- na Audiência-Geral, no dia
2 de Dezembro, na Praça de São Pedro, Roma
Nos dias passados realizei a minha primeira Viagem Apostólica à
África. A África é linda! Dou graças ao Senhor por esta sua grande dádiva, que
me permitiu visitar três países: em primeiro lugar o Quénia, depois o Uganda e
enfim a República Centro-Africana. Exprimo novamente o meu reconhecimento às
Autoridades civis e aos Bispos daquelas Nações por me terem hospedado, enquanto
agradeço a todos aqueles que, de muitas maneiras, colaboraram. Obrigado de
coração!
O Quénia é um país que representa bem o desafio planetário da
nossa época: salvaguardar a criação, reformando o modelo de desenvolvimento
para que seja equitativo, inclusivo e sustentável. Tudo isto se reflecte em
Nairobi, a maior cidade da África Oriental, onde a riqueza e a miséria
convivem: mas isto é um escândalo! E não só na África: também aqui, em toda a
parte. A convivência entre riqueza e miséria é um escândalo, uma vergonha para
a humanidade. Precisamente em Nairobi está a sede do Departamento das Nações
Unidas para o Meio Ambiente, que eu visitei. No Quénia encontrei-me com as
Autoridades e os Diplomatas, mas também com os habitantes de um bairro popular;
detive-me com os chefes das várias Confissões cristãs e das outras Religiões,
com os sacerdotes e os consagrados, e encontrei-me com os jovens, deveras
numerosos! Em cada ocasião encorajei a valorizar a grandiosa riqueza daquele
país: a riqueza natural e espiritual, constituída pelos recursos da terra,
pelas novas gerações e pelos valores que formam a sabedoria do povo. Neste
contexto, tão dramaticamente actual, tive a alegria de anunciar a palavra de
esperança de Jesus: «Permanecei firmes na fé, não tenhais medo!». Foi este o
lema da visita. Uma palavra que é vivida no dia-a-dia por numerosas pessoas
humildes e simples, com nobre dignidade; uma palavra testemunhada de modo
trágico e heróico pelos jovens da Universidade de Garissa, assassinados no dia
2 do passado mês de Abril, porque eram cristãos. O seu sangue é semente de paz
e de fraternidade para o Quénia, para a África e para o mundo inteiro.
Depois, no Uganda, a minha visita desenrolou-se no sinal dos
Mártires daquele país, a cinquenta anos da sua histórica canonização feita pelo
beato Paulo VI. Por isso, o lema foi: «Sereis minhas testemunhas» (Act 1, 8).
Um lema que pressupõe as palavras imediatamente precedentes: «Recebereis a
força do Espírito Santo», porque é o Espírito que anima o coração e as mãos dos
discípulos missionários. E no Uganda a visita inteira realizou-se no fervor do
testemunho animado pelo Espírito Santo. Em sentido explícito, o testemunho é o serviço
dos catequistas, aos quais agradeci e encorajei pelo seu compromisso, que
muitas vezes abrange até as suas famílias. Testemunho é o da caridade, que
toquei com a mão na Casa de Nalukolongo, mas que conta com a participação de
numerosas comunidades e associações ao serviço dos mais pobres, dos portadores
de deficiência e dos enfermos. Testemunho é o dos jovens que, apesar das
dificuldades, conservam o dom da esperança e procuram viver em conformidade com
o Evangelho, e não segundo o mundo, indo contra a corrente. Testemunhas são os
sacerdotes, os consagrados e as consagradas, que renovam dia após dia o seu
«sim» total a Cristo, dedicando-se com alacridade ao serviço do santo povo de
Deus. E há mais um grupo de testemunhas, mas deles falarei mais tarde. Todo
este testemunho multiforme, animado pelo mesmo Espírito Santo, é fermento para
a sociedade inteira, como demonstra a obra eficaz levada a cabo no Uganda na
luta contra a sida e no acolhimento dos refugiados.
A terceira etapa da viagem foi a República Centro-Africana, no
coração geográfico do continente: trata-se precisamente do coração da África!
Na realidade, na minha intenção esta visita era a primeira, porque aquele país
procura sair de um período muito difícil, de conflitos violentos e de tanto
sofrimento para a população. Foi por isto que desejei abrir precisamente ali,
em Bangui, com uma semana de antecipação, a primeira Porta Santa do Jubileu da
Misericórdia, como sinal da fé e de esperança para aquele povo e,
simbolicamente, para todas as populações africanas, as mais necessitadas de
resgate e de alívio. O convite de Jesus aos discípulos: «Passemos à outra
margem» (Lc 8, 22), foi o lema para a República Centro-Africana. Em sentido
civil, «passar à outra margem» significa deixar atrás de si a guerra, as
divisões e a miséria, e escolher a paz, a reconciliação e o desenvolvimento.
Contudo, isto pressupõe uma «passagem» que se verifica nas consciências, nas
atitudes e nas intenções das pessoas. E neste plano, a contribuição das
comunidades religiosas é determinante. Por isso, encontrei-me com as
Comunidades evangélicas e com a muçulmana, compartilhando a oração e o compromisso
a favor da paz. Com os sacerdotes e os consagrados, mas também com os jovens,
pudemos partilhar a alegria de sentir que o Senhor ressuscitado está ao nosso
lado na barca, é Ele quem a guia rumo à outra margem. E finalmente na última
Missa, no estádio de Bangui, na festa do apóstolo André, pudemos renovar o
compromisso a seguir Jesus, nossa esperança, nossa paz, Rosto da Misericórdia
Divina. Esta última Missa foi maravilhosa: nela participaram muitíssimos
jovens, um estádio de juventude! No entanto, mais de metade da população da
República Centro-Africana são menores de idade, têm menos de 18 anos: uma
promessa para ir em frente!
Gostaria de dizer uma palavra sobre os missionários. Homens e
mulheres que deixaram a pátria, tudo... Quando eram jovens, partiram para lá,
levando uma vida de trabalho muito árduo e, às vezes, até dormindo no chão. A
uma certa altura, encontrei-me em Bangui com uma religiosa italiana. Via-se que
era idosa: «Quantos anos tem?», perguntei-lhe: «81». «Mas não eram muitos, era dois
anos mais velha do que eu». Aquela irmã estava lá desde quando tinha 23-24
anos: a vida inteira! E como ela, muitas! Estava com uma criança. Em italiano,
a menina dizia: «Avó!». Então, a religiosa disse-me: «Eu não sou daqui, mas do
país vizinho, do Congo; e vim de canoa, com esta menina». Os missionários são
assim: intrépidos! «E o que a senhora faz, irmã?». «Eu sou enfermeira, também
estudei um pouco aqui e tornei-me parteira: fiz nascer 3.280 crianças!». Eis o
que ela me disse. A vida inteira a favor da vida, da vida dos outros. E como
esta religiosa, há muitas outras: numerosas irmãs, sacerdotes, religiosos que
consomem a própria vida para anunciar Jesus Cristo. É bonito ver isto. É lindo!
Gostaria de dizer uma palavra aos jovens. Mas há poucos, porque
parece que na Europa a natalidade é um luxo: natalidade zero, natalidade 1%.
Mas dirijo-me aos jovens: pensai no que fazeis da vossa vida. Pensai naquela
religiosa e em muitas outras como ela, que deram a vida e tantas morreram lá. A
missionariedade não consiste em fazer proselitismo: aquela irmã dizia-me que as
mulheres muçulmanas vão ter com elas porque as religiosas são boas enfermeiras,
que as curam bem, sem fazer catequese alguma para as converter! Dão testemunho;
depois, às que quiserem, fazem a catequese. Mas o testemunho: nisto consiste a
missionariedade, grandiosa e heróica, da Igreja. Anunciar Jesus Cristo com a
própria vida! Dirijo-me aos jovens: pensa tu o que queres fazer da tua vida. É
o momento de pensar e de pedir ao Senhor que te faça sentir a sua vontade. Mas
por favor, não excluas a possibilidade de te tornares missionário, para levar o
amor, a humanidade e a fé a outros países. Não para fazer proselitismo: não!
Quantos o fazem procuram algo diferente. A fé prega-se em primeiro lugar com o
testemunho e depois com a palavra. Lentamente.
Juntos louvemos o Senhor por esta peregrinação à terra da África,
e deixemo-nos orientar pelas suas palavras-chave: «Permanecei firmes na fé, não
tenhais medo!»; «Sereis minhas testemunhas»; «Passemos à outra margem». (cf. Santa Sé)
