PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “…‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’.…” (cf. Mateus 25, 6) O trecho do Evangelho deste domingo (Mt 25, 1-13) convida-nos a prolongar a reflexão sobre a vida eterna, iniciada por ocasião da Festa de Todos os Santos e da Comemoração dos fiéis defuntos. Jesus narra a parábola das dez virgens convidadas para uma festa nupcial, símbolo do Reino dos céus. Segundo a tradição, no tempo de Jesus os matrimónios eram celebrados à noite; portanto, o cortejo dos convidados devia proceder com as lâmpadas acesas. Algumas donzelas são insensatas: levam as lâmpadas mas não levam consigo o óleo; as prudentes, ao contrário, levam consigo também o óleo. O esposo tarda, tarda a vir, e todas adormecem. Quando uma voz avisa que o esposo está prestes a chegar, naquele momento as insensatas percebem que não têm óleo para as suas lâmpadas; pedem-no às sábias, mas elas respondem que não o podem dar, pois não seria suficiente para todas. Enquanto as insensatas vão comprar o óleo, chega o esposo. As donzelas prudentes entram com ele na sala do banquete, e a porta fecha-se. As outras chegam demasiado tarde e são rejeitadas. É claro que, com esta parábola, Jesus quer dizer-nos que devemos estar preparados para o encontro com Ele. Não apenas para o encontro final, mas também para os pequenos e grandes encontros de cada dia, em vista daquele encontro, para o qual não é suficiente a lâmpada da fé, mas é necessário também o óleo da caridade e das boas obras. A fé que nos une verdadeiramente a Jesus é aquela, como diz o Apóstolo Paulo, «que opera pela caridade» (Gl 5, 6). É isto que é representado pela atitude das donzelas prudentes. Ser sábio e prudente significa não esperar o último momento para corresponder à graça de Deus, mas fazê-lo ativa e imediatamente, a partir de agora. “Eu... sim, converter-me-ei mais tarde...” - “Converte-te hoje! Muda de vida hoje!” - “Sim, sim... amanhã”. E diz o mesmo no dia seguinte, e assim nunca o fará. Hoje! Se quisermos estar prontos para o último encontro com o Senhor, devemos cooperar desde agora com Ele e praticar boas ações inspiradas no seu amor. Infelizmente, sabemos que podemos esquecer o objectivo da nossa vida, ou seja, o encontro definitivo com Deus, perdendo assim o sentido da expetativa e absolutizando o presente. Quando absolutizamos o presente, olhando só para o hoje, perdemos o sentido da expectativa, que é tão bom e necessário, e também nos afasta das contradições do momento. Esta atitude - quando se perde o sentido da expectativa - exclui qualquer perspectiva do além: fazemos tudo como se nunca tivéssemos que partir para a outra vida. E assim só nos preocupamos em possuir, em emergir, em acomodar-nos... E cada vez mais. Se nos deixarmos guiar pelo que nos parece mais atraente, pelo que nos agrada, pela busca dos nossos interesses, a nossa vida torna-se estéril; não acumulamos qualquer reserva de óleo para a nossa lâmpada, e ela apagar-se-á antes do encontro com o Senhor. Temos de viver o hoje, mas o hoje que se encaminha para o amanhã, para aquele encontro, o hoje cheio de esperança. Se, ao contrário, vigiarmos e praticarmos o bem correspondendo à graça de Deus, podemos esperar com serenidade a chegada do esposo. O Senhor poderá vir até quando dormimos: isto não nos preocupará, porque temos a reserva de óleo acumulada com as boas obras de cada dia, acumulada com aquela expectativa do Senhor, que Ele venha o mais depressa possível e que venha para me levar consigo. Invoquemos a intercessão de Maria Santíssima, para que nos ajude a viver como Ela, uma fé concreta: eis a lâmpada luminosa com que podemos atravessar a noite, para além da morte, e alcançar a grande festa da vida. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 8 de Novembro de 2020, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

PALAVRA DO PAPA LEÃO

 


- na Audiência-Geral, na Praça de São Pedro - Roma, no dia 4 de Novembro de 2026
 
Prezados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
 
A dimensão social é parte integrante, não só da natureza humana, mas também da nossa fé em Cristo Jesus, como precioso legado que recebemos da encarnação do Filho de Deus. A Constituição Gaudium et spes (GS) recorda-o, nos capítulos III e IV da segunda parte, dedicados à vida económico-social e à vida da comunidade política. Também nestes campos, a fé cristã oferece critérios de discernimento.
Os Padres conciliares evidenciam, em primeiro lugar, o perigo para a paz mundial, que deriva dos desequilíbrios ligados a um desenvolvimento económico não equitativo e não respeitoso da criação (cf. GS, 63). Uma visão clarividente, que infelizmente encontrou confirmação na parte final do século passado e que constatamos ainda mais hoje. Para corrigir a rota — adverte o Documento — não é suficiente o desenvolvimento técnico: «requerem-se muitas reformas na vida económico-social e uma mudança de mentalidade e de hábitos por parte de todos» (ibid.).
Por isso, a Gaudium et spes apresenta, em síntese, a visão cristã do desenvolvimento económico, que deve estar sempre ao serviço do homem e sob o domínio do homem (cf. GS, 64-65). Já aqui se manifesta, claramente, o conceito de desenvolvimento integral, que, mais tarde, São Paulo VI colocará no centro da sua Encíclica Populorum progressio (1967). Além disso, são mais actuais do que nunca os apelos a comprometer-se para eliminar as discriminações em detrimento dos grupos sociais mais vulneráveis e dos migrantes (cf. GS, 66).
O coração da economia é o trabalho. Através dele, o homem desenvolve-se como pessoa; provê às necessidades da família; expressa o seu talento; participa na vida social e edifica um mundo melhor, colaborando para a obra criadora de Deus. O trabalho nunca pode ser deturpado em prejuízo das pessoas, do bem comum ou da criação. O verdadeiro desafio consiste em oferecer a todos as oportunidades para fazer frutificar as suas capacidades. Não são aceitáveis: o desemprego, a exploração e condições de trabalho que põem em perigo a saúde e a própria vida (cf. GS, 67). Os trabalhadores têm o direito e o dever de participar nas decisões que dizem respeito à sua actividade, até de forma associativa, enfrentando os conflitos mediante o diálogo e acções não violentas (cf. GS, 68).
Neste contexto, o Concílio evoca um dos princípios fundamentais do magistério social, ou seja, o destino universal dos bens da terra (cf. GS, 69), e aplica-o no sector financeiro, afirmando que «todos os que decidem destes investimentos e da organização da vida económica – indivíduos, grupos ou poderes públicos – devem [...] vigiar para que sejam assegurados os requisitos necessários a uma vida digna dos indivíduos e de toda a comunidade; e, ainda, prever o futuro e garantir um equilíbrio saudável entre as necessidades do consumo hodierno, individual e colectivo, e as exigências de investimentos para a geração futura» (GS, 70).
Em seguida, a Gaudium et spes passa a abordar a comunidade política, valorizando vários sinais positivos na época contemporânea, sobretudo a constatação de que «a consciência mais sentida da dignidade humana dá origem, em diversas regiões do mundo, ao desejo de instaurar uma ordem político-jurídica em que os direitos da pessoa, na vida pública, sejam melhor assegurados» (GS, 73).
A comunidade política existe em função do bem comum, que consiste no «conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a sua perfeição» (GS, 74). E o exercício da autoridade política deve visar sempre o bem comum, estruturando-se e agindo de acordo com as circunstâncias locais e históricas, mas sempre tendo no coração o bem de toda a família humana (cf. ibid.).
A Gaudium et spes reitera que «no domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e autónomas. Mas, embora a títulos diversos, ambas servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para o bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação» (GS, 76).
Caríssimos, comprometer-se na economia e na política de acordo com estes critérios constitui uma maneira de construir a paz. Como recordava o Papa Francisco, «a guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal» (Carta enc. Fratelli tutti, 261). Pelo contrário, a política que cuida das feridas dos povos e de quantos sofrem injustiça oferece motivos de esperança para o porvir da humanidade.
Por isso, encorajo os jovens a seguir o exemplo daqueles homens e mulheres que, nestes âmbitos, deram bom testemunho. E renovo a minha exortação às comunidades cristãs a fim de que seja relançada a formação sobre a doutrina social da Igreja. (cf. Santa Sé)