BEATO
TIAGO ALFREDO MILLER
Tiago Alfredo Miller nasceu em Ellis,
perto de Stevens Point, Wisconsin, Estados Unidos, no dia 21 de Setembro de
1944. Os seus pais, Arnoldo e Lorena, eram fazendeiros. Eles tiveram quatro
filhos: William (chamado Bill), Ralph, Patricia e Louise. Foi baptizado, na
Igreja da Imaculada Conceição, em Custer, Wisconsin, no dia 1 de Outubro de
1944. Recebeu o Crisma, na mesma igreja, pelas mãos de Monsenhor John Treacy,
da Diocese de La Crosse, no dia 28 de Maio de 1955.
Nasceu prematuro e abaixo do peso normal, mas cresceu alto e forte. Gostava de trabalhar na lavoura e cuidar do gado, especialmente das galinhas e dos frangos. Era sociável e comunicativo; interessava-se pelos seus vizinhos e outros moradores, jovens e idosos. Frequentou a escola primária na Escola Pública Edison, em Ellis, caminhando, a pé, todos os dias, cerca de dois quilómetros até à sua escola.
Quanto à sua religiosidade, o seu irmão Bill lembra que, quando criança, ele brincava a imitar os padres a celebrar a missa e dar a bênção. Certa vez, ao regressar a casa, depois da confissão, lembrou-se de que não tinha cumprido a penitência: ajoelhou-se na rua e começou a rezar, ali mesmo. Noutra ocasião, viu-o a rezar para que uma das galinhas, que estava ao seu cuidado, não morresse.
Em 1958, entrou no Instituto Pacelli (sobrenome de família do Papa Pio XII) em Stevens Point, para frequentar o ensino médio. Para a ocasião, recebeu a Enciclopédia Mundial. Tiago leu-a do princípio ao fim, concentrando-se nas páginas sobre países estrangeiros, biografias e ciência.
No Pacelli, conheceu os Irmãos das Escolas Cristãs, fundados por São João Baptista de La Salle. Influenciado, positivamente, pelos professores religiosos e pelo director, o Irmão Floriano Donatelli, pediu para entrar no Noviciado, localizado em Glencoe, no Missouri.
O seu pedido foi atendido, em Setembro de 1959. Três anos depois, no dia 30 de Agosto de 1962, iniciou o seu noviciado: vestiu o hábito religioso e, segundo o costume, mudou o seu nome para Irmão Leão Guilherme. Em 1966, o Capítulo-Geral estabeleceu que os Irmãos poderiam voltar a usar seu sobrenome e o nome de baptismo; ele assim o fez.
O Irmão Tiago passou o seu segundo ano do Juniorato ou Escolasticado, na Cretin-Dernam Hall Secondary School, em St. Paul, Minnesota. Continuou seus estudos na Saint Mary's University em Winona, Minnesota. Ao concluir o noviciado, professou os conselhos evangélicos, aos quais acrescentou as promessas especiais de seu instituto religioso: associação ao serviço educativo dos pobres e de estabilidade.
Na escola Cretin-Dernam Hall, ele leccionava espanhol, inglês e religião. Também supervisionava a manutenção da escola. Nunca se recusava a ajudar, seja a limpar a neve dos passeios, as casas de banho, fornos ou a consertar qualquer coisa quebrada.
Os alunos, sem saber, apelidaram-no "Irmão Faz-Tudo". Outros chamavam-no "Irmão Alegria", por vê-lo tratar todos com bom humor. Fundou, também, uma equipa de futebol para os alunos, da qual, também, se tornou o treinador.
Em 1966, obteve o diploma de Bacharel em Artes e em Línguas Modernas. Em 5 de Maio de 1969, foi informado de que, ao final do retiro anual, poderia fazer os seus votos perpétuos, no dia 12 de Junho.
Logo depois, foi enviado para a escola
missionária lassalista em Bluefields, na costa atlântica da Nicarágua. Ali, os
seus primeiros anos foram muito normais, entre aulas e tarefas de manutenção. Também
criou uma equipa de futebol americano. As aulas eram ministradas em espanhol,
idioma que o Irmão Tiago, ou melhor, o Irmão Santiago (o equivalente espanhol do
seu nome), dominava muito bem.
Em Março de 1974, ano em que concluiu o seu mestrado, foi transferido para Puerto Cabezas, também na costa atlântica, ao norte de Bluefields, para leccionar inglês, matemática e religião, no Instituto Nacional Cristóvão Colombo, administrado pelos Irmãos, mas pertencente ao governo. Durante as férias, leccionava na filial da Universidade Nacional, em Puerto Cabezas, em cursos de formação de professores.
Em 1975, foi nomeado, pelo governo, director do Instituto. Os seus colegas, porém, consideravam-no mais um amigo do que um superior directo. O mesmo se aplicava aos seus alunos, pelos quais se preocupava e se interessava em resolver os seus problemas. Era muito exigente com eles, mas também sabia como incentivá-los, especialmente durante os jogos de basquete, beisebol, softbol e vólei: "Da próxima vez podemos fazer melhor. Não importa se ganharmos ou perdermos...", dizia-lhes.
Aproveitando-se do apoio que tinha no governo, obteve financiamento significativo para expandir as instalações da escola, equipando-a com novas salas de aula, um auditório e laboratórios de ciências, carpintaria e electrotecnia. Também lutou pelos povos indígenas mestiços, por exemplo, criando um corpo de bombeiros voluntários. Com verbas governamentais, mais tarde, construiu dez escolas rurais.
No entanto, devido ao seu relacionamento com Anastácio Somoza, líder do regime nicaraguense, ele passou a sofrer ameaças, inclusive dos pais dos seus alunos. Os sandinistas colocaram-no na sua lista negra. Pouco tempo depois, a revolução chegou a Puerto Cabezas. Quando lhe perguntaram se tinha medo de tiros, o Irmão Tiago respondeu: "Medo? Nunca pensei que pudesse rezar com tanto fervor como rezo quando vou dormir".
Finalmente, em Julho de 1979, ele obedeceu aos seus superiores e regressou aos Estados Unidos. Passou o verão na quinta da família e, em Setembro, voltou para Cretin-Dernham Hall. De manhã, dava aulas de espanhol; e à tarde, dedicava-se à manutenção. Nas horas vagas, também fez um curso de soldadura, no Instituto Técnico local.
Contudo, ele não estava nada feliz, ali. Percebia a disparidade entre os recursos disponíveis para os seus alunos nos Estados Unidos e a pobreza da Nicarágua, onde a educação era privilégio de poucos. Então, pediu para voltar para as missões, de preferência para a Guatemala.
O seu superior local enviou-o ao Centro Sangue de Cristo, em Santa Fé, Novo México, para um curso de actualização de pastoral missionária. Durante esse período, o Irmão Tiago considerou, seriamente, a possibilidade de entrar para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos e seguir a vocação sacerdotal. Ele conhecia bem os Capuchinhos e admirava o trabalho deles, na Nicarágua. No entanto, ele reafirmou firmemente a sua decisão de permanecer religioso lassalista.
Em Janeiro de 1981, o seu novo destino tornou-se efectivo: Huehuetenango, Guatemala, durante um período de três anos.
O Irmão Tiago ficou, imediatamente, cativado pela paisagem, pelos costumes maias e pelas tradições. Iniciou o seu compromisso como professor no Colégio La Salle e no Centro Indígena, que também incluía uma quinta e incentivava os jovens a aprenderem agricultura; assim, eles se tornariam excelentes líderes para as suas comunidades.
O Irmão Tiago, porém, enfrentou vários desafios na vida comunitária. A sua agenda de trabalho impedia-o de cumprir, integralmente, os horários da vida comunitária, principalmente os da oração comum. Muitas vezes, ficava acordado até tarde, para ajudar ou aconselhar os jovens, no Centro Indígena.
Ainda em 1981, voltou aos Estados Unidos, para St. Paul, para uma cirurgia ao joelho. O irmão Estêvão Markham, Visitador-Auxiliar do Distrito de St. Paul / Minneapolis, visitou-o e perguntou-lhe: "Tiago, não tens medo de ir para a América Central, onde, agora, há tanta violência, especialmente contra aqueles que ensinam a justiça, o amor ao próximo e a conduta honesta?" Ele respondeu: "Não estou a pensar nisso. Há tanto a fazer, e não se pode desperdiçar energia reclamando do que pode acontecer. Não importa o que aconteça!"
Exactamente um ano após a sua chegada, em Janeiro de 1982, ele já estava plenamente consciente da situação política, cada vez mais grave. Escreveu ao seu antigo director de noviciado: "Pessoalmente, estou cansado de toda essa violência; mas, continuo profundamente comprometido com essas pessoas pobres que sofrem na América Central... Cristo é perseguido por causa da nossa opção pelos pobres. Cientes dos muitos perigos e dificuldades, continuamos a trabalhar com fé, esperança e confiança na providência de Deus."
Continuou: "Sou Irmão das Escolas Cristãs há quase vinte anos, e o meu compromisso com esta vocação tem-se fortalecido, cada vez mais, desde que comecei a trabalhar na América Central. Peço a Deus a graça e a força para servi-Lo fielmente entre os pobres e oprimidos da Guatemala. Entrego a minha vida à Sua providência e confio-me a Ele."
No dia 10 de Fevereiro de 1982, o pai de um dos Irmãos guatemaltecos preocupou os religiosos do Colégio La Salle: ele ouvira membros do Exército a conspirar para assassinar o vice-director da instituição. Na realidade, havia três directores adjuntos, para cada uma das instalações confiadas aos lassalistas: o Irmão Tiago era o director-adjunto do Centro Indígena.
Como a ameaça era muito vaga, recomendou-se que nenhum dos Irmãos deixasse as suas casas. Enquanto isso, o embaixador dos EUA enviou um alerta a grupos religiosos norte-americanos a trabalhar na Guatemala, informando-os de que ouvira rumores sobre planos para assassinar um "norte-americano" não especificado, num futuro próximo.
Além disso, os estudantes do Centro eram frequentemente recrutados à força para o exército, mesmo estando teoricamente isentos do serviço militar. Nesses casos, os Irmãos apresentavam às autoridades provas de que o recrutado era estudante; momento em que, a contragosto, ele era liberado. O mesmo aconteceu em 11 de Fevereiro de 1983, quando um jovem maia foi recrutado e um dos lassalistas tentou, em vão, libertá-lo. O Irmão Tiago, por sua vez, havia enfrentado uma situação semelhante, durante os seus anos, na Nicarágua.
Apesar dos rumores, ele continuou a realizar o seu trabalho habitual. Mas, no dia 13 de Fevereiro de 1982, enquanto os rapazes da casa preparavam as fantasias de carnaval – era o dia de Carnaval – o Irmão Tiago reparou que um poste de iluminação precisava de conserto; então, com uma escada, subiu ao poste e começou a arranjar a avaria. Mal havia começado, quando três homens mascarados chegaram. Um deles disparou a sua arma, atingindo-o na garganta, no peito e no lado direito. Morreu instantaneamente… Os rapazes correram para o ajudar, assim que ouviram os tiros, mas já não puderam fazer nada.
O funeral do Irmão Tiago foi realizado na Guatemala. Mas, a sua família pediu que o seu corpo fosse levado para os Estados Unidos. Escoltado por milhares de estudantes e amigos, o corpo do Irmão Tiago foi levado de avião para Huehuetenango, e dali, para Ellis, no Wisconsin. No dia 18 de Fevereiro de 1982, foi celebrada uma missa, na Igreja de São Martinho, em Ellis, em memória do Irmão Tiago Alfredo Miller, antes de ser sepultado no cemitério local.
Nunca foi possível identificar os autores do assassinato, mas a reputação de santidade e martírio do Irmão Tiago sempre permaneceu viva entre os Irmãos das Escolas Cristãs, na Guatemala, a ponto de o aniversário do seu assassinato ser comemorado.
O Irmão Tiago Miller foi beatificado, pelo Papa Francisco, no dia 7 de Dezembro de 2019, no Colégio La Salle, em Huehuetenango, em cerimónia presidida pelo Cardeal José Luís Acunza Maestrojuán, Bispo de David (Panamá), como delegado do Santo Padre.
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 13 de Fevereiro.
Nasceu prematuro e abaixo do peso normal, mas cresceu alto e forte. Gostava de trabalhar na lavoura e cuidar do gado, especialmente das galinhas e dos frangos. Era sociável e comunicativo; interessava-se pelos seus vizinhos e outros moradores, jovens e idosos. Frequentou a escola primária na Escola Pública Edison, em Ellis, caminhando, a pé, todos os dias, cerca de dois quilómetros até à sua escola.
Quanto à sua religiosidade, o seu irmão Bill lembra que, quando criança, ele brincava a imitar os padres a celebrar a missa e dar a bênção. Certa vez, ao regressar a casa, depois da confissão, lembrou-se de que não tinha cumprido a penitência: ajoelhou-se na rua e começou a rezar, ali mesmo. Noutra ocasião, viu-o a rezar para que uma das galinhas, que estava ao seu cuidado, não morresse.
Em 1958, entrou no Instituto Pacelli (sobrenome de família do Papa Pio XII) em Stevens Point, para frequentar o ensino médio. Para a ocasião, recebeu a Enciclopédia Mundial. Tiago leu-a do princípio ao fim, concentrando-se nas páginas sobre países estrangeiros, biografias e ciência.
No Pacelli, conheceu os Irmãos das Escolas Cristãs, fundados por São João Baptista de La Salle. Influenciado, positivamente, pelos professores religiosos e pelo director, o Irmão Floriano Donatelli, pediu para entrar no Noviciado, localizado em Glencoe, no Missouri.
O seu pedido foi atendido, em Setembro de 1959. Três anos depois, no dia 30 de Agosto de 1962, iniciou o seu noviciado: vestiu o hábito religioso e, segundo o costume, mudou o seu nome para Irmão Leão Guilherme. Em 1966, o Capítulo-Geral estabeleceu que os Irmãos poderiam voltar a usar seu sobrenome e o nome de baptismo; ele assim o fez.
O Irmão Tiago passou o seu segundo ano do Juniorato ou Escolasticado, na Cretin-Dernam Hall Secondary School, em St. Paul, Minnesota. Continuou seus estudos na Saint Mary's University em Winona, Minnesota. Ao concluir o noviciado, professou os conselhos evangélicos, aos quais acrescentou as promessas especiais de seu instituto religioso: associação ao serviço educativo dos pobres e de estabilidade.
Na escola Cretin-Dernam Hall, ele leccionava espanhol, inglês e religião. Também supervisionava a manutenção da escola. Nunca se recusava a ajudar, seja a limpar a neve dos passeios, as casas de banho, fornos ou a consertar qualquer coisa quebrada.
Os alunos, sem saber, apelidaram-no "Irmão Faz-Tudo". Outros chamavam-no "Irmão Alegria", por vê-lo tratar todos com bom humor. Fundou, também, uma equipa de futebol para os alunos, da qual, também, se tornou o treinador.
Em 1966, obteve o diploma de Bacharel em Artes e em Línguas Modernas. Em 5 de Maio de 1969, foi informado de que, ao final do retiro anual, poderia fazer os seus votos perpétuos, no dia 12 de Junho.
Em Março de 1974, ano em que concluiu o seu mestrado, foi transferido para Puerto Cabezas, também na costa atlântica, ao norte de Bluefields, para leccionar inglês, matemática e religião, no Instituto Nacional Cristóvão Colombo, administrado pelos Irmãos, mas pertencente ao governo. Durante as férias, leccionava na filial da Universidade Nacional, em Puerto Cabezas, em cursos de formação de professores.
Em 1975, foi nomeado, pelo governo, director do Instituto. Os seus colegas, porém, consideravam-no mais um amigo do que um superior directo. O mesmo se aplicava aos seus alunos, pelos quais se preocupava e se interessava em resolver os seus problemas. Era muito exigente com eles, mas também sabia como incentivá-los, especialmente durante os jogos de basquete, beisebol, softbol e vólei: "Da próxima vez podemos fazer melhor. Não importa se ganharmos ou perdermos...", dizia-lhes.
Aproveitando-se do apoio que tinha no governo, obteve financiamento significativo para expandir as instalações da escola, equipando-a com novas salas de aula, um auditório e laboratórios de ciências, carpintaria e electrotecnia. Também lutou pelos povos indígenas mestiços, por exemplo, criando um corpo de bombeiros voluntários. Com verbas governamentais, mais tarde, construiu dez escolas rurais.
No entanto, devido ao seu relacionamento com Anastácio Somoza, líder do regime nicaraguense, ele passou a sofrer ameaças, inclusive dos pais dos seus alunos. Os sandinistas colocaram-no na sua lista negra. Pouco tempo depois, a revolução chegou a Puerto Cabezas. Quando lhe perguntaram se tinha medo de tiros, o Irmão Tiago respondeu: "Medo? Nunca pensei que pudesse rezar com tanto fervor como rezo quando vou dormir".
Finalmente, em Julho de 1979, ele obedeceu aos seus superiores e regressou aos Estados Unidos. Passou o verão na quinta da família e, em Setembro, voltou para Cretin-Dernham Hall. De manhã, dava aulas de espanhol; e à tarde, dedicava-se à manutenção. Nas horas vagas, também fez um curso de soldadura, no Instituto Técnico local.
Contudo, ele não estava nada feliz, ali. Percebia a disparidade entre os recursos disponíveis para os seus alunos nos Estados Unidos e a pobreza da Nicarágua, onde a educação era privilégio de poucos. Então, pediu para voltar para as missões, de preferência para a Guatemala.
O seu superior local enviou-o ao Centro Sangue de Cristo, em Santa Fé, Novo México, para um curso de actualização de pastoral missionária. Durante esse período, o Irmão Tiago considerou, seriamente, a possibilidade de entrar para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos e seguir a vocação sacerdotal. Ele conhecia bem os Capuchinhos e admirava o trabalho deles, na Nicarágua. No entanto, ele reafirmou firmemente a sua decisão de permanecer religioso lassalista.
Em Janeiro de 1981, o seu novo destino tornou-se efectivo: Huehuetenango, Guatemala, durante um período de três anos.
O Irmão Tiago ficou, imediatamente, cativado pela paisagem, pelos costumes maias e pelas tradições. Iniciou o seu compromisso como professor no Colégio La Salle e no Centro Indígena, que também incluía uma quinta e incentivava os jovens a aprenderem agricultura; assim, eles se tornariam excelentes líderes para as suas comunidades.
O Irmão Tiago, porém, enfrentou vários desafios na vida comunitária. A sua agenda de trabalho impedia-o de cumprir, integralmente, os horários da vida comunitária, principalmente os da oração comum. Muitas vezes, ficava acordado até tarde, para ajudar ou aconselhar os jovens, no Centro Indígena.
Ainda em 1981, voltou aos Estados Unidos, para St. Paul, para uma cirurgia ao joelho. O irmão Estêvão Markham, Visitador-Auxiliar do Distrito de St. Paul / Minneapolis, visitou-o e perguntou-lhe: "Tiago, não tens medo de ir para a América Central, onde, agora, há tanta violência, especialmente contra aqueles que ensinam a justiça, o amor ao próximo e a conduta honesta?" Ele respondeu: "Não estou a pensar nisso. Há tanto a fazer, e não se pode desperdiçar energia reclamando do que pode acontecer. Não importa o que aconteça!"
Exactamente um ano após a sua chegada, em Janeiro de 1982, ele já estava plenamente consciente da situação política, cada vez mais grave. Escreveu ao seu antigo director de noviciado: "Pessoalmente, estou cansado de toda essa violência; mas, continuo profundamente comprometido com essas pessoas pobres que sofrem na América Central... Cristo é perseguido por causa da nossa opção pelos pobres. Cientes dos muitos perigos e dificuldades, continuamos a trabalhar com fé, esperança e confiança na providência de Deus."
Continuou: "Sou Irmão das Escolas Cristãs há quase vinte anos, e o meu compromisso com esta vocação tem-se fortalecido, cada vez mais, desde que comecei a trabalhar na América Central. Peço a Deus a graça e a força para servi-Lo fielmente entre os pobres e oprimidos da Guatemala. Entrego a minha vida à Sua providência e confio-me a Ele."
No dia 10 de Fevereiro de 1982, o pai de um dos Irmãos guatemaltecos preocupou os religiosos do Colégio La Salle: ele ouvira membros do Exército a conspirar para assassinar o vice-director da instituição. Na realidade, havia três directores adjuntos, para cada uma das instalações confiadas aos lassalistas: o Irmão Tiago era o director-adjunto do Centro Indígena.
Como a ameaça era muito vaga, recomendou-se que nenhum dos Irmãos deixasse as suas casas. Enquanto isso, o embaixador dos EUA enviou um alerta a grupos religiosos norte-americanos a trabalhar na Guatemala, informando-os de que ouvira rumores sobre planos para assassinar um "norte-americano" não especificado, num futuro próximo.
Além disso, os estudantes do Centro eram frequentemente recrutados à força para o exército, mesmo estando teoricamente isentos do serviço militar. Nesses casos, os Irmãos apresentavam às autoridades provas de que o recrutado era estudante; momento em que, a contragosto, ele era liberado. O mesmo aconteceu em 11 de Fevereiro de 1983, quando um jovem maia foi recrutado e um dos lassalistas tentou, em vão, libertá-lo. O Irmão Tiago, por sua vez, havia enfrentado uma situação semelhante, durante os seus anos, na Nicarágua.
Apesar dos rumores, ele continuou a realizar o seu trabalho habitual. Mas, no dia 13 de Fevereiro de 1982, enquanto os rapazes da casa preparavam as fantasias de carnaval – era o dia de Carnaval – o Irmão Tiago reparou que um poste de iluminação precisava de conserto; então, com uma escada, subiu ao poste e começou a arranjar a avaria. Mal havia começado, quando três homens mascarados chegaram. Um deles disparou a sua arma, atingindo-o na garganta, no peito e no lado direito. Morreu instantaneamente… Os rapazes correram para o ajudar, assim que ouviram os tiros, mas já não puderam fazer nada.
O funeral do Irmão Tiago foi realizado na Guatemala. Mas, a sua família pediu que o seu corpo fosse levado para os Estados Unidos. Escoltado por milhares de estudantes e amigos, o corpo do Irmão Tiago foi levado de avião para Huehuetenango, e dali, para Ellis, no Wisconsin. No dia 18 de Fevereiro de 1982, foi celebrada uma missa, na Igreja de São Martinho, em Ellis, em memória do Irmão Tiago Alfredo Miller, antes de ser sepultado no cemitério local.
Nunca foi possível identificar os autores do assassinato, mas a reputação de santidade e martírio do Irmão Tiago sempre permaneceu viva entre os Irmãos das Escolas Cristãs, na Guatemala, a ponto de o aniversário do seu assassinato ser comemorado.
O Irmão Tiago Miller foi beatificado, pelo Papa Francisco, no dia 7 de Dezembro de 2019, no Colégio La Salle, em Huehuetenango, em cerimónia presidida pelo Cardeal José Luís Acunza Maestrojuán, Bispo de David (Panamá), como delegado do Santo Padre.
A sua memória litúrgica é celebrada no dia 13 de Fevereiro.
