PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro…” (cf. Mateus 16, 26) O trecho evangélico hodierno (cf. Mt 16, 21-27) é a continuação do de domingo passado, no qual se realçava a profissão de fé de Pedro, “rocha” sobre a qual Jesus quer construir a sua Igreja. Hoje, em estridente contraste, Mateus mostra-nos a reação do próprio Pedro quando Jesus revela aos discípulos que deverá padecer em Jerusalém, ser assassinado, ressuscitar (cf. v. 21). Pedro chamou de parte o Mestre e repreende-o, porque isto — diz-lhe — não poderá acontecer com Ele, com Cristo. Mas Jesus, por sua vez, repreende Pedro com palavras duras: «Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!» (v. 23). Pouco antes, o apóstolo tinha sido abençoado pelo Pai, tinha recebido d’Ele aquela revelação, era uma «pedra» sólida a fim de que Jesus pudesse construir sobre ela a sua comunidade; e logo a seguir torna-se um obstáculo, uma pedra mas não para construir, uma pedra de tropeço no caminho do Messias. Jesus sabe bem que Pedro e os outros têm ainda muita estrada a percorrer para se tornarem seus apóstolos! Neste ponto, o Mestre dirige-se a todos os que o seguiam, apresentando-lhes com clareza o caminho que devem percorrer: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me» (v. 24). Também hoje, há a tentação de querer sempre seguir um Cristo sem cruz, aliás, de ensinar a Deus a estrada certa, como fez Pedro: “Não, não Senhor, isto não, nunca acontecerá”. Mas Jesus recorda-nos que o seu caminho é o do amor, e não há amor verdadeiro sem o sacrifício de si mesmo. Somos chamados a não nos deixarmos absorver pela visão deste mundo, mas a estar cada vez mais cientes da necessidade e da fadiga para nós cristãos de caminhar contracorrente e em subida. Jesus contempla a sua proposta com palavras que exprimem uma grande sabedoria sempre válida, porque desafiam a mentalidade e os comportamentos egocêntricos. Ele exorta: «Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á» (v. 25). Neste paradoxo está contida a regra de ouro que Deus inscreveu na natureza humana criada em Cristo: a regra que só o amor dá sentido e felicidade à vida. Dedicar os próprios talentos, as próprias energias e o próprio tempo só para salvar, proteger e realizar-se a si mesmos, leva na realidade a perder-se, ou seja, a uma existência triste e estéril. Ao contrário, vivamos pelo Senhor e construamos a nossa vida no amor, como fez Jesus: poderemos saborear a alegria autêntica, e a nossa vida não será estéril, será fecunda. Na celebração da Eucaristia revivemos o mistério da cruz; não só recordamos, mas compreendemos o memorial do Sacrifício redentor, em que o Filho de Deus se perde, completamente, a Si mesmo para se receber de novo do Pai e assim nos reencontrar, a nós que estávamos perdidos, juntamente com todas as criaturas. Todas as vezes que participamos na Santa Missa, o amor de Cristo crucificado e ressuscitado comunica-se a nós como alimento e bebida, para que possamos segui-Lo no caminho de cada dia, no serviço concreto dos irmãos. Maria Santíssima, que seguiu Jesus até ao Calvário, nos acompanhe também a nós e nos ajude a não ter medo da cruz, mas com Jesus crucificado, e não uma cruz sem Jesus, a cruz com Jesus, ou seja, a cruz de sofrer por amor de Deus e dos irmãos, porque esse sofrimento, pela graça de Cristo, é fecundo de ressurreição. (Papa Francisco, na Oração do Angelus, no dia 3 de Setembro de 2017, na Praça de São Pedro, Vaticano, Roma)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

EM DESTAQUE


- FESTA DAS FOGACEIRAS

Com simplicidade, beleza e piedade, celebrámos, em Santa Maria da Feira, a Festa em Honra do Mártir São Sebastião, no dia 20 de Janeiro. Como habitualmente, muita gente acorreu a esta festividade. A Igreja Matriz foi pequena para acolher todos os que desejavam agradecer as bênçãos de Deus, pela intercessão do Santo Mártir. Transcrevemos a homilia do Sr. D. Manuel Pelino, que presidiu às nossas festas.


«…São Sebastião, Padroeiro de Santa Maria da Feira

1.      Um santo corajoso
Celebramos hoje a memória do Mártir São Sebastião, padroeiro muito amado destas terras de Santa Maria da Feira. É uma veneração antiga e sólida em reconhecimento pela proteção concedida num momento angustiante de uma peste que ameaçava a vida de todos os habitantes da região. São Sebastião é, aliás, um dos santos mais admirados e estimados pelos fiéis católicos. A sua imagem encontra-se ao culto em inúmeros edifícios religiosos. As catacumbas de São Sebastião em Roma, onde repousam os seus restos mortais, são das mais visitadas desde remota antiguidade. Porquê esta veneração tão difundida? Certamente pelas experiências de proteção recebidas e transmitidas de geração em geração. Mas igualmente pela admiração que a sua vida, corajosamente dedicada ao serviço da fé em tempos difíceis, desperta em toda a gente.
Os séculos não deixam apagar a sua memória nem esquecer o seu testemunho. Da sua vida histórica chegaram até nós muitas lendas e alguns dados seguros. Natural da Narbona, viveu, cresceu e estudou em Milão como nos atesta Santo Ambrósio, bispo desta cidade. A exemplo de seu pai, seguiu a carreira militar. A dedicação, disciplina e boa relação que mostrava promoveram-no à responsabilidade de capitão da guarda pretoriana. A certa altura da sua vida, conta Santo Ambrósio, compreendeu que deveria deixar a cidade de Milão e partir para Roma onde o imperador Diocleciano havia desencadeado feroz perseguição aos cristãos. Sebastião sentiu que Deus o chamava para o lugar do combate da fé, para socorrer as vítimas, encorajar os perseguidos e fazer chegar a todos a partilha fraterna. A Igreja de Roma precisava da sua ajuda e ele estava bem posicionado para a prestar. Portanto, assumiu com valentia essa missão.
O nosso padroeiro mostra-nos, assim, o evangelho concretizado nas atitudes práticas da sua vida. Se o consideramos como padroeiro e protetor de confiança, devemos tê-lo também como referência que inspira o estilo da nossa vida. Do seu testemunho podemos colher algumas orientações muito atuais para vivermos e testemunharmos a fé no nosso tempo.
2.      Proximidade evangélica.
Seguir Jesus Cristo é tornar-se próximo daqueles que precisam de ajuda, é sair da sua zona de conforto e ir ao encontro dos que sofrem. Assim procedeu o Senhor Jesus vindo ao nosso encontro para habitar no meio de nós. Do mesmo modo fez o nosso Santo deixando a vida sossegada em Milão para apoiar e animar os que em Roma precisavam de ajuda. As guerras e as perseguições deixavam muita gente desamparada, sem qualquer meio de subsistência. Presos, perseguidos, viúvas e órfãos precisavam de ajuda material, de afeto, de proteção. Na altura não havia segurança social alguma. Mas os cristãos não estavam sós. Num mundo cruel e dilacerado, os discípulos de Cristo testemunhavam sentido de grupo, amor fraterno, assistência nas necessidades. Eram irmãos no sentido verdadeiro do termo. A comunidade cristã era uma família onde todos davam e encontravam afeto, onde todos partilhavam os bens. Sebastião vai ser o rosto e o mediador da caridade da Igreja de Roma. O seu estatuto militar permitia-lhe o acesso a muitos lugares de necessidade.
O estilo de proximidade é proposto por Jesus a todos os seus discípulos. Desde o início da sua vida pública, o nosso Mestre e Senhor chocava pela sua proximidade revolucionária em relação aos pecadores, aos impuros e a outros que os costumes da época afastavam e separavam. Tocar o leproso, levantar pela mão a sogra de Pedro que estava de cama com febre, sentar-se à mesa com pecadores, eram gestos de proximidade inusitada. A quem lhe perguntou “quem é o meu próximo”, Jesus contou a parábola do bom samaritano para concluir: procede assim, faz-te próximo do que está caído à beira da estrada da vida, levanta-o, coloca-o aos ombros se for necessário, cuida dele enquanto ele precisar. Portanto, não basta saber quem é o meu próximo. Importante é tornar-me próximo daquele que precisa da minha ajuda.
É esta proximidade que o Papa Francisco pede hoje aos cristãos que formam a Igreja. Num mundo marcado pela indiferença e por forte individualismo, a Igreja de Jesus, diz o Papa, deve tornar-se um hospital de campanha, próxima dos que sofrem, dedicada a curar as feridas e a erguer os que estão caídos. E a Igreja somos nós chamados a ser próximos de todos quantos sofrem tribulações.
3.      Alegria em dar e em se dar
“A felicidade está mais em dar do que em receber”. É São Paulo que nos recorda esta afirmação de Jesus e confirma-a com a sua própria experiência. Também Paulo, o apóstolo das gentes, sentia felicidade em dar e refere, a propósito, que, na sua afadigada vida de evangelizador, ainda encontrava tempo para fabricar tendas com as suas mãos e assim podia prover às suas necessidades e dos companheiros e ajudar outros mais necessitados (Atos 20, 34-35)
Muita gente pensa e age como se a felicidade estivesse apenas em receber e a doação fosse um sacrifício que empobrece. A mentalidade reinante sensibiliza-nos mais para receber do que para dar. Serão as pessoas mais felizes só por receber?
Descobrimos muita gente de todas as idades, designadamente jovens, que encontra a felicidade em dar e em se dar. No voluntariado, no cuidado dos mais desvalidos e frágeis. São muitos os que tocam as feridas das pessoas para as curarem. E sentem-se felizes, realizados. De facto, ser generoso, abrir as mãos para a partilha faz bem à autoestima e à saúde espiritual e física. Dar e dar-se gera uma personalidade positiva e irradiante. Por isso, não nos apressemos apenas para receber mas adiantemo-nos também para dar.
Na linha do evangelho, a doação verdadeira não se limita a partilhar bens. Deve ser mais profunda e ir mais longe, conduz a dar-se a si mesmo, como o Senhor que, por nós, se entregou. Assim recomenda São Paulo aos Romanos: “Peço-vos irmãos que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Não vos conformeis com este mundo; mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”(Rm 12, 1-2). Esforcemo-nos, pois, por dar afeto, estima, atenção, fazendo da vida uma oferta e unindo-a à oferta de Jesus. Rezemos com Santo Inácio de Loiola: “Tomai Senhor e recebei tudo o que tenho e tudo o que possuo. Vós mo destes, a Vós Senhor o restituo”.
A doação suprema é o martírio. Só a fé muito firme e o desejo profundo de estar com Cristo e se assemelhar a Ele na entrega à morte, pode explicar a doação do martírio. Como escreveu Santo Inácio de Antioquia: “Estou disposto a morrer de bom grado por Deus (…).Deixai-me ser pasto das feras pelas quais poderei chegar à posse de Deus (..) Procuro Aquele que por nós morreu; quero estar com Aquele que para nós ressuscitou (…). Estou prestes a nascer”. São Sebastião atingiu esta doação admirável. Por isso, alcançou a vitória sobre a morte e recebeu de Deus a coroa da eterna glória. Assim nos ensina como conclusão para a peregrinação terrena: “a graça vale mais do que a vida, por isso os meus lábios hão-de cantar-vos louvores”…»