PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

terça-feira, 21 de julho de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- palavra dirigida aos jovens, na visita ao Paraguai, em Asunción, 12 de Julho de 2015

Queridos jovens!

Enche-me de alegria poder encontrar-me convosco, neste clima de festa: poder ouvir os vossos testemunhos e partilhar o vosso entusiasmo e o vosso amor a Jesus.
Obrigado, D. Ricardo Valenzuela, responsável da pastoral juvenil, pelas suas palavras! Obrigado, Manuel e Liz, pela coragem de partilhardes as vossas vidas, oferecendo o vosso testemunho neste encontro. Não é fácil falar das nossas coisas, e muito menos, ainda, diante de tantas pessoas. E vós partilhastes o vosso maior tesouro: as vossas vicissitudes, as vossas vidas e como Jesus, pouco a pouco, entrou nelas.
Para responder às vossas perguntas, gostaria de realçar algumas das coisas que partilhastes.
Manuel: falaste mais ou menos assim: «Hoje, sinto, muito profundamente, a vontade de servir os outros; tenho vontade de me vencer». Passaste por momentos muito difíceis; por situações muito dolorosas mas, hoje, tens grande desejo de servir, de sair, de partilhar a tua vida com os outros.
Liz: não é nada fácil ser mãe dos próprios pais, sobretudo quando se é jovem; mas que grande sabedoria e maturidade encerram as tuas palavras, quando nos dizias: «Hoje, jogo com ela, mudo-lhe as fraldas… Tudo isto, hoje, ofereço-o a Deus; e estou apenas a compensar o que a minha mãe fez por mim».
Vós, jovens paraguaios, sois corajosos de verdade.
Partilhastes, também, como conseguistes continuar; onde encontrastes forças. Na paróquia – dissestes ambos –, nos amigos da paróquia e nos retiros espirituais que lá se organizavam. Duas chaves muito importantes: os amigos e os retiros espirituais.
Os amigos. A amizade é um dos presentes maiores que uma pessoa, um jovem pode ter e pode oferecer. É verdade! Como é difícil viver sem amigos. Vede se esta não é uma das coisas mais belas que Jesus disse: «Chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai» (Jo 15, 15). Um dos maiores segredos do cristão radica-se no facto de ser amigo, amigo de Jesus. Quando uma pessoa ama alguém, permanece a seu lado, cuida dele, ajuda-o, diz-lhe o que pensa, mas sem o deixar caído por terra. Assim faz Jesus connosco: nunca nos deixa caídos por terra. Os amigos apoiam-se, fazem-se companhia, protegem-se. Assim procede o Senhor connosco. Serve-nos de apoio.
Os retiros espirituais. Santo Inácio tem uma meditação famosa, chamada “das duas bandeiras”. Nela, descreve, por um lado, a bandeira do demónio e, por outro, a bandeira de Cristo. Seria como as camisolas de duas equipas; e pergunta-nos em qual delas gostaríamos de jogar. Com aquela meditação, leva-nos a imaginar como seria pertencer a uma ou a outra equipa. Seria como perguntar: Com quem queres jogar na vida? E, Santo Inácio diz que o demónio, para recrutar jogadores, promete - àqueles que jogam com ele - riqueza, honras, glória e poder. Serão famosos. Serão endeusados por todos.
No outro lado, apresenta-nos o jogo de Jesus. Não como algo fantástico. Jesus não nos apresenta uma vida de “estrelas”, famosos; pelo contrário, jogar com Ele é um convite à humildade, ao amor, ao serviço aos outros. Jesus não nos mente. Toma-nos a sério.
Na Bíblia, o demónio é chamado o pai da mentira. Ele prometia ou, melhor, fazia-te crer que, se fizesses certas coisas, serias feliz; mas depois dás-te conta de que não és nada feliz; foste atrás de algo que, longe de te dar a felicidade, fez-te sentir mais vazio, mais triste.
Amigos: o diabo, é um «vende fumaça». Promete-te, promete-te, mas não te dá nada; nunca cumpre nada do que diz. É um mau pagador. Faz-te desejar coisas que não dependem dele que tu as obtenhas ou não. Faz-te depositar a esperança em algo que nunca te fará feliz. Este é o seu jogo, esta é a sua estratégia: falar muito, oferecer muito e não fazer nada. É um grande «vende fumaça» porque tudo o que nos propõe é fruto da divisão, de nos compararmos com os outros, de pisar a cabeça aos outros para conseguirmos as nossas coisas. É um «vende fumaça» porque o único caminho para alcançar tudo isso é pôr de lado os teus amigos, não dar apoio a ninguém. Porque tudo se baseia na aparência. Faz-te crer que o teu valor depende de quanto possuis.
Do lado contrário, temos Jesus que nos oferece o seu jogo. Não nos vende fumaça; não nos promete, aparentemente, grandes coisas. Não nos diz que a felicidade está na riqueza, no poder, no orgulho. Antes pelo contrário, mostra-nos que o caminho é outro. Este “treinador” diz aos seus jogadores: bem-aventurados, felizes, os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que trabalham pela paz, os perseguidos por causa da justiça. E conclui dizendo: Alegrai-vos com tudo isto.
Por que motivo? Porque Jesus não nos mente. Mostra-nos um caminho que é vida, que é verdade. Ele mesmo é a grande prova disso. É o seu estilo, a sua maneira de viver a existência, a amizade, a relação com o seu Pai. E a isto nos convida: a sentirmo-nos filhos, filhos amados.
Jesus não te vende fumaça. Porque sabe que a felicidade verdadeira, a felicidade que enche o coração, não está nos trapos que vestimos, nos sapatos que calçamos, na etiqueta de determinada marca. Ele sabe que a verdadeira felicidade encontra-se em sermos sensíveis, em aprender a chorar com os que choram, em aproximarmo-nos de quem está triste, em deixar chorar sobre o próprio ombro, em dar um abraço. Quem não sabe chorar, não sabe rir e, consequentemente, não sabe viver. Jesus sabe que, neste mundo de tanta concorrência, inveja e agressividade, a verdadeira felicidade passa por aprender a ser pacientes, a respeitar os outros, a não condenar nem julgar ninguém. Quem se irrita já perdeu: diz o ditado. Não abandoneis o vosso coração à ira, ao rancor. Felizes os que têm misericórdia. Felizes os que sabem colocar-se no lugar de outro, os que têm a capacidade de abraçar, de perdoar. Todos já experimentámos isto alguma vez. Todos, em determinados momentos, sentimo-nos perdoados: como é bom! É como reaver a vida, ter uma nova oportunidade. Não há nada mais belo do que ter nova oportunidade. É como se a vida voltasse a começar. Por isso, felizes aqueles que são portadores de nova vida, de novas oportunidades. Felizes os que trabalham para isso; aqueles que lutam para isso. Erros, todos cometemos; as equivocações, não têm conta. Por isso, felizes aqueles que são capazes de ajudar os outros a sair dos seus erros, das suas equivocações. São verdadeiros amigos e não deixam ninguém caído por terra. Os puros de coração são aqueles que, conseguindo ver mais além da simples nódoa, superam as dificuldades. Felizes aqueles que se fixam especialmente na parte boa dos outros.
Liz: tu nomeaste Chikitunga *, uma Serva de Deus paraguaia. Disseste que era como tua irmã, tua amiga, teu modelo. Ela, como muitos outros, mostra-nos que o caminho das bem-aventuranças é um caminho de plenitude, um caminho possível, real; que enche o coração. Os Santos são nossos amigos e modelos que já deixaram de jogar neste campo, mas transformaram-se naqueles jogadores indispensáveis para quem sempre se olha a fim de darmos o melhor de nós mesmos. Eles são a prova de que Jesus não é um «vende fumaça», mas que a sua proposta é mesmo de plenitude. Acima de tudo, é uma proposta de amizade: amizade verdadeira, amizade de que todos precisamos. Amigos, segundo o estilo de Jesus. Não para ficarmos entre nós, mas para sairmos pelo campo; irmos fazer mais amigos. Para contagiar, com a amizade de Jesus, toda a gente, onde quer que esteja: no trabalho, no estudo, na noitada, por whastapp, no facebook ou no twitter; quando saem para dançar, ou estão a tomar um bom tereré [Tereré é uma bebida típica sul-americana feita com a infusão da erva-mate em água fria. De origem guarani, pode ser consumido com limão, hortelã, entre outros - NR]; na praça ou jogando uma partida no campo do bairro. É aí que estão os amigos de Jesus. Não vendendo fumaça, mas dando apoio; o apoio de saber que somos felizes, porque temos um Pai que está no Céu.  (cf. Radiovaticano)

* [Nota da redacção: Maria Felicia Guggiari, conhecida como Chiquitunga (Chikitunga), nasceu em Villarrica, Paraguai, no dia 12 de Janeiro de 1925 e faleceu no dia 28 de Abril de 1959, com 34 anos de idade. Foi religiosa da Ordem das Carmelitas Descalças. O processo da sua beatificação foi iniciado em 13 de Dezembro de 1997 e a presença do Papa no Paraguai foi uma ocasião para que os fiéis gritassem seu nome, mostrassem as graças recebidas por sua intercessão e pedissem que fosse beatificada. Em 2010, o Papa Bento XVI reconheceu as "virtudes heróicas" desta religiosa e, por isso, é chamada “serva de Deus”.]