- na 2ª Conferência quaresmal, na Sé do Porto, em 21 de Março de 2012
«… A religiosidade popular, podendo ser abertura, fecha-se muito em si própria, tornando-se assim em problema. Fixa-se na terra, no sangue e nos mortos e resiste demasiadamente ao apelo dos “novos céus e nova terra” (cf. Ap 21, 1), em que Cristo nos quer introduzir: aí, porque “a cidade a que pertencemos está nos céus” (cf. Fl 3, 20); aí, porque os laços de sangue dão lugar à família larga “dos que fazem a vontade do Pai” (cf. Mt 12, 50); aí, porque os nossos mortos são lembrados ou lembram-se de nós, mas precisamente em Deus, “que não é um Deus de mortos, mas de vivos!” (cf. Mc 12, 27).
A tarefa mais urgente e inadiável de toda a evangelização é transformar pelo Espírito a mera religiosidade em autêntica “piedade” (= vivência filial), naquela “água viva” que murmurava no coração de Inácio e lhe sussurrava constantemente “Vem para o Pai!”. Era essa a alma de Cristo, é este o segredo dos cristãos. É esta também a liberdade final de toda a criação, operada por corações livres de toda a concupiscência e cobiça e assim vencedores de qualquer desigualdade ou corrupção. Onde Deus é tudo há lugar para tudo e há espaço para todos. Sabia-o perfeitamente São Paulo, ao escrever: “Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus!” (Rm 8, 19)….»