PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

PALAVRA DO PAPA FRANCISCO


- na Audiência-Geral,  no dia 26 de Agosto de 2015, na Praça de São Pedro – Roma

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter reflectido sobre o modo como a família vive os tempos da festa e do trabalho, reflectiremos, agora, sobre o tempo da oração. O lamento mais frequente dos cristãos diz respeito ao tempo: “Deveria rezar mais…; queria fazê-lo mas, muitas vezes, falta-me tempo”. Ouvimos isto continuamente. A tristeza é sincera, certamente, porque o coração humano procura sempre a oração, mesmo sem o saber; e, se não a encontra, não tem paz. Mas para que a encontre, é preciso cultivar, no coração, um amor “quente” por Deus, um amor afectivo.
Podemos fazer-nos uma pergunta muito simples. É bom acreditar em Deus com todo o coração… esperar que nos ajude nas dificuldades… sentir-se no dever de Lhe agradecer. É tudo verdade!... Mas, também queremos bem ao Senhor? Pensar em Deus comove-nos, surpreende-nos, enche-nos de ternura?
Pensemos na formulação do grande mandamento que sustenta todos os outros: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5; cfr Mt 22, 37). A fórmula usa a linguagem intensiva do amor, dirigindo-o para Deus. Bem!...O espírito de oração habita, antes de mais, aqui. E se habita aqui, habita todo o tempo e não sai nunca. Conseguimos pensar em Deus como a carícia que nos dá vida, antes da qual não há nada? Uma carícia da qual nada, nem sequer a morte, nos pode separar? Ou então pensamos Nele apenas como o grande Ser, o Onipotente que fez todas as coisas, o Juiz que controla cada acção? É tudo verdade, naturalmente. Mas só quando Deus é o afecto de todos os nossos afectos, o significado destas palavras torna-se pleno. Então, sentimo-nos felizes e, também, um pouco confusos, porque Ele pensa em nós e, sobretudo, nos ama! Isto não é impressionante? Não é impressionante que Deus nos acaricie com amor de pai? É tão belo! Podia, simplesmente, fazer-se reconhecer como o Ser supremo; dar as suas ordens e esperar os resultados. Em vez disso, Deus fez e faz infinitamente mais do que isto. Acompanha-nos nos caminhos da vida, protege-nos, ama-nos.
Se o afecto por Deus não acende o fogo, o espírito da oração não aquece o tempo. Podemos, também, multiplicar as nossas palavras, “como fazem os pagãos”, diz Jesus; ou, também, exibir os nossos ritos, “como fazem os fariseus” (cfr Mt 6, 5.7). Um coração habitado pelo afecto por Deus faz tornar-se oração mesmo um pensamento sem palavras, ou uma invocação diante de uma imagem sagrada, ou um beijo atirado para a igreja. É bonito quando as mães ensinam os filhos pequenos a mandar um beijo a Jesus ou a Nossa Senhora. Quanta ternura há nisso! Naquele momento, o coração das crianças transforma-se em lugar de oração. E é um dom do Espírito Santo. Nunca nos esqueçamos de pedir este dom para cada um de nós! Porque o Espírito de Deus tem aquele seu modo especial de dizer nos nossos corações “Abbà” – “Pai”; Ele ensina-nos a dizer “Pai” exactamente como Jesus o dizia, um jeito que nunca poderemos encontrar sozinhos (cfr Gal 4, 6). É na família que se aprende a pedir e a apreciar este dom do Espírito. Se se aprende com a mesma espontaneidade com a qual se aprende a dizer “papa” e “mamã”, aprendeu-se para sempre. Quando isto acontece, o tempo de toda a vida familiar é envolvido no regaço do amor de Deus e procura, espontaneamente, o tempo da oração.
O tempo da família, sabemo-lo bem, é um tempo complicado e apertado, ocupado e preocupado. É sempre pouco, nunca chega, há tantas coisas para fazer. Quem tem uma família aprende, rapidamente, a resolver uma equação que nem sequer os grandes matemáticos sabem resolver: as vinte e quatro horas do dia parecem o dobro! Há mães e pais que poderiam vencer o prémio Nobel, por isso. De 24 horas fazem 48: não sei como o fazem, mas movem-se e fazem-no! Há tanto trabalho na família!
O espírito da oração confia o tempo a Deus; sai da obsessão de uma vida à qual falta sempre o tempo; reencontra a paz das coisas necessárias e descobre a alegria de dons inesperados. Bons exemplos disto são as duas irmãs, Marta e Maria, de quem fala o Evangelho que escutámos; elas aprendem de Deus a harmonia dos ritmos familiares: a beleza da festa, a serenidade do trabalho, o espírito da oração (cfr Lc 10, 38-42). A visita de Jesus, a quem queriam bem, era a sua festa. Um dia, porém, Marta compreendeu que o trabalho da hospitalidade, mesmo sendo importante, não é tudo; mas que escutar o Senhor, como fazia Maria, era realmente o essencial, a “melhor parte” do tempo. A oração brota da escuta de Jesus, da leitura do Evangelho. Não se esqueçam de ler, todos os dias, um trecho do Evangelho. A oração brota da familiaridade com a Palavra de Deus. Há esta intimidade na nossa família? Temos em casa o Evangelho? Abrimo-lo, algumas vezes, para o lermos juntos? Meditamo-lo rezando o Rosário? O Evangelho lido e meditado em família é como um bom pão que alimenta o coração de todos. E de manhã e à noite, e quando nos sentamos à mesa, aprendamos a dizer juntos uma oração, com muita simplicidade: é Jesus que vem a nós, como ia à família de Marta, de Maria e de Lázaro. Uma coisa que tenho muito presente no coração e que vi em muitos lugares: há crianças que não sabem fazer o sinal da cruz! Mas, tu, mãe, pai, ensina os teus filhos a rezar, a fazer o sinal da cruz: esta é uma tarefa bela das mães e dos pais!
Na oração da família, nos seus momentos fortes e nas suas circunstâncias difíceis, confiemo-nos uns aos outros, para que cada um de nós, em família, seja guardado pelo amor de Deus. (cf. Santa Sé)