PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

SANTOS POPULARES



SÃO JOÃO DE MACIAS

João de Arcas Sanchez, filho de Pedro de Arcas e Juana Sánchez, nasceu em Rivera del Fresno, diocese de Badajoz, na agreste Extremadura espanhola, no tempo do Rei Felipe II de Espanha e Primeiro de Portugal, e do Papa Gregório XIII. A sua família era pobre e modesta, mas rica em bens espirituais e dons da graça.

Ficou órfão aos quatro anos de idade e, juntamente com a irmã, foi criado por um tio. Assim que atingiu a idade da razão, começou a cuidar do rebanho da sua casa. Dedicado às coisas espirituais, desde pequenino ocupava o seu tempo a rezar e meditar. Contam que, certo dia, apareceu-lhe um menino, de extraordinária beleza, que lhe disse: “Eu sou João Evangelista. Deus confiou-te à minha guarda por causa da tua piedade. Não tenhas medo de nada”. O Evangelista disse-lhe, também, que um dia partiria para terras longínquas, onde seriam levantados templos e altares em sua memória. Como João Macias não sabia quem era São João Evangelista, este apareceu-lhe, novamente, alguns dias depois, e transportou-o ao Céu, dizendo que era a sua pátria. Depois disso continuou a aparecer-lhe com frequência e conversava com ele. Entretido com Deus e o seu santo, levava uma vida recolhida, virtuosa, calma e aprazível.
Ao completar 20 anos de idade, em 1619, levado por um impulso interior, João Macias foi para Jerez de la Frontera e depois para Sevilha, então a cidade comercial mais inquieta da Espanha, de onde partiam as grandes empresas para o Novo Mundo. Ali, entrou ao serviço de um mercador que fazia negócios nas Américas e, como primeira tarefa, acompanhou-o numa das suas viagens às Américas. Ao fim de 49 dias, o navio atracou, finalmente, no porto de Cartagena das Índias, ao norte da Colômbia. Ali, o mercador, sob o pretexto de que João Macias não era suficientemente instruído para o serviço de que necessitava, abandonou-o à sua própria sorte. O que fazer, então? Não tendo outra profissão a não ser a de pastor, pouco comum na América, João Macias ficou “ao Deus dará”. Levado, mais uma vez, por um impulso interior, decidiu ir para Lima, a capital do vice-reinado do Peru. Foram 900 léguas - percorridas a pé ou montado num burro - através das solidões, passando por privações incríveis, até chegar ao seu destino, depois de quatro meses e meio de viagem. Começou, então, a trabalhar nos campos dos arredores de Lima. Este seu trabalho durou dois anos. Entretanto tempo passava. João Macias estava para fazer 36 anos e ainda não tinha definido o rumo a dar à sua vida. Foi então que o Céu o inspirou a entrar na Ordem dominicana, como irmão leigo.
Na capital do vice-reinado do Peru, as vocações eram tantas que existiam dois conventos dominicanos - o de Santa Maria Madalena e o de Nossa Senhora do Rosário -, ambos com uma centena de frades. João Macias tornar-se-ia a glória do primeiro, enquanto no de Nossa Senhora do Rosário, São Martinho de Porres já brilhava pelos seus milagres.
No noviciado, João Macias foi um verdadeiro modelo de observância. Julgado digno de fazer a profissão solene, esta ocorreu no dia 23 de Janeiro de 1623. Foi, então, designado para a portaria do convento, apesar da sua inclinação natural para a vida contemplativa. Durante 20 anos, o cuidar da portaria foi o palco da sua ardente caridade. Começou a trilhar a via das mortificações e austeridades. Não concedia ao seu corpo senão o absolutamente necessário para não morrer. Disciplinava-se diariamente; passava em oração quase todas as noites. A sua cela era muito pobre: a sua cama era um estrado de madeira coberto com couro de boi; equipava-a, ainda, uma cadeira rústica e uma arca. O único adorno do seu aposento era uma tela representando Nossa Senhora de Belém.
A íntima união com Deus deste irmão leigo manifestava-se em factos extraordinários. Certa noite em que a comunidade rezava o ofício no coro, o convento foi sacudido por um violento terremoto. Os religiosos correram para o jardim do claustro, considerado como o lugar mais seguro. Frei João corria também quando uma voz, vinda do altar de Nossa Senhora do Rosário, chamou-o pelo nome: “Frei João, aonde vais?”. Respondeu ele: “Estou a fugir, como os demais, dos rigores do vosso divino Filho”. Então, Nossa Senhora, disse-lhe: “Regressa e fica tranquilo, pois Eu estou aqui”. Voltando para junto do altar, Frei João Macias pediu fervorosamente à Virgem que se compadecesse do povo cristão. Imediatamente cessou o tremor de terra.
Certa noite, um noviço, impressionado com o cadáver de Dom Pedro de Castilha, que havia sido enterrado naquela manhã, no convento, dirigiu-se à igreja para acender as velas para o Ofício nocturno. Quando chegou perto do altar, deparou-se com as sandálias de Frei João. Este encontrava-se elevado acima do solo, em êxtase. Não distinguindo, na obscuridade, do que se tratava, julgou ser o fantasma do defunto que lhe aparecia. Dando um grito, começou a correr, tropeçou e caiu. Os religiosos acudiram e encontraram-no estendido no solo com o hábito em chamas, devido à vela que levava. Nem toda essa confusão conseguiu tirar o santo do seu êxtase. O noviço ficou gravemente enfermo, sendo curado pelas orações de São João Macias.

Para poder socorrer o convento e os seus pobres, Frei João Macias servia-se de um expediente muito prático: enviava todos os dias às ruas de Lima um burrinho carregado com dois grandes cestos para recolher esmolas, sem condutor nem guia. O animal desempenhava exemplarmente este ofício, dirigindo-se aos lugares a que estava acostumado. Ao chegar à porta da mercearia ou a alguma casa particular onde deveria receber esmola, parava e não se movia até que alguém pusesse no cesto a esmola combinada. Desse modo, o burrinho atravessava toda a cidade. Como todos já o conheciam, enchiam os cestos com esmolas. Ninguém se atrevia a tirar nada, pois o animal sabia defender com mordidelas e coices as doações recebidas.
Todos os dias, às cinco da manhã, depois de tocar a alvorada, Frei João Macias levava para a cozinha os alimentos destinados à comida dos pobres. Quando faltava algo, saía esmolando até conseguir. Depois, por volta do meio-dia, começava a distribuir as refeições aos necessitados. Para os sacerdotes e pessoas gradas, caídas em pobreza, havia um refeitório reservado, onde o santo os servia ajoelhado. Aos pobres “envergonhados” (em geral pessoas de alta condição social que haviam caído na miséria) enviava, secretamente, a comida com alguma esmola. Não descuidava também dos enfermos, aos quais, além da comida, enviava remédios. A sua imensa caridade estendia-se às viúvas, aos órfãos e a outros desamparados.
Apesar da multidão crescente de pobres, e de o convento não ser rico para atender a tantas demandas, nunca faltava comida, pois esta era milagrosamente aumentada segundo as necessidades.
João Macias dividia a reza do Rosário em três partes: uma pelas almas do Purgatório, outra pelos religiosos do convento e a terceira pelos seus parentes.
O vice-rei, D. Pedro de Toledo y Leyva, Marquês de Mancera, consagrou, em 1643, os Reinos do Peru à Virgem do Rosário, escolhendo-A como Patrona e Protectora daquelas terras.
Embora sem nenhuma instrução, Frei João de Macias possuía a verdadeira sabedoria de Deus, sendo consultado pelas principais pessoas da cidade, inclusive pelo vice-rei.
Ao final da tarde do dia 17 de Setembro de 1645, depois de uma vida dedicada ao silêncio, à oração e à caridade para com todos, frei João Macias entregava a sua alma ao criador. Na sua cela os irmãos, vestidos de hábito branco e de capa negra, cantavam a Salvé Rainha e, enquanto se ouvia o verso “Advogada nossa esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, João Macias expirava confiante dessa misericórdia de Deus que havia pedido no momento da sua profissão e tinha procurado viver através da caridade e solidariedade para com todos.
João de Macias faleceu com 60 anos de idade.
Foi beatificado, em 1837, pelo Papa Gregório XVI e canonizado pelo Papa Paulo VI, no dia 28 de Setembro de 1975. A sua memória litúrgica celebra-se no dia 18 de Setembro.