Não se pense, contudo, que este gesto de suprema entrega é possível graças a um momentâneo arrebato de generosidade. A generosidade dos momentos grandes cultiva-se na fidelidade dos aparentemente pequenos pormenores da vida diária. S. Sebastião, urgido por graves ameaças, não teria sido capaz de se manter fiel se não tivesse cuidado, com heroísmo permanente, as exigências da sua adesão, não apenas a umas doutrinas, a um determinado estilo de vida, mas a uma pessoa: Jesus Cristo. Este é o segredo do heroísmo e da grandeza dos santos. Jesus Cristo deve ser, também para cada um de nós, o segredo para viver com fortaleza e coerência, em todo o tempo, em todas as situações, todas as exigências da nossa igual condição de discípulos do mesmo Mestre.
2. Na oração ao Pai, reproduzida no texto do Evangelho (17, 11b-19), Jesus Cristo anuncia as dificuldades pelas que passarão os seus discípulos. “O mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal”. A nossa decisiva contribuição ao bem da Sociedade radica na fidelidade à nossa condição de cristãos. Com o nosso legítimo modo de ser, com a especificidade da nossa condição de cristãos, que deve marcar toda a nossa vida, contribuiremos a abrir caminhos novos.
A nossa fidelidade a Jesus Cristo é balizada pelo testemunho nas simples ou complicadas situações da comum vida diária e pela disponibilidade para a coerência. Dar a cara por Deus, assumir com clareza e sem nos escondermos detrás de falsas desculpas a nossa condição de cristãos, em todas as circunstâncias, é o martírio que Jesus Cristo tem direito a esperar de todos nós.
Mesmo que o ambiente seja claramente contrário, mesmo que o nosso comportamento possa ser motivo de sorrisos e comentários, não podemos suspender a nossa condição de discípulos de Jesus Cristo. Por exemplo: na fidelidade conjugal; na generosa fecundidade matrimonial; na próxima, mas exigente, educação dos filhos; na decorosa apresentação pessoal; no cumprimento dos deveres laborais; nos compromissos de justiça, acrescidos da generosidade da caridade; na utilização dos bens pessoais em benefício da criação de trabalho e de bem-estar social; na atenção aos mais carenciados. A lista de exemplos poderia alargar-se indefinidamente. Mas será aí, nessa generosa e heroica coerência, onde se joga a verdade da nossa vida cristã, onde se exercita a disposição para o verdadeiro martírio e, por isso, a proximidade aos santos, a fidelidade a Jesus Cristo.
3. Foi assim, por esta via, que o cristianismo e os cristãos mudaram o rumo da História e contribuíram para a criação de uma Sociedade rejuvenescida, nova.
No meio das imensas dificuldades por que atravessamos, não sentimos, acaso, a necessidade de recriar a Sociedade?
Não podemos esperar que sejam apenas os outros a fazê-lo. Celebrar os santos não pode ser apenas o exercício de olhar para o passado e para as nossas pessoais necessidades imediatas. Celebrar os santos, celebrar S. Sebastião, é um convite a aprender do passado para viver responsavelmente o presente e construir solidamente o futuro. Temos que saber unir o exemplo dos que nos precederam, a força (a graça) de Deus e a nossa cooperação. Recordo umas palavras da 1ª leitura do Livro de Ben-Sirá (51, 1-12): “A minha alma estava já perto da morte e a minha vida aproximava-se das portas do abismo. Cercavam-me de todos os lados e ninguém me socorria; procurava qualquer ajuda dos homens, mas em vão. Lembrei-me então, Senhor, da vossa misericórdia (…), porque livrais aqueles que esperam em Vós”.
Contando com Deus, que nunca falta – “Não tenhais medo dos perseguidores nem vos perturbeis”, alerta S. Pedro na 2ª leitura (1Ped 3, 14-17) –, tem que ser cada um a desatar o nó do pessimismo, da falta de esperança, da Sociedade que parece correr para o abismo. A fé em Jesus Cristo, a vida de fé, não tem que ver apenas nem principalmente com a natural satisfação da ânsia do cumprimento da dimensão religiosa: tem que ver com a totalidade da nossa vida e, por isso, da nossa vida na Igreja, das nossas responsabilidades na Sociedade.
4. Sem complexos de superioridade nem de inferioridade, devemos estar sempre prontos, como exorta S. Pedro, a responder a quem quer que seja sobre a razão da nossa esperança.
S. Sebastião, no seu tempo, e todos os santos em todos os tempos tiveram motivos de sobra para desanimar, para desistir, para trocar as exigências da sua fé pela aparente certeza do imediato. Resistiram heroicamente a essa tentação, gastaram a vida, mantiveram-se fiéis a Jesus Cristo. A sua fidelidade foi e consolidou a vitória do Bem, da Verdade, da Esperança, dos projetos novos para uma Sociedade nova. É aí que Deus nos espera.
Que seja esse o nosso principal tributo à glória de quantos nos precederam e que amamos como irmãos na fé; que seja essa a nossa principal mostra de gratidão pelos benefícios recebidos; que a intercessão de S. Sebastião fortaleça a nossa vontade de sermos mais um elo nesta cadeia de fidelidade, que, pela graça de Deus, faz novas todas as coisas…”



