PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Jesus (…) transfigurou-se diante deles…” (cf. Mateus 17, 2) O Evangelho deste segundo domingo da Quaresma (cf. Mt 17, 1-9) apresenta-nos o relato da Transfiguração de Jesus. Ele leva Pedro, Tiago e João com ele e sobe a uma alta montanha, símbolo da proximidade a Deus, para os abrir a uma compreensão mais plena do mistério da sua pessoa, que deve sofrer, morrer e depois ressuscitar. Na verdade, Jesus tinha começado a falar-lhes do sofrimento, morte e ressurreição que o esperavam, mas eles não podiam aceitar essa perspetiva. Por isso, tendo chegado ao cimo da montanha, Jesus mergulhou na oração e transfigurou-se diante dos três discípulos: «o seu rosto - diz o Evangelho - resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (v. 2). Através do maravilhoso evento da Transfiguração, os três discípulos são chamados a reconhecer em Jesus o Filho de Deus resplandecente de glória. Eles progridem assim no conhecimento do seu Mestre, percebendo que o aspeto humano não expressa toda a sua realidade; aos seus olhos, revela-se a dimensão ultraterrena e divina de Jesus. E do alto ressoa uma voz que diz: «Este é o meu Filho muito amado [...]. Escutai-o» (v. 5). É o Pai celeste que confirma a “investidura” - digamos assim - de Jesus, já feita no dia do Seu baptismo no Jordão e convida os discípulos a ouvi-lo e a segui-lo. Deve-se observar que, no meio do grupo dos Doze, Jesus escolhe levar consigo para o monte Pedro, Tiago e João. Ele reservou-lhes o privilégio de testemunhar a transfiguração. Mas por que elegeu estes três? Porque são os mais santos? Não. No entanto, Pedro, na hora da provação, o negará; e os dois irmãos Tiago e João pedirão para ocupar os primeiros lugares no seu reino (cf. Mt 20, 20-23). Jesus, porém, não escolhe segundo os nossos critérios, mas de acordo com o seu plano de amor. O amor de Jesus não tem medida: é amor, e Ele escolhe com esse desígnio de amor. Trata-se de uma escolha gratuita e incondicional, uma iniciativa livre, uma amizade divina que nada pede em troca. E assim como Ele chamou aqueles três discípulos, também hoje Ele chama alguns para estarem com Ele, para poderem dar testemunho. Ser testemunhas de Jesus é um dom que não merecemos: sentimo-nos inadequados, mas não podemos desistir com a desculpa da nossa incapacidade. Não estivemos no Monte Tabor; não vimos, com os nossos olhos, o rosto de Jesus, brilhando como o sol. Contudo, também nós recebemos a Palavra de salvação; a fé foi-nos dada, e experimentamos a alegria de encontrar Jesus de diferentes maneiras. Jesus diz-nos, também: «Levantai-vos e não tenhais medo» (Mt 17, 7). Neste mundo, marcado pelo egoísmo e pela ganância, a luz de Deus é obscurecida pelas preocupações da vida diária. Dizemos, muitas vezes: não tenho tempo para rezar; sou incapaz de realizar um serviço, na paróquia, e de responder aos pedidos dos outros... Mas não devemos esquecer que o Baptismo que recebemos nos fez testemunhas, não pela nossa capacidade, mas pelo dom do Espírito. No tempo propício da Quaresma, que a Virgem Maria nos obtenha aquela docilidade ao Espírito que é indispensável para nos encaminharmos decididamente pela via da conversão. (cf. Papa Francisco, na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma, no dia 8 de Março de 2020)

segunda-feira, 2 de março de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR



II DOMINGO DA QUARESMA    

 

“…Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos»…” (
cf. Mateus 17, 1-9)

 

PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Oração do Angelus, na Praça de São Pedro, Roma,  no dia 22 de Fevereiro de 2026, primeiro Domingo da Quaresma.
 
Caros irmãos e irmãs, bom dia e bom Domingo!
Hoje, primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho fala-nos de Jesus que, conduzido pelo Espírito, vai para o deserto e é tentado pelo diabo (cf. Mt 4, 1-11). Depois de jejuar durante quarenta dias, sente o peso da sua humanidade: a fome, sob o plano físico, e as tentações do diabo, sob o plano espiritual. Ele experimenta o mesmo cansaço que todos nós vivenciamos no nosso caminho e, resistindo ao demónio, mostra-nos como vencer os seus enganos e insídias.
Com esta Palavra de vida, a liturgia convida-nos a olhar para a Quaresma como um itinerário luminoso no qual, com a oração, o jejum e a esmola, podemos renovar a nossa cooperação com o Senhor ao realizar da obra-prima única da nossa vida. Trata-se de permitir que Ele remova as manchas e cure as feridas que o pecado pode ter causado nela, e de nos comprometermos em fazê-la florescer em toda a sua beleza até à plenitude do amor, fonte exclusiva da verdadeira felicidade.
Trata-se, sem dúvida, de um percurso exigente, e o risco é desanimar ou deixarmo-nos seduzir por formas de gratificação menos árduas, como a riqueza, a fama e o poder (cf. Mt 4, 3-8). Estas, que também foram as tentações que Jesus enfrentou, são, no entanto, apenas míseros substitutos da alegria para a qual fomos criados e, no final, deixam-nos inevitável e eternamente insatisfeitos, inquietos e vazios.
Por isso, São Paulo VI ensinava que a penitência, longe de empobrecer, enriquece a nossa humanidade, purificando-a e fortalecendo-a no seu movimento em direção a um horizonte que tem «como finalidade o amor e o abandono no Senhor» (Const. ap. Paenitemini, 17 de fevereiro de 1966, I). Assim, a penitência, ao mesmo tempo que nos torna conscientes das nossas limitações, dá-nos a força para as superar e, com a ajuda de Deus, viver uma comunhão cada vez mais intensa com Ele e entre nós.
Neste tempo de graça, pratiquemo-la generosamente, a par da oração e das obras de misericórdia. Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que nos fala ao coração, e escutemo-nos uns aos outros, nas famílias, nos locais de trabalho, nas comunidades. Dediquemos tempo a quem vive sozinho, especialmente aos idosos, aos pobres e aos doentes. Renunciemos ao supérfluo e partilhemos o que pouparmos com quem carece do necessário. Então, como diz Santo Agostinho, «a nossa oração, feita com humildade e caridade, com jejum e esmola, com temperança e perdão, distribuindo coisas boas e não retribuindo na mesma moeda as más, afastando-nos do mal e fazendo o bem» (cf. Sermão 206, 3), alcançará o Céu e nos dará paz.
Confiemos o nosso caminho quaresmal à Virgem Maria, Mãe que sempre assiste os seus filhos nas provações. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

- SALMO 32

 

Refrão: Dai-nos a Vossa misericórdia,

              de Vós a esperamos, Senhor.

A palavra do Senhor é reta,
na fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protetor.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor. 

SANTOS POPULARES


BEATO ELÍAS DO SOCORRO 

Mateus Elias Neves del Castillo nasceu na ilha de São Pedro, Yuriria - Guanajuato, México, no dia 21 de Setembro de 1882. Era filho de Ramón Nieves e Rita del Castillo, um casal profundamente religioso de origem humilde, que trabalhava na agricultura.
Teve que esperar bastante tempo para poder entrar na Ordem dos Agostinianos, como tanto desejava, quer por motivos de saúde, quer pela sua pobreza. Por essa razão, foi ordenado sacerdote somente em 1916, aos 34 anos. Após as suas primeiras experiências pastorais, foi-lhe confiada a paróquia de La Cañada de Caracheo, um povoado muito pobre. Ali viveu a sua breve, porém intensa, vida sacerdotal, dedicando-se, integralmente, aos seus paroquianos, transmitindo-lhes conforto e esperança cristã, e compartilhando todas as suas dificuldades e sofrimentos.
Mas, o México vivia um dos momentos mais trágicos da sua história. Tendo-se libertado do domínio espanhol, com a Guerra da Independência, de 1822, jamais conseguira alcançar uma verdadeira unidade nacional. As nações ricas, reivindicando enormes direitos sobre o petróleo e outros recursos minerais, fomentaram todas as divisões internas possíveis, ecoadas pelos latifundiários e, infelizmente, até mesmo por clérigos de alta patente, todos defendendo ferozmente os seus antigos privilégios. O clima contra todos eles era intenso, chegando a transbordar para formas de severo anticlericalismo, muitas vezes às custas dos padres que viviam entre os pobres. Praticamente não havia um poder central real; nenhuma certeza quanto à lei; nenhuma esperança de apelação ou justiça.
Quem conseguisse recrutar homens e acumular armas fazia a lei e tornava-se "a lei". Ódio, rivalidades e lutas mútuas e impiedosas explodiam como bolhas numa massa de magma incandescente. Todos tinham medo de que, um dia, um grupo dessas pessoas pudesse chegar, talvez até mesmo na menor e na mais remota aldeia do interior. E, de facto, eles chegaram a Cañada de Caracheo. Era o dia 7 de Março de 1928.
Alguns anos antes, o governo havia promulgado regulamentos drásticos, com o objectivo de impedir qualquer actividade religiosa que não estivesse sob o controlo directo das autoridades civis. Esses regulamentos, geralmente, não eram respeitados, mas permitiam excessos àqueles que nutriam rancor contra a religião.
Por isso, a vida religiosa continuava mais ou menos normalmente, mas num clima de grande risco. Todos sabiam disso. Tudo ia bem enquanto as coisas corriam, mas se algo desse errado, havia problemas.
O Padre Elias, por prudência, vivia escondido numa caverna, naquelas montanhas. Uma caverna de verdadeiro eremita. Saía, regularmente, para dar aos seus paroquianos toda a assistência religiosa de que precisavam, como se nada tivesse mudado. Prudência, sim!... Mas sem medo. Os seus paroquianos, que não entendiam nada das medidas do governo, compreendiam-no e amavam-no, cada vez mais.
Então, o dia 7 de Março, um destacamento de soldados chegou, aparentemente à procura de ladrões de gado. Como já era tarde, decidiram passar a noite na igreja paroquial. Mas, ao tentarem arrombar as portas, os moradores revoltaram-se contra eles e houve tiroteio. Os soldados, então, pediram reforços, e outro destacamento chegou à aldeia. No dia 9, encontraram o Padre Neves, disfarçado de camponês; mas ele próprio declarou-se sacerdote quando foi questionado acerca dos seus dados pessoais. Foi imediatamente feito prisioneiro, juntamente com dois jovens camponeses, os irmãos Sierra, que tentavam mantê-lo escondido.
Na manhã do dia 10, os soldados e os prisioneiros partiram para Cortazar, cidade da qual La Cañada dependia. Mas, os prisioneiros não chegaram lá. Os irmãos Sierra foram os primeiros a serem condenados. Permitiram que o Padre Neves ouvisse as suas confissões e, em seguida, foram fuzilados, enquanto gritavam: "Viva Cristo Rei!".
Continuaram sua jornada. Já perto de Cortázar, o comandante parou o destacamento e disse ao Padre Neves, de modo sarcástico: "Agora é consigo. Mostre-nos que sabe morrer tão bem, quanto sabe celebrar a Missa." O Padre respondeu: "Isso mesmo. Morrer pela religião é um sacrifício que agrada a Deus."
A seu pedido, deram-lhe meia hora para se preparar para o grande passo, que para ele era como o ofertório de uma Missa, com Jesus. Foi ele que quebrou o peso daquele momento de espera, dizendo: "Aqui estou, estou pronto." Quando as espingardas foram apontadas, ele disse decisivamente: "Agora ajoelhem-se. Quero abençoá-los como sinal de perdão."
Todos se ajoelharam, excepto o comandante, que gritou: "Não quero bênçãos. Basta-me aminha arma! “ E, enquanto o Padre, ainda de mão erguida, os abençoava, ele disparou directo ao seu coração. O Padre Mateus Neves ainda teve tempo de gritar, claramente: "Viva Cristo Rei!"
O povo, imediatamente, começou a venerá-lo como um santo mártir.
O seu funeral foi acompanhado por uma multidão que enaltecia o seu amor e o seu exemplo de fidelidade a Cristo e ao Povo. A terra encharcada do seu sangue foi preservada como relíquia; o local da sua execução tornou-se, imediatamente, o seu santuário, lugar de piedade e de peregrinação. O seu sacrifício foi uma oferenda pela pacificação do povo.
Foi beatificado no dia 12 de Outubro de 1997, pelo Papa João Paulo II. Na homilia da celebração da Missa, a propósito do Padre Mateus Neves, o Papa disse: “…Aos discípulos, assombrados ante as dificuldades para entrar no Reino, Jesus adverte: «aos homens é impossível, mas a Deus não, pois a Deus tudo é possível» (Mc 10, 27). Acolheu esta mensagem o Padre Elias do Socorro Neves, sacerdote agostiniano, que hoje é elevado à glória dos altares como mártir da fé. A total confiança em Deus e na Virgem do Socorro, de quem era muito devoto, caracterizou toda a sua vida e o seu ministério sacerdotal, exercido com abnegação e espírito de serviço, sem se deixar vencer pelos obstáculos, os sacrifícios ou o perigo. Este fiel religioso agostiniano soube transmitir a esperança em Cristo e na Providência divina.
A vida e o martírio do Padre Neves, que não quis abandonar os seus fiéis apesar do perigo que corria, são por si mesmos um convite a renovar a fé em Deus que tudo pode. Enfrentou a morte com integridade, abençoando os seus verdugos e dando testemunho da sua fé em Cristo. A Igreja no México conta, hoje, com um novo modelo de vida e um poderoso intercessor, que o ajudará a renovar a sua vida cristã; os seus irmãos agostinianos têm mais um exemplo a imitar, na sua constante busca de Deus, na fraternidade e no serviço ao Povo de Deus; para a Igreja inteira é uma demonstração eloquente dos frutos de santidade, que o poder da graça de Deus produz no seu seio…”
A memória litúrgica do Beato Mateus Elias do Socorro é celebrada no dia 10 de Março. 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

EM DESTAQUE:

 


*TEMPO DA QUARESMA
 
A Igreja Católica iniciou, na Quarta-Feira de Cinzas, o Tempo da Quaresma: tempo de conversão para uma vida renovada, preparando a celebração da Páscoa.
O Papa Leão XIV fez publicar a sua mensagem, para a Quaresma de 2026, com o tema “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão”.
Na sua mensagem, o Papa explica que “a Quaresma é o tempo em que a Igreja nos convida a colocar novamente o mistério de Deus no centro da nossa vida”, de modo que “o itinerário quaresmal se torne uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo, com Ele, o caminho que sobe a Jerusalém”.
O Papa convida-nos a pedir “a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos” e nos permita deixar-nos "instruir hoje por Deus para escutar como Ele”.
Do mesmo modo, “as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum”.
O Papa encorajou a pedir "a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo”. “Comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor”.
 O Santo Padre destacou a importância de dar espaço “à Palavra através da escuta, pois a disposição para ouvir é o primeiro sinal que manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”.
Acerca do jejum, o Papa explicou que “constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus”, por isso é importante “manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo”. Disse o Papa: “O jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna forte e autêntica a vida cristã» ”. (cf. Dicastério para o serviço do Desenvolvimento Humano Integral – Santa Sé)
 


*QUARESMA 2026
-MENSAGEM DO SENHOR DOM MANUEL LINDA, BISPO DO PORTO
 
A lógica da fé e do amor
 
- A mensagem da conversão constitui um dos núcleos fundamentais do Evangelho. São Marcos, que foi o primeiro a pôr por escrito a Boa Nova de Jesus, diz-nos que este tema constituiu o início da sua pregação: “Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mt 1, 15). Como se lembram, usamos estas mesmas palavras no rito de imposição das cinzas, no começo da quaresma. São Lucas, por sua vez, na conhecida parábola do filho pródigo, sublinha os dois elementos fundamentais da conversão: o regresso a Deus e a mudança no modo de se viver.
De facto, no hebraico, o próprio termo bíblico que exprime a noção de conversão quer dizer literalmente «andar na direção oposta». Foi o que fez esse grande Santo Agostinho. A princípio, muito longe de Deus, viria a converter-se radicalmente. E referem-se a essa mudança de caminho as suas palavras muito conhecidas: “Tarde te amei! Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Eis que estavas dentro de mim e eu fora de mim. Estavas comigo e eu não estava contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a tua luz afugentou a minha cegueira. Exalaste o teu perfume e, respirando-o, suspirei por ti e te desejei. Eu te provei, te saboreei e, agora, tenho fome e sede de ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos pela tua paz!”.
 
 - Esta mudança de estilo de vida não é, portanto, teórica ou somente intelectual: ela implica com a vida concreta e com as escolhas que fazemos. Implica com as nossas atitudes e comportamentos, formas de ver e de nos tornarmos presentes. Implica com o amor concretizado: na aceitação e resposta ao amor de Deus e na difusão que dele fazemos, em gestos de benignidade, aos irmãos e a toda a sociedade.
Na relação com Deus, a prioridade deve ser concedida ao timbre de uma fé que, cada vez mais, nos identifica e configura com Ele. Por isso, insistimos tanto na leitura orante da palavra de Deus, se possível em família, e também na oração, no sacramento da confissão e nos gestos de penitência, tais como a privação voluntária de alguma coisa de que gostamos, a abstinência de comidas mais requintadas e o jejum, especialmente na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa.
 
- Mas o amor de Deus é inseparável do amor aos outros. Por isso, sempre esteve na mente da Igreja viver a quaresma com uma especialíssima dimensão de solidariedade fraterna. E daqui nasce a proposta de gestos de paz e de harmonia, de reconciliação com os outros quando isso se impõe, a preocupação mais viva para com esse grande presente de Deus que é o mundo material e todas as criaturas e os indispensáveis gestos de solidariedade e fraternidade.
Nesta linha, escutados todos os organismos de aconselhamento diocesanos, decidi que, quer a renúncia quaresmal, quer o contributo penitencial, neste ano de 2026, serão repartidos em quatro partes iguais: 25% para as vítimas das recentes tempestades em Portugal; outro tanto para a Missão de Calumbo (Angola) onde um sacerdote português, passionista, mantém um belo projeto social de desenvolvimento de crianças, mormente por intermédio das «Sopas nutritivas»; para o projeto «Renascer p’ra Esperança», em Chirrundzo (Moçambique), da Juventude Missionária Vicentina, que desenvolve catividades de internato e cantina social para crianças; e o restante destina-se a dar resposta aos muitos pedidos de ajuda, provenientes do estrangeiro, que, por motivo de guerras ou de outras calamidades, nos chegam ao longo do ano.
 
- Irmãs e irmãos, na lógica de Deus, a primazia de tudo é a fé, entendida como confiança e amor. Mas precisamente por isso, inerente à fé está a noção de conversão, ou seja, a reorientação de toda a nossa vida para Deus e sua vontade. Sem isto não há fé. E a vontade de Deus é que todos vivamos como irmãos. São palavras de Jesus: “Quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 50). Nesta linha, o duplo mandamento do amor –o «amar a Deus sobre todas as coisas e amar os outros como a nós mesmos»- é o único caminho que se nos exige enquanto crentes. Caminho exclusivo. Mas caminho que, sendo tão essencial, tantas vezes nos afastamos dele…
É altura de regressarmos a essa via de salvação. É altura de acelerarmos os passos para a percorrer com alegria. Então, coragem! Caminhemos! Caminhemos na via de salvação, pois esta é a própria felicidade. Santa quaresma em ordem à Páscoa do Senhor!

DA PALAVRA DO SENHOR

 


I DOMINGO DA QUARESMA     

 

“…Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou-se e disse-lhe:
«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Demónio conduziu-O à cidade santa,
levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito:
‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,

para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu-lhe Jesus:
«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Demónio levou-O consigo a um monte muito alto,
mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».
Respondeu-lhe Jesus:
«Vai-te, Satanás, porque está escrito:
‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’».
Então o Demónio deixou-O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus…” (
cf. Mateus 4, 1-11)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO



- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro, Vaticano - Roma, no dia 18 de Fevereiro de 2026.
 
Caros irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
O Concílio Vaticano II, a cujos documentos dedicamos estas catequeses, quando quis descrever a Igreja, preocupou-se antes de tudo em explicar onde encontra ela a sua origem. Para o fazer, na Constituição dogmática Lumen gentium, aprovada a 21 de novembro de 1964, inspirou-se no termo “mistério”, tirado das Cartas de São Paulo. Escolhendo este vocábulo, não quis dizer que a Igreja é algo obscuro ou incompreensível, como normalmente se pensa quando se ouve pronunciar a palavra “mistério”. Exatamente o contrário: com efeito, quando São Paulo usa esta palavra, especialmente na Carta aos Efésios, quer indicar uma realidade que antes estava escondida e agora foi revelada.
Trata-se do desígnio de Deus, que tem uma finalidade: unificar todas as criaturas graças à ação reconciliadora de Jesus Cristo, ação que se concretizou na sua morte na cruz. Isto é experimentado antes de tudo na assembleia congregada para a celebração litúrgica: ali as diversidades são relativizadas, o que importa é estar juntos porque atraídos pelo Amor de Cristo, que derrubou o muro de separação entre pessoas e grupos sociais (cf. Ef 2, 14). Para São Paulo, o mistério é a manifestação daquilo que Deus quis realizar para toda a humanidade, dando-se a conhecer em experiências locais, que gradualmente se dilatam até incluir todos os seres humanos e até o cosmos.
A condição da humanidade é uma fragmentação que os seres humanos não são capazes de reparar, não obstante a tensão para a unidade habite o seu coração. É nesta condição que se insere a ação de Jesus Cristo que, mediante o Espírito Santo, vence as forças da divisão e o próprio Divisor. Reunir-se para celebrar, tendo acreditado no anúncio do Evangelho, é vivido como atração exercida pela cruz de Cristo, suprema manifestação do amor de Deus; é sentir-se convocado por Deus: é por isso que se usa o termo ekklesía, ou seja, assembleia de pessoas que reconhecem ter sido convocadas. Por isso, há uma certa coincidência entre este mistério e a Igreja: a Igreja é o mistério que se torna percetível.
Contudo esta convocação, precisamente porque é atuada por Deus, não pode limitar-se a um grupo de pessoas, mas está destinada a tornar-se experiência de todos os seres humanos. Por isso, o Concílio Vaticano II, no início da Constituição Lumen gentium, afirma assim: «A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (n. 1). Com o recurso ao termo “sacramento” e a consequente explicação, deseja-se indicar que, na história da humanidade, a Igreja é expressão do que Deus quer realizar; por isso, olhando para ela, compreende-se de certa forma o desígnio de Deus, o mistério: neste sentido, a Igreja é sinal. Além disso, ao termo “sacramento” acrescenta-se também o de “instrumento”, exatamente para indicar que a Igreja é um sinal ativo. Com efeito, quando Deus age na história, envolve na sua atividade as pessoas destinatárias da sua ação. É mediante a Igreja que Deus alcança o objetivo de unir a si as pessoas e de as reunir entre elas.
A união com Deus encontra o seu reflexo na união das pessoas humanas. Esta é a experiência de salvação. Não é por acaso que na Constituição Lumen gentium, no capítulo VII, dedicado à índole escatológica da Igreja peregrina, no n. 48, se utiliza de novo a descrição da Igreja como sacramento, com a especificação “de salvação”: «Na verdade Cristo – diz o Concílio – elevado sobre a terra, atraiu todos a si (cf. Jo 12, 32 gr.); ressuscitado de entre os mortos (cf. Rm 6, 9), infundiu nos discípulos o seu Espírito vivificador e por Ele constituiu a Igreja, seu corpo, como universal sacramento de salvação; sentado à direita do Pai, atua continuamente na terra, a fim de levar os homens à Igreja e os unir mais estreitamente por meio dela e, alimentando-os com o seu próprio corpo e sangue, os tornar participantes da sua vida gloriosa».
Este texto permite compreender a relação entre a ação unificadora da Páscoa de Jesus, mistério de paixão, morte e ressurreição, e a identidade da Igreja. Ao mesmo tempo, torna-nos gratos por pertencer à Igreja, corpo de Cristo ressuscitado e único povo de Deus peregrino na história, que vive como presença santificadora no meio de uma humanidade ainda fragmentada, como sinal eficaz de unidade e reconciliação entre os povos. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 50

Refrão: Pecámos, Senhor, tende compaixão de nós.

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.

Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos.

Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor.


SANTOS POPULARES



BEATA MARIA DE JESUS DELUIL-MARTINY
 
Maria de Jesus Deluil-Martiny nasceu em Marselha, França, em 28 de maio de 1841, filha de Paulo Deluil-Martiny, advogado e administrador de instituições de caridade, e de Anaïs Maria de Solliers, sobrinha-neta da Beata Ana Madalena Remuzat (1696-1730). No baptismo, realizado no dia seguinte, recebeu os nomes de Maria, Carolina e Filomena. Depois dela nasceram o seu irmão Júlio e as suas irmãs Amélia, Clementina e Margarida.
Educada, em casa, segundo os valores cristãos, viveu momentos de particular fervor, por ocasião da sua Primeira Comunhão, no dia 22 de Dezembro de 1853, e do seu Crisma, em 29 de Janeiro de 1854. A sua mãe incutiu nela a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Em casa, também aprendeu a ler e a escrever, e até mesmo latim, com extraordinário sucesso. Possuía um carácter vivaz e uma inteligência aguçada.
Aos oito anos, entrou no internato do Mosteiro da Visitação, em Marselha, para completar os seus estudos iniciais. Quando as Irmãs Visitandinas comentavam a sua vivacidade, com o Arcebispo de Marselha, Santo Eugênio de Mazenod, ele respondeu com uma previsão profética: "Não se preocupem... é coisa de criança... Vocês verão que, um dia, ela será Santa Maria de Marselha".
Maria passou os dois últimos anos da sua formação, em Lyon, como interna no Convento do Coração, de Ferrandière, onde concluiu, com sucesso, os seus estudos superiores. Antes de voltar a casa, fez um curso de exercícios espirituais - um retiro - durante o qual sentiu claramente o chamamento à vida religiosa; tinha, então, dezassete anos. Em Maio de 1858, foi a Ars consultar o pároco, São João Maria Vianney; ele advertiu-a de que levaria muito tempo para realizar a sua vocação.
Tendo rejeitado o casamento, proposto pelos seus pais, envolveu-se, cada vez mais, nos cuidados com eles, à medida que as suas irmãs Clementina, Margarida e Amélia, e o seu irmão Júlio, faleciam sucessivamente. Apesar desse compromisso familiar, Maria começou a substituir a sua mãe, que estava doente, em todas as suas obras de caridade. Em 1864, a convite da fundadora da Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus, a Irmã Maria do Sagrado Coração Bernaud, do Mosteiro da Visitação, em Bourg-en-Bresse, ela tornou-se a sua primeira e zelosa defensora, e colaborou, activamente, na difusão da Obra, que foi fundada em 1863 e elevada à categoria de arquiconfraria em 26 de Novembro de 1878.
Este foi, apenas, o início da sua missão. Pouco a pouco, o plano divino tomou forma, de maneira cada vez mais concreta, como havia previsto São Daniel Comboni, apóstolo do Norte da África. Em Dezembro de 1866, colocou-se sob a direcção espiritual do jesuíta Padre João Calage, que a orientou durante o resto da sua vida.
Em 1867, o desejo de se consagrar totalmente a Deus tornou-se ainda mais intenso e, em 8 de Dezembro de 1869, fez o voto de virgindade perpétua. Nos diversos impulsos interiores que experimentou, em Bourg e Saint-Giniez, a sua vocação tornou-se clara: fazer da sua vida uma imolação contínua com Jesus, na Eucaristia. Estava convencida de que Jesus desejava uma Obra: "a adoração da Santíssima Trindade, pelo Coração Eucarístico de Jesus, o único e verdadeiro Adorador da Divina Majestade". Os membros desta Obra unir-se-ão a Ele, sacerdote e vítima, numa única oblação para obter, para a Santa Igreja, para o ministério sacerdotal e para as almas, os frutos da Redenção. O seu modelo será a Virgem Maria, associada com coração materno, ao sacrifício de Jesus, no Calvário. "Há algum tempo", escreveu Maria, "Nosso Senhor parece ter criado um altar na minha alma, onde Ele se oferece incessantemente ao Pai e à Santíssima Trindade. Ele deseja que eu permaneça diante deste altar, na Sua presença, em adoração incessante, contente em contemplá-Lo e unir-me aos actos divinos que Ele realiza." Daí o seu desejo de ser imolada para obter esta glória para Deus.
Encorajada por seu director espiritual, o Padre Calage, Maria respondeu ao convite do Bispo Van den Berghe, com quem já mantinha contacto há algum tempo, que a incentivou a estabelecer a sua própria obra, na Bélgica. Em 17 de Junho de 1873, ela fez uma peregrinação a Paray-le-Monial e, em 20 de Junho, juntamente com quatro freiras e quatro postulantes, fundou o primeiro Mosteiro do Instituto das Filhas do Coração de Jesus, em Berchem-Antuérpia. Uma nova família religiosa de clausura foi então fundada, e Maria recebeu o nome de Madre Maria de Jesus. Em Julho de 1875, ela escreveu as Constituições com o objectivo específico de "responder, na medida do possível, ao amor tão desconhecido deste divino Coração", pretendendo "oferecer ao Coração de Jesus, sacerdote e vítima no Santíssimo Sacramento do altar, reparação perpétua pelos horríveis ultrajes cometidos contra a divina Majestade", "agradecer continuamente ao Coração de Jesus pelos seus benefícios tão desconhecidos; pela sua grande misericórdia para com os pecadores e, sobretudo, pelas bênçãos especiais que concede às almas sacerdotais e religiosas"; finalmente, com o objectivo de oferecer orações especiais para obter "a vinda do Reino de Cristo, a extinção das sociedades secretas e, sobretudo, a perfeição e santidade, cada vez maiores, do sacerdócio católico e das ordens religiosas", unida em tudo à Virgem Maria, "aos pés da Cruz", que ofereceu "à justiça divina, para a salvação do mundo, o precioso sangue do seu divino Filho".
A Regra adoptada pela Irmã Maria de Jesus foi a de Santo Inácio, com as devidas adaptações. As Constituições, assim redigidas, receberam a sua primeira aprovação em 2 de Fevereiro de 1876, pelo Cardeal Deschamps, que, após ver Maria pela primeira vez, ficou tão impressionado com sua inteligência e cordialidade que a chamou "a Teresa do nosso século". Maria foi verdadeiramente uma superiora prudente e sábia. A comunidade religiosa cresceu rapidamente em número e virtude. Já em 15 de Junho de 1877, outra casa foi inaugurada em Aix.
Em 17 de Agosto de 1878, a Basílica-santuário - que a Bélgica Católica havia erguido ao Sagrado Coração e confiado às Filhas do Coração de Jesus - foi consagrada em Berchem-Antuérpia. Naquele mesmo dia, iniciou o serviço de adoração, ali.
Poucos dias depois, em 22 de Agosto, a Madre Maria de Jesus e as suas primeiras companheiras professaram os votos perpétuos. Para que as suas filhas estivessem intimamente unidas à oração expiatória da Igreja, ela providenciou para que se reunissem, a cada meia hora, em suas casas diante do Santíssimo Sacramento exposto, unindo-se, em espírito, ao Sacrifício divino que é oferecido a cada instante em alguma parte do mundo.
Em 1876, Maria perdeu o pai e a mãe. Antes de falecerem, expressaram o desejo de que uma casa fosse fundada em Servianne, perto de Marselha. Cumprindo o último desejo da mãe, Maria inaugurou uma terceira casa na propriedade da mãe, em Servianne, no dia 24 de Junho, onde fundou o noviciado. No dia em que a primeira missa foi celebrada naquela antiga casa de família, ela exclamou: "Meu Deus, que um dia sejas glorificado ali!". E, de facto, foi ali que ela deu ao Senhor a suprema prova do seu amor. "Unimo-nos ao amor com amor, e unimo-nos ao sacrifício com sacrifício, e o sacrifício requer sangue, o sangue do coração...".
Como suprema prova desse amor, ela chegou a oferecer a sua própria vida: "Se a minha pobre vida puder servir para conduzir ao vosso Coração as almas de que tendes sede, e para cobrir os vossos sagrados altares com hóstias vivas, aceitai-a". Escrevendo ao Papa Leão XIII, ela suplicou-lhe que a oferecesse como vítima pelas suas intenções. O Senhor mostrou-lhe a sua graça. Em 27 de Fevereiro de 1884, Quarta-feira de Cinzas, na residência de "La Servianne", Maria de Jesus Deluil-Martiny foi assassinada por Luís Chave - que fora acolhido, com grande caridade, como jardineiro no Convento - por ódio à religião, alimentado pela leitura de jornais anarquistas. Transportada para a enfermaria, piedosamente entregou a sua alma ao Senhor, murmurando: "Eu o perdoo... pela Obra! ...pela Obra".
Os seus restos mortais, inicialmente depositados no túmulo da família, no cemitério de São Pedro, foram transferidos, em 11 de Novembro de 1899, para o das Filhas do Coração de Jesus e, posteriormente, em 21 de Outubro de 1906, transportados para a Bélgica, onde repousaram numa urna, sob o altar do Sagrado Coração, na Basílica de Berchem-Antuérpia. Actualmente, estão sepultados na Casa-Geral, em Roma.
O instituto que ela fundou recebeu aprovação definitiva em 1896.
No dia 22 de Outubro de 1989, Maria de Jesus Deluil-Martiny foi beatificada pelo Papa João Paulo II. Na Homilia, o Papa disse: “… “Eis que venho para fazer a tua vontade” ( Hb 10,9). Estas palavras atribuídas a Cristo na carta aos Hebreus mostram bem o que Maria Deluil - Martiny foi chamada a realizar ao longo da sua vida. Muito cedo, foi movida de compaixão pelas “feridas infligidas ao amor de Jesus” e pela frequente rejeição de Deus, na sociedade. Ao mesmo tempo, descobriu a grandeza do dom feito por Jesus ao Pai para salvar a humanidade, a riqueza do amor que irradia do seu Coração, a fecundidade do sangue e da água que fluem do seu lado aberto. Convenceu-se da necessidade de participar do sofrimento redentor do Crucificado, em espírito de reparação pelos pecados do mundo. Maria de Jesus ofereceu-se ao Senhor, através de provações e constante purificação. Ela podia dizer verdadeiramente: “Tenho uma grande paixão por Jesus... A sua vida em mim; a minha vida n’Ele” (1884).
Maria compartilhou, com os que estavam ao seu redor, o seu desejo de viver a oblação do Salvador, por meio da participação fervorosa no sacrifício da Missa. Quando fundou as Filhas do Coração de Jesus, colocou a adoração eucarística no centro da vida religiosa. Compreendendo profundamente o sacrifício de Cristo, desejava unir-se incessantemente à oferta do sangue de Cristo à Santíssima Trindade. Com uma compreensão adequada da Eucaristia, incluiu entre as directrizes do Instituto tanto a "acção de graças contínua" ao Coração de Jesus pelos seus benefícios e misericórdia, quanto as "súplicas contínuas para obter a vinda do Reino de Jesus Cristo ao mundo". Entre as suas intenções de oração, os sacerdotes, a sua santidade e a sua fidelidade ocupavam um lugar de destaque.
Ao serviço dessa exigente espiritualidade, Maria de Jesus estabeleceu uma vida religiosa simples e austera, marcada por ofícios solenes, permeada pela adoração, e na qual a vida consagrada era uma autêntica doação de si mesma para que o amor de Cristo pudesse ser conhecido e estimado. Ela escreveu um dia: “Meu coração está cheio de grandes coisas: oblação, imolação, comunhão... Ó Deus, se o sacrifício da minha miserável vida puder servir para propagar este amor secreto, recebe-o...” ( Diário , 23 de outubro de 1874). Quando a sua vida foi tirada, ela estava pronta para se oferecer com Cristo.
Maria de Jesus contemplou a Mãe do Salvador, aos pés da Cruz e presente no seio da Igreja nascente. A Virgem Maria foi seu verdadeiro modelo. Com Maria, a fundadora das Filhas do Coração de Jesus reza e vela pelos discípulos do Filho de Deus, para que jamais cessem de proclamar ao mundo as maravilhas do Seu amor…”
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 27 de Fevereiro.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


VI DOMINGO DO TEMPO COMUM    

 

“…Se quiseres, guardarás os mandamentos:
ser-lhe fiel depende da tua vontade.
Deus pôs diante de ti o fogo e a água:
estenderás a mão para o que desejares.
Diante do homem estão a vida e a morte:
o que ele escolher, isso lhe será dado.
Porque é grande a sabedoria do Senhor,
Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas.
Seus olhos estão sobre aqueles que O temem,
Ele conhece todas as coisas do homem.
Não mandou a ninguém fazer o mal,
nem deu licença a ninguém de cometer o pecado…” (
cf.  Ben-Sirá 15, 16-21)


PALAVRA DO PAPA LEÃO


 


- na Audiência-Geral, na Sala Paulo VI, Vaticano - Roma, no dia 11 de Fevereiro de 2026.
 
Caros irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Na catequese de hoje, concentrar-nos-emos na profunda e vital conexão que existe entre a Palavra de Deus e a Igreja, conexão expressa na Constituição conciliar Dei Verbum , no seu sexto capítulo. A Igreja é o lugar próprio da Sagrada Escritura. Sob a inspiração do Espírito Santo, a Bíblia nasceu do povo de Deus e destinada ao povo de Deus. Na comunidade cristã ela tem, por assim dizer, o seu habitat : na vida e na fé da Igreja, ela encontra o espaço para revelar o seu significado e manifestar sua força. 
O Vaticano II recorda que "a Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor. Nunca deixou de receber e oferecer aos fiéis, sobretudo na sagrada liturgia, o pão da vida da mesa da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo". Além disso, "juntamente com a Sagrada Tradição, a Igreja sempre as considerou e continua a considerá-las como a regra suprema da sua fé" ( Dei Verbum , 21).
A Igreja nunca deixa de reflectir sobre o valor da Sagrada Escritura. Após o Concílio, um momento muito importante a este respeito, foi a Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema “A Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”, em Outubro de 2008. O Papa Bento XVI colheu os frutos deste encontro na Exortação Pós-Sinodal Verbum Domini (30 de Setembro de 2010), onde afirma: “O vínculo intrínseco entre a Palavra e a fé põe em evidência que a autêntica hermenêutica da Bíblia só pode ser encontrada na fé eclesial, que tem o seu paradigma no ‘sim’ de Maria. […] O lugar original da interpretação bíblica é a vida da Igreja” ( n. 29 ).
Na comunidade eclesial, a Escritura encontra, assim, o contexto para realizar a sua tarefa específica e alcançar o seu objectivo: dar a conhecer Cristo e abrir ao diálogo com Deus. «A ignorância da Escritura é, de facto, ignorância de Cristo». Esta famosa expressão de São Jerónimo recorda-nos o objectivo último da leitura e da meditação da Escritura: conhecer Cristo e, por meio d'Ele, entrar em relação com Deus, relação que pode ser entendida como uma conversação, um diálogo. E a Constituição Dei Verbum  apresentou-nos a Revelação precisamente como um diálogo, no qual Deus fala aos homens como amigos (cf. DV , 2). Isto acontece quando lemos a Bíblia em atitude interior de oração: então, Deus vem ao nosso encontro e entra em conversa connosco.
A Sagrada Escritura, confiada à Igreja e, por ela, guardada e explicada, desempenha um papel activo: de facto, com a sua eficácia e poder, dá sustento e vigor à comunidade cristã. Todos os fiéis são chamados a beber desta fonte, antes de mais, na celebração da Eucaristia e dos outros Sacramentos. O amor pela Sagrada Escritura e a familiaridade com ela devem guiar os que exercem o ministério da Palavra: bispos, presbíteros, diáconos e catequistas. É precioso o trabalho dos exegetas e dos que estudam as ciências bíblicas; e a Escritura ocupa um lugar central na teologia, que encontrão seu fundamento e a sua alma na Palavra de Deus.
O que a Igreja ardentemente deseja é que a Palavra de Deus possa alcançar cada um dos seus membros e alimente o caminho da fé. Mas, a Palavra de Deus também impulsiona a Igreja para além de si mesma, abrindo-a continuamente à missão de alcançar a todos. De facto, vivemos rodeados por tantas palavras, mas quantas delas são vazias! Às vezes, ouvimos, também, palavras sábias, que, no entanto, não dizem respeito ao nosso destino último. A Palavra de Deus, ao contrário, vem de encontro à nossa sede de sentido, de verdade acerca da nossa vida. Ela é a única Palavra sempre nova: revelando-nos o mistério de Deus, é inesgotável, jamais cessando de oferecer-nos as suas riquezas.
Caríssimos: vivendo na Igreja, aprendemos que a Sagrada Escritura está inteiramente relativa a Jesus Cristo, e experimentamos que esta é a razão profunda de seu valor e do seu poder. Cristo é a Palavra viva do Pai, o Verbo de Deus feito carne. Todas as Escrituras anunciam a sua Pessoa e a sua presença que salva, a cada um de nós e a toda a humanidade. Abramos, portanto, o coração e a mente para acolher este dom, na escola de Maria, Mãe da Igreja. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 118

Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor

Felizes os que seguem o caminho perfeito
e andam na lei do Senhor.
Felizes os que observam as suas ordens
e O procuram de todo o coração.

Promulgastes os vossos preceitos
para se cumprirem fielmente.
Oxalá meus caminhos sejam firmes
na observância dos vossos decretos.

Fazei bem ao vosso servo:
viverei e cumprirei a vossa palavra.
Abri, Senhor, os meus olhos
para ver as maravilhas da vossa Lei.

Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos
para ser fiel até ao fim.
Dai-me entendimento para guardar a vossa lei
e para a cumprir de todo o coração.


SANTOS POPULARES



SANTA LÚCIA YI ZHENMEI
 
Yi Zhenmei nasceu no dia 17 de Janeiro de 1815, em Mainyang, Sichuan, na China. Era a mais nova de cinco filhos O seu pai era católico, tinha aderido ao catolicismo há algum tempo. Até então, fora budista.
Aos doze anos, adoptou o nome ‘Lúcia’ e consagrou-se ao Senhor, apesar dos seus pais, segundo o costume, a terem prometido em casamento. Incapaz de se libertar da situação que criara, Lúcia Yi fingiu insanidade, anulando assim o acordo matrimonial, também para o futuro.
Retomou os seus estudos para se tornar professora, dedicando-se, também, ao desenvolvimento da sua vida espiritual.
Missionários católicos confiaram-lhe o ensino do catecismo, e ela dedicava-se, com alegria, às tarefas domésticas, ao cuidado dos doentes e ao apostolado catequético.
Quando jovem, decidiu separar-se da família e foi viver com freiras missionárias. Uma grave doença acometeu-a, obrigando-a a retornar a casa. Durante esse período, pessoas maldosas lançaram dúvidas sobre a sua moralidade, a ponto de, até mesmo, a sua superiora acreditar nisso. A sua família desejava vingança; mas ela resistiu, suportando tudo com paz e paciência.
Foi, então, convocada pelo Bispo de Kweichow, que lhe confiou o ensino do catecismo nas aldeias do Vicariato. Superando as dificuldades impostas pela sua família, que temia novos perigos para ela, Lúcia Yi Zhenmei pôs-se imediatamente ao trabalho, auxiliando, também, a obra missionária do Padre João Pedro Néel, das Missões Estrangeiras de Paris, também mártir e canonizado no dia 1 de Outubro de 2000.
Durante a perseguição desencadeada pela seita da "Ninfa Branca", ela foi capturada por soldados: Durante o interrogatório de praxe, fizeram-lhe propostas vantajosas, caso renunciasse à religião cristã: um pedido, também, apoiado pelo seu ex-noivo, que ainda nutria afecto e respeito por ela.
Lucia Yi recusou firmemente e, por isso, foi condenada à decapitação. Ela aceitou a sentença com dignidade, rebelando-se apenas quando tentaram despi-la antes da execução, conseguindo evitar tal humilhação. Foi decapitada no dia 19 de Fevereiro de 1862 em Kaiyang, Guizhou (China), aos 47 anos. Nos dias 18 e 19 de Fevereiro de 1862, foram mortos o Padre Néel e três catequistas. O lenço da sua cabeça, encharcado de sangue, foi levado para casa e curou, instantaneamente, a sua sobrinha Paula, gravemente doente, em cujo corpo o lenço havia sido colocado.
Lúcia Yi Zhenmei foi beatificada, no dia 2 de Maio de 1909, pelo Papa São Pio X, e canonizada, pelo Papa João Paulo II, no dia 1 de Outubro do ano 2000, juntamente com outros mártires chineses.
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 19 de Fevereiro.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


V DOMINGO DO TEMPO COMUM     

 

“…Eis o que diz o Senhor:
«Reparte o teu pão com o faminto,
dá pousada aos pobres sem abrigo,
leva roupa ao que não tem que vestir
e não voltes as costas ao teu semelhante.
Então a tua luz despontará como a aurora
e as tuas feridas não tardarão a sarar.
Preceder-te-á a tua justiça
e seguir-te-á a glória do Senhor.
Então, se chamares, o Senhor responderá,
se O invocares, dir-te-á: “Aqui estou”.
Se tirares do meio de ti a opressão,
os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
se deres do teu pão ao faminto
e matares a fome ao indigente,
a tua luz brilhará na escuridão
e a tua noite será como o meio-dia».,,,” (
cf.  Isaías 58, 7-10)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Sala Paulo VI, Vaticano - Roma, no dia 4 de Fevereiro de 2026.
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
A Constituição conciliar Dei Verbum, sobre a qual reflectimos nestas semanas, indica na Sagrada Escritura, lida na Tradição viva da Igreja, um espaço privilegiado de encontro em que Deus continua a falar aos homens e mulheres de todos os tempos, a fim de que, ouvindo-o, possam conhecê-lo e amá-lo. Contudo, os textos bíblicos não foram escritos numa linguagem celestial ou sobre-humana. Com efeito, como nos ensina também a realidade quotidiana, duas pessoas que falam línguas diferentes não se entendem, não podem dialogar, não conseguem estabelecer uma relação. Em certos casos, fazer-se compreender pelo outro constitui um primeiro acto de amor. Por isso, Deus escolhe falar, servindo-se de linguagens humanas, e assim vários autores, inspirados pelo Espírito Santo, redigiram os textos da Sagrada Escritura. Como recorda o documento conciliar, «as palavras de Deus, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens, tomando a carne da fraqueza humana» (DV, 13). Portanto, não só no seu conteúdo, mas também na linguagem, a Escritura revela a condescendência misericordiosa de Deus para com os homens e o seu desejo de se aproximar deles.
Ao longo da história da Igreja, estudou-se a relação existente entre o Autor divino e os autores humanos dos textos sagrados. Durante vários séculos, muitos teólogos preocuparam-se em defender a inspiração divina da Sagrada Escritura, considerando os autores humanos quase como simples instrumentos passivos do Espírito Santo. Em tempos mais recentes, a reflexão revalorizou a contribuição dos hagiógrafos na redacção dos textos sagrados, a tal ponto que o documento conciliar fala de Deus como «autor» principal da Sagrada Escritura, mas chama também aos hagiógrafos «verdadeiros autores» dos livros sagrados (cf.  DV, 11). Como observava um perspicaz exegeta do século passado, «rebaixar a operação humana à de um simples amanuense não significa glorificar a operação divina». Deus nunca mortifica o ser humano e as suas potencialidades!
Portanto, se a Escritura é Palavra de Deus com palavras humanas, qualquer abordagem sua que negligencie ou negue uma destas duas dimensões é parcial. Daí decorre que uma interpretação correcta dos textos sagrados não pode prescindir do ambiente histórico em que amadureceram, nem das formas literárias utilizadas; pelo contrário, a renúncia ao estudo das palavras humanas, de que Deus se serviu, corre o risco de levar a leituras fundamentalistas ou espiritualistas da Escritura, que atraiçoam o seu significado. Este princípio é válido também para o anúncio da Palavra de Deus: se ele perder o contacto com a realidade, com as esperanças e os sofrimentos dos homens; se utilizar uma linguagem incompreensível, pouco comunicativa ou anacrónica, será ineficaz. Em todas as épocas, a Igreja é chamada a repropor a Palavra de Deus com uma linguagem capaz de se encarnar na história e de alcançar os corações. Como recordava o Papa Francisco, «sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual».
Por outro lado, igualmente redutora é uma leitura da Escritura que descuide a sua origem divina e acabe por a entender como mero ensinamento humano, como algo a estudar simplesmente do ponto de vista técnico, ou como «um texto só do passado». Pelo contrário, sobretudo quando é proclamada no contexto da liturgia, a Escritura tenciona falar aos crentes de hoje; tocar a sua vida presente com as suas problemáticas; iluminar os passos a dar e as decisões a tomar. Isto só é possível quando o crente lê e interpreta os textos sagrados sob a orientação do mesmo Espírito que os inspirou (cf.  DV, 12).
Neste sentido, a Escritura serve para alimentar a vida e a caridade dos crentes, como recorda Santo Agostinho: «Quem pensa ter compreendido as Escrituras divinas [...], se mediante esta compreensão não consegue levantar o edifício da dupla caridade, de Deus e do próximo, ainda não as entendeu».  A origem divina da Escritura recorda também que o Evangelho, confiado ao testemunho dos baptizados, não obstante englobe todas as dimensões da vida e da realidade, transcende-as: ele não pode ser reduzido a uma mera mensagem filantrópica ou social, mas é o anúncio jubiloso da vida plena e eterna que Deus nos concedeu em Jesus.
Caros irmãos e irmãs: demos graças ao Senhor porque, na sua bondade, não deixa faltar à nossa vida o alimento essencial da sua Palavra, e oremos a fim de que as nossas palavras, e ainda mais a nossa vida, não ofusquem o amor de Deus nelas narrado. (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 111

 

Refrão: Para o homem recto nascerá uma luz,

              no meio das trevas.

            

Brilha aos homens retos, como luz nas trevas,
o homem misericordioso, compassivo e justo.
Ditoso o homem que se compadece e empresta
e dispõe das suas coisas com justiça.

Este jamais será abalado;
o justo deixará memória eterna.
Ele não receia más notícias:
seu coração está firme, confiado no Senhor.

O seu coração é inabalável, nada teme;
reparte com largueza pelos pobres,
a sua generosidade permanece para sempre
e pode levantar a cabeça com altivez.


SANTOS POPULARES

 


BEATO TIAGO ALFREDO MILLER
 
Tiago Alfredo Miller nasceu em Ellis, perto de Stevens Point, Wisconsin, Estados Unidos, no dia 21 de Setembro de 1944. Os seus pais, Arnoldo e Lorena, eram fazendeiros. Eles tiveram quatro filhos: William (chamado Bill), Ralph, Patricia e Louise. Foi baptizado, na Igreja da Imaculada Conceição, em Custer, Wisconsin, no dia 1 de Outubro de 1944. Recebeu o Crisma, na mesma igreja, pelas mãos de Monsenhor John Treacy, da Diocese de La Crosse, no dia 28 de Maio de 1955.
Nasceu prematuro e abaixo do peso normal, mas cresceu alto e forte. Gostava de trabalhar na lavoura e cuidar do gado, especialmente das galinhas e dos frangos. Era sociável e comunicativo; interessava-se pelos seus vizinhos e outros moradores, jovens e idosos. Frequentou a escola primária na Escola Pública Edison, em Ellis, caminhando, a pé, todos os dias, cerca de dois quilómetros até à sua escola.
Quanto à sua religiosidade, o seu irmão Bill lembra que, quando criança, ele brincava a imitar os padres a celebrar a missa e dar a bênção. Certa vez, ao regressar a casa, depois da confissão, lembrou-se de que não tinha cumprido a penitência: ajoelhou-se na rua e começou a rezar, ali mesmo. Noutra ocasião, viu-o a rezar para que uma das galinhas, que estava ao seu cuidado, não morresse.
Em 1958, entrou no Instituto Pacelli (sobrenome de família do Papa Pio XII) em Stevens Point, para frequentar o ensino médio. Para a ocasião, recebeu a Enciclopédia Mundial. Tiago leu-a do princípio ao fim, concentrando-se nas páginas sobre países estrangeiros, biografias e ciência.
No Pacelli, conheceu os Irmãos das Escolas Cristãs, fundados por São João Baptista de La Salle. Influenciado, positivamente, pelos professores religiosos e pelo director, o Irmão Floriano Donatelli, pediu para entrar no Noviciado, localizado em Glencoe, no Missouri.
O seu pedido foi atendido, em Setembro de 1959. Três anos depois, no dia 30 de Agosto de 1962, iniciou o seu noviciado: vestiu o hábito religioso e, segundo o costume, mudou o seu nome para Irmão Leão Guilherme. Em 1966, o Capítulo-Geral estabeleceu que os Irmãos poderiam voltar a usar seu sobrenome e o nome de baptismo; ele assim o fez.
O Irmão Tiago passou o seu segundo ano do Juniorato ou Escolasticado, na Cretin-Dernam Hall Secondary School, em St. Paul, Minnesota. Continuou seus estudos na Saint Mary's University em Winona, Minnesota. Ao concluir o noviciado, professou os conselhos evangélicos, aos quais acrescentou as promessas especiais de seu instituto religioso: associação ao serviço educativo dos pobres e de estabilidade.
Na escola Cretin-Dernam Hall, ele leccionava espanhol, inglês e religião. Também supervisionava a manutenção da escola. Nunca se recusava a ajudar, seja a limpar a neve dos passeios, as casas de banho, fornos ou a consertar qualquer coisa quebrada.
Os alunos, sem saber, apelidaram-no "Irmão Faz-Tudo". Outros chamavam-no "Irmão Alegria", por vê-lo tratar todos com bom humor. Fundou, também, uma equipa de futebol para os alunos, da qual, também, se tornou o treinador.
Em 1966, obteve o diploma de Bacharel em Artes e em Línguas Modernas. Em 5 de Maio de 1969, foi informado de que, ao final do retiro anual, poderia fazer os seus votos perpétuos, no dia 12 de Junho.
 
Logo depois, foi enviado para a escola missionária lassalista em Bluefields, na costa atlântica da Nicarágua. Ali, os seus primeiros anos foram muito normais, entre aulas e tarefas de manutenção. Também criou uma equipa de futebol americano. As aulas eram ministradas em espanhol, idioma que o Irmão Tiago, ou melhor, o Irmão Santiago (o equivalente espanhol do seu nome), dominava muito bem.
Em Março de 1974, ano em que concluiu o seu mestrado, foi transferido para Puerto Cabezas, também na costa atlântica, ao norte de Bluefields, para leccionar inglês, matemática e religião, no Instituto Nacional Cristóvão Colombo, administrado pelos Irmãos, mas pertencente ao governo. Durante as férias, leccionava na filial da Universidade Nacional, em Puerto Cabezas, em cursos de formação de professores.
Em 1975, foi nomeado, pelo governo, director do Instituto. Os seus colegas, porém, consideravam-no mais um amigo do que um superior directo. O mesmo se aplicava aos seus alunos, pelos quais se preocupava e se interessava em resolver os seus problemas. Era muito exigente com eles, mas também sabia como incentivá-los, especialmente durante os jogos de basquete, beisebol, softbol e vólei: "Da próxima vez podemos fazer melhor. Não importa se ganharmos ou perdermos...", dizia-lhes.
Aproveitando-se do apoio que tinha no governo, obteve financiamento significativo para expandir as instalações da escola, equipando-a com novas salas de aula, um auditório e laboratórios de ciências, carpintaria e electrotecnia. Também lutou pelos povos indígenas mestiços, por exemplo, criando um corpo de bombeiros voluntários. Com verbas governamentais, mais tarde, construiu dez escolas rurais.
No entanto, devido ao seu relacionamento com Anastácio Somoza, líder do regime nicaraguense, ele passou a sofrer ameaças, inclusive dos pais dos seus alunos. Os sandinistas colocaram-no na sua lista negra. Pouco tempo depois, a revolução chegou a Puerto Cabezas. Quando lhe perguntaram se tinha medo de tiros, o Irmão Tiago respondeu: "Medo? Nunca pensei que pudesse rezar com tanto fervor como rezo quando vou dormir".
Finalmente, em Julho de 1979, ele obedeceu aos seus superiores e regressou aos Estados Unidos. Passou o verão na quinta da família e, em Setembro, voltou para Cretin-Dernham Hall. De manhã, dava aulas de espanhol; e à tarde, dedicava-se à manutenção. Nas horas vagas, também fez um curso de soldadura, no Instituto Técnico local.
Contudo, ele não estava nada feliz, ali. Percebia a disparidade entre os recursos disponíveis para os seus alunos nos Estados Unidos e a pobreza da Nicarágua, onde a educação era privilégio de poucos. Então, pediu para voltar para as missões, de preferência para a Guatemala.
O seu superior local enviou-o ao Centro Sangue de Cristo, em Santa Fé, Novo México, para um curso de actualização de pastoral missionária. Durante esse período, o Irmão Tiago considerou, seriamente, a possibilidade de entrar para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos e seguir a vocação sacerdotal. Ele conhecia bem os Capuchinhos e admirava o trabalho deles, na Nicarágua. No entanto, ele reafirmou firmemente a sua decisão de permanecer religioso lassalista.
Em Janeiro de 1981, o seu novo destino tornou-se efectivo: Huehuetenango, Guatemala, durante um período de três anos.
O Irmão Tiago ficou, imediatamente, cativado pela paisagem, pelos costumes maias e pelas tradições. Iniciou o seu compromisso como professor no Colégio La Salle e no Centro Indígena, que também incluía uma quinta e incentivava os jovens a aprenderem agricultura; assim, eles se tornariam excelentes líderes para as suas comunidades.
O Irmão Tiago, porém, enfrentou vários desafios na vida comunitária. A sua agenda de trabalho impedia-o de cumprir, integralmente, os horários da vida comunitária, principalmente os da oração comum. Muitas vezes, ficava acordado até tarde, para ajudar ou aconselhar os jovens, no Centro Indígena.
Ainda em 1981, voltou aos Estados Unidos, para St. Paul, para uma cirurgia ao joelho. O irmão Estêvão Markham, Visitador-Auxiliar do Distrito de St. Paul / Minneapolis, visitou-o e perguntou-lhe: "Tiago, não tens medo de ir para a América Central, onde, agora, há tanta violência, especialmente contra aqueles que ensinam a justiça, o amor ao próximo e a conduta honesta?" Ele respondeu: "Não estou a pensar nisso. Há tanto a fazer, e não se pode desperdiçar energia reclamando do que pode acontecer. Não importa o que aconteça!"
Exactamente um ano após a sua chegada, em Janeiro de 1982, ele já estava plenamente consciente da situação política, cada vez mais grave. Escreveu ao seu antigo director de noviciado: "Pessoalmente, estou cansado de toda essa violência; mas, continuo profundamente comprometido com essas pessoas pobres que sofrem na América Central... Cristo é perseguido por causa da nossa opção pelos pobres. Cientes dos muitos perigos e dificuldades, continuamos a trabalhar com fé, esperança e confiança na providência de Deus."
Continuou: "Sou Irmão das Escolas Cristãs há quase vinte anos, e o meu compromisso com esta vocação tem-se fortalecido, cada vez mais, desde que comecei a trabalhar na América Central. Peço a Deus a graça e a força para servi-Lo fielmente entre os pobres e oprimidos da Guatemala. Entrego a minha vida à Sua providência e confio-me a Ele."
No dia 10 de Fevereiro de 1982, o pai de um dos Irmãos guatemaltecos preocupou os religiosos do Colégio La Salle: ele ouvira membros do Exército a conspirar para assassinar o vice-director da instituição. Na realidade, havia três directores adjuntos, para cada uma das instalações confiadas aos lassalistas: o Irmão Tiago era o director-adjunto do Centro Indígena.
Como a ameaça era muito vaga, recomendou-se que nenhum dos Irmãos deixasse as suas casas. Enquanto isso, o embaixador dos EUA enviou um alerta a grupos religiosos norte-americanos a trabalhar na Guatemala, informando-os de que ouvira rumores sobre planos para assassinar um "norte-americano" não especificado, num futuro próximo.
Além disso, os estudantes do Centro eram frequentemente recrutados à força para o exército, mesmo estando teoricamente isentos do serviço militar. Nesses casos, os Irmãos apresentavam às autoridades provas de que o recrutado era estudante; momento em que, a contragosto, ele era liberado. O mesmo aconteceu em 11 de Fevereiro de 1983, quando um jovem maia foi recrutado e um dos lassalistas tentou, em vão, libertá-lo. O Irmão Tiago, por sua vez, havia enfrentado uma situação semelhante, durante os seus anos, na Nicarágua.
Apesar dos rumores, ele continuou a realizar o seu trabalho habitual. Mas, no dia 13 de Fevereiro de 1982, enquanto os rapazes da casa preparavam as fantasias de carnaval – era o dia de Carnaval – o Irmão Tiago reparou que um poste de iluminação precisava de conserto; então, com uma escada, subiu ao poste e começou a arranjar a avaria. Mal havia começado, quando três homens mascarados chegaram. Um deles disparou a sua arma, atingindo-o na garganta, no peito e no lado direito. Morreu instantaneamente… Os rapazes correram para o ajudar, assim que ouviram os tiros, mas já não puderam fazer nada.
O funeral do Irmão Tiago foi realizado na Guatemala. Mas, a sua família pediu que o seu corpo fosse levado para os Estados Unidos. Escoltado por milhares de estudantes e amigos, o corpo do Irmão Tiago foi levado de avião para Huehuetenango, e dali, para Ellis, no Wisconsin. No dia 18 de Fevereiro de 1982, foi celebrada uma missa, na Igreja de São Martinho, em Ellis, em memória do Irmão Tiago Alfredo Miller, antes de ser sepultado no cemitério local.
Nunca foi possível identificar os autores do assassinato, mas a reputação de santidade e martírio do Irmão Tiago sempre permaneceu viva entre os Irmãos das Escolas Cristãs, na Guatemala, a ponto de o aniversário do seu assassinato ser comemorado.
O Irmão Tiago Miller foi beatificado, pelo Papa Francisco, no dia 7 de Dezembro de 2019, no Colégio La Salle, em Huehuetenango, em cerimónia presidida pelo Cardeal José Luís Acunza Maestrojuán, Bispo de David (Panamá), como delegado do Santo Padre.
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 13 de Fevereiro.

sábado, 31 de janeiro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


IV DOMINGO DO TEMPO COMUM    

 

“…Vede quem sois vós, os que Deus chamou:
não há muitos sábios, naturalmente falando,
nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos.
Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo
para confundir os sábios;
escolheu o que é vil e desprezível,
o que nada vale aos olhos do mundo,
para reduzir a nada aquilo que vale,
a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus.
É por Ele que vós estais em Cristo Jesus,
o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus,
justiça, santidade e redenção.
Deste modo, conforme está escrito,
«quem se gloria deve gloriar-se no Senhor»…”(
cf. 1 Coríntios 1, 26-31)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Sala Paulo VI, Vaticano - Roma, no dia 28 de Janeiro de 2026.
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Dando continuidade à leitura da Constituição conciliar Dei Verbum sobre a Revelação divina, hoje, reflectimos sobre a relação entre a Sagrada Escritura e a Tradição. Podemos tomar como pano de fundo duas cenas evangélicas. Na primeira, que tem lugar no Cenáculo, Jesus, no seu grande discurso-testamento dirigido aos discípulos, afirma: «Eu disse-vos isto estando convosco. Mas o Consolador, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e recordar-vos-á tudo o que vos tenho dito. [...] Quando vier o Espírito da verdade, Ele guiar-vos-á para a verdade total» (Jo 14, 25-26; 16, 13).
A segunda cena leva-nos, ao contrário, até às colinas da Galileia. Jesus ressuscitado mostra-se aos discípulos, surpreendidos e duvidosos, confiando-lhes uma missão: «Ide e ensinai todas as nações [...] ensinando-as a cumprir tudo o que vos tenho mandado» (Mt 28, 19-20). Em ambas estas cenas é evidente o íntimo nexo entre a palavra pronunciada por Cristo e a sua difusão ao longo dos séculos.
É quanto afirma o Concílio Vaticano II, recorrendo a uma imagem sugestiva: «A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão intimamente ligadas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, formam como que uma só coisa e tendem para o mesmo fim» (Dei Verbum, 9). A Tradição eclesial ramifica-se ao longo da história através da Igreja que ampara, interpreta, encarna a Palavra de Deus. O Catecismo da Igreja Católica  (cf. n. 113) remete, a tal respeito, para um lema dos Padres da Igreja: «A Sagrada Escritura está inscrita no coração da Igreja antes do que em instrumentos materiais», isto é, no texto sagrado.
No sulco das palavras de Cristo supracitadas, o Concílio afirma que «a Tradição apostólica progride na Igreja com a assistência do Espírito Santo» (DV, 8). Isto acontece com a compreensão plena, através da «contemplação e estudo dos crentes», mediante a experiência que nasce da «íntima compreensão das coisas espirituais» e, sobretudo, com a pregação dos sucessores dos apóstolos, que receberam «um carisma seguro da verdade». Em síntese, «na sua doutrina, vida e culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo em que acredita» (ibid.).
A este respeito, é famosa a expressão de São Gregório Magno: «A Sagrada Escritura cresce com quantos a leem».  E já Santo Agostinho afirmava que «é um só o discurso de Deus que se desenvolve em toda a Escritura e um só é o Verbo que ressoa nos lábios de tantos santos».  Portanto, a Palavra de Deus não é fossilizada, mas constitui uma realidade viva e orgânica que se desenvolve e cresce na Tradição. Graças ao Espírito Santo, esta última compreende-a na riqueza da sua verdade, encarnando-a nas coordenadas mutáveis da história.
Nesta linha, é sugestivo o que propunha o santo Doutor da Igreja, John Henry Newman, na sua obra intitulada O desenvolvimento da doutrina cristã. Ele afirmava que o cristianismo, quer como experiência comunitária quer como doutrina, é uma realidade dinâmica, da maneira indicada pelo próprio Jesus com as parábolas da semente (cf. Mc 4, 26-29): uma realidade viva que se desenvolve graças a uma força vital interior.
O apóstolo Paulo exorta, várias vezes, o seu discípulo e colaborador Timóteo: «Ó Timóteo, conserva o depósito que te foi confiado» (1 Tm 6, 20; cf. 2 Tm 1, 12.14). Na Constituição dogmática Dei Verbum ressoa este texto paulino, quando diz: «A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja», interpretado pelo «magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo» (n. 10). “Depósito” é um termo que, na sua matriz original, é de natureza jurídica e impõe ao depositário o dever de conservar o conteúdo, que neste caso é a fé, e de o transmitir intacto.
Ainda hoje o “depósito” da Palavra de Deus está nas mãos da Igreja e todos nós, nos vários ministérios eclesiais, devemos continuar a conservá-lo na sua integridade, como estrela polar para o nosso caminho na complexidade da história e da existência.
Caríssimos, para concluir, ouçamos novamente a Dei Verbum, que exalta a interligação entre a Sagrada Escritura e a Tradição: elas – afirma – estão tão ligadas e unidas entre si que não podem existir independentemente e, juntas, segundo o modo que lhes é próprio, sob a acção de um único Espírito Santo, contribuem, eficazmente, para a salvação das almas (cf. n. 10). (cf. Santa Sé)