PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Ide vós, também, para a minha vinha …” (cf. Mateus 20, 7) Na página evangélica de hoje (cf. Mt 20, 1-16) encontramos a parábola dos operários chamados a trabalhar ao dia, que Jesus narra para comunicar dois aspectos do Reino de Deus: o primeiro, que Deus quer chamar todos a trabalhar para o seu Reino; o segundo, que no final deseja oferecer a todos a mesma recompensa, ou seja, a salvação, a vida eterna. O senhor da vinha, que representa Deus, sai ao romper da manhã e contrata um grupo de operários, concordando com eles o salário de um denário por dia: era um salário justo. Depois, sai também nas horas seguintes — ele sai cinco vezes naquele dia — até ao cair da tarde, para contratar outros operários que estão desempregados. No final do dia, o senhor ordena que seja dado um denário a todos, até àqueles que tinham trabalhado poucas horas. Naturalmente, os trabalhadores contratados primeiro queixam-se, porque vêem que são pagos como aqueles que trabalharam menos. No entanto, o senhor recorda-lhes que receberam quanto tinham concordado; mas, se ele quiser ser generoso com os demais, não devem sentir inveja. Na realidade, esta “injustiça” do senhor serve para provocar, em quantos ouvem a parábola, um salto de nível, porque aqui Jesus não quer falar do problema do trabalho, nem do salário justo, mas do Reino de Deus! E a mensagem é esta: no Reino de Deus não existem desempregados, todos são chamados a desempenhar a sua parte; e, no final, haverá para todos a recompensa que deriva da justiça divina - não humana, por sorte! - ou seja, a salvação que Jesus Cristo nos conquistou com a sua morte e ressurreição. Uma salvação que não é merecida, mas concedida - a salvação é gratuita - e por isso, «os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (Mt 20, 16). Com esta parábola, Jesus quer abrir o nosso coração à lógica do amor do Pai, que é gratuito e generoso. Trata-se de nos deixarmos surpreender e fascinar pelos «pensamentos» e pelos «caminhos» de Deus que, como recorda o profeta Isaías, não são os nossos pensamentos, não são os nossos caminhos (cf. Is 55, 8). Os pensamentos humanos são, muitas vezes, marcados por egoísmos e interesses pessoais; e as nossas veredas estreitas e tortuosas não são comparáveis com os caminhos largos e rectos do Senhor. Ele é misericordioso - não nos esqueçamos disto: Ele é misericordioso - perdoa amplamente; está cheio de generosidade e de bondade, que derrama sobre cada um de nós, abrindo a todos os territórios ilimitados do seu amor e da sua graça, os únicos que podem conferir ao coração humano a plenitude da alegria. Jesus quer levar-nos a contemplar o olhar daquele senhor: o olhar com que vê cada um dos operários à espera de um trabalho, chamando-os para a sua vinha. Trata-se de um olhar cheio de atenção e de benevolência; é um olhar que chama, que convida a erguer-se, a pôr-se a caminho, porque deseja a vida para cada um de nós; quer uma vida plena, comprometida, resgatada do vazio e da inércia. Deus não exclui ninguém e quer que cada um alcance a sua plenitude. Este é o amor do nosso Deus, do nosso Deus que é Pai. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 17 de Setembro de 2017, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

domingo, 20 de setembro de 2026

EM DESTAQUE:

 


*INÍCIO DA CATEQUESE
A catequese, na Igreja Matriz, terá o seu início no dia 10 de Outubro, às 17 horas.
As inscrições para o 1º ano podem ser feitas até ao dia 10.
 
*CELEBRAÇÃO DO CRISMA
No dia 6 de Dezembro, às 10 horas, na Igreja Matriz da Feira, o Sr. D. Roberto Mariz, Bispo-Auxiliar do Porto, presidirá à celebração do Crisma: receberão o Sacramento da Confirmação ou Crisma, os jovens das Paróquias de Sanfins, Escapães e Feira que terminaram o 10º ano da catequese.
Convidamos, como é habitual, os adultos, ainda não crismados, para uma breve preparação e, assim, poderem ser, também, crismados no dia 6 de Dezembro. A preparação tem início no dia 3 de Outubro, às 19,30, na Igreja Matriz.
Não é preciso fazer inscrição: basta aparecer!...

DA PALAVRA DO SENHOR


 

- XXV DOMINGO COMUM

 

“…Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar,
invocai-O, enquanto está perto.
Deixe o ímpio o seu caminho
e o homem perverso os seus pensamentos.
Converta-se ao Senhor, que terá compaixão dele,
ao nosso Deus, que é generoso em perdoar.
Porque os meus pensamentos não são os vossos,
nem os vossos caminhos são os meus – oráculo do Senhor –.
Tanto quanto o céu está acima da terra,
assim os meus caminhos estão acima dos vossos
e acima dos vossos estão os meus pensamentos…
(cf. Isaías 55, 6-9)


PALAVRA DO PAPA LEÃO



- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia16 de Setembro de 2026
 
Irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Dedicando o segundo capítulo à “comunidade humana”, a Constituição Gaudium et spes (GS)  convida a considerar a «multiplicação das relações entre os homens» «entre os principais aspectos do mundo actual» (n. 23). No entanto, esta realidade tem necessidade de encontrar o seu cumprimento «ao nível mais profundo da comunidade de pessoas», para a qual é indispensável «o mútuo respeito pela sua plena dignidade espiritual» (ibid.).
São afirmações que, nos nossos dias, adquirem maior urgência. Com efeito, por um lado o desenvolvimento tecnológico, a difusão dos mass media e dos social media, e o recurso crescente à inteligência artificial abrem novas possibilidades, abatendo barreiras e distâncias; por outro, as relações tendem a tornar-se cada vez menos pessoais, mais virtuais, e corremos o risco de nos habituarmos a delegar aos algoritmos decisões que competem exclusivamente à consciência humana. A tal respeito, fazer com que as relações sociais tenham peso real e profundidade pessoal é a contribuição que a comunidade cristã se propõe oferecer.
O Concílio convida a encontrar critérios e força no projecto criador de Deus, que desejou que «[todos] os homens formassem uma só família e se tratassem uns aos outros como irmãos»; por isso, «o amor a Deus e ao próximo é o primeiro e maior de todos os mandamentos», que em Cristo teve a sua plena revelação e a sua completa actuação (cf. GS, 24).
O aperfeiçoamento da pessoa humana e o desenvolvimento da sociedade devem ser considerados estreitamente interdependentes entre si: opô-los ou separá-los significaria torná-los vãos. A história, até a mais recente, confirma esta verdade de maneira clara e, por isso, não devemos cansar-nos de reiterar, com os Padres do Concílio Vaticano II, que «a pessoa humana, uma vez que por sua natureza necessita absolutamente da vida social, é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais» (GS, 25).
Nesta perspectiva, a Gaudium et spes afirma que a diversidade das pessoas e dos povos, no mundo, não deve ser considerada um perigo nem uma ameaça, mas potencial de enriquecimento e crescimento. A oposição, que às vezes degenera em violência, constitui um fruto do poder do pecado e do modo como ele condiciona as mentalidades e as acções a todos os níveis, causando destruição e morte. É necessário abrir-se cada vez mais à lógica da reciprocidade, da partilha e do cuidado, como acontece, também, entre os diferentes membros do corpo humano (cf. 1 Cor 12, 21-25).
Neste ponto, a Constituição pastoral oferece, inclusive, uma definição sintética de “bem comum”, recordando que ele consiste no «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» (GS, 26). Ao mesmo tempo, reconhecendo a interdependência entre os povos, ela afirma que «cada grupo deve ter em conta as necessidades e legítimas aspirações dos outros grupos e mesmo o bem comum de toda a família humana» (ibid.).
Em seguida, a partir desta abordagem, os Padres conciliares indicam algumas «conclusões práticas e mais urgentes» (GS, 27). Em primeiro lugar, o respeito pela pessoa humana. A Gaudium et spes afirma: «Tudo quanto se opõe à vida, como toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas estas coisas, e outras semelhantes, são infamantes» (ibid.).
Segunda conclusão: o respeito e o amor até pelos adversários ou por aqueles que pensam ou agem diferentemente de nós (cf. GS, 28).
Em terceiro lugar: a igualdade fundamental de todos os homens, que exige justiça social. O Documento diz: «Deve superar-se e eliminar-se, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão de sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião» (GS, 29).
Para concluir, os Padres conciliares exortam a superar a mentalidade individualista e a assumir uma atitude de responsabilidade e participação (cf. GS, 30-31).
Caros irmãos e irmãs, esta visão da humanidade como “comunidade de pessoas” é um legado precioso que o Concílio Vaticano II nos deixou. Ela ajuda todos nós a realizar um discernimento pessoal e comunitário, para avaliar com responsabilidade os projectos sociais e políticos de hoje, com base nos critérios da dignidade da pessoa humana, da justiça social e da livre participação na construção do bem comum. Pois o futuro da humanidade depende do compromisso de cada um para colaborar com Deus e com os irmãos na construção de um mundo mais humano (cf. GS, 30). (cf. Santa Sé)

PARA REZAR



- SALMO 144

Refrão: O Senhor está próximo de quantos O invocam.

 

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.
Grande é o Senhor e digno de todo o louvor,
insondável é a sua grandeza.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

O Senhor e justo em todos os seus caminhos
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor está perto de quantos O invocam,
de quantos O invocam em verdade.


SANTOS POPULARES

 


SANTA TERESA COUDERC
 
Maria Vitória Couderc nasceu, no dia 1 de Fevereiro de 1805, em Mas de Sablières, França, filha de Cláudio Miguel Couderc e de Ana Méry. Recebeu a Primeira Comunhão em 15 de Maio de 1815. Os seus pais,  agricultores de recursos limitados, só conseguiram proporcionar-lhe educação, entre os 17 e os 20 anos, no convento das Irmãs de São José, em Les Vans. Passou a sua juventude em aldeias e vilas da Diocese de Viviers.
Em 1825, aos 20 anos, voltou a Sablières para participar da missão pregada por um missionário diocesano, o Padre Terme, ex-pároco de Aps e fundador de uma congregação religiosa – Congregação das Irmãs de São Francisco Régis - dedicada à educação. Mais tarde, o Padre Terme tornou-se seu director espiritual.
Em 1826, o Padre Terme enviou-a, como postulante, para a Casa de Aps, onde, no dia 27 de Março, Maria Vitória recebeu o hábito e adoptou a nome Irmã Teresa. No ano seguinte, o fundador confiou-lhe, juntamente com outras duas freiras, a organização de uma hospedaria em La Louvesc, para peregrinos que viajavam ao túmulo de São Francisco Régis [São Francisco Régis, nasceu no dia 31 de Janeiro de 1597, no castelo de Fontcouverte, na região do Languedoc, sul da França. Pertencia a uma família nobre e profundamente católica, que lhe proporcionou sólida formação cristã desde a infância. Foi sacerdote jesuíta, missionário incansável e um dos maiores evangelizadores do século XVII. A sua vida foi marcada pelo zelo apostólico, pela dedicação aos pobres, pelo cuidado com os doentes e pela incansável pregação do Evangelho. É considerado um modelo de sacerdote missionário, que fez de toda a sua existência uma entrega generosa ao serviço de Cristo e da Igreja. Faleceu no dia 31 de Dezembro de 1640, com apenas 43 anos de idade, após consumir completamente sua vida ao serviço do Evangelho]: esta foi a primeira semente do 'Cenáculo'.
No final de 1828, a Irmã Teresa Couderc foi eleita superiora, fazendo os seus primeiros votos; no ano seguinte, conseguiu que a Casa fosse reservada para exercícios espirituais; ao mesmo tempo, o Padre Terme, tendo tomado conhecimento dos exercícios espirituais de Santo Inácio, com os Jesuítas de Vals, encaminhou as Irmãs de São Régis para esta espiritualidade: ficaram conhecidas como as "Senhoras do Retiro".
No dia 12 de Dezembro de 1834, o Padre Terme faleceu. Então, a Madre Teresa Couderc confiou a obra ao cuidado do Provincial dos Jesuítas franceses, o Padre Francisco Renault.
Em 1836, o Bispo de Viviers aprovou a Regra das "Senhoras do Retiro". Nessa ocasião, o Padre Provincial dos Jesuítas obrigou-as a separarem-se das Irmãs de São Francisco Régis, que se dedicavam ao ensino.
A Madre Teresa permaneceu como superiora das "Senhoras do Retiro", em La Louvesc, professando os seus votos solenes, no dia 6 de Janeiro de 1837. Em 15 de Agosto, fez a sua consagração a Nossa Senhora de Ay, nomeando-a superiora da sua casa, prometendo obedecer sempre à voz da Graça e nunca à da natureza.
Em Outubro de 1838, o Padre Renault, jesuíta, apresentou-lhe uma postulante, a Condessa de Lavilleurnoy, que, alguns dias depois, foi nomeada por ele "superiora fundadora" da Congregação; A esta grave afronta - que lhe foi dirigida, talvez por razões de conveniência, no contexto social da época - levou a Madre Teresa a baixar a cabeça, sem resistência, fiel à sua regra de obediência.
Passaram-se onze meses e a "superiora fundadora", levou a Congregação à ruína e depois retirou-se. Mas, as provações não terminaram. O Padre Renault nomeou a Irmã Contenet em seu lugar, no dia 24 de Setembro de 1839, que, apesar de ser uma excelente superiora, trabalhou até à sua morte - no dia 24 de Fevereiro de 1852 - para marginalizar, completamente, a Madre Teresa.
A verdadeira fundadora da Congregação aceitou, humildemente, a situação, revelando a sua natureza mística, ao dizer: "Quando Nosso Senhor quer usar uma alma para a Sua glória, primeiro fá-la passar pela prova da contradição, da humilhação e do sofrimento; não se pode ser um instrumento útil, sem isso".
A situação mudou quando foi nomeada uma nova Superiora, a Madre de Larochenégly, que demonstrou uma crescente estima pela Madre Teresa. Entretanto, foram abertas novas Casas, em Fourvières e em Paris. A Obra das ‘Senhoras do Retiro’ foi dedicada a Nossa Senhora do Cenáculo, no dia 25 de Março de 1852, e a festa de Nossa Senhora do Cenáculo foi celebrada, pela primeira vez, no dia 28 de Maio de 1854.
A história da Obra não foi fácil: no dia 7 de Março de 1855, a Madre Teresa foi enviada para a Casa de Paris, devido a uma divergência com a superiora local, que saiu da Congregação, levando quatro freiras consigo.
A Madre Couderc permaneceu em Paris, como um "exemplo da regra viva", até 24 de Novembro de 1856. Depois, a sua vida foi uma sucessão de responsabilidades como superiora de várias casas em Tournai, La Louvesc, Lyon e Montpellier, até 1867.
A partir desse ano, a Madre Teresa Couderc viveu em Fourvières, levando uma vida ascética, oferecendo-se como vítima a Deus, com o propósito de "aderir a tudo, aceitar tudo, submeter-se a tudo". Nunca pediu a Deus para ser libertada do seu sofrimento, mas "apenas a força para sofrer; e o amor da Cruz que nos faz sofrer".
O "Cenáculo" que ela fundou tornou-se um movimento mundial. No momento da sua morte, no dia 26 de Setembro de 1885, as freiras que a assistiam entoaram o "Magnificat": ‘A minha alma glorifica o Senhor…’
Foi beatificada, no dia 17 de Junho de 1951, pelo Papa Pio XII.
Foi canonizada, na Basílica de São Pedro, em Roma, pelo Papa Paulo VI, no dia 10 de Maio de 1970.
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 26 de Setembro.
 

sábado, 12 de setembro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XXIV DOMINGO COMUM

 

“…Nenhum de nós vive para si mesmo
e nenhum de nós morre para si mesmo.
Se vivemos, vivemos para o Senhor,
e se morremos, morremos para o Senhor.
Portanto, quer vivamos quer morramos,
pertencemos ao Senhor.
Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou
para ser o Senhor dos vivos e dos mortos…
(cf. Romanos 14, 7-8)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 9 de Setembro de 2026
 
Irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos! 
Dedicando o primeiro capítulo à dignidade da pessoa humana, a Constituição conciliar Gaudium et spes (GS) realça que ela é base e condição daqueles «valores que hoje são mais apreciados», mas não devem perder a ligação com «a sua fonte divina», para se subtrair às possíveis distorções devidas à «corrupção do coração humano» (GS, 11). 
Sem dúvida, o caminho que permitiu evidenciar os traços e os direitos fundamentais da dignidade da pessoa representa uma das páginas mais significativas da história humana. No entanto, o percurso a percorrer não terminou e deve enfrentar as contradições, antigas e novas, que impedem uma sua plena atuação. 
A Igreja oferece, com clareza, a sua contribuição, recordando que a dignidade humana brota do próprio ser da pessoa. Tive a oportunidade de o reiterar, também, na recente Encíclica Magnifica humanitas: «Cada pessoa (...) é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação. A sua dignidade não depende das capacidades que possui, das riquezas ou da função que desempenha, de escolhas certas ou erradas, mas é um dom, que a precede e a ultrapassa, concedido por Deus como expressão do seu amor que nunca falha» (n. 50). Por conseguinte, a dignidade infinita do ser humano enraíza-se na sua identidade de criatura feita «“à imagem de Deus”, capaz de conhecer e amar o seu Criador», projecto e dom de amor que transcende as demais realidades criadas, que são confiadas ao seu cuidado «para as dominar e delas se servir, dando glória a Deus» (GS,12). 
Na fé, podemos compreender o fundamento último da dignidade da pessoa, uma vez que o Filho, «na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (GS, 22). 
A pessoa significa sempre relação, comunhão, participação no que diz respeito a Deus e aos outros; portanto, uma relação filial com Deus Pai e uma relação fraterna com Cristo e com todos os homens. Exclui fechamentos autorreferenciais. Ser pessoa significa sentir-se a si próprio como dom a partilhar, crescendo e amadurecendo no acolhimento, na reciprocidade e no serviço. 
Esta dignidade é confiada à responsabilidade de cada um: ao mesmo tempo, ela exige, também, solidariedade e cuidado recíproco, superando as numerosas falsificações e manipulações que, até hoje, deturpam a sua noção e impedem a sua realização. Com efeito, por causa das escolhas contrárias à sua dignidade, feitas ao longo da história, ainda hoje «o homem encontra-se (...) dividido em si mesmo» e «toda a vida humana, quer singular quer colectiva, apresenta-se como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas». Contudo, esta condição frágil e limitada pode ser encarada com esperança, pois «o Senhor, em pessoa, veio para libertar e fortalecer o homem, renovando-o interiormente e lançando fora o príncipe deste mundo (cf. Jo 12, 31), que o mantinha na servidão do pecado» (GS, 13). 
Além disso, a Constituição Gaudium et spes afirma que a dignidade humana diz respeito à totalidade da pessoa e, por isso, é preciso superar as visões dualistas: o ser humano é «uno, composto de corpo e alma». A redução do corpo a “objecto”, do qual dispor arbitrariamente, é sempre negação da dignidade da pessoa: [O homem] «não pode […] desprezar a vida corporal», e é necessário «considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há-de ressuscitar no último dia», velando a fim de que ele não «se escravize às más inclinações do próprio coração» (GS, 14), uma vez que todos nós somos feridos pelo pecado. 
Para concluir: são três as expressões mais significativas da dignidade da pessoa, evocadas pela Gaudium et spes: a inteligência, que faz do ser humano um buscador insaciável da verdade (n. 15); a consciência, através da qual ele confere unidade e sentido à própria vida (n. 16); a liberdade, que o torna protagonista responsável pelas próprias decisões (n. 17). Trata-se de dimensões intimamente unidas entre si: é na consciência que a verdade é reconhecida como tal e a liberdade pode experimentá-la como seu fundamento e possibilidade. O Espírito Santo, que dá vida em Cristo, torna-nos livres e assegura-nos, constantemente, a nossa dignidade de filhos de Deus, libertando-nos do medo e guiando-nos para a meta última, aquela vida em plenitude para além da morte que Cristo nos prometeu: só n’Ele encontra verdadeira luz o mistério do homem; d’Ele recebemos luz sobre o enigma da dor e da morte; com Ele caminhamos ao encontro da ressurreição. 
Caros irmãos e irmãs, criados à imagem de Deus, por meio de Cristo e em vista d’Ele, recebemos uma dignidade única e indelével. Comprometamo-nos a promovê-la e a defendê-la sempre, com a luz e a força do Evangelho!  (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 


- SALMO 102

Refrão: O Senhor é clemente e compassivo,

              cheio de misericórdia para com todos.

 

Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e todo o meu ser bendiga o seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

Ele perdoa todos os teus pecados
e cura as tuas enfermidades.
Salva da morte a tua vida
e coroa-te de graça e misericórdia.

Não está sempre a repreender
nem guarda ressentimento.
Não nos tratou segundo os nossos pecados
nem nos castigou segundo as nossas culpas.

Como a distância da terra aos céus,
assim e grande a sua misericórdia para os que O temem.
Como o oriente dista do Ocidente,
assim Ele afasta de nós os nossos pecados.


SANTOS POPULARES

 


BEATO ANTÓNIO MARIA SCHWARTZ

António Maria Schwartz nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1852, em Baden, na Áustria. Era o quarto de treze filhos de uma família muito religiosa e cristã. O seu pai era funcionário municipal e a sua mãe dona de casa. Frequentou a escola primária na paróquia de Baden; a escola de canto em Heligenkreutz; e o ensino médio, no colégio escocês.
O jovem António frequentou a escola paroquial e chegou a aprender a cantar num coral. Infelizmente, um acontecimento grave mergulhou-o numa profunda tristeza: aos quinze anos, o seu pai faleceu. O jovem, profundamente desolado, perdeu o ano escolar e, apesar do seu bom desempenho, não conseguiu dedicar-se aos estudos. Entrou, então, numa nova escola católica e encontrou grande consolo na figura de um santo que viveu três séculos antes dele: o espanhol José Calasanz, fundador de escolas gratuitas para os pobres e padroeiro universal de todas as escolas populares cristãs do mundo. [São José de Calasanz nasceu no dia 31 de Julho de 1558, na província de Aragão, Espanha, numa família nobre e muito religiosa. Em 1617, fundou a Congregação Paulina dos Pobres da Mãe de Deus das Pias Escolas, depois chamados de Escolápios.]
Prevendo a supressão da sua Ordem, na Áustria, os Padres Escolápios aconselharam António a abandonar os estudos para o seu próprio bem. Em 1871, António entrou no Seminário Diocesano. O seu tempo de seminarista foi marcado por excelentes resultados académicos e por duas doenças graves que o acometeram (após a segunda doença, consagrou-se a Nossa Senhora) e, em 8 de Dezembro de 1873, acrescentou ao seu nome o de ‘Maria’, em memória e agradecimento a Nossa Senhora.
Foi ordenado sacerdote no dia 25 de Julho de 1875 pelo Cardeal Rauscher.
Durante quatro anos, foi capelão e, depois, foi chamado para Viena, para exercer o ministério de curador espiritual dos enfermos, nos hospitais das Irmãs da Misericórdia, em Sechshaus.
Ali, teve a oportunidade de testemunhar as difíceis condições dos jovens aprendizes e dos estudantes trabalhadores, pois, enquanto frequentavam a escola, as Irmãs cuidavam deles; mas, uma vez inseridos no mercado de trabalho, elas não podiam acompanhá-los nem dar-lhes educação religiosa.
No coração do Padre Schwartz crescia o desejo de se dedicar aos jovens trabalhadores. De facto, em Viena, ele percebeu que os jovens, ao abandonarem os estudos para aprender um ofício, distanciavam-se da Palavra de Deus, deixavam de frequentar a catequese e ninguém lhes falava de Jesus.
A vida de um aprendiz e jovem operário, na Europa de meados do século XIX, era extremamente difícil: trabalho árduo, salário insuficiente, exploração pelos patrões, ausência de protecção sindical, jornadas de trabalho exaustivas até para crianças, horas extras não remuneradas, salários irrisórios mesmo para quem trabalhava aos sábados, domingos e feriados e, sobretudo, a falta de fé. Tudo isto tinha tremenda influência na vida dos mais pobres, agravando a situação das pessoas e das famílias. Então, o jovem sacerdote, pensando em todas estas situações, fundou a União dos Aprendizes Católicos, colocando-a sob a protecção de São José Calasanz. Em 1888, fundou o jornal “L'Artigianato cristiano” (O artesanato cristão) que ele mesmo editava.
Iniciou, assim, um intenso e próspero trabalho pastoral, em favor dos mais necessitados. Em poucos meses, construiu uma igreja dedicada aos trabalhadores de Viena, dedicando-a a São José Calasanz, em homenagem ao seu testemunho de santidade e ao impacto que a sua vida teve no jovem António Schwartz ; fundou a Congregação dos Trabalhadores Cristãos de São José Calasanz. O Padre António Maria apresentou o Evangelho, a cultura, a arte e a música aos aprendizes e operários. Fundou uma agência de empregos para ajudá-los a encontrar bons empregos, com empregadores católicos. Através de acordos, milhares de aprendizes da instituição conseguiram empregos com salários dignos e folga aos domingos.
Em determinada altura, pediu ao Cardeal Ganglbauer, de Viena, que tivesse um cuidado especial pelos trabalhadores que precisavam da sua presença e apoio pastoral e cívico. O Bispo, porém, recusou desempenhar essa missão pastoral e não apoiou a obra do Padre António Maria por acreditar que tal projecto era inviável do ponto de vista financeiro.
A decepção foi muito grande e o jovem padre ficou acamado, acometido por uma doença incurável. Algumas mulheres, chamadas por uma Irmã da Misericórdia, cuidaram dele, durante dois anos.
Quando o Cardeal reconsiderou e mudou a sua atitude, o Padre António retomou a sua vida activa.
A renovação social, dinamizada pelo Padre Schwartz, teve grande impacto na vida dos trabalhadores, que eram os mais afectados pelas influências negativas da época. Os jovens trabalhadores eram os que mais precisavam de apoio e solidariedade.
A palavra do Padre tocava o coração de cada jovem trabalhador, desafiando-o a encontrar Cristo e uma fé inabalável. Dedicou cada minuto da sua vida a essa missão.
O Padre Schwartz lutou, com todas as suas forças, contra os abusos perpetrados contra os trabalhadores da época; eles não tinham sindicato; não havia regulamentação de turnos de trabalho; as crianças trabalhavam 12 horas por dia, inclusive aos domingos e feriados; as horas extraordinárias não eram pagas; as condições de trabalho, comparadas com as de hoje, eram inimagináveis.
A sua Obra espalhou-se, rapidamente, na Áustria, no Tirol do Sul e em Budapeste. Eram poucos os que compreendiam o alcance do seu projecto, resumido na frase, tantas vezes repetida por ele: "Se a Igreja não conseguir levar os trabalhadores a Cristo, a sociedade distanciar-se-á, cada vez mais, de Cristo".
À sua volta, surgiram incompreensões e mal-entendidos. Isso entristecia-o muito, fazendo-o sofrer; mas nada o deteve; permaneceu fiel ao seu mandato até sua morte.
O Padre António Maria Schwartz faleceu no dia 15 de Setembro de 1929. Milhares de pessoas participaram no seu funeral, apesar da chuva torrencial.
Foi beatificado, pelo Papa João Paulo II, no dia 21 de Junho de 1998, durante a sua visita pastoral à capital austríaca. Na homilia da celebração, o Papa disse: “…O Padre António Maria Schwartz, há cem anos, preocupou-se com as condições dos trabalhadores em Viena, dedicando-se, em primeiro lugar, aos jovens aprendizes, em fase de formação profissional. Tendo sempre presentes as próprias origens humildes, sentiu-se especialmente unido aos pobres operários. Para a assistência deles fundou, adoptando a regra de São José de Calasanz, a «Congregação dos Pios Operários», ainda hoje florescente. O seu grande desejo foi converter a sociedade a Cristo e restaurá-la n'Ele. Foi sensível às necessidades dos aprendizes e dos operários, aos quais, muitas vezes, faltavam apoio e orientação. O Padre Schwartz dedicava-se a eles com amor e criatividade, encontrando meios e vias para construir a primeira «igreja para os operários de Viena». Este templo humilde e escondido pelas casas populares assemelha-se à obra do seu fundador, que a vivificou durante quarenta anos.
Diante do «apóstolo operário» de Viena, as opiniões eram distintas. Muitos consideravam o seu empenho exagerado. Outros julgavam-no digno da mais alta consideração. O Padre Schwartz permaneceu fiel a si mesmo e empreendeu, também, passos corajosos. Com os seus pedidos para lugares de formação profissional para os jovens e para o repouso dominical, ele chegou ao «Reichstang», ao Parlamento.
Ele deixa-nos uma mensagem: Fazei todo o possível para salvaguardar o Domingo!
Irmãos: mostrai que este dia não pode ser de trabalho, porque é celebrado como o dia do Senhor! Ajudai, sobretudo, os jovens privados de trabalho! Quem proporciona aos jovens de hoje a possibilidade de ganhar o próprio pão, contribui para fazer com que os adultos de amanhã possam transmitir aos seus filhos o sentido da vida. Bem sei que não há soluções fáceis. Razão por que repito a exortação sob a qual o Beato Padre Schwartz pôs todos os seus múltiplos esforços: «Devemos orar mais!»...”
A memória litúrgica do Beato António Maria Schwartz é celebrada no dia 15 de Setembro.

sábado, 5 de setembro de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XXIII DOMINGO COMUM

 

“…Eis o que diz o Senhor:
«Filho do homem,
coloquei-te como sentinela na casa de Israel.
Quando ouvires a palavra da minha boca,
deves avisá-los da minha parte.
Sempre que Eu disser ao ímpio: ‘Ímpio, hás-de morrer’,
e tu não falares ao ímpio para o afastar do seu caminho,
o ímpio morrerá por causa da sua iniquidade,
mas Eu pedir-te-ei contas da sua morte.
Se tu, porém, avisares o ímpio,
para que se converta do seu caminho,
e ele não se converter,
morrerá nos seus pecados,
mas tu salvarás a tua vida»…”  
(cf. Ezequiel 33, 7-9)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 2 de Setembro de 2026
 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
 
Com o encontro de hoje, começamos a reflectir sobre a Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’, com a qual o Concílio Vaticano II pretendeu aprofundar um tema fundamental, ou seja, a relação da Igreja com o mundo contemporâneo. São João XXIII, já no Discurso inaugural, de 11 de Outubro de 1962, quisera discordar dos «profetas da desventura» que, ardorosos «sem dúvida no zelo […] vão repetindo que a nossa época, em comparação com as passadas, foi piorando; e portam-se como quem nada aprendeu da história» (Discurso Gaudet Mater Ecclesia, 11 de Outubro de 1962, 4.2). Daqui decorre a tarefa confiada aos Padres conciliares: «No presente momento histórico, a Providência está a levar-nos para uma nova ordem de relações humanas, que, por obra dos homens e, o mais das vezes, para além do que eles esperam, se dirigem para o cumprimento de desígnios superiores e inesperados; e tudo, mesmo as adversidades humanas, dispõe para o maior bem da Igreja» (Gaudet Mater Ecclesia, 4.4).
Três anos depois, a promulgação da ‘Gaudium et spes’ reconhecia, nesse discernimento, um elemento essencial da natureza da Igreja, descrevendo, como constitutiva, a sua índole pastoral: eis por que a definição de “Constituição pastoral”. Não se trata de um optimismo ingénuo, mas de uma renovada fidelidade ao Mistério de Cristo que, encarnando-se, escolhe partilhar a nossa vida: Ele tornou-se «em tudo» semelhante «aos Seus irmãos» (Heb 2, 17; cf. 4, 15) e assumiu sobre si as consequências do pecado, morrendo «em resgate por todos» (1 Tm 2, 6). Esta partilha com a humanidade é o caminho que Cristo pede à Igreja; por isso, a Constituição conciliar ‘Gaudium et spes’ abre com a declaração de que a Igreja sente, como suas, «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem» (GS 1).
É uma partilha que nos chama a sair de toda a passividade e indiferença perante os acontecimentos, a história e a vida das pessoas, sobretudo perante a mudança rápida e profunda que, hoje, experimentamos. Não é possível permanecer espectadores desinteressados; é necessário, pelo contrário, escutar com o coração, deixar-se interpelar, deixar-se envolver. Com Cristo e amparados pela força do seu Espírito, os crentes são chamados a assumir as dificuldades dos irmãos, sobretudo daqueles que são esmagados pela injustiça, pela discriminação, pela violência. Com efeito, só na partilha e no empenho é possível chegar a respostas adequadas, sempre sustentados pela certeza de que «os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há-de revelar-se em nós» (Rm 8, 18).
Neste sentido, a proximidade à humanidade abre a uma leitura mais profunda dos acontecimentos e da própria Revelação e, na mesma perspectiva, a ‘Gaudium et spes’ recorda que «é dever da Igreja investigar, a todo o momento, os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho» (GS 4). Esta Constituição conciliar chamou, assim, a Igreja a um permanente compromisso de conversão, para testemunhar que ela não é movida por «nenhuma ambição terrena», mas visa apenas: «continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade; para salvar e não para julgar; para servir e não para ser servido» (GS 3).
De facto, não se trata de uma disposição simplesmente moral. O Papa Francisco recordou-nos que, para a Igreja, «a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. […] Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz, nas suas causas, mas, também, a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles» (Exort. Ap. ‘Evangelii gaudium’, 198).
A partilha cristã compromete a assumir a realidade e, também, a desmascarar as contradições que caracterizam a vida pessoal e social do mundo contemporâneo: por exemplo, um progresso científico e tecnológico, que oferece sempre novas possibilidades, mas apenas a alguns, e que o ser humano nem sempre consegue colocar «ao seu serviço»; ou um conhecimento mais claro das «leis da vida social», acompanhado, porém, de incertezas «quanto à direcção que a esta deve imprimir»; ou, ainda, uma maior disponibilidade de «riquezas, possibilidades e poderio económico» que, infelizmente, hoje, como no tempo do Concílio, deixa «uma imensa parte dos habitantes da terra […] atormentada pela fome e pela miséria» (GS 4); ou, então, uma consciência partilhada de que está em jogo o futuro do planeta e, ao mesmo tempo, a incapacidade de renunciar ao consumo egoísta e à ilusão de que a guerra seja um caminho eficaz para construir a paz.
Num tempo marcado por profundas mudanças, das quais derivam desequilíbrios preocupantes, a Igreja é chamada a servir o ser humano, escutando e acolhendo as interrogações mais profundas do seu coração e os anseios que nele habitam, indicando, em Cristo, «a chave, o centro e o fim de toda a história humana» (GS 10). Por isso, na Igreja, a todos os níveis e em todas as épocas, deve realizar-se a kenosis misericordiosa de Cristo, que «não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-se a Si mesmo tomando a condição de servo, […] feito obediente até à morte e morte de cruz» (Fl 2, 6-8).
Caros irmãos e irmãs, que a alegria e a esperança – gaudium et spes – sejam os traços distintivos de uma Igreja que anuncia e testemunha o Evangelho, fazendo-se próxima das mulheres e dos homens do nosso tempo. (cf. Santa Sé)
 

PARA REZAR

 


- SALMO 94

 

Refrão: Hoje, se escutardes a voz do Senhor,

              não fecheis os vossos corações

 

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus, nosso Salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras».


SANTOS POPULARES



BEATO ANTÓNIO GONZÁLEZ ALONSO
 
António González Alonso nasceu no dia 11 de Abril de 1912, em Nembra, na comunidade autónoma das Astúrias, Espanha. Os seus pais, Severino González e Josefa Alonso, tiveram dez filhos, dois dos quais morreram na infância; ele era o oitavo. A família sustentava-se com a agricultura e a criação de gado. O tio paterno de António era frade dominicano e missionário nas Filipinas, um factor que influenciou, profundamente, a sua vocação.
O seu pai, Severino, era o responsável pela Confraria das Almas e membro da Associação de Adoração Eucarística Nocturna, na qual inscreveu todos os seus filhos, à medida que cresciam.
Três deles seguiram os passos do tio e tornaram-se dominicanos: Julio, missionário nas Filipinas; Jesús, missionário no Texas; e Severina, na Congregação das Irmãs Dominicanas da Anunciação, em Gijón.
O jovem António também se sentiu chamado para o mesmo caminho: em 1923, entrou na escola apostólica dominicana (instituição para jovens aspirantes), em La Mejorada, perto de Valladolid, onde o seu irmão Jesús já estudava.
Estudou literatura, até 1927, com excelentes resultados, iniciando, então, o postulantado. Mudou-se para o Convento de São Tomás, em Ávila, onde recebeu o hábito, completou o noviciado e fez a sua profissão temporária.
Contudo, contraiu tuberculose e teve de retornar à sua casa, ainda que temporariamente, para se recuperar. Como a sua saúde não melhorou rapidamente, decidiu, por conselho dos seus médicos e irmãos, abandonar a vida dominicana.
Mesmo assim, permaneceu um bom crente: participava, todos os dias, na celebração da missa, desempenhando a missão de acólito. Continuou a participar na Adoração Nocturna e chegou a dirigir a secção ‘São Tarcísio’, para as crianças e os jovens. Em 1935, decidiu matricular-se na Escola Normal de Oviedo, para frequentar o curso de formação de professores.
No dia 20 de Julho de 1936, apenas quatro dias após o início da Guerra Civil Espanhola, António foi feito prisioneiro, juntamente com o seu irmão Cristóvão. Mais tarde, disse-lhe: "Tenho a oportunidade de entregar minha vida a Deus como mártir; não gostaria de desprezar essa graça. Tu faz o que puderes para continuar a viver e a cuidar dos nossos pais. Do céu, acho que rezarei muito pela nossa família."
Os carcereiros obrigaram-no a destruir alguns símbolos religiosos, incluindo a pintura do Sagrado Coração de Jesus, venerada na igreja paroquial, e a pedra do altar (pedra d’ara: no centro do altar, há uma pequena cavidade, onde se coloca uma pedra, comumente de mármore, denominada “Pedra d’ara”, que contém dentro relíquias de santos mártires, recordando o costume primitivo cristão de celebrar o Santo Sacrifício do Calvário sobre o túmulo dos mártires): ele recusou-se, para não violar a sua consciência.
Deram-lhe então vinte e quatro horas para reconsiderar; caso contrário, matá-lo-iam. Depois desse tempo, ele não mudou de ideia: "Pensei cuidadosamente e cheguei à conclusão de que, em consciência, não posso e não devo destruir esta pintura pelo que ela representa."
No dia 11 de Setembro de 1936, foi tirado da prisão onde se encontrava e levado, de carro, para Moreda. No caminho, passou frente à sua casa, onde a sua mãe estava sentada à porta. Ele gritou para ela: "Adeus, mãe, até nos encontrarmos no céu." Ele disse isso da melhor maneira que pôde, visto que, segundo o depoimento do motorista, a sua língua havia sido cortada porque ele se recusou a jurar.
Foi levado para a cidade de Puerto de San Emiliano, entre Mieres e Sama. O motorista afirmou que não ouviu nenhum tiro; então, é provável que ele tenha sido espancado até à morte e o seu corpo atirado para um poço. O seu corpo nunca foi encontrado, mas presume-se que tenha sido encontrado e enterrado no cemitério de Sama. António tinha 24 anos.
Quando os autores do seu assassinato foram capturados, perguntaram à sua mãe o que gostaria que lhes fizessem. Ela respondeu: "Quero ver-me, com eles e com o meu António, no céu".
A causa da sua beatificação foi unida à de Genaro Fueyo Castañón, pároco de San Jaime Apostolo, em Nembra, que foi assassinado no dia 21 de Outubro de 1936, juntamente com os seus paroquianos Segundo Alonso González e Isidro Fernández Cordero.
No dia 21 de Janeiro de 2016, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que declara as mortes do Padre Genaro, de Segundo, de Isidro e de António como martírio por ódio à fé católica.
A beatificação destes mártires foi celebrada na Catedral de Oviedo, no dia 8 de Outubro de 2016 - a primeira celebração desse tipo, na diocese - presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, em nome do Papa Francisco.
A memória litúrgica do Beato António González Alonso é celebrada no dia 11 de Setembro.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR

 


- XXII DOMINGO COMUM

 

“…Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus,
que vos ofereçais a vós mesmos
como vítima santa, viva, agradável a Deus,
como culto racional.
Não vos conformeis com este mundo,
mas transformai-vos,
pela renovação espiritual da vossa mente,
para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus,
o que é bom,
o que Lhe é agradável,
o que é perfeito…”  
(cf. Romanos 12, 1-2)

 


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 26 de Agosto de 2026
 
Estimados irmãos e irmãs!
Nesta última catequese sobre a Constituição Sacrosanctum concilium, hoje, desejo reflectir sobre as razões pelas quais os Padres conciliares quiseram promover uma reforma da liturgia. Neste sentido, é esclarecedora a terceira Carta do Concílio que o Cardeal Giovanni Battista Montini, então Arcebispo de Milão, enviou, a 28 de Outubro de 1962, aos fiéis da sua Igreja. A liturgia — escrevia — «é expressão sincera tanto do divino como do humano. É linguagem. É, por um lado, veículo do ensinamento divino e, por outro, voz de diálogo com Deus. É claro que ela não pode renunciar à sua função didática, nem pode deixar de oferecer à fé e à piedade a possibilidade de se manifestar com inteligibilidade espontânea». Impelido por estas convicções, o futuro Papa São Paulo VI afirmava que os fiéis «já não podem, nem devem, continuar a permanecer emudecidos e passivos. A sua presença material não pode concordar com a sua ausência espiritual»
É evidente a consonância destas declarações com aquelas que aparecerão no n. 48, da Constituição conciliar: «A Igreja preocupa-se, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na acção sagrada, consciente, activa e piedosamente, por meio de uma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer - juntamente com o sacerdote, não só pelas mãos dele - a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si». Nestas palavras, sente-se uma renovada consciência do valor da liturgia. Através das acções rituais da Igreja, enquanto se actua o memorial da obra de salvação, é oferecida a possibilidade de viver a verdadeira relação com Deus, entrando em contacto com o acontecimento salvífico. Uma vez que os gestos e as palavras da sagrada liturgia são decisivos para realizar esta experiência, a participação dos fiéis não pode ser passiva.
Colocando no centro aquilo que constitui o coração da experiência eclesial, a reforma conciliar quis fazer resplandecer a liturgia como «fonte primeira da vida divina que nos é comunicada». Desta convicção, nasceu a exigência de tornar a riqueza dos textos bíblicos e das orações mais acessível a todos os fiéis e de tornar a ordem da celebração mais linear do que previsto nos livros litúrgicos, então, em vigor.
Com efeito, sendo uma realidade viva, ao longo dos séculos, a liturgia esteve sempre sujeita a desenvolvimentos e mudanças. O Magistério adaptou as suas formas às exigências das diferentes épocas. Portanto, não surpreende que, até o Concílio Vaticano II, com o máximo respeito pelo acervo da tradição e, precisamente, com o objectivo de o tornar mais acessível, tenha considerado necessária uma revisão dos livros litúrgicos.
O objectivo que os Padres tinham no coração está explicitado no nº 21 da Constituição Sacrosanctum concilium: «A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia. Na verdade, a Liturgia compõe-se de uma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes suscetíveis de modificação, que podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados. Nesta reforma, proceda-se, quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam, com mais clareza, as coisas santas que significam e, quanto possível, o povo cristão possa, mais facilmente, apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária». Remonta à Encíclica Mediator Dei, do Papa Pio XII, a distinção, na liturgia, entre elementos divinos e imutáveis, e elementos humanos que, por sua vez, «podem sofrer várias modificações, aprovadas pela sagrada Hierarquia, assistida pelo Espírito Santo, de acordo com as exigências dos tempos, das realidades e das almas» (Acta Apostolicae Sedis 39, 1947, 541-542).
De resto, o desejo de uma “reforma geral” não nasceu de repente, mas manifestou-se na acção dos Papas que se sucederam, desde o início do século XX, em sintonia com as instâncias do Movimento litúrgico. A afirmação da necessidade de que os fiéis não assistissem às celebrações «como estranhos, nem como espectadores mudos» já tinha sido retomada pela Constituição apostólica Divini cultus, do Papa Pio XI. Além disso, podem ser recordadas as intervenções de Pio XII sobre a ordem dos ritos da Semana Santa, que ele reinseriu nas horas correspondentes aos acontecimentos pascais, depois de, durante séculos, terem sido antecipados para as horas matutinas. Além disso, não se deve esquecer que São João XXIII considerou necessária uma simplificação das rubricas do Breviário e do Missal, aprovando-a com o Motu próprio Rubricarum instructum, de 25 de Julho de 1960, no qual remetia para o anunciado Concílio ecuménico a proposta dos princípios fundamentais para uma reforma da liturgia.
Por conseguinte, a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II insere-se no sulco da tradição viva da Igreja. A sua correcta compreensão permite também rejeitar os abusos que se verificaram em certos sectores da Igreja, no período pós-conciliar e que, infelizmente, às vezes, ainda hoje, ocorrem, absolutizando ou interpretando erroneamente alguns dos princípios que estavam na base da própria reforma.
A este propósito, vale a pena recordar que a Constituição conciliar afirma que «as acções litúrgicas não são acções privadas, mas celebrações da Igreja, que é “sacramento de unidade”, isto é, Povo santo, reunido e ordenado sob a direcção dos Bispos. Por isso, tais acções pertencem a todo o Corpo da Igreja, manifestam-no» e implicam-no (Sacrosanctum concilium, n. 26).
Por isso, é responsabilidade principal dos pastores, dos bispos, mas também de cada sacerdote, preservar e promover uma liturgia que, no respeito pelas normas litúrgicas, resplandeça pela sua nobre simplicidade (cf. n. 34) e manifeste, assim, a Igreja una, santa, católica e apostólica. Tal liturgia será, também, um veículo fundamental de evangelização; o instrumento de graça através do qual, como ensina o Concílio, poderemos aprender a oferecer-nos a nós próprios e, pela mediação de Cristo, seremos aperfeiçoados na unidade com Deus e entre nós (cf. n. 48). (cf. Santa Sé)

PARA REZAR

 

- SALMO 62

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus!

Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro.
A minha alma tem sede de Vós.
Por Vós suspiro,
como terra árida, sequiosa, sem água.

Quero contemplar-Vos no santuário,
para ver o vosso poder e a vossa glória.
A vossa graça vale mais do que a vida;
por isso, os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

Assim Vos bendirei toda a minha vida
e em vosso louvor levantarei as mãos.
Serei saciado com saborosos manjares,
e com vozes de júbilo Vos louvarei.

Porque Vos tornastes o meu refúgio,
exulto à sombra das vossas asas.
Unido a Vós estou, Senhor,
a vossa mão me serve de amparo.


SANTOS POPULARES

 


SANTA TERESA DE CALCUTÁ
 
Inês Gonxha Bojaxhiu, nasceu no dia 26 de Agosto de 1910, em Skopje (antiga Iugoslávia), na actual Macedónia do Norte, numa família católica albanesa. Aos 18 anos, decidiu entrar na Congregação das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora de Loreto. Partiu para a Irlanda, em 1928, e daí embarcou para a Índia, onde chegou um ano depois.
Em 1931, a jovem Inês fez os seus primeiros votos, adoptando o nome ‘Irmã Maria Teresa do Menino Jesus’, escolhido pela sua devoção a Santa Teresinha do Menino Jesus (Santa Teresa de Lisieux).
Durante vinte anos, leccionou história e geografia a meninas de famílias abastadas, no internato das Irmãs de Loreto, em Entally, na zona leste da cidade de Calcutá. Para além dos muros do convento ficava Motijhil - com os seus odores acre e sufocantes - uma das favelas mais miseráveis ​​da megalópole indiana, o lugar mais sujo do mundo.
De longe, a Irmã Teresa conseguia sentir o fedor que chegava até ao seu luxuoso internato, mas não sabia disso. Era o outro lado da Índia, um mundo à parte para ela, pelo menos até aquela noite de 10 de Setembro de 1946, quando sentiu o "segundo chamamento" enquanto viajava de comboio para Darjeeling, para fazer os seus exercícios espirituais (retiro).
Durante toda aquela noite, uma frase martelou a sua cabeça, durante a viagem: o grito lancinante de Jesus, na cruz: "Tenho sede!". Um chamamento misterioso que, com o passar das horas, se tornou cada vez mais claro e urgente: ela precisava de deixar o convento para ir ao encontro dos mais pobres entre os pobres: o tipo de gente que não é nada; que vive à margem de tudo; o mundo dos desamparados que agonizavam todos os dias nas calçadas de Calcutá, sem ter sequer a dignidade de morrer em paz.
A Irmã Teresa deixou o convento de Entally - com cinco rúpias (moeda da Índia) no bolso e o sari de borda azul das mulheres indianas mais pobres - após quase 20 anos na Congregação das Irmãs de Loreto. Era o dia 16 de Agosto de 1948.
A pequena Gonxha, de Skopje, tornou-se Madre Teresa e, a partir daquele momento, começou a sua grande aventura.
No dia 7 de Outubro de 1950, a nova Congregação recebeu o seu primeiro reconhecimento: a aprovação diocesana. Este dia é dedicado a Nossa Senhora: Festa da Virgem Santa Maria do Rosário. Uma feliz coincidência, já que a nova Congregação religiosa é dedicada a Maria.
O profundo amor da Madre Teresa por Nossa Senhora tinha raízes sólidas na sua infância, em Skopje, a sua mãe, Drone, muito religiosa, levava, sempre, os seus filhos à igreja, a visitar os pobres e, todas as noites, rezavam o terço, juntos.
“A ‘Nossa Congregação’ - lê-se no primeiro capítulo das Constituições - é dedicada ao Imaculado Coração de Maria, Causa da nossa Alegria e Rainha do Mundo, porque nasceu a seu pedido e, graças à sua constante intercessão, desenvolveu-se e continua a crescer”.
A figura da Virgem inspirou o Estatuto das Missionárias da Caridade, a tal ponto que cada um dos dez capítulos das Constituições é introduzido por uma citação de passagens marianas dos Evangelhos. Nossa Senhora é chamada a primeira Missionária da Caridade, por causa da sua visita a Isabel, na qual demonstrou ardente caridade no seu serviço abnegado à sua prima idosa e necessitada. Além dos três votos de pobreza, castidade e obediência, cada Missionária da Caridade faz um quarto voto de "serviço dedicado e abnegado aos mais pobres dos pobres", reconhecendo em Maria o ícone do serviço de todo o coração, da caridade mais autêntica.
(...) A devoção ao Imaculado Coração de Maria é o outro aspecto do carisma mariano e missionário da obra de Madre Teresa, praticado com os meios mais tradicionais e simples: o Santo Rosário, rezado todos os dias e em todos os lugares, até mesmo na rua; o culto das festas marianas (a profissão religiosa das suas freiras sempre coincide com as festas de Nossa Senhora); a oração confiante a Maria, também confiada às "medalhas milagrosas" (que Madre Teresa distribuía em grande quantidade, a todos os que encontrava); a imitação das virtudes da Mãe de Deus, especialmente a humildade, o silêncio e a profunda caridade.
"Tenho sede" está escrito no crucifixo da Casa-Mãe e em todas as capelas - em todo o mundo - de todas as casas da família religiosa de Madre Teresa. Essa frase, o grito angustiado de Jesus na cruz, que ecoou no seu coração naquela noite do "segundo chamamento", é a chave de sua espiritualidade.
A pequena figura da Madre Teresa; o seu físico frágil, curvado pelo cansaço; o seu rosto sulcado por inúmeras rugas, são agora conhecidos em todo o mundo. Quem a encontrou, mesmo que uma única vez, jamais a esqueceu: a luz de seu sorriso reflectia a sua imensa caridade. Ser olhado por ela, pelos seus olhos profundos, amorosos e claros, proporcionava a curiosa sensação de ser olhado pelos próprios olhos de Deus.
Activa e contemplativa ao mesmo tempo, Madre Teresa personificava o idealismo e a concretude, o pragmatismo e a utopia. Gostava de se chamar "pequeno lápis de Deus", um instrumento pequeno e simples nas Suas mãos. Reconhecia, humildemente, que, quando o lápis se tornasse um toco inútil, o Senhor o descartaria, confiando a sua missão apostólica a outros: "Quem crê em mim fará também as obras que eu faço e fará, ainda, obras maiores do que estas" (cf. Jo 14,12).
Graças à generosidade de pessoas ricas, Madre Teresa construiu a "Casa das Crianças" e um hospital. Activa e trabalhadora, sempre buscava ajuda para aqueles a quem assistia e, graças à sua tenacidade, a congregação espalhou-se por todos os continentes. Vencedora do Prêmio Nobel da Paz, em 1979, pediu que os fundos do banquete, organizado em sua homenagem, fossem doados aos pobres
Madre Teresa faleceu, em Calcutá, na noite de sexta-feira, 5 de Setembro de 1997, às 21h30. Tinha 87 anos.
Os seus filhos e as suas filhas espirituais continuam a servir “os mais pobres entre os pobres” em todo o mundo, em orfanatos, leprosários, lares para idosos, mães solteiras e moribundos. No total, são 5.000, incluindo os dois ramos masculinos, menos conhecidos, distribuídos em aproximadamente 600 lares ao redor do mundo; sem mencionar os milhares de voluntários e leigos consagrados que dão continuidade ao seu trabalho. “Quando eu morrer”, disse ela, “poderei ajudá-los ainda mais…”
Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, no dia 19 de Outubro de 2003 e canonizada, pelo Papa Francisco, no dia 4 de Setembro de 2016. Na homilia, o Papa disse: “…Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que «quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável». Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes ― diante dos crimes! ―  da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento.
A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres. Hoje entrego a todo o mundo do voluntariado esta figura emblemática de mulher e de consagrada: que ela seja o vosso modelo de santidade! Parece-me que, talvez, teremos um pouco de dificuldade de chamá-la de Santa Teresa: a sua santidade é tão próxima de nós, tão tenra e fecunda, que espontaneamente continuaremos a chamá-la de “Madre Teresa”. Que esta incansável agente de misericórdia nos ajude a entender mais e mais que o nosso único critério de ação é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia e de qualquer vínculo e que é derramado sobre todos sem distinção de língua, cultura, raça ou religião. Madre Teresa gostava de dizer: «Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir». Levemos no coração o seu sorriso e o ofereçamos a quem encontremos no nosso caminho, especialmente àqueles que sofrem. Assim abriremos horizontes de alegria e de esperança numa humanidade tão desesperançada e necessitada de compreensão e ternura…”
A memória litúrgica de Santa Teresa de Calcutá é celebrada no dia 5 de Janeiro.
 

domingo, 23 de agosto de 2026

DA PALAVRA DO SENHOR


- XXI DOMINGO COMUM

 

“…Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus!
Como são insondáveis os seus desígnios
e incompreensíveis os seus caminhos!
Quem conheceu o pensamento do Senhor?
Quem foi o seu conselheiro?
Quem Lhe deu primeiro,
para que tenha de receber retribuição?
D’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas.
Glória a Deus para sempre. Amém.
(cf. Romanos 11, 33-36)


PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 12 de Agosto de 2026
 
Prezados irmãos e irmãs!
 
O sexto capítulo da Constituição Sacrosanctum concilium (SC) do Concílio Vaticano II é dedicado à música sacra. Nele afirma-se: «A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene» (SC, 112) e específica: «A música sacra será [...] tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à acção litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como factor de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas» (ibid.).
Encontramos aqui o núcleo do ensinamento conciliar, que confirma e aprofunda a função ministerial da música na liturgia, já salientada por São Pio X no Motu Próprio Inter sollicitudines (22 de Novembro de 1903). Com efeito, a música faz parte da acção litúrgica e não é mero adorno da celebração. Na liturgia, cantar e tocar significa rezar, sintonizando o próprio coração com o das irmãs e irmãos e com Deus, na participação activa no mistério celebrado. Em particular, a música expressa a dimensão afectiva da oração, como afirma Santo Agostinho: «Cantare amantis est», ou seja, «cantar é próprio de quem ama» (Sermo 336, 1). Isto é muito importante, pois ajuda a abrir o coração à acção de Deus na graça e a deixar-se modelar por ela.
Além disso, o canto favorece a comunhão. Através da sinfonia das vozes, contribui para a união das almas, superando as diferenças entre as pessoas e congregando todos no louvor a Deus. Assim, torna-se epifania da Igreja, manifestação sensível da comunhão que pertence à sua própria natureza.
Do profundo significado teológico do canto sacro, como parte integrante da acção litúrgica, derivam algumas exigências. Uma primeira é que, além das modas ou das sensibilidades particulares dos autores, ele deve corresponder, a todos os níveis, àquilo que é mais apropriado para o momento celebrativo. Além disso, a forma, especialmente no seu aspecto melódico, deve ser nobre e simultaneamente simples, de elevada qualidade musical e facilmente executável, sobretudo quando se destina a ser entoada por toda a assembleia (cf. SC, 121).
Pelo mesmo motivo, o Concílio recomenda que, também, os textos sejam adequados, profundos e, ao mesmo tempo, de fácil compreensão, inspirados principalmente na Sagrada Escritura, nos livros litúrgicos e na Tradição espiritual da Igreja. É necessário velar sobre isto, a fim de que se mantenha viva e cresça a dinâmica expressa no antigo princípio “lex orandi lex credendi”, ou seja, a lei da oração é também lei da fé.
Sacrosanctum concilium dedica amplo espaço ao tema da participação activa dos fiéis (cf. n. 114). Ela «deve ser entendida […] a partir de uma maior consciência do mistério que é celebrado e da sua relação com a vida quotidiana» (Bento XVI, Exort. ap. Sacramentum caritatis, 52), em «espírito de constante conversão que deve caracterizar a vida de todos os fiéis» (ibid., 55). Além disso, quanto ao modo concreto como ela se pode realizar, através do papel específico da música sacra, a Constituição oferece uma resposta clara: «Promovam-se as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos» e «um silêncio sagrado» (SC, 30), exortando cada um, ministro ou fiel, a fazer «tudo e só o que é da sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas» (SC, 28), no equilíbrio harmonioso entre os diferentes ministérios, as várias intervenções e os momentos de silêncio.
Depois, o Concílio atribui grande valor ao canto gregoriano, mas sem excluir da celebração outros tipos de música sacra. Uma atenção especial é dedicada inclusive ao órgão (cf. SC, 120), enquanto é admitida a utilização de outros instrumentos, «contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis» (SC, 120).
Um tema caro à reforma conciliar é o da inculturação, também no campo da música sacra. Salienta-se, em particular, no que se refere às tradições musicais das diferentes culturas, a importância de as ter seriamente em consideração, como parte da vida religiosa e social das pessoas. Por isso, recomenda-se, por um lado, que se implemente em todos uma adequada «educação do sentido religioso» (SC, 119) e, por outro, «na medida do possível», que se promova «a música tradicional desses povos nas escolas e nas acções sagradas» (ibid.).
No contexto litúrgico, uma tarefa especial é reconhecida à schola cantorum, instrumento pastoral cuja promoção é recomendada, com a função de «assegurar a justa interpretação das partes que lhe pertencem, conforme os distintos géneros de canto, e promover a participação aciva dos fiéis no canto» (Sagrada Congregação dos Ritos, Instrução Musicam sacram, 19).
Para tal finalidade, o compositor de música sacra é chamado a conhecer e a preservar o acervo musical da Igreja, deixando-se inspirar por ele para dar vida a novas composições ao serviço da liturgia, no respeito pela sensibilidade contemporânea e pelas diferentes tradições culturais, de maneira a «purificar o culto de dispersões de estilos, de formas descuidadas de expressão, de músicas e textos descurados e pouco conformes com a grandeza do acto que se celebra, para assegurar dignidade e singeleza de formas à música litúrgica» (São João Paulo II, Quirógrafo sobre a música sacra, 22 de Novembro de 2003, 3).
Por todas estas razões, os Padres conciliares recomendam que se promova a formação e a prática da música sacra, «nos seminários, noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas» (SC, 115), e que aos músicos e cantores se assegure uma sólida formação litúrgica (cf. ibid.).
Caros irmãos e irmãs, os Padres da Igreja atribuíram grande importância ao canto litúrgico, símbolo da comunhão eclesial. Por isso, podemos concluir com estas bonitas expressões de Santo Inácio de Antioquia: «Vós, um por um, tornai-vos um coro a fim de que, harmoniosos no acorde e assumindo a tonalidade de Deus na unidade, canteis em uníssono por meio de Jesus Cristo ao Pai, para que vos ouça e, pelas boas obras que realizais, reconheça que sois membros do seu Filho» (Carta aos Efésios, 4, 2).  (cf. Santa Sé)