BEATO ROLANDO RIVI
Rolando Rivi nasceu no dia 7 de Janeiro de 1931, em
San Valentino, no município de Castellarano - Reggio Emilia, Itália. Era o segundo
de três filhos de Roberto Rivi e Albertina Canovi. No baptismo, administrado
pelo pároco Don Luigi Lemmi, recebeu o nome de Rolando Maria.
Os seus pais foram educados num ambiente profundamente
católico e testemunhavam uma fé simples, genuína e forte, abençoada pela avó
paterna, Ana Ferrari; na sua juventude tinham feito parte dos grupos de jovens
da paróquia; antes de irem trabalhar nos campos, todas as manhãs participavam na
celebração da Santa Missa e recebiam a Comunhão. Foi neste clima, marcado pela
fé e pela religião, que Rolando cresceu. De saúde robusta e de carácter
exuberante, pela vivacidade dos seus comportamentos, tornou-se, muitas vezes, motivo
de grande inquietação e ansiedade para os seus pais. Mas, a avó Ana, com a
paciência que a caracterizava, dizia: "O Rolando ou tornar-se-á um grande patife
ou um grande santo! Não pode ficar por meias medidas".Com seis anos de idade, em 1937, começou a frequentar a escola primária e, ao mesmo tempo, a catequese paroquial. Tanto a professora, Clotilde Selmi, como a catequista, Antoinette Maffei, encheram a alma jovem de Rolando de sentimentos de amor pela vida, pela família, por Jesus, pelos irmãos; completaram, assim, a educação que recebeu na sua casa e na sua família. Porque a sua vida de criança era um autêntico exemplo de amor a Jesus e aos outros, foi recomendado para receber a Eucaristia: era, de entre todas as crianças da paróquia, o que estava mais bem preparado e com mais expectativa. Rolando fez a sua Primeira Comunhão, no dia 16 Junho de 1938, festa do Corpo de Deus. Este acontecimento operou nele uma grande mudança: mantendo-se sempre muito animado, tornou-se mais maduro e responsável. A mudança foi mais forte e evidente depois de ter recebido a Confirmação, no dia 24 de Junho de 1940.
Enquanto isso, o seu pároco, Don Olinto Marzocchini - que em Março 1934 fora chamado para suceder ao P. Lemmi, que tinha falecido - tornou-se o seu mestre e o seu modelo de vida. Com as virtudes de um bom pai espiritual, Don Olinto encaminhou a alma jovem e inocente de Rolando para a descoberta de Cristo e da sua vontade.
Rolando confessava-se todas as semanas e, todas as manhãs, levantava-se muito cedo para ir ajudar à Missa e receber a Sagrada Comunhão. Com 11 anos de idade - quando já não era capaz de conter, por mais tempo, a voz de Jesus que o chamava, no íntimo do seu coração - disse aos pais e aos avós: "Quero ser padre, para salvar muitas almas…Vou ser missionário para dar a conhecer Jesus, lá longe, muito longe!..."
Os seus pais e a sua família não se opuseram. Rolando, terminada a escola primária, entrou, em Outubro de 1942, no Seminário de Marola, em Carpineti - Reggio Emilia para frequentar a escola secundária. Como era costume, naquela época, os seminaristas, entrados no Seminário, começavam logo a usar a batina. Rolando estava orgulhoso dela; vestia-a com dignidade e com amor. Sentia-a como um sinal da sua pertença a Cristo e à Igreja, e ele estava orgulhoso disso. O amor a Jesus, manifestado no respeito com que usava a batina, será a causa do seu fim prematuro: o seu martírio, aos 14 anos.
No Seminário, distinguiu-se imediatamente nos estudos; nos bons modos para com todos; na alegria com que falava de Jesus; no modo com fazia as suas orações, muitas vezes prolongadas, diante do sacrário; nos gestos de repartir com os colegas, comida, frutas, bolos, que muitas vezes lhe eram trazidos pelos seus pais, quando o vinham visitar. Amante da música, passou a fazer parte do coro; começou a tocar harmónio e oferecia-se para ajudar, como acólito, nas cerimónias litúrgicas mais solenes. Quando ia de férias, colaborava no cuidar da casa; ajudava os pais no trabalho do campo. Na paróquia, tocava o harmónio, acompanhando o coro da igreja, onde cantava o seu pai; organizava jogos para as outras crianças; participava, piedosamente, nas peregrinações marianas que Don Marzocchini promovia.
Entretanto, a guerra – a Segunda Guerra Mundial - atingiu o seu auge. Também a pacata vila de San Valentino foi atingida. Depois do dia 8 de Setembro de 1943, com a queda de Benito Mussolini, os nazis alemães ocuparam toda a península. Então, a oposição italiana congregou, especialmente nas províncias de Emilia-Romagna, todos os grupos minoritários das forças democráticas para o combate contra os alemães. Deste grupo de combatentes fizeram parte muitos católicos; mas, na sua maioria, era composto por comunistas, socialistas, partidários do Partido da Acção, unidos pelo ódio aos fascistas e, também, por sentimentos anti-católicos muito fortes.
A facção mais extrema - os comunistas - não lutava apenas contra os alemães mas, vendo no clero uma barreira perigosa ao seu projecto revolucionário, assumiu um anti-clericalismo violento que, com a evolução da guerra, se tornou mais radical e mais ameaçador.
Em Junho de 1944, quando Rolando acabou o 2º nível dos estudos, os alemães ocuparam o Seminário de Marola e seminaristas foram mandados para casa. Rolando retornou a San Valentino, levando os livros para continuar a estudar em casa e não perder o ano lectivo.
Apesar de não estar fisicamente no Seminário, continuou a sentir-se seminarista. A igreja e a Casa Paroquial foram os seus locais preferidos para ocupar o seu tempo: Missa diária com a Comunhão e a meditação; à tarde, visita a Jesus no Sacrário, a oração do Rosário a Nossa Senhora; tocava, com a alegria, o harmónio, na Igreja; tratava a todos com bondade e delicadeza; retomou o contacto com a comunidade e com os colegas; começou a preparar um grupinho de acólitos; à noite, em casa, colaborava com a avó na recitação do rosário. O pároco estava satisfeito com o seu trabalho e com seu fervor, que não lhe parecia menos dedicado do que no ambiente específico do seminário. Para além disso, Rolando Rivi não deixou de usar a batina: usava-a em casa, como no Seminário, na expectativa de, com a maior brevidade, poder voltar para o seminário.
Os pais, assustados com o que se passava na região - invasão de fascistas e de partidários dos alemães, acompanhada de roubos, saques e violência – insistiram com o seu filho para que não vestisse mais a batina preta, porque a situação era perigosa e de grande risco. Porém, Rolando respondeu: "Mas porquê? Que mal faço em usar a batina? Eu não quero tirá-la… Ando a estudar para ser padre e o hábito é um sinal de que eu sou de Jesus."
As coisas começaram a ficar mais difícil para os católicos de San Valentino. Certa noite, o próprio Don Olinto Marzocchini, pároco de San Valentino, foi atacado e barbaramente agredido. E, como já outros sacerdotes tinham sido mortos por guerrilheiros comunistas (só na província de Reggio Emilia foram contabilizados 15 sacerdotes mortos) Don Olinto foi transferido para um lugar mais seguro. Para o seu lugar, veio um jovem sacerdote, Don Alberto Camellini. Rolando sentiu-se muito confuso com tudo o que estava a acontecer, sobretudo com a falta do seu director espiritual. A maioria dos paroquianos ficou triste com a saída de Don Olinto e condenou a violência com que foi tratado. Com verdadeiro sentido de comunidade, acolheu o novo pároco e disponibilizou-se para colaborar com ele, com a sua habitual franqueza e o seu entusiasmo.
Naquela região, surgiram muitas discussões e desentendimentos por questões políticas. A muitos dos assuntos, em tempo de guerra, não era fácil responder. E, muitas vezes, o melhor era ficar em silêncio. Numa destas ocasiões, alguns atacaram, injustamente, a Igreja e a actividade dos sacerdotes. O jovem seminarista Rolando, que ouviu os comentários, defendeu, diante de todos, com ânimo e impulsividade, a Igreja e os seus sacerdotes. Apesar de adolescente, não teve medo, não lhe faltou coragem. Esta atitude, porém, fez nascer, nos anti-católicos, um mal-estar que originou ódios e sentimentos de vingança.
No dia 1 de Abril de 1945, Domingo de Páscoa, o Padre Marzocchini regressou à Paróquia e, ao seu lado, estava sempre o jovem padre Don Camellini, que se tornou o seu braço direito. Rolando participou em todas as celebrações da Semana Santa, tocando ‘Órgão’ e dirigindo o coro.
Mas, a guerra continuava. Sentia-se, no entanto, que caminhava para o fim. Rolando nunca deixou de ir à missa e de comungar. Depois da missa, com os livros debaixo do braço, no começo da primavera, ia até a um pequeno bosque, que ficava perto da Igreja, para poder estudar, com alguma tranquilidade.
No dia 10 de Abril, no início da manhã, Rolando chegou cedo à igreja, para a missa cantada em honra de São Vicente Ferrer. Tocou o órgão, acompanhando os cantores, incluindo seu pai; recebeu, como de costume, a comunhão e, no final da celebração, depois de ter combinado, com os cantores, o programa para a Missa do dia seguinte, voltou para casa. Enquanto os pais foram trabalhar nos campos, Rolando pegou nos livros e foi, como de costume, estudar no bosque, sempre vestido com a batina preta. Era a sua imagem de marca.
Ao meio-dia, os pais estavam à sua espera para o almoço. Como tardava em aparecer, começaram a ficar preocupados e foram procurá-lo no bosque das proximidades; encontraram os livros no chão e um bilhete onde estava escrito: “Não o procureis. Vai estar connosco, por alguns momentos” e assinado “partigiani”.
Os guerrilheiros comunistas tinham-no preso e levaram-no para a sua 'base'. O seu pai e o Padre Camellini, aflitos, começaram a procurá-lo em todos os recantos do bosque. Entretanto, no esconderijo dos ‘partigiani’ Rolando foi despojado da sua batina negra, que muito os irritava, foi agredido nas pernas, com um chicote, e esbofeteado.
Esteve, três dias, prisioneiro dos “partigiani”, sofrendo ofensas e agressões. Perante aquele menino indefeso e a chorar de dores, alguém de entre eles, tocado pela piedade, propôs que o deixassem ir embora porque, na verdade, não passava de uma criança. Porém, os outros recusaram-se e condenaram-no à morte, para que “no futuro houvesse menos um padre”.
Levaram-no para uma floresta, perto de Piane Monchio - Modena. Cavaram uma cova e obrigaram Rolando a ajoelhar-se junto dela. Chorando, Rolando pediu para ser poupado. Não foi ouvido pelos seus algozes. Enquanto rezava por si e pelos seus entes queridos, o comandante do grupo disparou dois tiros de revólver: um no coração e outro na cabeça. O jovem seminarista caiu, fulminado, dentro da cova. O seu corpo martirizado foi coberto com alguns centímetros de terra e de folhas secas. Era Sexta-Feira, 13 de Abril de 1945. Rolando tinha apenas 14 anos e 3 meses: a sua batina de seminarista foi enrolada e chutada como uma bola de futebol por entre as risadas e o gozo daqueles assassinos. Quando se cansaram da brincadeira, atiraram-na para a varanda de uma casa próxima, onde ficou pendurada como um troféu.
Só no dia seguinte, por indicação de um dos guerrilheiros, o seu pai, Roberto, e o Padre Camellini encontraram o seu corpo. Lavaram o corpo; improvisaram um caixão e levaram-no para a igreja de Monchio, onde celebraram a Santa Missa. Depois, o corpo deste seminarista mártir foi sepultado no cemitério paroquial daquela aldeia, numa campa provisória.
Já muito tarde, o pai e o Padre voltaram à aldeia de San Valentino para dar a notícia da sua morte à mãe e à aldeia. Esta notícia trágica provocou grande revolta entre o povo, alarmado e chocado por tal brutalidade.
Terminada a guerra, no dia 29 de Maio de 1945, o corpo do jovem mártir foi trasladado para a sua aldeia natal; colocado num caixão branco, foi enterrado, por entre as lágrimas de toda a população, na localidade de Montadella.
Os seus pais escreveram no seu túmulo: "Tu, que foste esmagado pela escuridão e pelo ódio, vives na luz e na paz de Cristo."
Rolando Rivi foi, e é, uma das muitas estrelas que brilham no firmamento, cheio de mártires, do século XX, que - passando pela revolução Mexicana, pela Guerra Civil Espanhola, pela revolução e perseguição na Rússia, ou vítimas das duas Guerras Mundiais - testemunharam, com o seu sangue inocente, a fé em Cristo, seguindo-o no caminho do Calvário.
No dia 28 de Março de 2013, o Papa Francisco autorizou a ‘Congregação para as causas dos Santos’ a promulgar o decreto que reconhece o seu martírio.
Rolando Rivi, o jovem mártir de 14 anos, foi beatificado, no dia 5 de Outubro de 2013, diante de milhares de pessoas, no Palácio dos Desportos de Modena, Itália.
A sua memória litúrgica faz-se no dia 13 de Abril.
