PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… O Senhor ressuscitou, verdadeiramente!…” (cf. Antífona do Domingo de Páscoa) Hoje ecoa em todo o mundo o anúncio da Igreja: «Jesus Cristo ressuscitou»; «ressuscitou verdadeiramente»! Como uma nova chama, se acendeu esta Boa Nova na noite: a noite dum mundo já a braços com desafios epocais e agora oprimido pela pandemia, que coloca à dura prova a nossa grande família humana. Nesta noite, ressoou a voz da Igreja: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» (Sequência da Páscoa). É um «contágio» diferente, que se transmite de coração a coração, porque todo o coração humano aguarda esta Boa Nova. É o contágio da esperança: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» Não se trata duma fórmula mágica, que faça desvanecerem-se os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isso. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não «salta» por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus. O Ressuscitado é o Crucificado; e não outra pessoa. Indeléveis no seu corpo glorioso, traz as chagas: feridas que se tornaram frestas de esperança. Para Ele, voltamos o nosso olhar para que sare as feridas da humanidade atribulada. Hoje penso sobretudo em quantos foram atingidos diretamente pelo coronavírus: os doentes, os que morreram e os familiares que choram a partida dos seus queridos e por vezes sem conseguir sequer dizer-lhes o último adeus. O Senhor da vida acolha junto de Si no seu Reino os falecidos e dê conforto e esperança a quem ainda está na prova, especialmente aos idosos e às pessoas sem ninguém. Não deixe faltar a sua consolação e os auxílios necessários a quem se encontra em condições de particular vulnerabilidade, como aqueles que trabalham nas casas de cura ou vivem nos quartéis e nas prisões. Para muitos, é uma Páscoa de solidão, vivida entre lutos e tantos incómodos que a pandemia está a causar, desde os sofrimentos físicos até aos problemas económicos. Esta epidemia não nos privou apenas dos afetos, mas também da possibilidade de recorrer pessoalmente à consolação que brota dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Reconciliação. Em muitos países, não foi possível aceder a eles, mas o Senhor não nos deixou sozinhos! Permanecendo unidos na oração, temos a certeza de que Ele colocou sobre nós a sua mão (cf. Sal 139/138, 5), repetindo a cada um com veemência: Não tenhas medo! «Ressuscitei e estou contigo para sempre» (cf. Missal Romano). Jesus, nossa Páscoa, dê força e esperança aos médicos e enfermeiros, que por todo o lado oferecem um testemunho de solicitude e amor ao próximo até ao extremo das forças e, por vezes, até ao sacrifício da própria saúde. Para eles, bem como para quantos trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais necessários à convivência civil, para as forças da ordem e os militares que em muitos países contribuíram para aliviar as dificuldades e tribulações da população, vai a nossa saudação afetuosa juntamente com a nossa gratidão. Nestas semanas, alterou-se improvisamente a vida de milhões de pessoas. Para muitos, ficar em casa foi uma ocasião para refletir, parar os ritmos frenéticos da vida, permanecer com os próprios familiares e desfrutar da sua companhia. Mas, para muitos outros, é também um momento de preocupação pelo futuro que se apresenta incerto, pelo emprego que se corre o risco de perder e pelas outras consequências que acarreta a atual crise. Encorajo todas as pessoas que detêm responsabilidades políticas a trabalhar ativamente em prol do bem comum dos cidadãos, fornecendo os meios e instrumentos necessários para permitir a todos que levem uma vida digna e favorecer – logo que as circunstâncias o permitam – a retoma das atividades diárias habituais. Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia. Jesus ressuscitado dê esperança a todos os pobres, a quantos vivem nas periferias, aos refugiados e aos sem abrigo. Não sejam deixados sozinhos estes irmãos e irmãs mais frágeis, que povoam as cidades e as periferias de todas as partes do mundo. Não lhes deixemos faltar os bens de primeira necessidade, mais difíceis de encontrar agora que muitas atividades estão encerradas, bem como os medicamentos e sobretudo a possibilidade duma assistência sanitária adequada. Em consideração das presentes circunstâncias, sejam abrandadas também as sanções internacionais que impedem os países visados de proporcionar apoio adequado aos seus cidadãos e seja permitido a todos os Estados acudir às maiores necessidades do momento atual, reduzindo – se não mesmo perdoando – a dívida que pesa sobre os orçamentos dos mais pobres. Este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas. Dentre as muitas áreas do mundo afetadas pelo coronavírus, penso de modo especial na Europa. Depois da II Guerra Mundial, este Continente pôde ressurgir graças a um espírito concreto de solidariedade, que lhe permitiu superar as rivalidades do passado. É muito urgente, sobretudo nas circunstâncias presentes, que tais rivalidades não retomem vigor; antes, pelo contrário, todos se reconheçam como parte duma única família e se apoiem mutuamente. Hoje, à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o futuro dela, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar à dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações. Este não é tempo para divisões. Cristo, nossa paz, ilumine a quantos têm responsabilidades nos conflitos, para que tenham a coragem de aderir ao apelo a um cessar-fogo global e imediato em todos os cantos do mundo. Este não é tempo para continuar a fabricar e comercializar armas, gastando somas enormes que deveriam ser usadas para cuidar das pessoas e salvar vidas. Ao contrário, seja o tempo em que finalmente se ponha termo à longa guerra que ensanguentou a amada Síria, ao conflito no Iémen e às tensões no Iraque, bem como no Líbano. Seja este o tempo em que israelitas e palestinianos retomem o diálogo para encontrar uma solução estável e duradoura que permita a ambos os povos viverem em paz. Cessem os sofrimentos da população que vive nas regiões orientais da Ucrânia. Ponha-se termo aos ataques terroristas perpetrados contra tantas pessoas inocentes em vários países da África. Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas. Que o Senhor da vida Se mostre próximo das populações da Ásia e da África que estão a atravessar graves crises humanitárias, como na Região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Acalente o coração das inúmeras pessoas refugiadas e deslocadas por causa de guerras, seca e carestia. Proteja os inúmeros migrantes e refugiados, muitos deles crianças, que vivem em condições insuportáveis, especialmente na Líbia e na fronteira entre a Grécia e a Turquia. E não quero esquecer a ilha de Lesbos. Faça com que na Venezuela se chegue a soluções concretas e imediatas, destinadas a permitir a ajuda internacional à população que sofre por causa da grave conjuntura política, socioeconómica e sanitária. Queridos irmãos e irmãs, Verdadeiramente palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo. Mais, queremos bani-las de todos os tempos! Aquelas parecem prevalecer quando em nós vencem o medo e a morte, isto é, quando não deixamos o Senhor Jesus vencer no nosso coração e na nossa vida. Ele, que já derrotou a morte abrindo-nos a senda da salvação eterna, dissipe as trevas da nossa pobre humanidade e introduza-nos no seu dia glorioso, que não conhece ocaso. Com estas reflexões, gostaria de vos desejar a todos uma Páscoa feliz. (Mensagem do Papa Francisco na Bênção Urbi et Orbe, no Domingo de Páscoa de 2020).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

EM DESTAQUE


- CARTA PASTORAL

  DO SR. BISPO DO PORTO E SEUS AUXILIARES

 Felizes os misericordiosos 
           
1. Misericórdia

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”, recorda-nos o Papa Francisco nas palavras que abrem a Bula em que nos anuncia o Ano da Misericórdia (RM 1).
Somos, assim, convidados a um renovado encontro pessoal com Deus em Jesus Cristo, no âmbito de uma Comunidade. O Ano da Misericórdia é, por isso, muito mais que um elenco imaginativo de gestos evocativos de misericórdia e de perdão. Esses gestos terão sentido se estiverem ao serviço daquilo a que o Santo Padre chama contemplação do mistério da misericórdia. Caso contrário, estaríamos a entreter-nos com atividades de cariz religioso para cumprir mais um ano.
A contemplação da misericórdia – em última instância, da misericórdia divina – oferece-nos, a todos, o conforto de estarmos a coberto do seu manto protetor. Mas implica-nos, também – também a todos – no exercício da misericórdia: sempre e em todas as circunstâncias. Nada de novo, por outra parte, se levarmos a sério a oração que, a pedido dos discípulos, a nosso pedido, Jesus Cristo pôs nos nossos lábios: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Lc 11, 4; Mt 6, 12). A misericórdia não é, pois, uma realidade de um único sentido. Envolve-nos a todos: como destinatários e como atores. O Ano da Misericórdia não está ao serviço de uma sociedade de direitos, mas de direitos e de deveres.
É neste espírito jubilar do Ano da Misericórdia proposto pelo Papa Francisco que queremos e devemos concretizar o lema, cumprir os objectivos e realizar o que programamos no Plano Diocesano de Pastoral, que tem por tema: “A Alegria do Evangelho é a nossa missão: Felizes os misericordiosos!”
A matriz programática em que se alicerça e a pedagogia pastoral que desenvolve o nosso Plano Diocesano de Pastoral têm como desígnio de missão a comunhão diocesana vivida como caminho sinodal, que é o caminho do futuro da Igreja, como recentemente lembrava o Papa Francisco aos Bispos, reunidos no Sínodo sobre a Família (Discurso ao Sínodo dos Bispos, 17 .10.2015).

2. Lugares da misericórdia

Além da Catedral, Igreja-Mãe da Diocese, são indicadas em anexo as igrejas jubilares em toda a geografia diocesana. São lugares por excelência para o exercício evangelizador e cultual da misericórdia. Aí terão lugar, com prioridade mas sem caráter exclusivo, as principais ações sugeridas na bula O rosto da misericórdia.
As igrejas escolhidas são já (ou estão chamadas a ser) locais de convergência das populações locais na busca de serviços eclesiais. A sua potenciação, desejavelmente, poderá ter um efeito agregador dos projectos das respectivas vigararias e dos dinamismos pastorais da diocese. Um Ano Santo não se esgota na roda de 12 meses, mas deve deixar sementes que germinem, floresçam e frutifiquem nas estações seguintes.
A peregrinação (RM 14), a visita à igreja jubilar, está primariamente associada à indulgência, assumidos e vividos os compromissos previstos pela Igreja para estas circunstâncias. “O jubileu, recorda o Santo Padre, inclui também o referimento à indulgência. Esta, no Ano Santo da Misericórdia, adquire uma relevância particular. O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece limites. (…) No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado” (RM 22).
O acesso à misericórdia, em cada igreja jubilar, é simbolizado pelo ingresso pela porta santa (RM 14). Aberta em Roma no dia 08 de dezembro (RM 4), será também aberta no domingo seguinte, dia 13, em cada Igreja diocesana. Iniciaremos a celebração, na nossa Diocese, às 15,30 horas, na Igreja de S. Lourenço, no Seminário Maior da Sé, que será a igreja estacional, donde partiremos rumo à porta santa da Catedral. A participação nesta celebração será manifestação da unidade da Igreja diocesana com o seu Bispo. Em datas posteriores ao dia 13, esta celebração poderá ser replicada ao nível vicarial ou paroquial. “A ‘porta da fé’ (cf Act 14, 27), escreveu Bento XVI (A porta da fé, 1), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós”. E a porta é Cristo, o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (cf Jo 10, 11).
As igrejas jubilares, com efeito, são mais que lugares: são símbolos públicos da infinita misericórdia de Deus e apelo ao exercício de uma misericórdia humana sem limites. “Ao atravessar a porta santa, deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros, como o Pai é connosco” (RM 14). A igreja jubilar e a porta santa negariam ou ocultariam o seu sentido se estivessem habitualmente fechadas. Pede-se, por isso, que, de acordo com as respetivas circunstâncias, se providenciem horários de abertura razoavelmente alargados.

3. Compreensão da misericórdia

As igrejas jubilares são espaços privilegiados para a compreensão aprofundada e para a experiência pessoal da misericórdia.
O Papa Francisco retoma (RM 15) o elenco clássico de obras de misericórdia: corporais e espirituais (cf Catecismo da Igreja Católica, 2447). Convida-nos a refletir sobre o seu alcance: “Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina” (RM 15).
Esta esquematização oferece-nos um programa de fácil execução, para, por exemplo: formação de adultos, catequese infantil, juvenil e familiar, caminhadas de advento-natal e de quaresma-páscoa, conferências quaresmais, representações cénicas, cortejos públicos, exposições artísticas e outras possíveis iniciativas evangelizadoras e culturais.
O tempo litúrgico da Quaresma é assumido, na mente do Santo Padre, como ocasião privilegiada para intensificar a aproximação à misericórdia. Situa aqui, na sexta-feira e sábado anteriores ao 4º domingo da Quaresma, a 4 e 5 de março, as 24 horas para o Senhor. Este ano, com a existência das igrejas jubilares e o espírito de peregrinação, recomenda-se um especial empenho na vivência desse Dia para o Senhor.
O encontro pessoal com a misericórdia divina e o renovado compromisso do exercício da misericórdia têm uma privilegiada expressão no Sacramento da Reconciliação. “Com convicção, ponhamos novamente o sacramento da Reconciliação no centro, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior” (RM 17).
A programação desta oferta, para a igreja jubilar e para as paróquias e igrejas em geral, pressupõe uma generosa disponibilidade de todo o presbitério: não apenas dos responsáveis pelas igrejas jubilares nem apenas dos párocos e capelães. “Não me cansarei jamais de insistir com os confessores, apela o Papa Francisco, para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva” (RM 17).
No sacramento da Reconciliação fazemos a experiência profunda do perdão: a insondável grandeza de um Deus que perdoa; o abraço que estreita todas as distâncias e cura as feridas. “O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Como parece difícil, tantas vezes, perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração” (RM 9).
Neste âmbito queremos agradecer a Deus o dom dos sacerdotes que dedicam em cada semana tempo à celebração do sacramento da reconciliação e rezamos para que nós, presbíteros e bispos, nos entreguemos com regularidade e generosidade a acolher os que procuram a misericórdia divina, disponibilizando lugar e tempo para a celebração deste sacramento.

4. Instituições da misericórdia

Ao longo dos tempos, e hoje, com as inevitáveis marcas pessoais e das respetivas épocas, é enorme o rol das instituições dedicadas ao serviço dos mais desfavorecidos e marginalizados. Em muitos casos são instituições que atravessaram os séculos e permanecem na linha da frente da real proximidade aos mais carenciados. Santas Casas da Misericórdia, Cáritas, Conferências Vicentinas, Centros Sociais Paroquiais, Obra Diocesana e Fundações são apenas alguns exemplos de sustentáculos da sociedade dos esquecidos, dos marginalizados, dos frágeis e dos pobres
A Igreja não reivindica o exclusivo deste serviço e deste mérito. Mas, por amor à verdade, não pode deixar de recordar que assume o dever e o direito de estar nestes terrenos onde continuam a faltar ações e a sobrar discursos.
A credibilidade das instituições constrói-se sobre a credibilidade das pessoas que as integram e as servem. Este Ano da Misericórdia é uma ocasião propícia para a avaliação e para procurar, uma e outra vez, a fidelidade aos carismas inspiradores. A qualidade profissional com que se serve pode e deve ser potenciada com os valores cristãos que, mesmo de modos diferentes, estão nas suas origens. O Papa Paulo VI não considerou falta de modéstia afirmar a Igreja como “perita em humanidade” (Alocução à Assembleia Geral das Nações Unidas, 04.10.1965). Estas instituições têm a particular responsabilidade de serem, ainda que não em exclusivo, o comprovativo desta afirmação. Com efeito, escreve o Papa Francisco, “é determinante para a Igreja, e para a credibilidade do seu anúncio, que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente o caminho para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia” (RM 12).

5. Referências da misericórdia

É, felizmente, interminável o número das pessoas que gastaram a vida ao serviço do próximo, mormente dos mais desfavorecidos e marginalizados. Na maioria dos casos, a sua ação discreta e escondida não fica registada na história dos homens. A longa existência da nossa Diocese testemunha a riqueza e extensão de tantas vidas profundamente marcadas pelo exercício da misericórdia.
Recordamos apenas três nomes mais recentes: o Bispo D. António Barroso, o Padre Américo Monteiro de Aguiar (Pai Américo) e a Venerável Sílvia Cardoso. Não é aqui o lugar para recordar, ainda que sumariamente, as suas vidas preenchidas por gestos generosos e inovadores de amor e serviço ao próximo. A bondade e a misericórdia sintetizam e definem as suas vidas.
São um apelo a viver neste nosso tempo o mandamento sempre novo do amor (cf Jo 13, 34). O progresso no reconhecimento, por parte da Igreja, da heroica exemplaridade universal das suas vidas depende de todas nós. Não se trata de um gesto supérfluo: seria mais um serviço aos pobres e um apelo à vivência efetiva da misericórdia.

6. Epílogo

A Sagrada Escritura e a literatura cristã de todos os tempos são alimento fecundo, capaz de alimentar uma vontade renovada de descobrir mais aprofundadamente a nossa radical vocação de servir. E aí está não apenas o fazer misericórdia mas o ser misericordiosos. É a resposta da Virgem Maria ao projeto de Deus: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).
Às parábolas evocadas pelo Papa Francisco (RM 9) podemos acrescentar, entre tantos outros lugares, a parábola do bom samaritano (Lc 10, 29-37), compêndio de misericórdia. “Jesus Cristo (…) rosto e misericórdia do Pai” convida-nos: “Vai e faz tu também o mesmo”.
É outro modo de entender a vida; é outro modo de olhar para o próximo; é outro modo de descobrir a alegria do Evangelho; é outro modo de viver e proclamar as bem-aventuranças: Felizes os misericordiosos!
Indicamos de seguida as Igrejas Jubilares da nossa Diocese, escolhidas de acordo com as sugestões recebidas em reunião de Vigários, decididas em reunião do Conselho Presbiteral e confirmadas em reunião do Conselho de Pastoral Diocesano:

Amarante e Baião: Igreja de São Gonçalo (Amarante) / Arouca-Vale de Cambra: Igreja do Convento de Santa Mafalda (Arouca) / Santuário de Santo António (Vale de Cambra) / Castelo de Paiva-Penafiel: Igreja do Calvário (Penafiel) /Espinho-Ovar: Igreja Matriz (Espinho) / Igreja Matriz (Ovar) / Felgueiras: Igreja Matriz (Felgueiras) / Santuário de Santa Quitéria / Gondomar: Igreja Matriz (Gondomar) / Lousada: Igreja do Senhor dos Aflitos (Lousada) / Maia: Santuário de Nossa Senhora do Bom Despacho (Maia) / Marco de Canaveses: Santuário do Menino Jesus de Praga (Avessadas) / Matosinhos: Igreja Matriz (Matosinhos) / Oliveira de Azeméis-São João da Madeira: Igreja de Cucujães / Paços de Ferreira: Igreja Matriz (Paços de Ferreira) / Paredes: Igreja Matriz (Castelões de Cepeda) / Porto Nascente e Porto Poente: Catedral / Santa Maria da Feira: Igreja Matriz (Santa Maria da Feira) / Santo Tirso: Igreja Matriz (Santo Tirso) / Trofa-Vila do Conde: Igreja de Nossa Senhora das Dores (Trofa) / Igreja Matriz (Árvore, Vila do Conde) / Valongo: Santuário de Nossa Senhora do Bom Despacho, Mão Poderosa e Santa Rita (Ermesinde) / Vila Nova de Gaia-Norte: Igreja Matriz (Mafamude) / Vila Nova de Gaia-Sul: Santuário do Coração de Maria (Carvalhos) / Mosteiro Beneditino de Singeverga: Igreja do Mosteiro

Porto, 3 de dezembro, memória litúrgica de S. Francisco Xavier, do ano de 2015
António Francisco dos Santos, Bispo do Porto
António Bessa Taipa, Bispo Auxiliar do Porto
Pio Alves de Sousa, Bispo Auxiliar do Porto (cf. Diocese do Porto)

 


- SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO

 
na palavra do Papa Bento XVI, na homilia da Eucaristia de 8 de Dezembro de 2005

“… O que significa "Maria, a Imaculada"? Este título tem algo a dizer-nos? A liturgia hodierna esclarece-nos o conteúdo desta palavra com duas imagens grandiosas. Em primeiro lugar, há a maravilhosa narração do anúncio a Maria, a Virgem de Nazaré, da vinda do Messias. A saudação do Anjo é tecida com fios do Antigo Testamento, especialmente do profeta Sofonias. Ele faz ver que Maria, humilde mulher de província que vem de uma estirpe sacerdotal e traz em si o grande património sacerdotal de Israel, é "o santo resto" de Israel ao qual os profetas, em todos os períodos de dificuldade e de trevas, fizeram referência. Nela está presente o verdadeiro Sião, a morada pura e viva de Deus. O Senhor habita nela, e nela encontra o lugar do seu repouso. Ela é a casa viva de Deus, que não habita em edifícios de pedra, mas no coração do homem vivo. Ela é o rebento que, na obscura noite invernal da história, brota do tronco abatido de David. É nela que se cumpre a palavra do Salmo: "A terra produziu o seu fruto" (67, 7). Ela é o botão do qual deriva a árvore da redenção e dos redimidos. Deus não fracassou, como podia parecer já no início da história com Adão e Eva, ou durante o período do exílio babilónico, e como novamente parecia no tempo de Maria, quando Israel se tornou definitivamente um povo sem importância, numa região ocupada, com poucos sinais reconhecíveis da sua santidade. Deus não fracassou. Na humildade da casa de Nazaré vive o Israel santo, o resto puro. Deus salvou e salva o seu povo. Do tronco abatido resplandece de novo a sua história, tornando-se uma nova força que orienta e impregna o mundo. Maria é o Israel santo; ela diz "sim" ao Senhor, coloca-se plenamente à sua disposição e assim torna-se o templo vivo de Deus…” (cf. Santa Sé)