PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “…Um homem semeou boa semente no seu campo… ” (cf. Mateus 13, 24) A página evangélica de hoje propõe três parábolas com as quais Jesus fala às multidões sobre o Reino de Deus. Analiso a primeira: a do grão bom e da erva daninha, que ilustra o problema do mal no mundo e ressalta a paciência de Deus (cf. Mt 13, 24-30.36-43). Quanta paciência tem Deus! Também cada um de nós pode dizer isto: «Quanta paciência tem Deus comigo!». A narração situa-se num campo com dois protagonistas opostos. Por um lado, o dono do campo que representa Deus e espalha a semente boa; por outro, o inimigo que representa Satanás e espalha a erva daninha. Com o passar do tempo, no meio do trigo cresce também o joio, e face a esta realidade o dono e os seus servos têm atitudes diferentes. Os servos queriam intervir arrancando o joio; mas o dono, que se preocupa sobretudo com a salvação do trigo, opõe-se dizendo: «Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele» (v. 29). Com esta imagem, Jesus diz-nos que neste mundo o bem e o mal estão tão interligados, que é impossível separá-los e arrancar todo o mal. Só Deus pode fazer isto e fá-lo-á no juízo final. Com as suas ambiguidades e com o seu carácter multifacetado, a situação presente é o campo da liberdade, o campo da liberdade dos cristãos, no qual se cumpre o difícil exercício do discernimento entre o bem e o mal. E, por conseguinte, trata-se de conjugar neste âmbito, com grande confiança em Deus e na sua providência, duas atitudes aparentemente contraditórias: a decisão e a paciência. A decisão consiste em querer ser grão bom — todos o queremos —, com todas as nossas forças, e portanto afastarmo-nos do maligno e das suas seduções. A paciência significa preferir uma Igreja que é fermento na massa, que não teme sujar as mãos lavando as roupas dos seus filhos, e não uma Igreja de «puros», que pretende julgar antes do tempo quem está no Reino de Deus e quem não. O Senhor, que é a Sabedoria encarnada, ajuda-nos hoje a compreender que o bem e o mal não se podem identificar com territórios definidos ou determinados grupos humanos: «Estes são os bons, este são os maus». Ele diz-nos que a linha de fronteira entre o bem e o mal passa pelo coração de cada pessoa, passa pelo coração de cada um de nós, ou seja: somos todos pecadores. Sinto vontade de vos perguntar: «Quem não é pecador levante a mão». Ninguém! Porque todos o somos, somos todos pecadores. Jesus Cristo, com a sua morte na cruz e a sua ressurreição, libertou-nos da escravidão do pecado e concedeu-nos a graça de caminhar rumo a uma nova vida; mas com o Batismo concedeu-nos também a Confissão, porque temos sempre necessidade de ser perdoados dos nossos pecados. Olhar sempre e unicamente para o mal que está fora de nós, significa não querer reconhecer o pecado que está também em nós. E depois Jesus ensina-nos um modo diverso de olhar para o campo do mundo, de observar a realidade. Somos chamados a aprender os tempos de Deus — que não são os nossos tempos — e também o “olhar” de Deus: graças à influência benéfica de uma expectativa trepidante, aquilo que era joio ou parecia joio, pode tornar-se um produto bom. É a realidade da conversão. É a perspetiva da esperança! (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 23 de Julho de 2017, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

sábado, 18 de julho de 2026

SANTOS POPULARES

 


SANTA LÍDIA

 

Lídia nasceu na Rússia, no dia 20 de Março de 1901. O seu pai era sacerdote, da Igreja Ortodoxa, na cidade de Ufa. Lídia, desde muito jovem, destacou-se pela sua sensibilidade, ternura amorosa e aversão ao mal, qualidades que lhe renderam o amor universal.

Depois de concluir o ensino médio, aos dezanove anos, casou-se, mas, pouco tempo depois, perdeu o marido, durante a Guerra Civil.

Em 1922, contra a sua vontade, o seu pai, aderiu ao cisma da "Igreja Viva", organizado pelos bolcheviques. A jovem viúva ansiava pelo martírio, na Igreja das Catacumbas. Prostrou-se aos pés do pai e implorou: "Pai, dê-me a sua bênção para ir-me embora; para sair daqui, para que a minha salvação não seja impedida".

O sacerdote, já idoso, tinha consciência de que estava a pecar por pertencer à "Igreja Viva". Assim, em lágrimas, ele abençoou-a para que vivesse de forma independente, dizendo-lhe profeticamente: "Minha filha, quando conquistares a tua coroa, diz ao Senhor que, embora me tenha mostrado fraco demais para a batalha, não a impedi. Que tu sejas abençoada."

Lídia conseguiu emprego como escriturária no departamento florestal. Dessa forma, entrou em contacto com o povo russo simples, a quem amava profundamente. E o povo simples amava-a e respeitava-a muito. Os lenhadores e os motoristas, que trabalhavam em condições difíceis, contavam, com espanto, que, ao encontrarem Lídia no escritório, sentiam algo semelhante ao que sentiam quando iam venerar a imagem milagrosa da Theotokos (Maria, Mãe de Deus) perto da sua aldeia, antes da Revolução de 1917.

No escritório, deixaram de se ouvir obscenidades, insultos e discussões. Todos o notaram, inclusive, é claro, os líderes do Partido. Secretamente, a polícia começou a seguir e a vigiar Lídia, na expectativa de encontrar alguma coisa suspeita: mas não encontraram nada. Lídia nunca frequentou as igrejas legalizadas pelos bolcheviques e, muito raramente e com muita cautela, aparecia nas celebrações da Igreja das Catacumbas.

A polícia secreta sabia da existência de uma rede de igrejas das catacumbas, naquela região e, para as destruir, chamou do exílio o Bispo André Ukhtomsky, muito venerado pelo povo. Porém, ordem secreta do Bispo André, apenas uma igreja, em Ufa, o acolheu oficialmente, enquanto todos os habitantes da diocese o contactavam secretamente. A polícia percebeu que o seu plano havia falhado. Então, prendeu-o e exilou-o novamente. O Bispo André foi martirizado, no dia 26 de Dezembro de 1937.

Lídia teve a oportunidade de estar com ele e de conversar com ele durante cerca de uma hora. O assunto da conversa permanece desconhecido; mas, quando um jovem e zeloso padre criticou o pai de Lídia, na frente do Bispo André, este respondeu: “Aquele padre tem uma grande intercessora junto a Deus: Santa Lídia”, e encerrou a conversa.

Lídia foi, finalmente, presa no dia 9 de Julho de 1928, quando a polícia secreta descobriu que ela distribuía livretos datilografados, contendo vidas de santos, orações, homilias e ensinamentos de bispos, antigos e novos. Eles perceberam que a máquina de escrever, na qual os livretos haviam sido datilografados, tinha a letra K defeituosa e, assim, começaram a tentar descobrir a sua origem.

A polícia percebeu que Lídia tinha a chave para a descoberta de todas as igrejas das catacumbas da região. Durante dez dias, pressionaram-na continuamente para que confessasse, mas ela recusou-se terminantemente a falar. No dia 20 de Julho de 1928, o interrogador perdeu a paciência e enviou-a para o "comando especial", localizado numa cela subterrânea.

Exausta, Lídia não teve forças para descer os degraus. Foi, então, dada ordem, ao guarda que estava de plantão, no corredor, Cirilo Ataev, de 23 anos, para a ajudar a descer. "Cristo te salve!", disse Lídia, em agradecimento.

Estas palavras e os seus olhos, cheios de dor e desamparo, comoveram profundamente Cirilo. Ele não podia, portanto, ouvir indiferente os gritos e choros incessantes, vindos da cela onde torturavam Lídia, havia mais de hora e meia.

"Não sentes as dores?", perguntavam exaustos os torturadores. "Estás a gritar e a chorar. Isso significa que está a doer”.

" Senhor, estou a sofrer muito! Como é doloroso!", gemeu Lídia, em oração.

"Confessa!... Por que não confessas? Se não confessares, a tortura vai ser ainda mais dolorosa!"

"Não posso confessar... Não posso... Ele não vai permitir..." respondeu ela.

"Quem não vai permitir?", perguntaram os torturadores.

"Deus não vai permitir!..."

Por fim, os torturadores decidiram violá-la e pediram ajuda ao jovem guarda, Cirilo Ataev. Quando Cirilo entrou na cela escura e porca, compreendeu, imediatamente, as intenções daqueles energúmenos. Tomado por uma santa indignação, puxou da sua pistola e matou os dois torturadores, ali mesmo. Agarrou um terceiro torturador pelo pescoço, mas um quarto torturador disparou sobre ele.

Cirilo caiu ao lado de Lídia, que estava amarrada com uma corda, e olhando-a directamente nos olhos, disse: "Santa, leva-me contigo!" Então, algo surpreendente aconteceu: uma luz divina emanou da santa mártir Lídia; com um sorriso celestial, ela respondeu: "Eu levar-te-ei para lá."

Estas palavras encheram de terror os dois torturadores sobreviventes e foram dominados por um medo tremendo. Com gritos frenéticos, dispararam todas as suas balas contra os dois mártires indefesos. Aqueles que, entretanto, vieram ajudá-los, levaram-nos para fora, ainda gritando como loucos. Finalmente, todos foram embora, dominados por um medo indefinível.

Um dos dois torturadores enlouqueceu, completamente. Pouco depois, o outro morreu de choque nervoso. Antes de morrer, relatou tudo o que havia acontecido ao seu amigo, o Sargento Alexei Ikonnikov que, tocado pela fé e pelo amor de Deus, divulgou esta história extraordinária. Por isso, também foi preso e martirizado.

Os três, Lídia, Cirilo e Alexei, foram considerados santos pela Igreja das Catacumbas.

A memória de Santa Lídia, a nova Mártir da Rússia, e dos seus companheiros Alexei e Cirilo, é celebrada no dia 20 de Julho.