em 1700, uma criança foi acolhida na sua casa, seguida por doentes, idosos e indigentes. Mais tarde, equipou três casas - que lhe foram emprestadas e a que chamou "Providência” - para acolher crianças órfãs, meninas abandonadas, mulheres empobrecidas, idosos e desamparados de todos os tipos, assolados pela fome e pelo frio.
Não fazia distinção entre os pobres merecedores e os não merecedores: ajudava a todos. Também sonhava ensinar um ofício aos meninos e às meninas.
Joana Delanoue experimentou, em primeira mão, as humilhações dos pobres, chegando a sair para mendigar, muitas vezes comendo pior do que eles, sem mencionar o seu constante jejum e as suas noites curtas e desconfortáveis. Dedicava-lhes muita atenção, diariamente, mais do que aos seus clientes. Por fim, dedicou-se a eles totalmente, a tempo inteiro. Os pobres começaram a acorrer, pedindo ajuda e protecção.
Em 1704, várias jovens ofereceram-se para a ajudar, criando disponibilidade para abraçar a vida religiosa. Assim, nasceu, inesperadamente, a Congregação de Santa Ana da Providência, com as suas Constituições aprovadas em 1709.
Joana desejava que as suas ‘Irmãs’ compartilhassem a mesma casa que os pobres, comessem como eles, fossem tratadas como eles em tempos de doença e se vestissem com um humilde hábito cinza. Quanto aos pobres, ela sempre soube como cercá-los de ternura, às vezes oferecendo-lhes refeições festivas, e exigia que as suas Irmãs os cumprimentassem com respeito, servindo-os primeiro.
A burguesia da sua aldeia e até mesmo os padres criticavam a sua austeridade "excessiva" e as suas obras de caridade "desordenadas". Mas nada a deteve, nem mesmo o desabamento do seu primeiro abrigo: "Quero viver e morrer com os meus queridos irmãos: os pobres".
A tenacidade e a grande dedicação de Joana Delanoue levaram à fundação do primeiro hospício em Saumur, em 1715. A sua caridade rapidamente se espalhou para além dos limites da cidade e da diocese.
Joana contava com cerca de quarenta auxiliares, todas sob o seu comando, determinadas a seguir o seu exemplo de abnegação, oração e mortificação.
Após a sua morte, em 17 de Agosto de 1736, a fundadora deixou para trás uma dúzia de comunidades, hospícios e até pequenas escolas. O anúncio da sua ecoou por toda a Saumur: "A Santa morreu".
Todos admiravam o seu zelo e o seu trabalho nas inúmeras visitas que recebeu ou fez; mas apenas os seus amigos mais próximos conheciam a sua mortificação e a sua vida de oração e união com Deus, a única e verdadeira fonte da sua caridade.
As Irmãs de Joana Delanoue, como são simplesmente conhecidas hoje, somavam aproximadamente 400 freiras em França, em Madagáscar e na Sumatra.
Joana da Cruz, o seu nome de religiosa, foi beatificada, no dia 5 de Novembro de 1947 pelo Papa Pio XII e canonizada, no dia 31 de Outubro de 1982, pelo Papa João Paulo II, que declarou na ocasião: " … Ao proclamarmos a santidade de Joana Delanoue, é importante tentar compreender o segredo espiritual da sua devoção incomparável. Não parece que o seu temperamento a tenha impulsionado em direcção aos pobres por sentimentalismo ou piedade. Mas o Espírito Santo a fez ver Cristo nessas pessoas pobres; o Menino Jesus nos seus filhos — ela tinha por Ele uma devoção particular. Em todos via a presença de Cristo, o Amigo dos pobres, o próprio Cristo humilhado e crucificado. E com Cristo, ela queria mostrar aos pobres a ternura do Pai. Ela voltou-se para esse Deus com a ousadia de uma criança, esperando tudo Dele, da Sua Providência, o nome que designaria as suas casas e a sua fundação original: a Congregação de Santa Ana da Providência. A sua constante devoção a Maria era inseparável da Santíssima Trindade. O mistério eucarístico também estava no centro da sua vida. O seu amor à Igreja impedia-a de trilhar novos caminhos sem consultar os seus confessores e o bispo da Diocese.
Joana Delanoue aprendeu não só o heroísmo das virtudes evangélicas, as do Sermão da Montanha, mas também uma profunda contemplação das Pessoas divinas, com sinais místicos da união suprema com Deus, pelo caminho de união, ardendo de amor por Jesus, o seu Esposo. É precisamente daí que a loucura da sua caridade, a ousadia das suas iniciativas, extrai a sua inspiração e a sua plenitude….”
A memória litúrgica de Santa Joana da Cruz é celebrada no dia 17 de Agosto.

sábado, 25 de julho de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XVII DOMINGO COMUM

 

“…O Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe:
“Pede o que quiseres”.
Salomão respondeu:
“Senhor, meu Deus,
Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David
e eu sou muito novo e não sei como proceder.
Este vosso servo está no meio do povo escolhido,
um povo imenso, inumerável,
que não se pode contar nem calcular.
Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente,
para saber distinguir o bem do mal;
pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso?”
Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe:
“Porque foi este o teu pedido,
e já que não pediste longa vida, nem riqueza,
nem a morte dos teus inimigos,
mas sabedoria para praticar a justiça,
vou satisfazer o teu desejo.
Dou-te um coração sábio e esclarecido,
como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti”…
(cf. 1 Reis 3, 5.7-12)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Oração do Angelus, na Praça da Liberdade, Castel Gandolfo, no dia 19 de Julho de 2026

Queridos irmãos e irmãs!

 

Após a parábola do semeador, Jesus continua a falar às multidões por meio de algumas imagens: o joio e o trigo, o grão de mostarda e o fermento na farinha (cf. Mt 13, 24-43).

Trata-se de três pequenas parábolas que pretendem evocar a chegada do Reino de Deus na história, a sua acção na vida dos homens, a maneira como cresce, se expande e transforma o mundo, a partir de dentro. Com esses relatos, Jesus adverte-nos contra a tentação de pensar em Deus como uma figura poderosa, que se impõe pela força; que ocupa o espaço para dominar; que chega de forma triunfante. Pelo contrário, Deus prefere a pequenez, sinal de seu amor discreto. Ele deixa-nos livres para acolhê-lo ou rejeitá-lo; procura abrir caminho, mesmo no meio do joio, e age de forma oculta e invisível, como a menor de todas as sementes, fermentando a massa sem fazer barulho.

Irmãos e irmãs, com essas parábolas, Jesus diz-nos algo importante sobre o modo como Deus opera na nossa vida e na história. Às vezes, esperamos algo espectacular: desejamos um Deus que intervenha do alto, arrancando imediatamente o joio, que é o mal. Imaginamos um Deus forte e poderoso e, infelizmente, também adequamos a nossa maneira de ser cristãos e de ser Igreja a essa imagem. Em vez disso, o Reino de Deus difunde-se, também, no meio do joio e pede-nos um olhar capaz de reconhecer o bem que brota mesmo nas trevas do mal, sem que julguemos tudo apressadamente. Ele vem como a menor das sementes e exige, portanto, a paciência de saber acompanhar os processos, reconhecendo-o na simplicidade do quotidiano e na singeleza da vida comum. Cresce invisivelmente, como o fermento na farinha, e, assim, liberta-nos do desânimo, convidando-nos a ter confiança, ainda que nos pareça que Deus está ausente. Pois, na verdade, Ele acompanha-nos continuamente e o seu amor está sempre a agir em nosso favor.

Esse estilo de Deus deve tornar-se, também, o modelo segundo o qual vivemos a realidade que nos rodeia, tanto como indivíduos quanto como Igreja. Somos chamados a assumir um estilo evangélico, sem adoptarmos precipitadamente uma postura de oposição, marcada por julgamentos arrogantes, sem nos impormos pelo poder e pela força e sem perdermos a confiança na obra de Deus. Trata-se – dizia o então cardeal Ratzinger – de nos submetermos à lógica da semente, que não é a do sucesso e da grandeza, mas que nos pede para nos tornarmos pequenos e servirmos à vida das pessoas (cf. Discurso no Congresso dos Catequistas e dos Professores de Religião, 10 de Dezembro de 2000). Assim, nós mesmos nos tornaremos como uma pequena semente do Evangelho que brota e como um fermento de amor que transforma a massa do mundo.

Oremos a Maria Santíssima, que soube acolher a semente da Palavra em sua humildade, para que Ela nos sustente em nosso caminho e interceda por nós. (cf. Santa Sé)


PARA REZAR

 

- SALMO 118

 


Refrão: Quanto amo, Senhor, a Vossa Lei!

 

Senhor, eu disse: A minha herança
é cumprir as vossas palavras.
Para mim vale mais a lei da vossa boca
do que milhões em ouro e prata.

Console-me a vossa bondade,
segundo a promessa feita ao vosso servo.
Desçam sobre mim as vossas misericórdias e viverei,
porque a vossa lei faz as minhas delícias.

Por isso, eu amo os vossos mandamentos,
mais que o ouro, o ouro mais fino.
Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos
e detesto todo o caminho da mentira.

São admiráveis as vossas ordens,
por isso, a minha alma as observa.
A manifestação das vossas palavras ilumina
e dá inteligência aos simples.