PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Hás-de temer o Senhor, teu Deus…” (cf. Deuteronómio 6, 2)

Só Deus é Deus e Senhor. E não há outro Deus a quem amar, servir, adorar, acreditar, rezar, agradecer… Temer o Senhor não é ‘ter medo de Deus’. Não precisamos ter medo de Deus: Ele é amor, perdão, misericórdia, alegria, paz, salvação e esperança… Temer o Senhor é reconhecer a grandeza do seu poder; a santidade do seu nome; a ternura que nos dedica; a alegria da vida que nos oferece. Temer o Senhor é acolher a sua Palavra; cumprir os seus mandamentos; responder com fidelidade aos seus apelos; confiar na sua promessa e anunciá-la com a bondade dos nossos gestos. Quem ‘teme a Deus’ procura fazer tudo para não pecar contra ele; fazer nascer no coração o receio e a tristeza de o poder ofender. O apelo feito pela palavra de Deus aponta-nos o caminho da verdade, da justiça, da caridade, da compaixão. Uma grande exigência que nos trará a felicidade e a bênção.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

EM DESTAQUE


- CARTA PASTORAL

  DO SR. BISPO DO PORTO E SEUS AUXILIARES

 Felizes os misericordiosos 
           
1. Misericórdia

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”, recorda-nos o Papa Francisco nas palavras que abrem a Bula em que nos anuncia o Ano da Misericórdia (RM 1).
Somos, assim, convidados a um renovado encontro pessoal com Deus em Jesus Cristo, no âmbito de uma Comunidade. O Ano da Misericórdia é, por isso, muito mais que um elenco imaginativo de gestos evocativos de misericórdia e de perdão. Esses gestos terão sentido se estiverem ao serviço daquilo a que o Santo Padre chama contemplação do mistério da misericórdia. Caso contrário, estaríamos a entreter-nos com atividades de cariz religioso para cumprir mais um ano.
A contemplação da misericórdia – em última instância, da misericórdia divina – oferece-nos, a todos, o conforto de estarmos a coberto do seu manto protetor. Mas implica-nos, também – também a todos – no exercício da misericórdia: sempre e em todas as circunstâncias. Nada de novo, por outra parte, se levarmos a sério a oração que, a pedido dos discípulos, a nosso pedido, Jesus Cristo pôs nos nossos lábios: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Lc 11, 4; Mt 6, 12). A misericórdia não é, pois, uma realidade de um único sentido. Envolve-nos a todos: como destinatários e como atores. O Ano da Misericórdia não está ao serviço de uma sociedade de direitos, mas de direitos e de deveres.
É neste espírito jubilar do Ano da Misericórdia proposto pelo Papa Francisco que queremos e devemos concretizar o lema, cumprir os objectivos e realizar o que programamos no Plano Diocesano de Pastoral, que tem por tema: “A Alegria do Evangelho é a nossa missão: Felizes os misericordiosos!”
A matriz programática em que se alicerça e a pedagogia pastoral que desenvolve o nosso Plano Diocesano de Pastoral têm como desígnio de missão a comunhão diocesana vivida como caminho sinodal, que é o caminho do futuro da Igreja, como recentemente lembrava o Papa Francisco aos Bispos, reunidos no Sínodo sobre a Família (Discurso ao Sínodo dos Bispos, 17 .10.2015).

2. Lugares da misericórdia

Além da Catedral, Igreja-Mãe da Diocese, são indicadas em anexo as igrejas jubilares em toda a geografia diocesana. São lugares por excelência para o exercício evangelizador e cultual da misericórdia. Aí terão lugar, com prioridade mas sem caráter exclusivo, as principais ações sugeridas na bula O rosto da misericórdia.
As igrejas escolhidas são já (ou estão chamadas a ser) locais de convergência das populações locais na busca de serviços eclesiais. A sua potenciação, desejavelmente, poderá ter um efeito agregador dos projectos das respectivas vigararias e dos dinamismos pastorais da diocese. Um Ano Santo não se esgota na roda de 12 meses, mas deve deixar sementes que germinem, floresçam e frutifiquem nas estações seguintes.
A peregrinação (RM 14), a visita à igreja jubilar, está primariamente associada à indulgência, assumidos e vividos os compromissos previstos pela Igreja para estas circunstâncias. “O jubileu, recorda o Santo Padre, inclui também o referimento à indulgência. Esta, no Ano Santo da Misericórdia, adquire uma relevância particular. O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece limites. (…) No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado” (RM 22).
O acesso à misericórdia, em cada igreja jubilar, é simbolizado pelo ingresso pela porta santa (RM 14). Aberta em Roma no dia 08 de dezembro (RM 4), será também aberta no domingo seguinte, dia 13, em cada Igreja diocesana. Iniciaremos a celebração, na nossa Diocese, às 15,30 horas, na Igreja de S. Lourenço, no Seminário Maior da Sé, que será a igreja estacional, donde partiremos rumo à porta santa da Catedral. A participação nesta celebração será manifestação da unidade da Igreja diocesana com o seu Bispo. Em datas posteriores ao dia 13, esta celebração poderá ser replicada ao nível vicarial ou paroquial. “A ‘porta da fé’ (cf Act 14, 27), escreveu Bento XVI (A porta da fé, 1), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós”. E a porta é Cristo, o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (cf Jo 10, 11).
As igrejas jubilares, com efeito, são mais que lugares: são símbolos públicos da infinita misericórdia de Deus e apelo ao exercício de uma misericórdia humana sem limites. “Ao atravessar a porta santa, deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros, como o Pai é connosco” (RM 14). A igreja jubilar e a porta santa negariam ou ocultariam o seu sentido se estivessem habitualmente fechadas. Pede-se, por isso, que, de acordo com as respetivas circunstâncias, se providenciem horários de abertura razoavelmente alargados.

3. Compreensão da misericórdia

As igrejas jubilares são espaços privilegiados para a compreensão aprofundada e para a experiência pessoal da misericórdia.
O Papa Francisco retoma (RM 15) o elenco clássico de obras de misericórdia: corporais e espirituais (cf Catecismo da Igreja Católica, 2447). Convida-nos a refletir sobre o seu alcance: “Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina” (RM 15).
Esta esquematização oferece-nos um programa de fácil execução, para, por exemplo: formação de adultos, catequese infantil, juvenil e familiar, caminhadas de advento-natal e de quaresma-páscoa, conferências quaresmais, representações cénicas, cortejos públicos, exposições artísticas e outras possíveis iniciativas evangelizadoras e culturais.
O tempo litúrgico da Quaresma é assumido, na mente do Santo Padre, como ocasião privilegiada para intensificar a aproximação à misericórdia. Situa aqui, na sexta-feira e sábado anteriores ao 4º domingo da Quaresma, a 4 e 5 de março, as 24 horas para o Senhor. Este ano, com a existência das igrejas jubilares e o espírito de peregrinação, recomenda-se um especial empenho na vivência desse Dia para o Senhor.
O encontro pessoal com a misericórdia divina e o renovado compromisso do exercício da misericórdia têm uma privilegiada expressão no Sacramento da Reconciliação. “Com convicção, ponhamos novamente o sacramento da Reconciliação no centro, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior” (RM 17).
A programação desta oferta, para a igreja jubilar e para as paróquias e igrejas em geral, pressupõe uma generosa disponibilidade de todo o presbitério: não apenas dos responsáveis pelas igrejas jubilares nem apenas dos párocos e capelães. “Não me cansarei jamais de insistir com os confessores, apela o Papa Francisco, para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva” (RM 17).
No sacramento da Reconciliação fazemos a experiência profunda do perdão: a insondável grandeza de um Deus que perdoa; o abraço que estreita todas as distâncias e cura as feridas. “O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Como parece difícil, tantas vezes, perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração” (RM 9).
Neste âmbito queremos agradecer a Deus o dom dos sacerdotes que dedicam em cada semana tempo à celebração do sacramento da reconciliação e rezamos para que nós, presbíteros e bispos, nos entreguemos com regularidade e generosidade a acolher os que procuram a misericórdia divina, disponibilizando lugar e tempo para a celebração deste sacramento.

4. Instituições da misericórdia

Ao longo dos tempos, e hoje, com as inevitáveis marcas pessoais e das respetivas épocas, é enorme o rol das instituições dedicadas ao serviço dos mais desfavorecidos e marginalizados. Em muitos casos são instituições que atravessaram os séculos e permanecem na linha da frente da real proximidade aos mais carenciados. Santas Casas da Misericórdia, Cáritas, Conferências Vicentinas, Centros Sociais Paroquiais, Obra Diocesana e Fundações são apenas alguns exemplos de sustentáculos da sociedade dos esquecidos, dos marginalizados, dos frágeis e dos pobres
A Igreja não reivindica o exclusivo deste serviço e deste mérito. Mas, por amor à verdade, não pode deixar de recordar que assume o dever e o direito de estar nestes terrenos onde continuam a faltar ações e a sobrar discursos.
A credibilidade das instituições constrói-se sobre a credibilidade das pessoas que as integram e as servem. Este Ano da Misericórdia é uma ocasião propícia para a avaliação e para procurar, uma e outra vez, a fidelidade aos carismas inspiradores. A qualidade profissional com que se serve pode e deve ser potenciada com os valores cristãos que, mesmo de modos diferentes, estão nas suas origens. O Papa Paulo VI não considerou falta de modéstia afirmar a Igreja como “perita em humanidade” (Alocução à Assembleia Geral das Nações Unidas, 04.10.1965). Estas instituições têm a particular responsabilidade de serem, ainda que não em exclusivo, o comprovativo desta afirmação. Com efeito, escreve o Papa Francisco, “é determinante para a Igreja, e para a credibilidade do seu anúncio, que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente o caminho para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia” (RM 12).

5. Referências da misericórdia

É, felizmente, interminável o número das pessoas que gastaram a vida ao serviço do próximo, mormente dos mais desfavorecidos e marginalizados. Na maioria dos casos, a sua ação discreta e escondida não fica registada na história dos homens. A longa existência da nossa Diocese testemunha a riqueza e extensão de tantas vidas profundamente marcadas pelo exercício da misericórdia.
Recordamos apenas três nomes mais recentes: o Bispo D. António Barroso, o Padre Américo Monteiro de Aguiar (Pai Américo) e a Venerável Sílvia Cardoso. Não é aqui o lugar para recordar, ainda que sumariamente, as suas vidas preenchidas por gestos generosos e inovadores de amor e serviço ao próximo. A bondade e a misericórdia sintetizam e definem as suas vidas.
São um apelo a viver neste nosso tempo o mandamento sempre novo do amor (cf Jo 13, 34). O progresso no reconhecimento, por parte da Igreja, da heroica exemplaridade universal das suas vidas depende de todas nós. Não se trata de um gesto supérfluo: seria mais um serviço aos pobres e um apelo à vivência efetiva da misericórdia.

6. Epílogo

A Sagrada Escritura e a literatura cristã de todos os tempos são alimento fecundo, capaz de alimentar uma vontade renovada de descobrir mais aprofundadamente a nossa radical vocação de servir. E aí está não apenas o fazer misericórdia mas o ser misericordiosos. É a resposta da Virgem Maria ao projeto de Deus: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).
Às parábolas evocadas pelo Papa Francisco (RM 9) podemos acrescentar, entre tantos outros lugares, a parábola do bom samaritano (Lc 10, 29-37), compêndio de misericórdia. “Jesus Cristo (…) rosto e misericórdia do Pai” convida-nos: “Vai e faz tu também o mesmo”.
É outro modo de entender a vida; é outro modo de olhar para o próximo; é outro modo de descobrir a alegria do Evangelho; é outro modo de viver e proclamar as bem-aventuranças: Felizes os misericordiosos!
Indicamos de seguida as Igrejas Jubilares da nossa Diocese, escolhidas de acordo com as sugestões recebidas em reunião de Vigários, decididas em reunião do Conselho Presbiteral e confirmadas em reunião do Conselho de Pastoral Diocesano:

Amarante e Baião: Igreja de São Gonçalo (Amarante) / Arouca-Vale de Cambra: Igreja do Convento de Santa Mafalda (Arouca) / Santuário de Santo António (Vale de Cambra) / Castelo de Paiva-Penafiel: Igreja do Calvário (Penafiel) /Espinho-Ovar: Igreja Matriz (Espinho) / Igreja Matriz (Ovar) / Felgueiras: Igreja Matriz (Felgueiras) / Santuário de Santa Quitéria / Gondomar: Igreja Matriz (Gondomar) / Lousada: Igreja do Senhor dos Aflitos (Lousada) / Maia: Santuário de Nossa Senhora do Bom Despacho (Maia) / Marco de Canaveses: Santuário do Menino Jesus de Praga (Avessadas) / Matosinhos: Igreja Matriz (Matosinhos) / Oliveira de Azeméis-São João da Madeira: Igreja de Cucujães / Paços de Ferreira: Igreja Matriz (Paços de Ferreira) / Paredes: Igreja Matriz (Castelões de Cepeda) / Porto Nascente e Porto Poente: Catedral / Santa Maria da Feira: Igreja Matriz (Santa Maria da Feira) / Santo Tirso: Igreja Matriz (Santo Tirso) / Trofa-Vila do Conde: Igreja de Nossa Senhora das Dores (Trofa) / Igreja Matriz (Árvore, Vila do Conde) / Valongo: Santuário de Nossa Senhora do Bom Despacho, Mão Poderosa e Santa Rita (Ermesinde) / Vila Nova de Gaia-Norte: Igreja Matriz (Mafamude) / Vila Nova de Gaia-Sul: Santuário do Coração de Maria (Carvalhos) / Mosteiro Beneditino de Singeverga: Igreja do Mosteiro

Porto, 3 de dezembro, memória litúrgica de S. Francisco Xavier, do ano de 2015
António Francisco dos Santos, Bispo do Porto
António Bessa Taipa, Bispo Auxiliar do Porto
Pio Alves de Sousa, Bispo Auxiliar do Porto (cf. Diocese do Porto)

 


- SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO

 
na palavra do Papa Bento XVI, na homilia da Eucaristia de 8 de Dezembro de 2005

“… O que significa "Maria, a Imaculada"? Este título tem algo a dizer-nos? A liturgia hodierna esclarece-nos o conteúdo desta palavra com duas imagens grandiosas. Em primeiro lugar, há a maravilhosa narração do anúncio a Maria, a Virgem de Nazaré, da vinda do Messias. A saudação do Anjo é tecida com fios do Antigo Testamento, especialmente do profeta Sofonias. Ele faz ver que Maria, humilde mulher de província que vem de uma estirpe sacerdotal e traz em si o grande património sacerdotal de Israel, é "o santo resto" de Israel ao qual os profetas, em todos os períodos de dificuldade e de trevas, fizeram referência. Nela está presente o verdadeiro Sião, a morada pura e viva de Deus. O Senhor habita nela, e nela encontra o lugar do seu repouso. Ela é a casa viva de Deus, que não habita em edifícios de pedra, mas no coração do homem vivo. Ela é o rebento que, na obscura noite invernal da história, brota do tronco abatido de David. É nela que se cumpre a palavra do Salmo: "A terra produziu o seu fruto" (67, 7). Ela é o botão do qual deriva a árvore da redenção e dos redimidos. Deus não fracassou, como podia parecer já no início da história com Adão e Eva, ou durante o período do exílio babilónico, e como novamente parecia no tempo de Maria, quando Israel se tornou definitivamente um povo sem importância, numa região ocupada, com poucos sinais reconhecíveis da sua santidade. Deus não fracassou. Na humildade da casa de Nazaré vive o Israel santo, o resto puro. Deus salvou e salva o seu povo. Do tronco abatido resplandece de novo a sua história, tornando-se uma nova força que orienta e impregna o mundo. Maria é o Israel santo; ela diz "sim" ao Senhor, coloca-se plenamente à sua disposição e assim torna-se o templo vivo de Deus…” (cf. Santa Sé)