PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Arrependeu-se e foi …” (cf. Mateus 21, 29) Com a sua pregação sobre o Reino de Deus, Jesus opõe-se a uma religiosidade que não envolve a vida humana, que não questiona a consciência nem a sua responsabilidade perante o bem e o mal. Isto também é demonstrado pela parábola dos dois filhos, proposta no Evangelho de Mateus (cf. 21, 28-32). Ao convite do pai para ir trabalhar na vinha, o primeiro filho responde impulsivamente “não, eu não vou”, mas depois arrepende-se e vai; ao contrário, o segundo filho, que responde imediatamente “sim, sim pai”, na realidade não o faz, não vai. A obediência não consiste em dizer “sim” ou “não”, mas sempre em agir, em cultivar a vinha, em realizar o Reino de Deus, em praticar o bem. Com este simples exemplo, Jesus quer superar uma religião entendida apenas como prática exterior e habitual, que não incide na vida e nas atitudes das pessoas, uma religiosidade superficial, apenas “ritual”, no mau sentido da palavra. Os representantes desta religiosidade de “fachada”, que Jesus desaprova, eram na altura «os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo» (Mt 21, 23) que, segundo a admoestação do Senhor, no Reino de Deus serão precedidos por publicanos e mulheres de má vida (cf. v. 31). Jesus diz-lhes: «os publicanos e as mulheres de má vida preceder-vos-ão no reino de Deus». Esta afirmação não deve levar a pensar que fazem bem aqueles que não seguem os mandamentos de Deus, quantos não seguem a moral, e dizem: “Aqueles que vão à Igreja são piores do que nós!”. Não, este não é o ensinamento de Jesus. Jesus não aponta os publicanos e as mulheres de má vida como modelos de vida, mas como “privilegiados da Graça”. E eu gostaria de sublinhar esta palavra “graça”, a graça, porque a conversão é sempre uma graça. Uma graça que Deus concede a quem se abre e se converte a Ele. De facto, aquelas pessoas, ouvindo a sua pregação, arrependeram-se e mudaram de vida. Pensemos em Mateus, por exemplo; São Mateus, que era um publicano, um traidor da sua pátria. No Evangelho de hoje, aquele que causa melhor impressão é o primeiro irmão, não por ter dito “não” ao seu pai, mas porque depois do “não” se converteu ao “sim”, arrependeu-se. Deus é paciente com cada um de nós: não se cansa, não desiste depois do nosso “não”; também, deixa-nos livres de nos distanciarmos d'Ele e cometer erros. Pensar na paciência de Deus é maravilhoso! Como o Senhor nos espera sempre; sempre ao nosso lado para nos ajudar; mas Ele respeita a nossa liberdade. Ele aguarda, trepidante, o nosso “sim”, para nos acolher novamente nos seus braços paternos e nos elevar com a sua misericórdia sem limites. A fé em Deus pede que renovemos, todos os dias, a escolha do bem em vez do mal; a escolha da verdade em vez da mentira; a escolha do amor ao próximo em vez do egoísmo. Aqueles que se converterem a esta escolha, depois de terem experimentado o pecado, encontrarão os primeiros lugares no Reino do Céu, onde há mais alegria por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos (cf. Lc 15, 7). Mas a conversão - mudar o coração - é um processo; um processo que nos purifica das incrustações morais. E, por vezes, é um processo doloroso, porque não há caminho para a santidade sem alguma renúncia e sem combate espiritual. Lutar pelo bem; lutar para não cair em tentação; fazer o que podemos, para chegar a viver na paz e na alegria das Bem-aventuranças. O Evangelho de hoje põe em questão a forma de viver a vida cristã, que não é feita de sonhos e belas aspirações, mas de compromissos concretos, a fim de nos abrirmos, cada vez mais, à vontade de Deus e ao amor pelos irmãos. Mas isto, mesmo o menor compromisso concreto, não pode ser feito sem a graça. A conversão é uma graça que devemos pedir sempre: “Senhor, concedei-me a graça de melhorar. Dai-me a graça de ser um bom cristão”. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 27 de Setembro de 2020, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

segunda-feira, 6 de março de 2017

EM DESTAQUE


- TEMPO DA QUARESMA

- MENSAGEM QUARESMAL DO BISPO DO PORTO
   na homilia de Quarta-Feira de Cinzas


1.Iniciamos, hoje, o caminho quaresmal. É um caminho feito de oração, de escuta da Palavra de Deus, de renúncia, de jejum, de partilha fraterna e de mais intensa vida comunitária.
A Quaresma tem profundas raízes bíblicas. Moisés passou quarenta dias no Sinai, até receber a Aliança. Jesus jejuou quarenta dias no deserto, antes de iniciar o seu ministério. A Igreja prepara-se, durante este mesmo tempo, para celebrar a Páscoa.
A Palavra de Deus, que nos acompanhará na liturgia e a recente mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2017 sustentam, em cada um de nós, o esforço de conversão e de ousadia evangélica, que nos é pedido neste tempo de graça e de bênção.
O Papa Francisco convida-nos a viver esta quarta-feira de cinzas e a Quaresma, que agora começa, à luz da parábola de Lázaro, o pobre mendigo, e do rico avarento. A partir desta parábola, o Papa Francisco convoca-nos para acolhermos a Palavra de Deus e para cuidarmos dos nossos irmãos, como um dom. Foi isso que o rico, de que nos fala a parábola, não fez. Ele não compreendeu, ao deixar-se corromper pelo dinheiro, pela vaidade e pela soberba que o cegaram, que se tornou incapaz de ver Deus, apesar de ser crente, e que não soube respeitar Lázaro, homem pobre, que diariamente o procurava, à sua porta.
Ensina-nos esta parábola e lembra-nos o Papa Francisco que para os idólatras do dinheiro, possuídos pela ganância, não há espaço no coração para Deus. Para os cultivadores da vaidade, apenas centrados em si próprios, não há lugar para mais ninguém. Para os obcecados pela soberba, dominados pela cegueira do orgulho, não há tempo para atender, acolher, escutar e cuidar dos frágeis e dos pobres.

2. Compreendemos, assim, à luz desta mensagem, que a Quaresma nos convoque primeiramente para fazer experiência de deserto, de silêncio e de oração, como Jesus fez ao longo de quarenta dias, antes do início da sua missão pública.
O tempo de deserto, vivido antes do início da sua missão, constituiu para Jesus um tempo necessário para acolher o desígnio que o Pai tinha para Ele. O tempo de Quaresma, trabalhado pela pedagogia do silêncio, da disponibilidade interior e da oração, a exemplo de Jesus, deve ser igualmente para nós um tempo essencial, mesmo quando árido e exigente pela ascese e pela contemplação que impõe, onde se encontre Deus como fonte única de vida, de santidade e de paz e onde se perscrute o sonho que Deus tem para cada um de nós.
A Quaresma constitui um tempo favorável de mais íntima e maior proximidade com Deus. Esta intimidade próxima, exigente e feliz com Deus permite-nos e ensina-nos a olhar as pessoas e o mundo a partir de Deus e não a partir de nós.

3. Vivemos um tempo em que a crise de valores, na Europa e no Mundo, fragiliza o harmonioso convívio entre os povos e banaliza a vida. E isso magoa-nos, inquieta-nos e preocupa-nos. Mas não nos pode roubar nem a alegria, nem a paz, nem muito menos a esperança. Sabemos que quando a vida se banaliza, quem mais sofre são os pobres, os isolados, os indefesos, os sós, os refugiados, os doentes e os idosos. O pior que nos pode acontecer, como sociedade, é perder o encanto pela vida, desistir do respeito pela dignidade da pessoa humana e abdicar da alegria de cuidar com carinho de quem sofre.
As respostas necessárias e procuradas neste tempo de mudança civilizacional não podem ser pedidas apenas aos governantes e aos legisladores, por muitas que sejam as suas responsabilidades na situação a que a Europa e o Mundo chegaram. Todos nós devemos contribuir para que a sociedade caminhe em frente, vença medos, recupere esperança e valorize a vida. O Papa Francisco dizia esta manhã, ao celebrar esta mesma liturgia de Quarta-feira de Cinzas, que a Quaresma nos convida a caminhar na alegria e na esperança.
Temos direito a sonhar com um mundo justo, habitado por gente de bem e trabalhado, por gente feliz. E a Igreja, que em cada Quaresma se sente renovada pela alegria do Evangelho e fortalecida pela celebração dos mistérios sagrados da fé, sobretudo nos sacramentos, sente-se chamada a estar permanentemente ao serviço da vida e do bem.
É missão da Igreja, traduzida em missão de cada um de nós, testemunhar a sobriedade onde só existe o sonho da abundância; afirmar a presença da amizade onde há medo e solidão; repartir o pão e o cuidado fraterno onde há fome ou receio de pedir; ajudar a encontrar trabalho para quem dele precisa; promover o valor da vida diante do tumulto das ideias e a confusão dos sentimentos; educar para a justiça e para a partilha solidária; praticar as obras de misericórdia, com alegria, como nos foi insistentemente lembrado no Ano da Misericórdia.

4. Assim, atentos aos apelos do Papa Francisco e em íntima comunhão com ele, continuaremos, a exemplo dos anos anteriores, um percurso de partilha com os que mais precisam, através da nossa renúncia quaresmal diocesana. Destinaremos o fruto da nossa generosidade e da nossa renúncia para o Fundo Solidário Diocesano para atender, com a solicitude necessária, às situações de necessidade de ajuda de tantas pessoas e instituições na área geográfica da nossa diocese. Em segundo lugar, destinaremos uma parte para a diocese de Huambo, Angola, a celebrar 75 anos da sua criação e de que é bispo diocesano D. José Queirós, natural de Soalhães, Marco de Canaveses. Queremos repartir, com igual generosidade, a nossa renúncia quaresmal com a diocese de Erbil, no Iraque, para ajudar os refugiados, vindos de Mossul e da Planície de Nínive, que ali se acolheram para fugir da guerra. O bispo desta diocese D. Bashar Warda, que esteve recentemente no Porto para fazer ouvir o clamor do seu povo, recebeu desde 2014, na sua diocese, mais de 120.000 refugiados.
A Quaresma é, assim, tempo propício para mergulhar nas dores do mundo e para aí levarmos o bálsamo da nossa presença e a bênção da nossa generosidade.

5. É esse, também, o sentido da nossa Caminhada Diocesana, uma longa caminhada que vai das Cinzas ao Pentecostes, desde este dia 1 de Março, em Quarta-feira de Cinzas, a 4 de Junho, no domingo do Pentecostes. Caminharemos neste tempo, aproximando-nos mais de Jesus, o Mestre, e buscando as fontes da alegria que a Igreja abundantemente nos oferece.
A exemplo de Maria, nas Bodas de Caná, de que fizemos texto inspirador da nossa caminhada, prestaremos, igualmente, mais atenção aos nossos irmãos, ouvindo em permanência, como se a nós fosse dirigido, o conselho da Mãe de Jesus aos serventes da mesa: “Fazei tudo o que Jesus vos disser” (cf. Jo 2, 1-12).
Eles ouviram Jesus. Atentos à Sua Palavra, encheram as ânforas. O milagre aconteceu. A alegria regressou àquela casa. E a festa continuou naquela família.
Que assim seja connosco, também, e com esta amada Igreja do Porto que se dispõe - com tão belo acolhimento, renovado vigor e acrescentado entusiasmo - a viver a Quaresma a «Caminho, com Maria, Mãe de Jesus, pelas fontes da alegria»!

Uma santa e abençoada Quaresma.
Igreja Catedral do Porto, 1 de março de 2017
António, Bispo do Porto

Da mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2017 (continuação)

“…O pecado cega-nos

A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico (cf. v. 19). Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De facto, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses (cf. Jr 10, 9) e os reis (cf. Jz 8, 26). O linho fino era um linho especial que ajudava a conferir à posição da pessoa um carácter quase sagrado. Assim, a riqueza deste homem é excessiva, inclusive porque exibida habitualmente: «Fazia todos os dias esplêndidos banquetes» (v. 19). Entrevê-se nele, dramaticamente, a corrupção do pecado, que se realiza em três momentos sucessivos: o amor ao dinheiro, a vaidade e a soberba (cf. Homilia na Santa Missa, 20 de setembro de 2013).
O apóstolo Paulo diz que «a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro» (1 Tm 6, 10). Esta é o motivo principal da corrupção e uma fonte de invejas, contendas e suspeitas. O dinheiro pode chegar a dominar-nos até ao ponto de se tornar um ídolo tirânico (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 55). Em vez de instrumento ao nosso dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro pode-nos subjugar, a nós e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz.
Depois, a parábola mostra-nos que a ganância do rico fá-lo vaidoso. A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. ibid., 62).
O degrau mais baixo desta deterioração moral é a soberba. O homem veste-se como se fosse um rei, simula a posição dum deus, esquecendo-se que é um simples mortal. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio eu e, por isso, as pessoas que o rodeiam não caiem sob a alçada do seu olhar. Assim, o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação.
Olhando para esta figura, compreende-se por que motivo o Evangelho é tão claro ao condenar o amor ao dinheiro: «Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24)…”