PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Se o meu irmão me ofender… quantas vezes deverei perdoar-lhe? …” (cf. Mateus 18, 15) O trecho evangélico deste domingo (cf. Mt 18, 21-35) oferece-nos um ensinamento sobre o perdão, que não nega a ofensa sofrida mas reconhece que o ser humano, criado à imagem de Deus, é sempre maior que o mal que ele comete. São Pedro pergunta a Jesus: «Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? (v. 21). Para Pedro parece ser já o máximo perdoar sete vezes a uma mesma pessoa; e talvez a nós pareça ser já muito perdoar duas vezes. Mas Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (v. 22), isto é, sempre: deves perdoar sempre. E confirma isto narrando a parábola do rei misericordioso e do servo impiedoso, na qual mostra a incoerência daquele que antes foi perdoado e depois se recusa a perdoar. O rei da parábola é um homem generoso que, movido pela compaixão, perdoou-lhe uma dívida enorme — “dez mil talentos”: enorme — a um servo que o suplica. Mas aquele mesmo servo, ao encontrar logo a seguir outro servo como ele que lhe deve cem denários — ou seja, muito menos —, comporta-se de forma impiedosa, fazendo-o fechar na prisão. A atitude incoerente deste servo é também a nossa quando recusamos o perdão aos nossos irmãos. Enquanto o rei da parábola é a imagem de Deus que nos ama de um amor tão rico de misericórdia a ponto de nos acolher, amar e perdoar constantemente. Desde o nosso Batismo Deus nos perdoou, condenando-nos a uma dívida insolúvel: o pecado original. Mas, isto acontece a primeira vez. Depois, com uma misericórdia sem limites, Ele perdoa-nos todas as culpas quando mostramos só um pequeno sinal de arrependimento. Deus é assim: misericordioso. Quando somos tentados a fechar o nosso coração a quem nos ofendeu e nos pede desculpa, lembremo-nos das palavras do Pai celeste ao servo impiedoso: «Eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti?» (vv. 32-33). Qualquer pessoa, que tenha experimentado a alegria, a paz e a liberdade interior que vem do ser perdoado, pode abrir-se, por sua vez, à possibilidade de perdoar. Na oração do Pai-Nosso, Jesus quis inserir o mesmo ensinamento desta parábola. Pôs em relação direta o perdão que pedimos a Deus com o perdão que devemos conceder aos nossos irmãos: «Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam» (Mt 6, 12). O perdão de Deus é o sinal do seu amor transbordante para cada um de nós: é o amor que nos deixa livres de nos afastar, como o filho pródigo, mas que espera todos os dias o nosso regresso; é o amor audaz do pastor pela ovelha perdida; é a ternura que acolhe cada pecador que bate à sua porta. O Pai celeste — nosso Pai — está cheio, cheio de amor e quer oferecê-lo a nós, mas não o pode fazer se fecharmos o nosso coração ao amor pelos outros. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 17 de Setembro de 2017, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

sábado, 12 de setembro de 2026

PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Basílica de São Pedro - Roma, no dia 9 de Setembro de 2026
 
Irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos! 
Dedicando o primeiro capítulo à dignidade da pessoa humana, a Constituição conciliar Gaudium et spes (GS) realça que ela é base e condição daqueles «valores que hoje são mais apreciados», mas não devem perder a ligação com «a sua fonte divina», para se subtrair às possíveis distorções devidas à «corrupção do coração humano» (GS, 11). 
Sem dúvida, o caminho que permitiu evidenciar os traços e os direitos fundamentais da dignidade da pessoa representa uma das páginas mais significativas da história humana. No entanto, o percurso a percorrer não terminou e deve enfrentar as contradições, antigas e novas, que impedem uma sua plena atuação. 
A Igreja oferece, com clareza, a sua contribuição, recordando que a dignidade humana brota do próprio ser da pessoa. Tive a oportunidade de o reiterar, também, na recente Encíclica Magnifica humanitas: «Cada pessoa (...) é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação. A sua dignidade não depende das capacidades que possui, das riquezas ou da função que desempenha, de escolhas certas ou erradas, mas é um dom, que a precede e a ultrapassa, concedido por Deus como expressão do seu amor que nunca falha» (n. 50). Por conseguinte, a dignidade infinita do ser humano enraíza-se na sua identidade de criatura feita «“à imagem de Deus”, capaz de conhecer e amar o seu Criador», projecto e dom de amor que transcende as demais realidades criadas, que são confiadas ao seu cuidado «para as dominar e delas se servir, dando glória a Deus» (GS,12). 
Na fé, podemos compreender o fundamento último da dignidade da pessoa, uma vez que o Filho, «na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (GS, 22). 
A pessoa significa sempre relação, comunhão, participação no que diz respeito a Deus e aos outros; portanto, uma relação filial com Deus Pai e uma relação fraterna com Cristo e com todos os homens. Exclui fechamentos autorreferenciais. Ser pessoa significa sentir-se a si próprio como dom a partilhar, crescendo e amadurecendo no acolhimento, na reciprocidade e no serviço. 
Esta dignidade é confiada à responsabilidade de cada um: ao mesmo tempo, ela exige, também, solidariedade e cuidado recíproco, superando as numerosas falsificações e manipulações que, até hoje, deturpam a sua noção e impedem a sua realização. Com efeito, por causa das escolhas contrárias à sua dignidade, feitas ao longo da história, ainda hoje «o homem encontra-se (...) dividido em si mesmo» e «toda a vida humana, quer singular quer colectiva, apresenta-se como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas». Contudo, esta condição frágil e limitada pode ser encarada com esperança, pois «o Senhor, em pessoa, veio para libertar e fortalecer o homem, renovando-o interiormente e lançando fora o príncipe deste mundo (cf. Jo 12, 31), que o mantinha na servidão do pecado» (GS, 13). 
Além disso, a Constituição Gaudium et spes afirma que a dignidade humana diz respeito à totalidade da pessoa e, por isso, é preciso superar as visões dualistas: o ser humano é «uno, composto de corpo e alma». A redução do corpo a “objecto”, do qual dispor arbitrariamente, é sempre negação da dignidade da pessoa: [O homem] «não pode […] desprezar a vida corporal», e é necessário «considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há-de ressuscitar no último dia», velando a fim de que ele não «se escravize às más inclinações do próprio coração» (GS, 14), uma vez que todos nós somos feridos pelo pecado. 
Para concluir: são três as expressões mais significativas da dignidade da pessoa, evocadas pela Gaudium et spes: a inteligência, que faz do ser humano um buscador insaciável da verdade (n. 15); a consciência, através da qual ele confere unidade e sentido à própria vida (n. 16); a liberdade, que o torna protagonista responsável pelas próprias decisões (n. 17). Trata-se de dimensões intimamente unidas entre si: é na consciência que a verdade é reconhecida como tal e a liberdade pode experimentá-la como seu fundamento e possibilidade. O Espírito Santo, que dá vida em Cristo, torna-nos livres e assegura-nos, constantemente, a nossa dignidade de filhos de Deus, libertando-nos do medo e guiando-nos para a meta última, aquela vida em plenitude para além da morte que Cristo nos prometeu: só n’Ele encontra verdadeira luz o mistério do homem; d’Ele recebemos luz sobre o enigma da dor e da morte; com Ele caminhamos ao encontro da ressurreição. 
Caros irmãos e irmãs, criados à imagem de Deus, por meio de Cristo e em vista d’Ele, recebemos uma dignidade única e indelével. Comprometamo-nos a promovê-la e a defendê-la sempre, com a luz e a força do Evangelho!  (cf. Santa Sé)