PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Prefiro a misericórdia ao sacrifício…” (cf. Mateus 9, 12-13) No centro da liturgia da palavra deste domingo está uma expressão do profeta Oseias que Jesus retoma no Evangelho: "Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos" (Os 6, 6). Trata-se de uma palavra-chave, uma daquelas que se introduzem no coração da Sagrada Escritura. O contexto, no qual Jesus a utiliza, é a vocação de Mateus, cuja profissão é "publicano", ou seja cobrador de impostos da parte das autoridades imperiais romanas: por isso mesmo, ele era considerado pelos judeus um pecador público. Chamando-o precisamente quando estava sentado no banco dos impostos, esta cena foi bem ilustrada através de um celebérrimo quadro de Caravaggio, Jesus apresentou-se na sua casa com os discípulos e pôs-se à mesa com outros publicanos. Aos fariseus escandalizados responde: "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. (...) Porque não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mt 9, 12-13). O evangelista Mateus, sempre atento ao elo entre o Antigo e o Novo Testamento, a este ponto põe na boca de Jesus a profecia de Oseias: "Ide aprender o que significa: "Prefiro a misericórdia ao sacrifício"". É tão grande a importância desta expressão do profeta que o Senhor a cita novamente noutro contexto, a propósito da observância do sábado (cf. Mt 12, 1-8). Ainda neste caso Ele assume a responsabilidade da interpretação do mandamento, revelando-se como "Senhor" das mesmas instituições legais. Dirigindo-se aos fariseus, acrescenta: "E, se compreendêsseis o que significa: "Prefiro a misericórdia ao sacrifício", não teríeis condenado os que não têm culpa" (Mt 12, 7). Então, neste oráculo de Oseias, Jesus, Verbo feito homem, por assim dizer, reencontrou-se plenamente; fê-lo com todo o seu coração e realizou-o com o seu comportamento, mesmo à custa de ferir a susceptibilidade dos chefes do seu povo. Esta palavra de Deus chegou-nos, através dos Evangelhos, como uma das sínteses de toda a mensagem cristã: a verdadeira religião consiste no amor a Deus e ao próximo. Isto é o que dá valor ao culto e à prática dos preceitos. Agora, dirigindo-nos à Virgem Maria, peçamos a sua intercessão para viver sempre na alegria da experiência cristã. Mãe Misericordiosa, Nossa Senhora suscite em nós sentimentos de abandono filial em Deus, que é misericórdia infinita; nos ajude a fazer nossa a oração que Santo Agostinho enuncia numa conhecida passagem das suas Confissões: "Tem piedade de mim, Senhor! Aqui estão, não escondo as minhas feridas: tu és o médico, eu o doente; tu és o misericordioso, eu o miserável... Cada esperança minha se coloca na tua grande misericórdia" (X, 28.29; 39.40). (Papa Bento XVI na Oração do Angelus, no dia 8 de Junho de 2008, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

sábado, 6 de junho de 2026

PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral,  Praça de São Pedro – Roma, no dia 3 de Junho de 2026
 
Caros irmãos e irmãs!
Prosseguindo as catequeses sobre a Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium (SC), queremos deter-nos a refletir sobre alguns elementos constitutivos da sagrada liturgia, tais como o rito, o sinal e o símbolo.
O Concílio Vaticano II, aproveitando o precioso trabalho do Movimento litúrgico, ajudou-nos a redescobrir uma verdade muito viva na consciência da Igreja antiga e no ensinamento dos Padres. Os ritos da liturgia cristã não são um revestimento exterior do mistério sacramental, um conjunto de cerimónias arbitrárias, mas são a mediação eclesial através da qual o dom divino nos alcança. Precisamente por isto, o Concílio convida a compreender o Mysterium fidei que se realiza na liturgia através dos ritos e das orações (cf. SC, 48).
O rito dá forma à ação litúrgica e, através dela, à nossa vida, gerando em nós uma sensibilidade espiritual que nos torna capazes de nos deleitarmos com a presença de Deus por meio de Jesus Cristo. Naturalmente, isto acontece se não nos mantivermos estranhos ou espectadores mudos (cf. ibid.) em relação à liturgia, mas nela participarmos com todo o nosso ser – corpo, mente e coração –, em obediência ao mandamento do Senhor. Através do rito sagrado, somos assim formados para a escuta da Palavra de Deus, para a ação de graças e a adoração, para a partilha fraterna e a comunhão eclesial. Descobrimos que somos uma assembleia com muitos rostos, reunida pela mesma fé.
O rito envolve-nos numa sequência bem definida de gestos e orações, que por vezes pode contrastar com a nossa tendência individual para a espontaneidade. A sua lógica, porém, não é a de aprisionar a liberdade em esquemas. Pelo contrário, com a sobriedade solene dos seus ritmos, o rito interrompe as atividades frenéticas, reconduzindo-nos ao essencial. Descobrimos assim outra dimensão do agir, não guiada por cálculos produtivos, e outra experiência do tempo e do espaço. No rito experimentamos uma lógica de gratuidade, encontramos uma pausa que regenera o coração, reconhecemos que somos precedidos pela graça divina, aprendemos a viver num ritmo habitado pelo Espírito Santo.
A gramática do rito está imbuída dos sinais e dos símbolos próprios da liturgia. Nela, como afirma o Concílio, «os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens» (SC, 7). O Catecismo da Igreja Católica aprofunda o valor destes sinais, recordando que «a sua significação radica na obra da criação e na cultura humana, determina-se nos acontecimentos da Antiga Aliança e revela-se plenamente na pessoa e na obra de Cristo» (n. 1145). Emblemático é o sinal da água: das origens da criação ao dilúvio, da travessia do Mar Vermelho ao Jordão, até à água que jorra do lado de Cristo e se torna sinal sacramental da imersão na sua morte e ressurreição.
“Sinal” e “símbolo” são termos frequentemente utilizados como sinónimos. Na realidade, um sinal é simbólico quando é capaz de remeter não só para uma ideia, mas para todo um sistema de significados e de valores. Assim, por exemplo, quando somos aspergidos com a água benta, reaviva-se em nós a consciência do dom recebido com o Batismo e a nossa adesão à vida nova em Cristo. Em segundo lugar, os símbolos têm essencialmente um carácter prático, sendo em primeiro lugar ações: mais simples e comuns, como ajoelhar-se e trocar o sinal da paz, ou mais exigentes, como os atos constitutivos de cada Sacramento. Acima de tudo, os símbolos têm uma singular dimensão performativa e transformadora, tanto em relação aos elementos materiais que os compõem, como em relação àqueles que entram em contacto com eles, gerando pertença, tocando o coração e a mente, suscitando relações eclesiais autênticas.
Na Carta Apostólica Desiderio desideravi, o Papa Francisco, fazendo sua uma afirmação de Romano Guardini, identificava «a primeira tarefa do trabalho da formação litúrgica: o homem deve voltar a ser de novo capaz de símbolos» (n. 44). Precisamos de nos deixar educar pelos ritos da liturgia, cuidando com delicadeza e sem arbitrariedade da beleza das nossas celebrações e empenhando-nos numa autêntica mistagogia. A experiência de uma liturgia viva e devota, acompanhada por uma catequese mistagógica oportuna, é o melhor recurso para despertar em todos aquela abertura ao encontro com Deus que, na lógica da encarnação, só pode acontecer envolvendo todo o homem: espírito, alma e corpo (cf. 1 Ts 5, 23). (cf. Santa Sé)