A comunidade cristã é a casa daqueles que creem em Jesus como a fonte da fraternidade entre todos os homens. A Igreja caminha no meio dos povos, na história dos homens e das mulheres, dos pais e das mães, dos filhos e das filhas: esta é a história que conta para o Senhor. Os grandes acontecimentos das potências do mundo escrevem-se nos livros de história e, aí, permanecem. Mas a história dos afectos humanos escreve-se directamente no coração de Deus; e é a história que permanece para sempre. É este o lugar da vida e da fé. A família é o lugar da nossa iniciação - insubstituível, indelével - nesta história. Esta história de vida plena, que terminará na contemplação de Deus por toda a eternidade no Céu, começa na família! E é por isto que a família é muito importante.
O Filho de Deus aprendeu a história humana através desta via e percorreu-a até ao fim (cf. Heb 2, 18; 5, 8). É belo voltar a contemplar Jesus e os sinais desta relação! Ele nasceu numa família e, aí, "aprendeu o mundo": uma oficina, quatro casas, uma terreola de nada. No entanto, vivendo durante trinta anos esta experiência, Jesus assumiu a condição humana, acolhendo-a na sua comunhão com o Pai e na sua própria missão apostólica. Depois, quando deixou Nazaré e começou a vida pública, Jesus formou, à sua volta, uma comunidade, uma "assembleia", isto é, uma convocação de pessoas. Este é o significado da palavra "Igreja".
Nos Evangelhos, a assembleia de Jesus tem a forma de uma família e de uma família hospitaleira e não a forma de uma seita de exclusão, fechada: encontramos Pedro e João, mas, também, o faminto e o sedento, o estrangeiro e perseguido, a pecadora e o publicano, os fariseus e as multidões. E Jesus não cessa de acolher e de falar com todos, mesmo com aqueles de quem já não se espera encontrar Deus na sua vida. É uma grande lição para a Igreja! Os discípulos foram escolhidos para cuidar desta assembleia, desta família dos hóspedes de Deus.
Para que hoje seja viva esta realidade da assembleia de Jesus, é indispensável reavivar a aliança entre a família e a comunidade cristã. Podemos dizer que a família e a paróquia são os dois lugares onde se realiza aquela comunhão de amor que encontra a sua fonte última no próprio Deus. Uma Igreja realmente segundo o Evangelho só pode ter a forma de uma casa acolhedora, sempre com as portas abertas. As igrejas, as paróquias, as instituições com as portas fechadas não devem chamar-se igrejas; devem chamar-se museus!
Hoje, esta aliança é crucial. "Contra os ‘centros de poder’ ideológicos, políticos e financeiros, colocamos as nossas esperanças nestes centros de amor evangelizadores, ricos de calor humano, alicerçados na solidariedade e na participação" (Pont. Cons. para Família, Os ensinamento de J. M. Bergoglio - Papa Francisco sobre a Família e sobre a Vida 1999-2014, LEV 2014, 189), e também no perdão entre nós.
Reforçar os laços entre família e comunidade cristã é, hoje, indispensável e urgente. Claro, é preciso uma fé generosa para encontrar a inteligência e a coragem para renovar esta aliança. As famílias, por vezes, retraem-se dizendo que não estão à altura disso: "Padre: somos uma família pobre e um pouco “desengonçada” … "Não nos sentimos capazes"… "Já temos tantos problemas em casa "… "Faltam-nos forças"… Isto é verdade. Mas ninguém é digno; ninguém está à altura; ninguém tem as forças!... Sem a graça de Deus, não podemos fazer nada. Tudo nos é dado; dado gratuitamente! E o Senhor nunca entra numa nova família sem fazer algum milagre. Lembremo-nos do que Ele fez nas bodas de Caná! Sim!... O Senhor, se nos colocarmos nas suas mãos, faz-nos realizar milagres - mas os milagres de todos os dias! - quando o Senhor está ali, naquela família.
Naturalmente, também a comunidade cristã deve fazer a sua parte. Por exemplo, procurar superar atitudes demasiado directivas e demasiado funcionais; favorecer o diálogo interpessoal, a compreensão e a estima recíproca. As famílias tomem a iniciativa e sintam a responsabilidade de partilhar os seus dons, preciosos para a comunidade. Todos devemos estar conscientes de que a fé cristã se joga no campo aberto da vida, compartilhada com todos; a família e a paróquia devem realizar o milagre de uma vida mais comunitária para a sociedade inteira.
Em Caná, estava a Mãe de Jesus, a "Mãe do Bom Conselho". Escutemos as suas palavras: "Fazei o que Ele vos disser" (Jo 2,5). Queridas famílias, queridas comunidades paroquiais, deixemo-nos inspirar por esta Mãe; façamos tudo o que Jesus nos disser e encontrar-nos-emos diante do milagre: o milagre de cada dia! Obrigado… (cf. Santa Sé)
