PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


-na Solenidade do Corpo de Deus: Quinta-Feira, 4 de Junho, Roma

Ouvimos, no evangelho: Na [última] Ceia, Jesus dá o seu Corpo e o seu Sangue através do pão e do vinho, para nos deixar o memorial do seu sacrifício de amor infinito. E, com este "viático" (alimento para o caminho-NR) cheio de graça, os discípulos têm tudo o que é necessário para sua longa jornada através da história, para levar a todos o reino de Deus. Luz e força será para eles o dom que Jesus fez de si mesmo, imolando-se voluntariamente na cruz. E este Pão da Vida chegou até nós! Não acaba nunca a admiração da Igreja diante desta realidade. Uma admiração que alimenta sempre a contemplação, a adoração e a memória. Demonstra-o um texto, muito belo, da liturgia de hoje - o Responsório da segunda leitura do Ofício de Leitura - que diz assim: “Reconhecei neste pão, Aquele que esteve pregado na Cruz; reconhecei neste cálice, o sangue que brotou do seu lado. Tomai e comei o corpo de Cristo; tomai e bebei o sangue de Cristo: agora, sois membros de Cristo. Para não vos desagregardes, comei o vínculo da vossa união; para não vos desprezardes, bebei o preço da vossa redenção. "
Há um perigo, uma ameaça: desagregarmo-nos, desprezarmo-nos. O que significa, hoje, este "desagregarmo-nos" e "desprezarmo-nos"?
Desagregamo-nos quando não somos dóceis à Palavra do Senhor; quando não vivemos a fraternidade entre nós; quando competimos para ocupar os primeiros lugares – os trepadores -; quando não encontramos coragem para testemunhar a caridade; quando não somos capazes de oferecer esperança. Assim, desagregamo-nos. A Eucaristia permite-nos não nos desagregarmos, por que é vínculo de comunhão; é cumprimento da Aliança, sinal vivo do amor de Cristo que se humilhou e se aniquilou para que permanecêssemos unidos. Participando na Eucaristia e alimentando-nos dela, somos inseridos num caminho que não admite divisões. O Cristo presente no meio de nós, no sinal do pão e do vinho, exige que a força do amor supere todas as feridas e ao mesmo tempo se torne, também, comunhão com o mais pobre, sustento para o frágil, atenção fraterna para com aqueles que fazem esforço para suportar o peso da vida quotidiana e estão em perigo de perder a fé.
E, em seguida, a outra palavra: o que significa para nós, hoje, "desprezarmo-nos", ou seja, adulterar a nossa dignidade cristã? Significa deixar-se corromper pelas idolatrias do nosso tempo: a aparência, o consumismo, o egocentrismo; mas, também, a competição, a arrogância como atitude vencedora, o nunca admitir ter-se enganado ou ter necessidade. Tudo isto nos avilta, e torna-nos cristãos medíocres, mornos, insípidos, pagãos.
Jesus derramou o seu sangue como preço e como purificação, para que fôssemos purificados de todos os pecados: para não nos aviltarmos, olhemos para Ele; bebamos da sua fonte, para sermos preservados do risco de corrupção. E, então, experimentaremos a graça de uma transformação: permaneceremos sempre pobres pecadores mas, o Sangue de Cristo nos livrará dos nossos pecados e restituir-nos-á a nossa dignidade. Libertar-nos-á da corrupção. Sem mérito nosso, com sincera humildade, poderemos levar aos seus irmãos o amor do nosso Senhor e Salvador. Seremos os seus olhos que vão à procura de Zaqueu e da Madalena; seremos a sua mão que socorre os doentes do corpo e do espírito; seremos o seu coração que ama os necessitados de reconciliação, de misericórdia e de compreensão.
Assim, a Eucaristia actualiza a Aliança que nos santifica, nos purifica e nos une em comunhão admirável com Deus. Assim, compreendemos que a Eucaristia não é um prémio para os bons, mas é a força para os fracos, para os pecadores. É o perdão; é o viático que nos ajuda a andar, a caminhar.
Hoje, Festa de Corpo de Deus, temos a alegria não só de celebrar este mistério, mas também de louvá-lo e cantá-lo nas ruas da nossa cidade. A procissão vamos fazer no final da missa, possa exprimir a nossa gratidão por todo o caminho que Deus nos fez percorrer através o deserto da nossa pobreza, para nos fazer sair da condição servil, alimentando-nos com o seu Amor, por meio do Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue.
Daqui a pouco, enquanto caminharmos ao longo do caminho, sintamo-nos em comunhão com todos os nossos irmãos e irmãs que não têm a liberdade de expressar a sua fé no Senhor Jesus. Sintamo-nos unido a eles; cantemos com eles; louvemos com eles; adoremos com eles. E veneremos no nosso coração aqueles irmãos e irmãs a quem foi pedido o sacrifício da vida por fidelidade a Cristo: o seu sangue, unido ao do Senhor, seja penhor de paz e de reconciliação para o mundo inteiro.
E não esqueçamos: "Para não vos desagregardes, comei o vínculo da vossa união; para não vos desprezardes, bebei o preço da vossa redenção. "