PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Soltai brados de alegria… Fazei ouvir os vossos louvores…” (cf. Jeremias 31, 7)

O convite à alegria é permanente, na Palavra do Senhor. A alegria nasce da fé no Senhor que salva o seu povo; é fermento de esperança, na tristeza que envolve a vida; é testemunho do amor que se verga sob o peso da cruz; é proclamação da verdade que nos liberta. O desafio da alegria afronta o ódio, a vingança, a marginalidade, a violência, porque é criador de unidade, de comunhão, de festa, de encontro e de paz… A verdadeira alegria: aquela que vem de Deus e anima a nossa acção missionária. Por ela, somos convidados a louvar e a agradecer as maravilhas que Deus faz em nós e, por nós, no meio do mundo. Cantar a alegria da fé, do amor incondicional, da vida doada em serviço por amor, da fraternidade que construímos na harmonia das palavras e na beleza dos gestos, da esperança que destrói muros e lança pontes de solidariedade e de perdão. Acolher a alegria de Jesus presente no meio de nós…

domingo, 26 de janeiro de 2014

FESTA DAS FOGACEIRAS




Cumpriu-se a promessa. Em Santa Maria da Feira, o dia 20 de Janeiro é todo voltado para São Sebastião e para os sinais que testemunham a fé e a devoção das gentes das Terras da Feira. Como é habitual, a Igreja Matriz encheu-se de oração e de cânticos de louvor; de fogaceiras e de odor a pão da festa. A procissão tremeu com a ameaça da chuva mas, de passo firme, calcorreou a distância que a tradição manda. Tudo lindo: na Igreja, nas ruas, nas almas…
O Sr. D. Pio Alves, Administrador Apostólico do Porto, presidiu às celebrações, iluminando-as com a sua presença e a sua palavra. Apresentamos a Homilia, proferida na celebração da Eucaristia.

“…1. Ao celebrarmos hoje a festa de S. Sebastião é compreensível que a nossa atenção se centre nos momentos extraordinários da sua vida e também nos prodígios miraculosos que Deus concedeu e concede a todos os que recorrem à misericórdia divina por intercessão de alguém que, sendo criatura humana, nos resulta mais próximo. S. Sebastião é uma dessas figuras que enchem a bi-milenar história da Igreja e que serviram e servem de referência de fidelidade para os cristãos.
Não era fácil ser cristão no século III, como não é fácil ser cristão hoje. Então, como agora, a fidelidade à condição de cristão implicava toda a vida e a vida toda. Com o seu martírio, com a generosa entrega da sua vida, o Santo sela com o seu sangue a irrenunciável condição de discípulo de Jesus Cristo. Com efeito, não havia, nem há, razão que pudesse justificar a deslealdade na fé. E, por isso, S. Sebastião vai até ao fim e não troca esta vida pela mentira, pela comodidade de uma aparente felicidade.
Não se pense, contudo, que este gesto de suprema entrega é possível graças a um momentâneo arrebato de generosidade. A generosidade dos momentos grandes cultiva-se na fidelidade dos aparentemente pequenos pormenores da vida diária. S. Sebastião, urgido por graves ameaças, não teria sido capaz de se manter fiel se não tivesse cuidado, com heroísmo permanente, as exigências da sua adesão, não apenas a umas doutrinas, a um determinado estilo de vida, mas a uma pessoa: Jesus Cristo. Este é o segredo do heroísmo e da grandeza dos santos. Jesus Cristo deve ser, também para cada um de nós, o segredo para viver com fortaleza e coerência, em todo o tempo, em todas as situações, todas as exigências da nossa igual condição de discípulos do mesmo Mestre.
2. Na oração ao Pai, reproduzida no texto do Evangelho (17, 11b-19), Jesus Cristo anuncia as dificuldades pelas que passarão os seus discípulos. “O mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal”. A nossa decisiva contribuição ao bem da Sociedade radica na fidelidade à nossa condição de cristãos. Com o nosso legítimo modo de ser, com a especificidade da nossa condição de cristãos, que deve marcar toda a nossa vida, contribuiremos a abrir caminhos novos.
A nossa fidelidade a Jesus Cristo é balizada pelo testemunho nas simples ou complicadas situações da comum vida diária e pela disponibilidade para a coerência. Dar a cara por Deus, assumir com clareza e sem nos escondermos detrás de falsas desculpas a nossa condição de cristãos, em todas as circunstâncias, é o martírio que Jesus Cristo tem direito a esperar de todos nós.
Mesmo que o ambiente seja claramente contrário, mesmo que o nosso comportamento possa ser motivo de sorrisos e comentários, não podemos suspender a nossa condição de discípulos de Jesus Cristo. Por exemplo: na fidelidade conjugal; na generosa fecundidade matrimonial; na próxima, mas exigente, educação dos filhos; na decorosa apresentação pessoal; no cumprimento dos deveres laborais; nos compromissos de justiça, acrescidos da generosidade da caridade; na utilização dos bens pessoais em benefício da criação de trabalho e de bem-estar social; na atenção aos mais carenciados. A lista de exemplos poderia alargar-se indefinidamente. Mas será aí, nessa generosa e heroica coerência, onde se joga a verdade da nossa vida cristã, onde se exercita a disposição para o verdadeiro martírio e, por isso, a proximidade aos santos, a fidelidade a Jesus Cristo.
3. Foi assim, por esta via, que o cristianismo e os cristãos mudaram o rumo da História e contribuíram para a criação de uma Sociedade rejuvenescida, nova.
No meio das imensas dificuldades por que atravessamos, não sentimos, acaso, a necessidade de recriar a Sociedade?
Não podemos esperar que sejam apenas os outros a fazê-lo. Celebrar os santos não pode ser apenas o exercício de olhar para o passado e para as nossas pessoais necessidades imediatas. Celebrar os santos, celebrar S. Sebastião, é um convite a aprender do passado para viver responsavelmente o presente e construir solidamente o futuro. Temos que saber unir o exemplo dos que nos precederam, a força (a graça) de Deus e a nossa cooperação. Recordo umas palavras da 1ª leitura do Livro de Ben-Sirá (51, 1-12): “A minha alma estava já perto da morte e a minha vida aproximava-se das portas do abismo. Cercavam-me de todos os lados e ninguém me socorria; procurava qualquer ajuda dos homens, mas em vão. Lembrei-me então, Senhor, da vossa misericórdia (…), porque livrais aqueles que esperam em Vós”.
Contando com Deus, que nunca falta – “Não tenhais medo dos perseguidores nem vos perturbeis”, alerta S. Pedro na 2ª leitura (1Ped 3, 14-17) –, tem que ser cada um a desatar o nó do pessimismo, da falta de esperança, da Sociedade que parece correr para o abismo. A fé em Jesus Cristo, a vida de fé, não tem que ver apenas nem principalmente com a natural satisfação da ânsia do cumprimento da dimensão religiosa: tem que ver com a totalidade da nossa vida e, por isso, da nossa vida na Igreja, das nossas responsabilidades na Sociedade.
4. Sem complexos de superioridade nem de inferioridade, devemos estar sempre prontos, como exorta S. Pedro, a responder a quem quer que seja sobre a razão da nossa esperança.
S. Sebastião, no seu tempo, e todos os santos em todos os tempos tiveram motivos de sobra para desanimar, para desistir, para trocar as exigências da sua fé pela aparente certeza do imediato. Resistiram heroicamente a essa tentação, gastaram a vida, mantiveram-se fiéis a Jesus Cristo. A sua fidelidade foi e consolidou a vitória do Bem, da Verdade, da Esperança, dos projetos novos para uma Sociedade nova. É aí que Deus nos espera.
Que seja esse o nosso principal tributo à glória de quantos nos precederam e que amamos como irmãos na fé; que seja essa a nossa principal mostra de gratidão pelos benefícios recebidos; que a intercessão de S. Sebastião fortaleça a nossa vontade de sermos mais um elo nesta cadeia de fidelidade, que, pela graça de Deus, faz novas todas as coisas…”

SEMANA DOS CONSAGRADOS



 
A Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal promove a celebração da Semana dos Consagrados entre os dias 26 de Janeiro e 2 de Fevereiro. O tema desta semana é: Transformados na alegria do Evangelho”. O dia 2 de Fevereiro é proposto como um dia de oração pelas vocações de especial consagração a Cristo, na Igreja. Da mensagem do Presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, destacamos:  “…A vocação de consagração é fruto da descoberta do significado mais profundo da alegria do Evangelho. Não se baseia nas alegrias ou satisfações do mundo, mas fundamenta-se em Deus, no Evangelho de Jesus Cristo, que é anúncio de salvação para os pobres e pecadores, já sobre esta terra, mas sempre a apontar para a alegria definitiva da comunhão com Ele, no Céu. Face a tantas insatisfações produzidas pela busca insaciável de alegrias fugazes, o Consagrado tem uma experiência de vida diferente a apresentar: o de uma alegria serena, discreta, sóbria, pacificadora. Esse testemunho tem tanto mais valor e capacidade de persuasão quanto mais é autêntico, vivido e sentido, quanto mais radica na comunhão com Cristo e com o Seu Evangelho. Neste sentido, podemos dizer que o Consagrado assume a vocação de ser, na Igreja, o Evangelho vivo da alegria que seduz, irradia, transforma e conduz à conversão…”

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


 
- na Audiência Geral, no dia 15 de Janeiro, na Praça de São Pedro, Roma

“…No passado Sábado, começou a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que terminará no próximo Sábado, Festa da Conversão de São Paulo Apóstolo. Esta iniciativa espiritual, tão preciosa, envolve as comunidades cristãs há mais de cem anos. Trata-se de um tempo dedicado à oração pela unidade de todos os baptizados, de acordo com a vontade de Cristo: "que todos sejam um " (Jo. 17,21). Em cada ano, um grupo ecuménico de uma região do mundo, sob a orientação do Conselho Ecuménico das Igrejas e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, sugere o tema e prepara os subsídios para a Semana de Oração. Este ano, tais subsídios são propostos pelas Igrejas e Comunidades eclesiais do Canadá e referem-se à pergunta feita por São Paulo aos cristãos de Corinto: "Estará Cristo dividido? " (1 Cor. 1,13).
Certamente Cristo não foi dividido. Mas devemos reconhecer, sinceramente e com a dor, que as nossas comunidades continuam a viver divisões que são um escândalo. As divisões entre nós, cristãos, são um escândalo. Não há outra palavra: um escândalo. " Cada um de vós – escreveu o Apóstolo - ele diz:" Eu sou de Paulo ";" Eu, pelo contrário, sou de Apolo"; " E eu de Pedro"; “E eu de Cristo "(1 Cor. 1,12). Mesmo aqueles que professavam Cristo como seu chefe não são aplaudidos por Paulo, porque usavam o nome de Cristo para separar-se dos outros, dentro da comunidade cristã. Mas, o nome de Cristo cria comunhão e unidade, e não divisão! Ele veio para fazer comunhão entre nós e não para nos dividir. O Baptismo e a Cruz são elementos centrais do discipulado cristão que temos em comum. Em contrapartida, as divisões enfraquecem a credibilidade e a eficácia do nosso compromisso de evangelização e tendem a esvaziar a cruz do seu poder (cf. 1 Cor. 1,17).
Paulo repreende os coríntios pelas suas disputas, mas também dá graças ao Senhor "por vós, pela graça divina que vos foi dada em Jesus Cristo. N’Ele, fostes ricamente contemplados com todos os dons, com os da palavra e os da ciência " (1 Cor. 1, 4-5). Estas palavras de Paulo não são uma mera formalidade, mas o sinal de que ele vê, em primeiro lugar - e disto ele se alegra sinceramente - os dons dados por Deus à comunidade. Esta atitude do Apóstolo é um incentivo para que nós, e toda a comunidade cristã, reconheçamos com alegria os dons de Deus presentes nas outras comunidades. Apesar do sofrimento das divisões, que infelizmente ainda existem, acolhamos as palavras de Paulo como um convite a alegrarmo-nos, sinceramente, com as graças concedidas por Deus aos outros cristãos. Temos o mesmo baptismo, o mesmo Espírito Santo que nos deu a Graça: reconheçamo-lo e alegremo-nos.
É belo reconhecer a graça com que Deus nos abençoa e, mais ainda, encontrar noutros cristãos algo de que precisamos, algo que podemos receber como um dom dos nossos irmãos e das nossas irmãs. O grupo canadiano que preparou os subsídios desta Semana de Oração não convidou as comunidades a pensar no que poderiam dar aos seus vizinhos cristãos, mas exortou-os a encontrar-se para compreender o que todos podem receber, de vez em quando, dos outros. Isto requer algo mais. Requer muita oração, requer humildade, requer reflexão e contínua conversão. Vamos em frente neste caminho, rezando pela unidade dos cristãos, para que este escândalo acabe e não esteja nunca mais entre nós…”

PARA REZAR



SALMO 29

 

            R/.  O Senhor é minha luz e salvação.
 

O Senhor é minha luz e salvação:

a quem hei-de temer?

O Senhor é protector da minha vida:

de quem hei-de ter medo?

 

Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:

habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,

para gozar da suavidade do Senhor

e visitar o seu santuário.

 

Espero vir a contemplar a bondade do Senhor

na terra dos vivos.

Confia no Senhor, sê forte.

Tem coragem e confia no Senhor.

SANTOS POPULARES


BEATO GONÇALO DIAS DE AMARANTE

Gonçalo Dias de Amarante nasceu por volta do ano de 1548, na freguesia de Folhada, Marco de Canaveses. Era filho de Baltasar Dias e Antónia Barbosa. A sua família era muito piedosa e virtuosa: os seus avós paternos tinham mesmo mandado construir, no lugar onde viviam, uma ermida dedicada ao diácono e mártir São Lourenço. Quando foi baptizado, recebeu o nome de Gonçalo, em memória de São Gonçalo de Amarante. Ainda criança, pelo testemunho de piedade da sua família, deixou-se envolver por sentimentos de grande amor e entrega aos desígnios de Deus, vivendo com alegria e simplicidade, desprezando os apegos terrenos e praticando as virtudes que são verdadeiros tesouros aos olhos de Deus.
Quando jovem, apesar de querido e amado pelos seus familiares, decidiu sair de casa para procurar formas mais exigentes de vida: em casa não podia mortificar-se sem dar nas vistas, nem realizar rigorosas disciplinas, sem o riso de troça daqueles que não entendem estas coisas.
Fez-se pastor, ocupando os seus dias a guardar as ovelhas e a contemplar o amor de Deus presente na obra da Criação. Nesta fase, fez uma verdadeira peregrinação interior em ordem à santidade de vida e, com a ajuda da graça de Deus, cresceu imenso na dimensão espiritual. Com o incentivo do seu confessor, propôs-se estudar Gramática e Latim, porque lhe pareceu que, assim, poderia seguir Deus por um caminho mais seguro. Mudou-se para Amarante, dormindo num coberto, que havia debaixo da ponte. Aí viveu algum tempo, numa rigorosa vida ascética.
Vendo-o a evoluir bem no estudo da Gramática, o seu professor recomendou-lhe que tomasse hábito no Convento de S. Domingos de Amarante. Gonçalo recusou e, vendo que eram conhecidas de todos as suas penitências e virtudes, resolveu deixar aquela terra: temeu ser devorado pela vaidade deixando-se dominar pelos aplausos humanos. Foi, então, trabalhar no hospital, ajudando os pobres peregrinos que ali estavam doentes, tanto os que vinham da Galiza visitar o túmulo de S. Gonçalo como os portugueses que, por ali, regressavam de Santiago. Aconteceu então um facto carregado de futuro. Passaram em Amarante uns marinheiros a pagar uma promessa a S. Gonçalo. Gonçalo Dias entrou em contacto com eles, precisamente por estar no hospital. Inteirando-se da sua vida difícil e perigosa, da sua pouca instrução e do pouco cuidado com a sua salvação, resolveu acompanhá-los na sua ocupação: fez-se marinheiro num barco português. Os anos que gastou no mar Atlântico e quantas viagens fez, não o sabemos; mas, quando passou a trabalhar nos barcos castelhanos era já um perito marinheiro. No seu íntimo fervilhava uma grande dúvida que implicava uma grande decisão: embarcar para a Índia Oriental com os espanhóis ou para África com os portugueses? Da América vinham muitos tesouros… Temendo que a cobiça entrasse no seu coração, a Gonçalo parecia-lhe melhor o apelo da evangelização dos nativos que lhe vinha de África. Antes de decidir, Gonçalo dispôs-se a ouvir Deus, por meio da oração e da intercessão do Apóstolo São Tiago. Foi em peregrinação a Santiago de Compostela. Em todo o caminho, jejuou com grande austeridade, passando muitos dias a pão e água. Na maior parte do trajecto, dava graças a Deus pela variedade das aves, plantas e animais que encontrava por aqueles campos, convidando, muitas vezes, os companheiros para que o acompanhassem nos louvores a Deus. Chegado a Compostela, pediu ao glorioso Apóstolo e aos demais santos, cujas relíquias ali se veneravam, que intercedessem diante de Deus para que o iluminasse com o conhecimento do caminho que devia seguir. No regresso de Compostela, resolveu seguir para a Índia Oriental ou América e empregou-se como marinheiro nos Galeões Reais. Aqui, as suas virtuosas acções, a sua compostura e o seu exemplo mais pareciam de um membro de uma instituição religiosa do que de um pobre marinheiro, tarefa que costuma envilecer as almas. Viajando, certa vez, à Ilha Espanhola (hoje República Dominicana), Gonçalo sofreu um naufrágio de que foi um dos poucos sobreviventes. Conseguiu, depois de muitos trabalhos, chegar a um convento de Mercedários: é então que sentem os mais fortes apelos para que entre na vida religiosa. Porém, Gonçalo resiste e parte, de novo, como marinheiro. Mas, as dificuldades continuaram: ora a doença, ora outros contratempos contrariam-lhe a decisão pelo trabalho no mar. Sentia que era Deus a chamá-lo. Muito devoto de Nossa Senhora das Mercês desde que, depois do naufrágio, fôra acolhido num Convento Mercedário, da Ilha Espanhola, acabou por pedir para entrar no Convento de Callao, o grande porto de mar de Lima, a Cidade dos Reis. Gonçalo já passava dos 50 anos quando foi colocado no vizinho Convento de Lima. Foi aí que recebeu o hábito, no dia 16 de Outubro de 1603, entrando logo no Noviciado. Feita a profissão religiosa, no Convento Mercedário da Cidade dos Reis, a 18 de Outubro de 1604, foi enviado para dirigir a fazenda de que dependia o sustento do convento, que estava muito mal tratada. Gonçalo voltava, assim, aos seus princípios, ao cultivo da terra. Pouco depois, porém, voltaria para Lima. Entregaram- -lhe as chaves do Convento, o serviço de maior confiança que tem uma Comunidade. A partir deste momento, Gonçalo dedica-se a socorrer toda a espécie de pobres, atendendo, também, os envergonhados e os doentes. A sua espiritualidade, mariana de raiz, leva-o a uma maior veneração e entrega a Cristo crucificado. Volta, depois, ao Convento de Callao e dedica-se a pedir esmolas para o sustento da casa. Profundo conhecedor do meio - por meia vida passada no mar - dedica-se a cuidar dos mais pobres e abandonados do mundo activo e buliçoso do grande porto de mar. São-lhe atribuídos muitos milagres, neste seu contacto com a vida dos mais pobres: livra da morte uma criança por cima da qual passara um carro, que transportava uma grande viga; por sua intercessão, um campo de melões desfeito por uma tempestade, volta a reverdecer; intervém, com certa frequência, em situações de naufrágio iminente à entrada da barra do porto, e noutras dificuldades náuticas; o mesmo se passa com os diferendos conjugais; previa o futuro; possuía o dom da ubiquidade; penetrava mesmo em lugares fechados; multiplicava o pão sempre que ele faltava. Sarando o corpo, era no entanto com a alma que Gonçalo se preocupava. As Bulas de Cruzada - ao tempo muito aconselhadas pelos Papas, tendo em vista a remissão e libertação dos cativos - mereceram-lhe um especial cuidado. Entretanto, Gonçalo acumulou ainda o ministério de sacristão do convento, sabendo que esta seria a última estação da sua vida. Era ali que passava o pouco tempo em que não cirandava no bulício de Callao. E, na igreja, passava as noites em oração, ou dormindo no chão umas poucas horas. Cansado em idade, perfeitamente conhecedor de que era chegado o fim, Gonçalo Dias morreu em 24 de Janeiro de 1618, com fama de santo. O seu culto rapidamente se espalhou por todo o Peru e nalguns lugares de Espanha, onde os Mercedários tinham os seus Conventos. Ainda hoje, a devoção ao Beato Gonçalo Dias de Amarante é visível na Igreja Paroquial de Folhada, Marco de Canaveses. A sua memória litúrgica faz-se, na Ordem do Mercedários, no dia 27 de Janeiro.