PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

SANTOS POPULARES


SÃO BRUNO

Bruno nasceu por volta de 1030, em Colónia, na Alemanha. Quase nada se sabe acerca da sua família, nem sequer o seu apelido, mas alguns elementos conhecidos indicam que era uma família com uma certa posição social, na época e no meio.
A única notícia biográfica de S. Bruno - redigida na Cartuxa, na primeira metade do séc. XII - não é muito extensa. Diz, sucintamente, que «Mestre Bruno, alemão, originário da ilustre Cidade de Colónia, nasceu de pais não desconhecidos. Tendo recebido uma sólida formação nas letras profanas e sagradas, tornou-se Cónego e Reitor da Escola da Igreja de Reims que não cede o primeiro lugar a nenhuma nas Gálias. Mestre Bruno deixou o mundo e fundou o Eremitério da Cartuxa que governou durante seis anos. O Papa Urbano II, de quem outrora havia sido professor, chamou-o para a Cúria Romana como preceptor e conselheiro nas coisas eclesiásticas. Mas, como ele não suportava nem a agitação nem o género de vida da Cúria; como ele ardia de amor pela solidão e quietudes perdidas, deixou a Cúria. Renunciando ao Arcebispado de Reggio, para onde havia sido eleito sob ordem do Papa, Mestre Bruno retirou-se para a Calábria, para um eremitério chamado ‘A Torre’. Rodeado por um grande número de leigos e clérigos realizou o seu propósito de vida solitária em todo o tempo que viveu. Morreu e foi sepultado aí cerca de dez anos depois do seu retiro, na Chartreuse».
Os primeiros anos de Bruno parecem ter sido vividos em Colónia; depois mudou-se para Reims, em França. Fez os seus primeiros estudos em Colónia, possivelmente na Escola Capitular de S. Cuniberto, da qual, mais tarde, veio a ser Cónego Honorário.
Ainda jovem, Bruno chegou a Reims. As escolas de Reims, sobretudo a Escola Catedral, tinham muita fama havia já alguns séculos, atraindo a si estudantes de toda a Europa. Gerbert, que um dia seria o Papa Silvestre II, tinha sido seu Reitor, entre 979 e 990, iluminando-a com o seu verdadeiro génio. Quando Bruno chegou, as escolas de Reims estavam no seu apogeu.
Em 1049 - Bruno era ainda estudante - aconteceu algo que marcaria para sempre o seu carácter: o Papa Leão IX, no contexto da sua reforma eclesial, convocou um Concílio, em Reims, que teve início no dia 3 de Outubro, com a presença do Papa Leão IX. O Concílio e o Sumo Pontífice empreendem, sobretudo, uma acção contra a simonia (compra e venda das coisas sagradas), promoção escandalosa de bispos, abades e beneficiados que permitia também a intromissão de “leigos” nos lugares, bens e assuntos da Igreja. O Papa e o Concílio depuseram e excomungaram alguns deles.
Em tempo de estudo e formação, ao despertar para a vida de acção, Bruno foi confrontado com esta realidade eclesial, através do Concílio. Profundamente religioso e recto, penetrado do espírito nobre da Sagrada Escritura e dos grandes princípios da Fé, reflectindo a situação da Igreja e a necessidade de reforma, Bruno depressa sintonizou com os sentimentos do Concílio de Reims neste esforço. Ele próprio, um dia, entraria na “luta” a que a necessidade de reforma das estruturas daria ocasião.
Entretanto, Bruno passou longos anos em Reims: primeiramente como estudante; depois, como professor e Mestre da Escola Catedral e, depois, acumulando com a sua nomeação para membro do Cabido da Catedral e seu Chanceler.
Entretanto, a reputação de Bruno era excelente e, em 1056, substituindo Mestre Hérimann, foi nomeado Mestre da Escola de Reims. O agora Mestre Bruno teria, nesta altura, cerca de 28 anos de idade o que, a priori, faz sobressair as suas qualidades de estudante e de professor. Os testemunhos dos contemporâneos de Bruno atestam isso mesmo; Guibert de Nogent afirmou ter sido Bruno ‘um magnífico professor da Escola da Catedral de Reims’.
O Arcebispo Gervais, que o tinha escolhido e nomeado, morreu, em 1067, com fama de santidade. Sucedeu-lhe Manassés de Gournay, com o nome de Manassés I. Foi um Arcebispo que Reims não nunca poderá esquecer e que esteve profundamente relacionado com a evolução da vida e da vocação Bruno. Manassés só foi ordenado Bispo de Reims, em 1068 ou 1069, apesar do seu antecessor ter falecido já em 1067. A história do Arcebispo Manassés I de Reims não é simples. Tendo comprado a Sede de Reims, em cumplicidade com o Rei de França, Filipe I, começou por administrar a Diocese de forma tranquila, o que fazia esperar uma governação normal. Homem nobre, Manassés carecia, contudo, do equilíbrio necessário para proceder com rectidão. O Arcebispo era um ‘homem de armas’, que esquecia o seu estado clerical. A tradição consagrou uma frase que lhe é atribuída: “Reims seria um bom bispado se não se tivesse de cantar missa”.
É no contexto da Reforma Gregoriana que se inicia a grande luta com o Arcebispo Manassés. De um lado, vai estar o Papa Gregório VII, o seu Legado em França, Hugues de Die, e os Cónegos de Reims; do outro, vai estar o Arcebispo Manassés. Em 27 de Dezembro de 1080, o Papa Gregório VII depôs o Arcebispo Manassés que, segundo a tradição, se refugiou junto de Henrique IV, o excomungado Imperador da Alemanha. Entretanto, e findo o processo da deposição do Arcebispo Manassés, que trouxe nova paz à Igreja de Reims, foi dada ao Clero desta diocese a missão de eleger um novo Arcebispo. É no contexto da eleição do novo Arcebispo que as atenções se voltam para o discreto Mestre Bruno a quem, apesar da sua discrição e modéstia, os acontecimentos puseram em evidência. E, mesmo não tendo voltado a exercer os seus cargos de Mestre-Escola ou de Chanceler, caíram sobre ele os olhares de toda a Igreja de Reims. Mestre Bruno, contudo, recusou a nomeação. Começou, então, um novo período na vida de Bruno: decidiu romper com todos os laços do mundo e consagrar-se inteiramente a Deus, na solidão. A solidão não foi, para Bruno, um desterro, mas a plenitude da fé viva e da caridade. Numa data que não se pode indicar com grande precisão, mas que se situará entre 1081 e 1083, Bruno deixou Reims. Dirigiu-se, com dois companheiros, Pedro e Lamberto, para Troyes. Aí perto, em Molesmes, existia uma Abadia Beneditina, para a qual Bruno e seus companheiros se dirigiram. O seu Abade era Roberto de Molesmes.
Foi em terrenos cedidos por esta Abadia que Bruno e os seus companheiros se instalaram: um local denominado Séche-Fontaine, que ficava localizado na floresta de Fiel, a uns 40 Kms a sudeste de Troyes e a 8 Kms do Mosteiro de Molesmes. Aí viveram - segundo uma Carta de Molesmes, que relata o início da experiência de Séche-Fontaine - uma vida verdadeiramente eremítica. Esta seria, contudo, uma breve etapa no itinerário espiritual de Bruno.
Pouco tempo depois, Pedro e Lamberto escolheram ir viver para um mosteiro. Bruno partiu, então, para Grenoble. A data da sua chegada à Chartreuse (montanhas junto de Grenoble) está fixada com precisão: Junho de 1084, por ocasião da Festa de S. João Baptista; a biografia de S. Hugo, Bispo de Grenoble, escrita por Guigo I (+ 1136), contém a narração da entrada de Mestre Bruno e dos seus novos companheiros no vale de Chartreuse.
O local agora escolhido situa-se a 1175 metros de altitude, no fundo de um estreito vale, no coração do maciço da Chartreuse, uma região montanhosa e de difícil acesso, de rigorosos nevões de inverno. Em todas essas características e circunstâncias, Bruno vai encontrar francas vantagens. No fundo, Bruno procura a solidão, uma vida estritamente eremítica, e essas circunstâncias favorecem-na. O acesso ao local é feito por uma estreita garganta, entre desfiladeiros, que isola o vale. Verdadeiramente esta era a ‘porta’ da clausura.
A Cartuxa, com os seus eremitérios, vai ser construída ainda mais acima, a cerca de quatro quilómetros desta ‘porta’. Os novos eremitas vão, desde logo, ocupar-se da construção da Igreja e das celas, bem como pôr em prática uma observância concreta e muito rigorosa. A construção do primeiro Mosteiro iniciou-se no Verão de 1084. Esta construção resistiria até 1132, quando uma avalanche destruiu o Mosteiro, matando sete monges. Era, então, Prior do Mosteiro Guigo I que mandou construir outro Mosteiro, mais abaixo, cerca de uns dois quilómetros e num local menos propício a gelos e avalanches. As celas dos eremitas foram agrupadas ao redor de uma fonte que, ainda hoje, alimenta o actual Mosteiro da Cartuxa. As primeiras celas foram construídas com troncos de madeira, à maneira das cabanas dos pastores ou lenhadores. No primitivo Mosteiro apenas a Igreja foi construída em pedra. Foi consagrada pelo Bispo Hugo de Grenoble em 2 de Setembro de 1085 e dedicada à Santíssima Virgem e a São João Baptista. Mais tarde, as celas foram edificadas ao longo de um Claustro, muito semelhante ao dos Mosteiros Cenobitas, mas cujo papel, contudo, é diferente. A razão de ser desta distribuição tem a ver com a própria protecção do rigoroso clima. As celas, ligadas pelo dito Claustro, estão ligadas também pelo mesmo Claustro à Igreja do Mosteiro.
Os monges cartuxos recitam uma parte dos seus ofícios na solidão da cela e não se reúnem senão para Vésperas e Matinas. É, também, na cela que permanecem em oração, estudam, lêem e fazem os seus trabalhos manuais. As refeições são feitas, igualmente, de forma solitária, com a excepção do domingo e festas, em que são realizadas num refeitório comum. Nas circunstâncias que exigem uma liturgia mais solene, a oração é feita em comum. Os trabalhos necessários à subsistência da comunidade eram realizados por conversos (irmãos leigos) que se instalaram um pouco mais abaixo, mas ainda dentro da clausura.
No Ocidente cristão, esta forma de vida religiosa é uma total novidade. A sua inspiração alimenta-se especificamente nos Padres do Deserto, do Oriente. Um dos primeiros dados que sobressai quando se olha para este género de vida é que ele não tem nada em comum com o tipo de vida eremítica de um mosteiro cenobítico. Bruno desejava uma vida eremítica pura, em estrita solidão, ainda que temperada com alguma vida comunitária. A especificidade desta experiência monástica faz com que a vida comunitária não seja habitual.
Depois de algum tempo ao serviço do Papa Urbano II, em Roma, Bruno retirou-se para o Sul de Itália, para a região de Calábria. O lugar onde se instalou chamava-se ‘Santa Maria da Torre’ e era um enorme “deserto”, situado a 850 metros de altitude, um planalto não habitado, rodeado de colinas e florestas que, em certa medida, fazia lembrar a Chartreuse.
Bruno faleceu, com fama de sanato, no dia 6 de Outubro de 1101, com pouco mais de 70 anos, após ter pronunciado a sua “Profissão de Fé”: "Eu creio nos Santos Sacramentos da Igreja Católica, em particular, creio que o pão e o vinho consagrados, na Santa Missa, são o Corpo e o Sangue, verdadeiros, de Jesus Cristo". A população da Calábria tinha tão grande respeito e veneração por Bruno que os Monges tiveram de deixar, durante três dias, o seu corpo em exposição, para sentida homenagem que o povo lhe queria prestar.
Em 1514, o Papa Leão X autorizou que os monges cartuxos celebrassem o culto de São Bruno. Em 1623, o Papa Gregório XV estendeu o culto de São Bruno a toda a Igreja. A sua memória litúrgica faz-se no dia 6 de Outubro.