- DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO
CUIDADO DA CRIAÇÃO
Instituído na Igreja Católica,
em 2015, pelo Papa Francisco, é celebrado no dia 1 de Setembro de cada ano. Em
comunhão com outras Igreja Cristãs, este dia pretende ser uma forte chamada de
atenção para os graves problemas ecológicos que afectam a humanidade. Este dia,
disse o Papa, “oferecerá aos fiéis individualmente e às comunidades a preciosa
oportunidade de renovar a pessoal adesão à própria vocação de custódios da
criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou
ao nosso cuidado; invocando a sua ajuda
para a protecção da criação; invocando a sua misericórdia pelos pecados
cometidos contra o mundo em que vivemos…”
MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 4º “DIA
MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO”
Caros irmãos e irmãs!
Neste Dia de Oração, desejo, em primeiro lugar, agradecer ao
Senhor pelo dom da casa comum e por todos os homens de boa vontade que estão
comprometidos em protegê-la. Agradeço, também, pelos numerosos projectos que
visam promover o estudo e a protecção dos ecossistemas, pelos esforços
destinados a desenvolver uma agricultura mais sustentável e uma alimentação
mais responsável, pelas diversas iniciativas educacionais, espirituais e
litúrgicas que envolvem muitos cristãos, em todo o mundo, no cuidado da
criação.
Devemos reconhecê-lo: não soubemos proteger a criação com
responsabilidade. A situação ambiental, quer a nível global, quer em muitos
lugares específicos, não pode ser considerada satisfatória. Com razão, surgiu a
necessidade de uma relação renovada e saudável entre a humanidade e a criação,
a convicção de que apenas uma visão do homem autêntica e integral nos permitirá
cuidar melhor do nosso planeta para o benefício das gerações presentes e
futuras, pois «não há ecologia sem uma adequada antropologia» (Carta Enc.
Laudato si’, 118).
Neste Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação - que a Igreja
Católica há alguns anos celebra em união com os irmãos e irmãs ortodoxos, e com
o apoio de outras Igrejas e Comunidades cristãs - gostaria de chamar a atenção
para a questão da água, elemento tão simples e precioso, cujo acesso,
infelizmente, é difícil para muitos, se não impossível. No entanto, «o acesso à
água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal,
porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o
exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social
para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes
o direito à vida, radicado na sua dignidade inalienável» (ibid., 30).
A água convida-nos a reflectir sobre as nossas origens. A maior
parte do corpo é composta de água; e muitas civilizações, na história, surgiram
nas proximidades de grandes cursos de água que marcaram a sua identidade. É
sugestiva a imagem utilizada no início do Génesis, em que se diz que, nas
origens, o espírito do Criador «pairava sobre as águas» (1,2).
Pensando no seu papel fundamental na criação e no desenvolvimento
humano, sinto a necessidade de dar graças a Deus pela «irmã água», simples e útil,
sem nada de parecido para a vida no planeta. Precisamente, por esse motivo,
cuidar de fontes e bacias hídricas é um imperativo urgente. Hoje, mais do que
nunca, é necessário um olhar que ultrapasse o imediato (cf. Carta Enc. Laudato
si’, 36), além de «critério utilitarista de eficiência e produtividade para
lucro individual» (ibid., 159). Precisa-se, urgentemente, de projectos
conjuntos e de acções concretas, tendo em conta que é inaceitável qualquer
privatização do bem natural da água, que seja contrária ao direito humano de
poder ter acesso a ela.
Para nós cristãos, a água é um elemento essencial de purificação e
de vida. O pensamento vai imediatamente para o Baptismo, sacramento do nosso
renascimento. A água santificada pelo Espírito é a matéria pela qual Deus nos
vivificou e nos renovou; é a fonte abençoada de uma vida que não morre mais. O
Baptismo representa também, para os cristãos de diferentes confissões, o ponto
de partida real e indispensável para viver uma fraternidade cada vez mais
autêntica, no caminho da plena unidade. Jesus, durante a sua missão, prometeu
uma água capaz de saciar, para sempre, a sede do homem (cf. Jo 4,14), e
profetizou: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7,37). Ir a Jesus,
beber d’Ele significa encontrá-Lo pessoalmente como Senhor, extraindo da sua
Palavra o sentido da vida. Que possam ressoar em nós, com força, as palavras
que Ele pronunciou na cruz: «Tenho sede» (Jo19, 28). O Senhor continua a pedir
para ser saciado na sua sede, pois tem sede de amor. Ele pede-nos para dar-Lhe
de beber nos muitos sedentos de hoje, para então nos dizer: «Eu estava com sede
e destes-me de beber» (Mt 25,35). Dar de beber, na aldeia global, não envolve
apenas gestos pessoais de caridade, mas escolhas concretas e compromisso
constante de garantir a todos o bem primário da água.
Gostaria, também, de tocar na questão dos mares e dos oceanos.
Devemos agradecer ao Criador pelo dom imponente e maravilhoso das grandes águas
e de quanto elas contêm (cf. Gen 1,20-21; Sl 146,6), e louvá-Lo por ter coberto
a terra com os oceanos (cf. Sl 104,6). Orientar os nossos pensamentos para as
imensas extensões marinhas, em constante movimento, representa também, em certo
sentido, uma oportunidade para pensar em Deus, que acompanha constantemente a
sua criação, fazendo com que siga adiante, mantendo-a na existência (cf. S.
João Paulo II, Catequese, 7 de Maio de 1986).
Proteger esse bem inestimável, todos os dias, representa, hoje,
uma responsabilidade imperiosa, um desafio real: é necessária uma cooperação eficaz
entre os homens de boa vontade para colaborar na obra contínua do Criador.
Infelizmente, muitos esforços desaparecem devido à falta de regulamentação e de
controlos efectivos, especialmente no que diz respeito à protecção das áreas
marinhas para além das fronteiras nacionais (cf. Carta Enc. Laudato si’, 174).
Não podemos permitir que os mares e oceanos se encham com extensões inertes de
plástico flutuante. Também, para essa emergência, somos chamados a comprometer-nos,
com uma mentalidade activa, rezando como se tudo dependesse da Providência
divina e agindo como se tudo dependesse de nós.
Rezemos para que as águas não sejam um sinal de separação entre os
povos, mas de encontro para a comunidade humana. Rezemos para que sejam
protegidas aquelas pessoas que arriscam as suas vidas no meio das ondas, em
busca de um futuro melhor. Peçamos ao Senhor, e àqueles que realizam o alto
serviço da política, que as questões mais delicadas da nossa época, tais como
as relacionadas com a migração, com a mudança climática, com o direito para
todos de usufruírem dos bens primários, sejam encaradas com responsabilidade,
com previsão, olhando para o amanhã, com generosidade e com espírito de
cooperação, especialmente entre os países que têm maior disponibilidade.
Rezemos por aqueles que se dedicam ao apostolado do mar; por aqueles que ajudam
a reflectir sobre os problemas com que se debatem os ecossistemas marítimos;
por aqueles que contribuem para o desenvolvimento e a aplicação de regulamentos
internacionais sobre os mares, para que possam tutelar as pessoas, os Países,
os bens, os recursos naturais – penso, por exemplo, na fauna e na flora
marinha, bem como nos recifes de coral (cf. ibid., 41) ou nos fundos marinhos –
garantindo um desenvolvimento integral na perspectiva do bem comum de toda a
família humana e não de interesses particulares. Lembremos, também, todas as pessoas
que trabalham na protecção das áreas marítimas, na tutela dos oceanos e sua
biodiversidade, para que possam realizar essa tarefa com responsabilidade e
honestidade.
Por fim, preocupemo-nos com as jovens gerações e rezemos por elas,
para que cresçam no conhecimento e no respeito pela casa comum e no desejo de
cuidar do bem essencial da água para o benefício de todos. O meu desejo é que
as comunidades cristãs contribuam, cada vez mais concretamente, para que todos
possam usufruir deste recurso indispensável, no cuidado respeitoso dos dons
recebidos do Criador, em particular dos cursos de água, mares e oceanos.
Vaticano, 1 de Setembro de 2018
