PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO “… O Senhor ressuscitou, verdadeiramente!…” (cf. Antífona do Domingo de Páscoa) Hoje ecoa em todo o mundo o anúncio da Igreja: «Jesus Cristo ressuscitou»; «ressuscitou verdadeiramente»! Como uma nova chama, se acendeu esta Boa Nova na noite: a noite dum mundo já a braços com desafios epocais e agora oprimido pela pandemia, que coloca à dura prova a nossa grande família humana. Nesta noite, ressoou a voz da Igreja: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» (Sequência da Páscoa). É um «contágio» diferente, que se transmite de coração a coração, porque todo o coração humano aguarda esta Boa Nova. É o contágio da esperança: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» Não se trata duma fórmula mágica, que faça desvanecerem-se os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isso. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não «salta» por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus. O Ressuscitado é o Crucificado; e não outra pessoa. Indeléveis no seu corpo glorioso, traz as chagas: feridas que se tornaram frestas de esperança. Para Ele, voltamos o nosso olhar para que sare as feridas da humanidade atribulada. Hoje penso sobretudo em quantos foram atingidos diretamente pelo coronavírus: os doentes, os que morreram e os familiares que choram a partida dos seus queridos e por vezes sem conseguir sequer dizer-lhes o último adeus. O Senhor da vida acolha junto de Si no seu Reino os falecidos e dê conforto e esperança a quem ainda está na prova, especialmente aos idosos e às pessoas sem ninguém. Não deixe faltar a sua consolação e os auxílios necessários a quem se encontra em condições de particular vulnerabilidade, como aqueles que trabalham nas casas de cura ou vivem nos quartéis e nas prisões. Para muitos, é uma Páscoa de solidão, vivida entre lutos e tantos incómodos que a pandemia está a causar, desde os sofrimentos físicos até aos problemas económicos. Esta epidemia não nos privou apenas dos afetos, mas também da possibilidade de recorrer pessoalmente à consolação que brota dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Reconciliação. Em muitos países, não foi possível aceder a eles, mas o Senhor não nos deixou sozinhos! Permanecendo unidos na oração, temos a certeza de que Ele colocou sobre nós a sua mão (cf. Sal 139/138, 5), repetindo a cada um com veemência: Não tenhas medo! «Ressuscitei e estou contigo para sempre» (cf. Missal Romano). Jesus, nossa Páscoa, dê força e esperança aos médicos e enfermeiros, que por todo o lado oferecem um testemunho de solicitude e amor ao próximo até ao extremo das forças e, por vezes, até ao sacrifício da própria saúde. Para eles, bem como para quantos trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais necessários à convivência civil, para as forças da ordem e os militares que em muitos países contribuíram para aliviar as dificuldades e tribulações da população, vai a nossa saudação afetuosa juntamente com a nossa gratidão. Nestas semanas, alterou-se improvisamente a vida de milhões de pessoas. Para muitos, ficar em casa foi uma ocasião para refletir, parar os ritmos frenéticos da vida, permanecer com os próprios familiares e desfrutar da sua companhia. Mas, para muitos outros, é também um momento de preocupação pelo futuro que se apresenta incerto, pelo emprego que se corre o risco de perder e pelas outras consequências que acarreta a atual crise. Encorajo todas as pessoas que detêm responsabilidades políticas a trabalhar ativamente em prol do bem comum dos cidadãos, fornecendo os meios e instrumentos necessários para permitir a todos que levem uma vida digna e favorecer – logo que as circunstâncias o permitam – a retoma das atividades diárias habituais. Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia. Jesus ressuscitado dê esperança a todos os pobres, a quantos vivem nas periferias, aos refugiados e aos sem abrigo. Não sejam deixados sozinhos estes irmãos e irmãs mais frágeis, que povoam as cidades e as periferias de todas as partes do mundo. Não lhes deixemos faltar os bens de primeira necessidade, mais difíceis de encontrar agora que muitas atividades estão encerradas, bem como os medicamentos e sobretudo a possibilidade duma assistência sanitária adequada. Em consideração das presentes circunstâncias, sejam abrandadas também as sanções internacionais que impedem os países visados de proporcionar apoio adequado aos seus cidadãos e seja permitido a todos os Estados acudir às maiores necessidades do momento atual, reduzindo – se não mesmo perdoando – a dívida que pesa sobre os orçamentos dos mais pobres. Este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas. Dentre as muitas áreas do mundo afetadas pelo coronavírus, penso de modo especial na Europa. Depois da II Guerra Mundial, este Continente pôde ressurgir graças a um espírito concreto de solidariedade, que lhe permitiu superar as rivalidades do passado. É muito urgente, sobretudo nas circunstâncias presentes, que tais rivalidades não retomem vigor; antes, pelo contrário, todos se reconheçam como parte duma única família e se apoiem mutuamente. Hoje, à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o futuro dela, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar à dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações. Este não é tempo para divisões. Cristo, nossa paz, ilumine a quantos têm responsabilidades nos conflitos, para que tenham a coragem de aderir ao apelo a um cessar-fogo global e imediato em todos os cantos do mundo. Este não é tempo para continuar a fabricar e comercializar armas, gastando somas enormes que deveriam ser usadas para cuidar das pessoas e salvar vidas. Ao contrário, seja o tempo em que finalmente se ponha termo à longa guerra que ensanguentou a amada Síria, ao conflito no Iémen e às tensões no Iraque, bem como no Líbano. Seja este o tempo em que israelitas e palestinianos retomem o diálogo para encontrar uma solução estável e duradoura que permita a ambos os povos viverem em paz. Cessem os sofrimentos da população que vive nas regiões orientais da Ucrânia. Ponha-se termo aos ataques terroristas perpetrados contra tantas pessoas inocentes em vários países da África. Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas. Que o Senhor da vida Se mostre próximo das populações da Ásia e da África que estão a atravessar graves crises humanitárias, como na Região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Acalente o coração das inúmeras pessoas refugiadas e deslocadas por causa de guerras, seca e carestia. Proteja os inúmeros migrantes e refugiados, muitos deles crianças, que vivem em condições insuportáveis, especialmente na Líbia e na fronteira entre a Grécia e a Turquia. E não quero esquecer a ilha de Lesbos. Faça com que na Venezuela se chegue a soluções concretas e imediatas, destinadas a permitir a ajuda internacional à população que sofre por causa da grave conjuntura política, socioeconómica e sanitária. Queridos irmãos e irmãs, Verdadeiramente palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo. Mais, queremos bani-las de todos os tempos! Aquelas parecem prevalecer quando em nós vencem o medo e a morte, isto é, quando não deixamos o Senhor Jesus vencer no nosso coração e na nossa vida. Ele, que já derrotou a morte abrindo-nos a senda da salvação eterna, dissipe as trevas da nossa pobre humanidade e introduza-nos no seu dia glorioso, que não conhece ocaso. Com estas reflexões, gostaria de vos desejar a todos uma Páscoa feliz. (Mensagem do Papa Francisco na Bênção Urbi et Orbe, no Domingo de Páscoa de 2020).

terça-feira, 18 de setembro de 2018

SANTOS POPULARES



BEATA LEONELLA SGORBATI

Rosa Maria Sgorbati nasceu no dia 9 de Dezembro de 1940, em Rezzanello di Gazzola, na província e diocese de Piacenza. Foi a última dos três filhos de Carlo Sgorbati, um trabalhador agrícola, e de Giovannina Vigilini, também conhecida por Teresa, que era dona de casa. Foi baptizada no mesmo dia do nascimento, na Paróquia de San Savino, em Rezzanello. Recebeu o nome de Rosa Maria mas, no registro civil, consta apena o nome Rosa.
Na sua grande família, constituída por vinte e uma pessoas, incluindo vários parentes, Rosita - como todos a chamavam - tinha muitos exemplos de fé: a sua mãe, depois dos trabalhos do campo, passava frequentemente pela Igreja para levar flores a Nossa Senhora ou para fazer a visita ao Santíssimo Sacramento. Ao colo do seu pai, Rosita aprendeu a rezar.
Foi uma criança serena e feliz, embora, ocasionalmente, tivesse um comportamento irrequieto, tanto que a sua mãe, um dia, desabafou: "Quando for grande, quanto me fará sofrer!”
Nos jogos com os seus companheiros, manifestava o seu espírito de leader, mas não de uma maneira soberba. Frequentou o jardim-de-infância e a escola básica nas Irmãs Ursulinas de Maria Imaculada, que tinham aberto uma sua casa, no antigo castelo de Rezzanello.
Não se sabe quanto é que Rosita fez a sua Primeira Comunhão: provavelmente, de acordo com o uso da época, tê-la-ia feito entre os dez e os onze anos. Em contrapartida, preparou-se bem para a Confirmação, realizada no dia 26 de Maio 1947, na igreja paroquial de Nossa Senhora da Assunção, em Aguzzano, e administrada por D. Ercílio Menzani, bispo de Piacenza.
Rosita tinha aprendido que era necessário estar atenta às necessidades dos outros. Quando tinha permissão para acompanhar a sua mãe ao mercado, em Gazzola, visitava uma mulher, Marietta, e os seus filhos. Vendo que ela passava muito frio, decidiu comprar-lhe um xaile, com o dinheiro que os seus pais lhe davam para as suas pequenas despesas.
Para providenciar uma melhoria económica para a família, o seu pai decidiu iniciar um negócio de revenda de frutas e legumes, em Sesto San Giovanni, na província e diocese de Milão. Por isso, toda a família se transferiu para esta cidade, em 9 de Outubro de 1950.
Rosita sofreu muito ao saber que ia deixar os lugares onde tinha crescido. Assim, tentou fugir, escondendo-se num camião, mas as saudades da família fizeram-na regressar a casa, ao fim de algum tempo. Rosita não se sentia à vontade, neste novo ambiente, também devido ao facto de a terem repreendido, dizendo: “Tens de mudar completamente” O seu sofrimento tornou-se mais forte quando, em 16 de julho de 1951, o seu pai, Carlo, com 61 anos, faleceu.
Pouco tempo depois, Rosita descobriu que iria fazer os estudos secundários, internada num colégio. Naturalmente, veio ao seu pensamento uma interrogação: “Não sabia que era tão malvada?!” Então, começou a frequentar o Colégio das Irmãs do Preciosíssimo Sangue, em Monza, conhecidas por “Preciosinas”.
Também, a vida no Colégio lhe parecia insuportável. No entanto, um dia, uma das religiosas - a Irmã Adriana Sala - aproximou-se dela e entregou-lhe um pequeno livro: era o Evangelho. A partir daí, Rosita começou a ler e a meditar a Palavra de Deus e passar muito tempo na capela do Colégio.
Em Abril de 1952, precisamente quando rezava na capela, Rosita teve uma experiência especial. Mais tarde, escreveu no seu diário: “... Senti-me habitada naquele dia já distante... e tu acolheste-me em Ti, meu Senhor, ou - melhor dizendo – Tu é que permaneceste em mim... Nunca mais fico sozinha… Estou habitada…” A decisão de Rosita foi pronta e clara "Tornar-me-ei religiosa".
Terminados os estudos que lhe conferiram um diploma comercial, Rosita voltou para casa. Os seus familiares ficaram admirados com a mudança que se operara nela e ficaram ainda muito mais estupefactos quando ela manifestou o seu desejo de se fazer religiosa, respondendo ao desígnio da sua vocação. A mãe, porém, obrigou-a a esperar, até que fizesse vinte anos.
Participando na vida da Paróquia de São José, em Sesto San Giovanni, e frequentando o Oratório, Rosita procurou ultrapassar aquela momentânea desilusão. Inscreveu-se na Acção Católica e começou a visitar os doentes, todas as quartas-feiras. Conseguiu, também, fazer amizades, sobretudo com Josefina que se tornou a sua melhor amiga e que a ajudou a discernir melhor o rumo da sua vocação que, entretanto, se clarificou no íntimo do seu coração: ser religiosa missionária.
Nas actividades do Oratório, ouvira falar das Missionárias da Consolata, uma congregação feminina fundada pelo Padre José Allamano (beatificado em 1990) depois de ter já fundado os Missionários da Consolata. Então, quando fez vinte anos, foi ter com a mãe e disse-lhe: “Agora, tenho vinte anos e não mudei de ideias”.
No dia 5 de Maio de 1963, Rosita apresentou-se na casa de Sanfré, das Missionárias da Consolata. Quinze dias depois, começou a sua preparação no chamado ‘postulantado’. Nos seis meses seguintes, mostrou todas as suas melhores qualidades: a disponibilidade para todo o tipo de serviço; a alegria com que o realizava e o sorriso que a tornava familiar a todas as Irmãs. Em Novembro de 1963, terminado o postulantado, recebeu o hábito de religiosa e mudou o seu nome, adoptando o de Leonella: Irmã Leonella.
Iniciou o noviciado, no dia 21 de Novembro de 1963, na casa generalícia de Nepi. Sob a direcção da mestra de noviças, a Irmã Paulina Emiliani, aprendeu a ser ainda mais fiel ao projecto missionário, querido pelo Padre Allamano, com base nos seus escritos e no testemunho das outras Irmãs. Em 22 de Novembro de 1965, fez a sua primeira profissão religiosa.
Nessa altura, a irmã Leonella foi para a Inglaterra, para frequentar a Escola de Enfermagem. O contacto com o sofrimento físico de muitos doentes e com a morte levou-a a confidenciar à sua superiora-geral: "Ou se acredita em Deus e, quando não se pode fazer outra coisa, devemos amá-lo, amá-lo, amá-lo... ou não se acredita e, então, há apenas o desespero! Sou extremista? Não sei!... mas não vejo outro caminho senão estes dois: ou Deus ou a escuridão do nada... ».
A escola de obstetrícia de Midwifery ficava a cinquenta quilómetros da casa das Missionárias; por conseguinte, voltar para casa era sempre, para a Irmã Leonella, uma alegria. Uma noite, apresentou-se, no espaço do recreio comunitário, usando um bigode de plástico: "Cada freira colocá-lo-á e começará a falar; depois, passá-lo-á à Irmã da sua direita e assim por diante, até que o círculo esteja fechado ”. Esse episódio foi muito útil porque permitiu que cada religiosa saísse de si mesma e falasse das suas coisas, das suas inquietações e das suas alegrias.
Estudando como funcionava o corpo humano, conseguiu encontrar um modo de conjugar a competência médica com a fé: "Eu creio; creio e, constantemente, rezo ao Senhor a minha vontade de fé, o meu desejo de luz, luz e luz! Madre: como a fé é bela! Com fé, tudo é mais fácil!”, escreveu à superiora-geral.
Em 1969, recebeu o diploma de “Enfermeira” e, em 1970, concluiu a primeira parte do curso de Midwifery. Em 19 de Novembro de 1972, fez os votos perpétuos, consagrando-se, para sempre, ao apostolado missionário. Naquela ocasião, escreveu no seu diário: "Ó Senhor, que a minha vida seja uma resposta".
A Irmã Leonella foi designada para a missão no Quénia, mais precisamente, para Nkubu, na região de Meru. No hospital desta missão e na sua escola de enfermagem, trabalhavam as Irmãs Missionárias da Consolata.
A Irmã Leonella ficou encarregada, especialmente, da maternidade e acompanhava um grande grupo de parteiras. Mais tarde, tornou-se directora da escola de enfermagem. Nesta função, ensinava não apenas as competências técnicas necessárias aos profissionais de saúde, mas também a serem capazes de acolher o doente com compreensão e amor.
Profundamente convicta da beleza da vocação missionária, estava atenta para acolher os sinais de vocação em alguma jovem. Era capaz de passar uma semana inteira a rezar, a fim de obter de Deus a consagração daqueles sobre os quais tinha caído o seu olhar.
No VII Capítulo-Geral das Missionárias da Consolata, realizado em 1993, a Irmã Leonella apresentou um relatório dos vinte anos da sua experiência missionária, juntamente com as solicitações das comunidades do Quénia. Logo a seguir, as Irmãs capitulares elegeram-na superiora-regional.
Numa das suas cartas circulares, dirigida às várias comunidades, escreveu: "Nós, quer individualmente, quer como comunidade, devemos tornar-nos disponíveis para o processo da Encarnação do Filho em nós, para poder ser em nós a Consolação do Pai. O que significa isto, na prática? Significa aceitar que o Filho seja livre em cada uma de nós, em mim; livre para perdoar, através de minha pessoa, àqueles que me ofendem; livre para partir o pão da bondade, da compreensão, na minha comunidade; livre para fazer-me percorrer o itinerário que o Pai o fez percorrer, com as escolhas que o Pai indica. Livre para me fazer trilhar o caminho da paciência, da mansidão, da humildade que passa pela humilhação... Livre para poder dizer, através de mim: ‘o Espírito do Senhor está sobre mim ... me consagrou e me envia a levar a boa nova aos pobres, a liberdade aos prisioneiros... a anunciar o ano da consolação; a reconstruir as ruínas antigas... Livre para amar, através de mim, com o Amor maior, o Amor que vai até o fim, que é mais forte do que o ódio e do que o inferno... na verdade, na prática de todos os dias e de todos os momentos ".
Quando terminou o seu mandato, a Irmã Leonella entrou a fazer parte da equipe dos sabáticos, isto é, cuidar das missionárias que precisavam de algum tempo para descansar. De 2000 a 2005, dedicou as suas atenções às irmãs que estavam de passagem, prestando-lhes os seus serviços, mesmo os mais humildes.
O seu carácter havia perdido a aspereza dos primeiros tempos: da teimosa, mesmo frente às maiores dificuldades, tornou-se mais humilde e paciente. Tinha uma única preocupação: "Gostaria de poder dizer que o pouco que fiz, fi-lo apenas para Deus".
Em Novembro de 2001, a Irmã Leonella foi enviada para uma pequena comunidade que as Missionárias da Consolata tinham na Somália. Deveria fundar uma escola de enfermagem, em Mogadíscio - a capital - como aquela de que se ocupara, no Quénia, em colaboração com a ONG ‘Aldeia das Crianças SOS’.
O desafio não era fácil: em primeiro lugar, devia provar que as ideias científicas que ela perfilhava não eram contrárias aos princípios do Alcorão. Em segundo lugar, tinha de deixar bem claro que não pretendia obrigar os estudantes a converterem-se, não fazendo, portanto, proselitismo.
A pequena comunidade não tinha capelão, nem mesmo ocasional. As Irmãs eram a única presença cristã, naquela terra. A presença de Jesus na Eucaristia foi, no entanto, assegurada, embora as freiras a conservassem num móvel, escondido num canto do corredor da sua casa: era o único Sacrário em toda a Somália.
Em 2006, a irmã Leonella voltou a Itália, onde esteve durante um curto período de tempo, participando no chamado ‘Mês Allamaniano’: um tempo de oração e reflexão pessoal para as Missionárias, centrado na meditação da Palavra de Deus e nos escritos do fundador e com momentos de livres para a contemplação e a adoração do Santíssimo Sacramento.
A Irmã Leonella escreveu no seu diário o que o Senhor lhe comunicou naquele momento da sua vida. Meditando sobre o capítulo VI, do Evangelho de João, anotou com admiração: "Se o meu corpo e o Seu são um só; se o Seu sangue e o meu são um só, então é possível ser sempre, n’Ele, dom de amor, dom d’Ele para todos. Sempre, em qualquer momento! Então é possível testemunhar, sempre, que Ele está connosco e nos ama ".
Por ocasião de uma visita ao Santuário da Consolata - que Allamano ajudou a restaurar e a engrandecer - confiou-se completamente a Nossa Senhora. Sentiu-se chamada, como sugeria a passagem do Evangelho daquele dia, a morrer para dar fruto.
No período em que foi superiora-regional, a Irmã Leonella ficou muito impressionada com a história dos sete monges trapistas, assassinados na Argélia, em Tibhirine, em 1996. Comprou livro que foi publicado, contando a história desta chacina e ofereceu um exemplar a todas as comunidades da região. "Vem-me à mente uma frase do livro “Mais fortes do que o ódio”: ‘… o martírio não pode ser visto como uma proeza heróica, como um gesto de pessoas corajosas, mas como o desenrolar natural de uma vida doada' » .
Na Somália, o risco era constante, tanto mais que, na imprensa local, continuavam as ameaças contra as Irmãs e o seu trabalho no hospital. Referindo-se ao facto de uma das Irmãs - a Irmã Marzia Feurra – ter escapado a uma situação de perseguição e violência, que a tinha deixado muito abalada, a Irmã Leonella procurou desdramatizar a situação, dizendo: "Quem sabe se um dia não haverá uma bala, também para mim, da parte dos meus amigos fundamentalistas", mas, acrescentou: «Estou nas mãos de Deus, pronta para tudo».
No dia da entrega dos diplomas aos novos enfermeiros, dez rapazes e dez raparigas, a irmã Leonella preparou uma grande festa. Para tornar este momento ainda mais solene, fez com que usassem a toga típica dos recém-formados. Esse evento, também transmitido pela televisão, levou os fundamentalistas a pensarem que a Irmã tivesse convertido todos aqueles jovens, apresentando-os vestidos como padres.
Um mês depois, a Irmã Leonella notou que um homem suspeito rondava a Escola: aproximou-se dela, olhou-a fixamente mas não disse nada. No dia 12 de Setembro de 2006, o Papa Bento XVI mencionou - num discurso, em Regensburg, na Alemanha - uma frase do imperador Manuel II Paleólogo, particularmente dura contra o Islão. Essa expressão provocou reações muito violentas em todo o mundo muçulmano. Conhecedora do impacto daquela notícia, a Irmã Leonella convidou as outras freiras a rezar pelo Papa e pela Igreja.
O dia 17 de Setembro de 2006, um Domingo, estava a ser um dia cheio de trabalho para a Irmã Leonella. Ao meio-dia, a Irmã Leonella, ao sair da Escola de enfermagem, foi ladeado pelo seu guarda-costas, Mohamed Mahamud - [As irmãs eram sempre acompanhadas pelos seguranças, mesmo em distâncias curtas] - e começou a atravessar a estrada que separava a Escola da Aldeia das Crianças SOS, onde morava.
Depois de ter dado alguns passos, ouviu-se um tiro: a Irmã Leonella caiu por terra. Tentou levantar-se, mas outras balas derrubaram-na, definitivamente. Algumas pessoas levaram-na, imediatamente, para o hospital. Ao ver que alguns populares saíam em perseguição do agressor, a Irmã disse: "Deixai-o ir; é um pobre coitado". O seu guarda-costas foi, também, mortalmente ferido.
A Irmã Marzia e a Irmã Gianna Irene Peano ouviram os tiros e ficaram imediatamente preocupadas. Assim que souberam que a Irmã Leonella estava ferida, correram para o hospital. Os estudantes faziam fila para dar-lhe do sangue, enquanto os médicos tentavam, a todo o custo, salvar-lhe a vida.
Segundo o testemunho da Irmã Gianna Irene, o seu rosto expressava paz, mas parecia que ainda queria dizer alguma coisa. Com todas as forças que, ainda, lhe restavam, disse num sussurro: "Perdão, perdão, perdão". Quando o cirurgião chegou, já só pôde confirmar a sua morte: eram 13h45, do dia 17 de Setembro de 2006. A irmã Leonella tinha sessenta e seis anos, trinta e seis dos quais vividos nas missões, em África.
O seu corpo foi levado para Nairóbi, onde se realizou o seu funeral, no dia 21 de Setembro. Estiveram presentes as autoridades civis, os Missionários e as Missionárias da Consolata, os alunos da Escola de Enfermagem e uma multidão considerável de homens e mulheres que reconheciam a bondade, a dedicação e o serviço da Irmã Leonella.
Na homilia da missa, Dom Giorgio Bertin, actual Bispo de Djibuti, disse: "A Irmã Leonella estava convencida de que era possível uma nova Somália, curada do flagelo da guerra civil [...] A sua vida, o seu sorriso e a sua inocência dizem-nos que é possível um mundo novo, uma Somália. Ela foi inspirada pela convicção de que o mundo novo que Jesus veio anunciar já começou aqui na Terra. E não é uma coincidência que tenha morrido ao lado de um homem muçulmano. [...] Viver juntos, apesar das diferenças, requer a conversão do coração, esperança, determinação e perseverança ".
No dia 24 de Setembro, na Oração do Angelus, em Roma, o Papa Bento XVI recordou Irmã Leonella, dizendo: "Esta Irmã, que servia os pobres e os pequenos na Somália, morreu pronunciando a palavra "perdão”. Eis o mais autêntico testemunho cristão, sinal pacífico de contradição e que anuncia a vitória do amor sobre o ódio e o mal ".
No dia 8 de Novembro 2017, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto que reconhecia o martírio da Irmã Leonella, motivado pelo ódio à fé católica.
A Irmã Leonella Sgorbati foi beatificada pelo Papa Francisco, no dia 26 de Maio de 2018. A celebração, na Catedral de Piacenza - Itália, foi presidida pelo Cardeal Angelo Amato, em nome e em representação do Papa.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 17 de Setembro. (cf. Santi e beati…)