Neste nosso tempo, marcado por tantos fechamentos e por demasiados muros, a convivência, gerada pela família e dilatada pela Eucaristia, torna-se uma oportunidade crucial. A Eucaristia e as famílias, por ela nutridas, podem vencer os isolamentos e construir pontes de acolhimento e de caridade. Sim, a Eucaristia de uma Igreja de famílias, capazes de restituir à comunidade o fermento activo da convivência e da hospitalidade recíproca, é uma escola de inclusão humana que não teme os confrontos! Não há pequenos, órfãos, débeis, indefesos, feridos e desiludidos, desesperados e abandonados que a convivência eucarística das famílias não possa nutrir, fortalecer, proteger e acolher. A memória das virtudes familiares ajuda-nos a compreender. Nós mesmos tivemos conhecimento, e ainda conhecemos, quantos milagres podem acontecer quando uma mãe, para além de tomar conta dos seus filhos, toma conta e dá atenção, assistência e cuidado aos filhos dos outros. Até há pouco tempo, bastava uma mãe para tomar conta de todas as crianças do pátio! E ainda: sabemos bem a força que tem um povoado cujos pais estão prontos a acorrer para proteger os filhos uns dos outros, porque consideram os filhos um bem indivisível; e sentem-se felizes e orgulhosos de os proteger. Hoje, muitos contextos sociais põem obstáculos à convivência familiar. É verdade!... Hoje não é fácil. Devemos encontrar o modo de a recuperar. À mesa fala-se; à mesa ouve-se. Nada de silêncio; nada daquele silêncio que não é o silêncio das monjas, mas o silêncio do egoísmo, onde cada um faz o que quer, ou vê a televisão ou brinca com o computador... E não se fala!... Não!... Nada de silêncio. É preciso recuperar a convivência familiar, adaptando-a aos tempos. A convivência parece que se tornou algo que se compra e se vende; mas assim é outra coisa. E a comida nem sempre é o símbolo de uma partilha justa dos bens, capaz de chegar àqueles que não têm pão nem afectos. Nos países ricos, somos induzidos a gastar numa alimentação excessiva e, depois, somos, de novo, induzidos a remediar o excesso. E este «negócio» insensato desvia a nossa atenção da fome verdadeira, do corpo e da alma. Quando não há convivência há egoísmo e cada um pensa em si mesmo. E isto é tão verdade que a publicidade a reduziu a uma languidez de merendinhas e a um desejo de docinhos. Enquanto isto, há tantos, demasiados, irmãos e irmãs que permanecem longe da mesa. Isto é vergonhoso!
Olhemos para o mistério do Banquete eucarístico. O Senhor parte o seu Corpo e derrama o seu Sangue por todos. Em verdade, não há divisão que possa resistir a este Sacrifício de comunhão; só a atitude de falsidade, de cumplicidade com o mal pode excluir-nos dele. Qualquer outro afastamento não pode resistir ao poder indefeso deste pão partido e deste vinho derramado, Sacramento do único Corpo do Senhor. A aliança viva e vital das famílias cristãs - que precede, apoia e abraça, no dinamismo da sua hospitalidade, as dificuldades e as alegrias diárias - coopera com a graça da Eucaristia, que é capaz de criar comunhão sempre nova com a sua força que inclui e salva. A família cristã mostrará, precisamente assim, a amplidão do seu verdadeiro horizonte, que é o horizonte da Igreja-Mãe de todos os homens, de todos os abandonados e excluídos, em todos os povos. Rezemos para que esta convivência familiar possa crescer e amadurecer no tempo de graça do próximo Jubileu da Misericórdia. (cf. Santa Sé)
