- na Audiência-Geral, no dia
11 de Novembro, na Praça de São Pedro – Roma.
Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje reflectiremos sobre uma qualidade característica da vida
familiar que se aprende desde os primeiros anos de vida: a convivência, isto é,
a atitude que leva a partilhar os bens da vida e a sentir-se feliz por poder
fazê-lo. Partilhar - saber partilhar - é uma virtude preciosa! O seu símbolo, o
seu «ícone», é a família reunida ao redor da sua mesa. A partilha da refeição –
e muito mais do que a partilha do alimento, mas também dos afectos, das
conversas, dos acontecimentos... - é uma experiência fundamental. Quando há uma
festa, um aniversário, todos se reúnem à volta da mesa. Em algumas culturas é costume
fazê-lo inclusive no luto, para se estar próximo de quem sofre pela perda de um
familiar. A convivência é um termómetro seguro para medir a saúde das
relações: se na família há algum problema, ou alguma ferida escondida, à mesa
compreende-se imediatamente. Uma família que raramente come junta, ou na qual à
mesa não se fala mas se vê televisão ou o smartphone, é uma família
«pouco família». Quando os filhos, à mesa, estão ligados ao computador, ao telemóvel,
e não se escutam entre si, isto não é família, é uma pensão. Todos sabem que o Cristianismo tem uma especial vocação para a
convivência. O Senhor Jesus ensinava, de bom grado, à mesa, e, às vezes,
representava o reino de Deus como um banquete festivo. Jesus escolheu a mesa
também para confiar aos discípulos o seu testamento espiritual - fê-lo numa ceia
- condensado no gesto memorial do seu Sacrifício: dom do seu Corpo e do seu
Sangue como Alimento e Bebida de salvação, que nutrem o amor verdadeiro e
duradouro. Nesta perspectiva, podemos dizer que, na Missa, a família está «em
casa», precisamente porque leva para a Eucaristia a própria experiência de convivência
familiar e a abre à graça de uma convivência universal, do amor de Deus pelo
mundo. Participando na Eucaristia, a família é purificada da tentação de se
fechar em si mesma, fortalecida no amor e na fidelidade, e alarga a fronteira
da fraternidade, segundo o coração de Cristo.Neste nosso tempo, marcado por tantos fechamentos e por demasiados muros, a convivência, gerada pela família e dilatada pela Eucaristia, torna-se uma oportunidade crucial. A Eucaristia e as famílias, por ela nutridas, podem vencer os isolamentos e construir pontes de acolhimento e de caridade. Sim, a Eucaristia de uma Igreja de famílias, capazes de restituir à comunidade o fermento activo da convivência e da hospitalidade recíproca, é uma escola de inclusão humana que não teme os confrontos! Não há pequenos, órfãos, débeis, indefesos, feridos e desiludidos, desesperados e abandonados que a convivência eucarística das famílias não possa nutrir, fortalecer, proteger e acolher. A memória das virtudes familiares ajuda-nos a compreender. Nós mesmos tivemos conhecimento, e ainda conhecemos, quantos milagres podem acontecer quando uma mãe, para além de tomar conta dos seus filhos, toma conta e dá atenção, assistência e cuidado aos filhos dos outros. Até há pouco tempo, bastava uma mãe para tomar conta de todas as crianças do pátio! E ainda: sabemos bem a força que tem um povoado cujos pais estão prontos a acorrer para proteger os filhos uns dos outros, porque consideram os filhos um bem indivisível; e sentem-se felizes e orgulhosos de os proteger. Hoje, muitos contextos sociais põem obstáculos à convivência familiar. É verdade!... Hoje não é fácil. Devemos encontrar o modo de a recuperar. À mesa fala-se; à mesa ouve-se. Nada de silêncio; nada daquele silêncio que não é o silêncio das monjas, mas o silêncio do egoísmo, onde cada um faz o que quer, ou vê a televisão ou brinca com o computador... E não se fala!... Não!... Nada de silêncio. É preciso recuperar a convivência familiar, adaptando-a aos tempos. A convivência parece que se tornou algo que se compra e se vende; mas assim é outra coisa. E a comida nem sempre é o símbolo de uma partilha justa dos bens, capaz de chegar àqueles que não têm pão nem afectos. Nos países ricos, somos induzidos a gastar numa alimentação excessiva e, depois, somos, de novo, induzidos a remediar o excesso. E este «negócio» insensato desvia a nossa atenção da fome verdadeira, do corpo e da alma. Quando não há convivência há egoísmo e cada um pensa em si mesmo. E isto é tão verdade que a publicidade a reduziu a uma languidez de merendinhas e a um desejo de docinhos. Enquanto isto, há tantos, demasiados, irmãos e irmãs que permanecem longe da mesa. Isto é vergonhoso!
Olhemos para o mistério do Banquete eucarístico. O Senhor parte o seu Corpo e derrama o seu Sangue por todos. Em verdade, não há divisão que possa resistir a este Sacrifício de comunhão; só a atitude de falsidade, de cumplicidade com o mal pode excluir-nos dele. Qualquer outro afastamento não pode resistir ao poder indefeso deste pão partido e deste vinho derramado, Sacramento do único Corpo do Senhor. A aliança viva e vital das famílias cristãs - que precede, apoia e abraça, no dinamismo da sua hospitalidade, as dificuldades e as alegrias diárias - coopera com a graça da Eucaristia, que é capaz de criar comunhão sempre nova com a sua força que inclui e salva. A família cristã mostrará, precisamente assim, a amplidão do seu verdadeiro horizonte, que é o horizonte da Igreja-Mãe de todos os homens, de todos os abandonados e excluídos, em todos os povos. Rezemos para que esta convivência familiar possa crescer e amadurecer no tempo de graça do próximo Jubileu da Misericórdia. (cf. Santa Sé)
