PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Ide vós, também, para a minha vinha …” (cf. Mateus 20, 7) Na página evangélica de hoje (cf. Mt 20, 1-16) encontramos a parábola dos operários chamados a trabalhar ao dia, que Jesus narra para comunicar dois aspectos do Reino de Deus: o primeiro, que Deus quer chamar todos a trabalhar para o seu Reino; o segundo, que no final deseja oferecer a todos a mesma recompensa, ou seja, a salvação, a vida eterna. O senhor da vinha, que representa Deus, sai ao romper da manhã e contrata um grupo de operários, concordando com eles o salário de um denário por dia: era um salário justo. Depois, sai também nas horas seguintes — ele sai cinco vezes naquele dia — até ao cair da tarde, para contratar outros operários que estão desempregados. No final do dia, o senhor ordena que seja dado um denário a todos, até àqueles que tinham trabalhado poucas horas. Naturalmente, os trabalhadores contratados primeiro queixam-se, porque vêem que são pagos como aqueles que trabalharam menos. No entanto, o senhor recorda-lhes que receberam quanto tinham concordado; mas, se ele quiser ser generoso com os demais, não devem sentir inveja. Na realidade, esta “injustiça” do senhor serve para provocar, em quantos ouvem a parábola, um salto de nível, porque aqui Jesus não quer falar do problema do trabalho, nem do salário justo, mas do Reino de Deus! E a mensagem é esta: no Reino de Deus não existem desempregados, todos são chamados a desempenhar a sua parte; e, no final, haverá para todos a recompensa que deriva da justiça divina - não humana, por sorte! - ou seja, a salvação que Jesus Cristo nos conquistou com a sua morte e ressurreição. Uma salvação que não é merecida, mas concedida - a salvação é gratuita - e por isso, «os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (Mt 20, 16). Com esta parábola, Jesus quer abrir o nosso coração à lógica do amor do Pai, que é gratuito e generoso. Trata-se de nos deixarmos surpreender e fascinar pelos «pensamentos» e pelos «caminhos» de Deus que, como recorda o profeta Isaías, não são os nossos pensamentos, não são os nossos caminhos (cf. Is 55, 8). Os pensamentos humanos são, muitas vezes, marcados por egoísmos e interesses pessoais; e as nossas veredas estreitas e tortuosas não são comparáveis com os caminhos largos e rectos do Senhor. Ele é misericordioso - não nos esqueçamos disto: Ele é misericordioso - perdoa amplamente; está cheio de generosidade e de bondade, que derrama sobre cada um de nós, abrindo a todos os territórios ilimitados do seu amor e da sua graça, os únicos que podem conferir ao coração humano a plenitude da alegria. Jesus quer levar-nos a contemplar o olhar daquele senhor: o olhar com que vê cada um dos operários à espera de um trabalho, chamando-os para a sua vinha. Trata-se de um olhar cheio de atenção e de benevolência; é um olhar que chama, que convida a erguer-se, a pôr-se a caminho, porque deseja a vida para cada um de nós; quer uma vida plena, comprometida, resgatada do vazio e da inércia. Deus não exclui ninguém e quer que cada um alcance a sua plenitude. Este é o amor do nosso Deus, do nosso Deus que é Pai. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 17 de Setembro de 2017, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

domingo, 20 de setembro de 2026

PALAVRA DO PAPA LEÃO



- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia16 de Setembro de 2026
 
Irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Dedicando o segundo capítulo à “comunidade humana”, a Constituição Gaudium et spes (GS)  convida a considerar a «multiplicação das relações entre os homens» «entre os principais aspectos do mundo actual» (n. 23). No entanto, esta realidade tem necessidade de encontrar o seu cumprimento «ao nível mais profundo da comunidade de pessoas», para a qual é indispensável «o mútuo respeito pela sua plena dignidade espiritual» (ibid.).
São afirmações que, nos nossos dias, adquirem maior urgência. Com efeito, por um lado o desenvolvimento tecnológico, a difusão dos mass media e dos social media, e o recurso crescente à inteligência artificial abrem novas possibilidades, abatendo barreiras e distâncias; por outro, as relações tendem a tornar-se cada vez menos pessoais, mais virtuais, e corremos o risco de nos habituarmos a delegar aos algoritmos decisões que competem exclusivamente à consciência humana. A tal respeito, fazer com que as relações sociais tenham peso real e profundidade pessoal é a contribuição que a comunidade cristã se propõe oferecer.
O Concílio convida a encontrar critérios e força no projecto criador de Deus, que desejou que «[todos] os homens formassem uma só família e se tratassem uns aos outros como irmãos»; por isso, «o amor a Deus e ao próximo é o primeiro e maior de todos os mandamentos», que em Cristo teve a sua plena revelação e a sua completa actuação (cf. GS, 24).
O aperfeiçoamento da pessoa humana e o desenvolvimento da sociedade devem ser considerados estreitamente interdependentes entre si: opô-los ou separá-los significaria torná-los vãos. A história, até a mais recente, confirma esta verdade de maneira clara e, por isso, não devemos cansar-nos de reiterar, com os Padres do Concílio Vaticano II, que «a pessoa humana, uma vez que por sua natureza necessita absolutamente da vida social, é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais» (GS, 25).
Nesta perspectiva, a Gaudium et spes afirma que a diversidade das pessoas e dos povos, no mundo, não deve ser considerada um perigo nem uma ameaça, mas potencial de enriquecimento e crescimento. A oposição, que às vezes degenera em violência, constitui um fruto do poder do pecado e do modo como ele condiciona as mentalidades e as acções a todos os níveis, causando destruição e morte. É necessário abrir-se cada vez mais à lógica da reciprocidade, da partilha e do cuidado, como acontece, também, entre os diferentes membros do corpo humano (cf. 1 Cor 12, 21-25).
Neste ponto, a Constituição pastoral oferece, inclusive, uma definição sintética de “bem comum”, recordando que ele consiste no «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição» (GS, 26). Ao mesmo tempo, reconhecendo a interdependência entre os povos, ela afirma que «cada grupo deve ter em conta as necessidades e legítimas aspirações dos outros grupos e mesmo o bem comum de toda a família humana» (ibid.).
Em seguida, a partir desta abordagem, os Padres conciliares indicam algumas «conclusões práticas e mais urgentes» (GS, 27). Em primeiro lugar, o respeito pela pessoa humana. A Gaudium et spes afirma: «Tudo quanto se opõe à vida, como toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas estas coisas, e outras semelhantes, são infamantes» (ibid.).
Segunda conclusão: o respeito e o amor até pelos adversários ou por aqueles que pensam ou agem diferentemente de nós (cf. GS, 28).
Em terceiro lugar: a igualdade fundamental de todos os homens, que exige justiça social. O Documento diz: «Deve superar-se e eliminar-se, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão de sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião» (GS, 29).
Para concluir, os Padres conciliares exortam a superar a mentalidade individualista e a assumir uma atitude de responsabilidade e participação (cf. GS, 30-31).
Caros irmãos e irmãs, esta visão da humanidade como “comunidade de pessoas” é um legado precioso que o Concílio Vaticano II nos deixou. Ela ajuda todos nós a realizar um discernimento pessoal e comunitário, para avaliar com responsabilidade os projectos sociais e políticos de hoje, com base nos critérios da dignidade da pessoa humana, da justiça social e da livre participação na construção do bem comum. Pois o futuro da humanidade depende do compromisso de cada um para colaborar com Deus e com os irmãos na construção de um mundo mais humano (cf. GS, 30). (cf. Santa Sé)