BEATA LEONELLA SGORBATI
Rosa Maria Sgorbati nasceu no dia 9 de Dezembro de
1940, em Rezzanello di Gazzola, na província e diocese de Piacenza. Foi a
última dos três filhos de Carlo Sgorbati, um trabalhador agrícola, e de
Giovannina Vigilini, também conhecida por Teresa, que era dona de casa. Foi
baptizada no mesmo dia do nascimento, na Paróquia de San Savino, em Rezzanello.
Recebeu o nome de Rosa Maria mas, no registro civil, consta apena o nome Rosa.
Na sua grande família, constituída por vinte e uma
pessoas, incluindo vários parentes, Rosita - como todos a chamavam - tinha
muitos exemplos de fé: a sua mãe, depois dos trabalhos do campo, passava
frequentemente pela Igreja para levar flores a Nossa Senhora ou para fazer a
visita ao Santíssimo Sacramento. Ao colo do seu pai, Rosita aprendeu a rezar.
Foi uma criança serena e feliz, embora,
ocasionalmente, tivesse um comportamento irrequieto, tanto que a sua mãe, um
dia, desabafou: "Quando for grande, quanto me fará sofrer!”
Nos jogos com os seus companheiros, manifestava o seu
espírito de leader, mas não de uma maneira soberba. Frequentou o
jardim-de-infância e a escola básica nas Irmãs Ursulinas de Maria Imaculada,
que tinham aberto uma sua casa, no antigo castelo de Rezzanello.
Não se sabe quanto é que Rosita fez a sua Primeira
Comunhão: provavelmente, de acordo com o uso da época, tê-la-ia feito entre os
dez e os onze anos. Em contrapartida, preparou-se bem para a Confirmação,
realizada no dia 26 de Maio 1947, na igreja paroquial de Nossa Senhora da
Assunção, em Aguzzano, e administrada por D. Ercílio Menzani, bispo de
Piacenza.
Rosita tinha aprendido que era necessário estar atenta
às necessidades dos outros. Quando tinha permissão para acompanhar a sua mãe ao
mercado, em Gazzola, visitava uma mulher, Marietta, e os seus filhos. Vendo que
ela passava muito frio, decidiu comprar-lhe um xaile, com o dinheiro que os
seus pais lhe davam para as suas pequenas despesas.
Para providenciar uma melhoria económica para a
família, o seu pai decidiu iniciar um negócio de revenda de frutas e legumes,
em Sesto San Giovanni, na província e diocese de Milão. Por isso, toda a
família se transferiu para esta cidade, em 9 de Outubro de 1950.
Rosita sofreu muito ao saber que ia deixar os lugares
onde tinha crescido. Assim, tentou fugir, escondendo-se num camião, mas as
saudades da família fizeram-na regressar a casa, ao fim de algum tempo. Rosita
não se sentia à vontade, neste novo ambiente, também devido ao facto de a terem
repreendido, dizendo: “Tens de mudar completamente” O seu sofrimento tornou-se
mais forte quando, em 16 de julho de 1951, o seu pai, Carlo, com 61 anos,
faleceu.
Pouco tempo depois, Rosita descobriu que iria fazer os
estudos secundários, internada num colégio. Naturalmente, veio ao seu pensamento
uma interrogação: “Não sabia que era tão malvada?!” Então, começou a frequentar
o Colégio das Irmãs do Preciosíssimo Sangue, em Monza, conhecidas por
“Preciosinas”.
Também, a vida no Colégio lhe parecia insuportável. No
entanto, um dia, uma das religiosas - a Irmã Adriana Sala - aproximou-se dela e
entregou-lhe um pequeno livro: era o Evangelho. A partir daí, Rosita começou a
ler e a meditar a Palavra de Deus e passar muito tempo na capela do Colégio.
Em Abril de 1952, precisamente quando rezava na capela,
Rosita teve uma experiência especial. Mais tarde, escreveu no seu diário: “...
Senti-me habitada naquele dia já distante... e tu acolheste-me em Ti, meu
Senhor, ou - melhor dizendo – Tu é que permaneceste em mim... Nunca mais fico
sozinha… Estou habitada…” A decisão de Rosita foi pronta e clara
"Tornar-me-ei religiosa".
Terminados os estudos que lhe conferiram um diploma
comercial, Rosita voltou para casa. Os seus familiares ficaram admirados com a
mudança que se operara nela e ficaram ainda muito mais estupefactos quando ela
manifestou o seu desejo de se fazer religiosa, respondendo ao desígnio da sua
vocação. A mãe, porém, obrigou-a a esperar, até que fizesse vinte anos.
Participando na vida da Paróquia de São José, em Sesto
San Giovanni, e frequentando o Oratório, Rosita procurou ultrapassar aquela
momentânea desilusão. Inscreveu-se na Acção Católica e começou a visitar os
doentes, todas as quartas-feiras. Conseguiu, também, fazer amizades, sobretudo
com Josefina que se tornou a sua melhor amiga e que a ajudou a discernir melhor
o rumo da sua vocação que, entretanto, se clarificou no íntimo do seu coração:
ser religiosa missionária.
Nas actividades do Oratório, ouvira falar das
Missionárias da Consolata, uma congregação feminina fundada pelo Padre José
Allamano (beatificado em 1990) depois de ter já fundado os Missionários da
Consolata. Então, quando fez vinte anos, foi ter com a mãe e disse-lhe: “Agora,
tenho vinte anos e não mudei de ideias”.
No dia 5 de Maio de 1963, Rosita apresentou-se na casa
de Sanfré, das Missionárias da Consolata. Quinze dias depois, começou a sua
preparação no chamado ‘postulantado’. Nos seis meses seguintes, mostrou todas
as suas melhores qualidades: a disponibilidade para todo o tipo de serviço; a
alegria com que o realizava e o sorriso que a tornava familiar a todas as
Irmãs. Em Novembro de 1963, terminado o postulantado, recebeu o hábito de
religiosa e mudou o seu nome, adoptando o de Leonella: Irmã Leonella.
Iniciou o noviciado, no dia 21 de Novembro de 1963, na
casa generalícia de Nepi. Sob a direcção da mestra de noviças, a Irmã Paulina
Emiliani, aprendeu a ser ainda mais fiel ao projecto missionário, querido pelo
Padre Allamano, com base nos seus escritos e no testemunho das outras Irmãs. Em
22 de Novembro de 1965, fez a sua primeira profissão religiosa.
Nessa altura, a irmã Leonella foi para a Inglaterra,
para frequentar a Escola de Enfermagem. O contacto com o sofrimento físico de
muitos doentes e com a morte levou-a a confidenciar à sua superiora-geral:
"Ou se acredita em Deus e, quando não se pode fazer outra coisa, devemos
amá-lo, amá-lo, amá-lo... ou não se acredita e, então, há apenas o desespero!
Sou extremista? Não sei!... mas não vejo outro caminho senão estes dois: ou
Deus ou a escuridão do nada... ».
A escola de obstetrícia de Midwifery ficava a
cinquenta quilómetros da casa das Missionárias; por conseguinte, voltar para
casa era sempre, para a Irmã Leonella, uma alegria. Uma noite, apresentou-se,
no espaço do recreio comunitário, usando um bigode de plástico: "Cada
freira colocá-lo-á e começará a falar; depois, passá-lo-á à Irmã da sua direita
e assim por diante, até que o círculo esteja fechado ”. Esse episódio foi muito
útil porque permitiu que cada religiosa saísse de si mesma e falasse das suas
coisas, das suas inquietações e das suas alegrias.
Estudando como funcionava o corpo humano, conseguiu
encontrar um modo de conjugar a competência médica com a fé: "Eu creio;
creio e, constantemente, rezo ao Senhor a minha vontade de fé, o meu desejo de
luz, luz e luz! Madre: como a fé é bela! Com fé, tudo é mais fácil!”, escreveu
à superiora-geral.
Em 1969, recebeu o diploma de “Enfermeira” e, em 1970,
concluiu a primeira parte do curso de Midwifery. Em 19 de Novembro de 1972, fez
os votos perpétuos, consagrando-se, para sempre, ao apostolado missionário.
Naquela ocasião, escreveu no seu diário: "Ó Senhor, que a minha vida seja
uma resposta".
A Irmã Leonella foi designada para a missão no Quénia,
mais precisamente, para Nkubu, na região de Meru. No hospital desta missão e na
sua escola de enfermagem, trabalhavam as Irmãs Missionárias da Consolata.
A Irmã Leonella ficou encarregada, especialmente, da
maternidade e acompanhava um grande grupo de parteiras. Mais tarde, tornou-se
directora da escola de enfermagem. Nesta função, ensinava não apenas as
competências técnicas necessárias aos profissionais de saúde, mas também a
serem capazes de acolher o doente com compreensão e amor.
Profundamente convicta da beleza da vocação
missionária, estava atenta para acolher os sinais de vocação em alguma jovem.
Era capaz de passar uma semana inteira a rezar, a fim de obter de Deus a
consagração daqueles sobre os quais tinha caído o seu olhar.
No VII Capítulo-Geral das Missionárias da Consolata,
realizado em 1993, a Irmã Leonella apresentou um relatório dos vinte anos da
sua experiência missionária, juntamente com as solicitações das comunidades do
Quénia. Logo a seguir, as Irmãs capitulares elegeram-na superiora-regional.
Numa das suas cartas circulares, dirigida às várias
comunidades, escreveu: "Nós, quer individualmente, quer como comunidade,
devemos tornar-nos disponíveis para o processo da Encarnação do Filho em nós,
para poder ser em nós a Consolação do Pai. O que significa isto, na prática?
Significa aceitar que o Filho seja livre em cada uma de nós, em mim; livre para
perdoar, através de minha pessoa, àqueles que me ofendem; livre para partir o
pão da bondade, da compreensão, na minha comunidade; livre para fazer-me
percorrer o itinerário que o Pai o fez percorrer, com as escolhas que o Pai
indica. Livre para me fazer trilhar o caminho da paciência, da mansidão, da
humildade que passa pela humilhação... Livre para poder dizer, através de mim:
‘o Espírito do Senhor está sobre mim ... me consagrou e me envia a levar a boa
nova aos pobres, a liberdade aos prisioneiros... a anunciar o ano da
consolação; a reconstruir as ruínas antigas... Livre para amar, através de mim,
com o Amor maior, o Amor que vai até o fim, que é mais forte do que o ódio e do
que o inferno... na verdade, na prática de todos os dias e de todos os momentos
".
Quando terminou o seu mandato, a Irmã Leonella entrou
a fazer parte da equipe dos sabáticos, isto é, cuidar das missionárias que
precisavam de algum tempo para descansar. De 2000 a 2005, dedicou as suas
atenções às irmãs que estavam de passagem, prestando-lhes os seus serviços,
mesmo os mais humildes.
O seu carácter havia perdido a aspereza dos primeiros
tempos: da teimosa, mesmo frente às maiores dificuldades, tornou-se mais
humilde e paciente. Tinha uma única preocupação: "Gostaria de poder dizer
que o pouco que fiz, fi-lo apenas para Deus".
Em Novembro de 2001, a Irmã Leonella foi enviada para
uma pequena comunidade que as Missionárias da Consolata tinham na Somália.
Deveria fundar uma escola de enfermagem, em Mogadíscio - a capital - como
aquela de que se ocupara, no Quénia, em colaboração com a ONG ‘Aldeia das
Crianças SOS’.
O desafio não era fácil: em primeiro lugar, devia
provar que as ideias científicas que ela perfilhava não eram contrárias aos
princípios do Alcorão. Em segundo lugar, tinha de deixar bem claro que não
pretendia obrigar os estudantes a converterem-se, não fazendo, portanto, proselitismo.
A pequena comunidade não tinha capelão, nem mesmo
ocasional. As Irmãs eram a única presença cristã, naquela terra. A presença de
Jesus na Eucaristia foi, no entanto, assegurada, embora as freiras a
conservassem num móvel, escondido num canto do corredor da sua casa: era o
único Sacrário em toda a Somália.
Em 2006, a irmã Leonella voltou a Itália, onde esteve
durante um curto período de tempo, participando no chamado ‘Mês Allamaniano’:
um tempo de oração e reflexão pessoal para as Missionárias, centrado na meditação
da Palavra de Deus e nos escritos do fundador e com momentos de livres para a
contemplação e a adoração do Santíssimo Sacramento.
A Irmã Leonella escreveu no seu diário o que o Senhor
lhe comunicou naquele momento da sua vida. Meditando sobre o capítulo VI, do
Evangelho de João, anotou com admiração: "Se o meu corpo e o Seu são um
só; se o Seu sangue e o meu são um só, então é possível ser sempre, n’Ele, dom
de amor, dom d’Ele para todos. Sempre, em qualquer momento! Então é possível
testemunhar, sempre, que Ele está connosco e nos ama ".
Por ocasião de uma visita ao Santuário da Consolata -
que Allamano ajudou a restaurar e a engrandecer - confiou-se completamente a
Nossa Senhora. Sentiu-se chamada, como sugeria a passagem do Evangelho daquele
dia, a morrer para dar fruto.
No período em que foi superiora-regional, a Irmã
Leonella ficou muito impressionada com a história dos sete monges trapistas,
assassinados na Argélia, em Tibhirine, em 1996. Comprou livro que foi
publicado, contando a história desta chacina e ofereceu um exemplar a todas as
comunidades da região. "Vem-me à mente uma frase do livro “Mais fortes do
que o ódio”: ‘… o martírio não pode ser visto como uma proeza heróica, como um
gesto de pessoas corajosas, mas como o desenrolar natural de uma vida doada' »
.
Na Somália, o risco era constante, tanto mais que, na
imprensa local, continuavam as ameaças contra as Irmãs e o seu trabalho no
hospital. Referindo-se ao facto de uma das Irmãs - a Irmã Marzia Feurra – ter
escapado a uma situação de perseguição e violência, que a tinha deixado muito
abalada, a Irmã Leonella procurou desdramatizar a situação, dizendo: "Quem
sabe se um dia não haverá uma bala, também para mim, da parte dos meus amigos
fundamentalistas", mas, acrescentou: «Estou nas mãos de Deus, pronta para
tudo».
No dia da entrega dos diplomas aos novos enfermeiros,
dez rapazes e dez raparigas, a irmã Leonella preparou uma grande festa. Para
tornar este momento ainda mais solene, fez com que usassem a toga típica dos
recém-formados. Esse evento, também transmitido pela televisão, levou os
fundamentalistas a pensarem que a Irmã tivesse convertido todos aqueles jovens,
apresentando-os vestidos como padres.
Um mês depois, a Irmã Leonella notou que um homem
suspeito rondava a Escola: aproximou-se dela, olhou-a fixamente mas não disse
nada. No dia 12 de Setembro de 2006, o Papa Bento XVI mencionou - num discurso,
em Regensburg, na Alemanha - uma frase do imperador Manuel II Paleólogo,
particularmente dura contra o Islão. Essa expressão provocou reações muito
violentas em todo o mundo muçulmano. Conhecedora do impacto daquela notícia, a
Irmã Leonella convidou as outras freiras a rezar pelo Papa e pela Igreja.
O dia 17 de Setembro de 2006, um Domingo, estava a ser
um dia cheio de trabalho para a Irmã Leonella. Ao meio-dia, a Irmã Leonella, ao
sair da Escola de enfermagem, foi ladeado pelo seu guarda-costas, Mohamed
Mahamud - [As irmãs eram sempre acompanhadas pelos seguranças, mesmo em
distâncias curtas] - e começou a atravessar a estrada que separava a Escola da
Aldeia das Crianças SOS, onde morava.
Depois de ter dado alguns passos, ouviu-se um tiro: a
Irmã Leonella caiu por terra. Tentou levantar-se, mas outras balas
derrubaram-na, definitivamente. Algumas pessoas levaram-na, imediatamente, para
o hospital. Ao ver que alguns populares saíam em perseguição do agressor, a
Irmã disse: "Deixai-o ir; é um pobre coitado". O seu guarda-costas
foi, também, mortalmente ferido.
A Irmã Marzia e a Irmã Gianna Irene Peano ouviram os
tiros e ficaram imediatamente preocupadas. Assim que souberam que a Irmã
Leonella estava ferida, correram para o hospital. Os estudantes faziam fila
para dar-lhe do sangue, enquanto os médicos tentavam, a todo o custo,
salvar-lhe a vida.
Segundo o testemunho da Irmã Gianna Irene, o seu rosto
expressava paz, mas parecia que ainda queria dizer alguma coisa. Com todas as
forças que, ainda, lhe restavam, disse num sussurro: "Perdão, perdão,
perdão". Quando o cirurgião chegou, já só pôde confirmar a sua morte: eram
13h45, do dia 17 de Setembro de 2006. A irmã Leonella tinha sessenta e seis
anos, trinta e seis dos quais vividos nas missões, em África.
O seu corpo foi levado para Nairóbi, onde se realizou
o seu funeral, no dia 21 de Setembro. Estiveram presentes as autoridades civis,
os Missionários e as Missionárias da Consolata, os alunos da Escola de
Enfermagem e uma multidão considerável de homens e mulheres que reconheciam a
bondade, a dedicação e o serviço da Irmã Leonella.
Na homilia da missa, Dom Giorgio Bertin, actual Bispo
de Djibuti, disse: "A Irmã Leonella estava convencida de que era possível
uma nova Somália, curada do flagelo da guerra civil [...] A sua vida, o seu
sorriso e a sua inocência dizem-nos que é possível um mundo novo, uma Somália.
Ela foi inspirada pela convicção de que o mundo novo que Jesus veio anunciar já
começou aqui na Terra. E não é uma coincidência que tenha morrido ao lado de um
homem muçulmano. [...] Viver juntos, apesar das diferenças, requer a conversão
do coração, esperança, determinação e perseverança ".
No dia 24 de Setembro, na Oração do Angelus, em Roma,
o Papa Bento XVI recordou Irmã Leonella, dizendo: "Esta Irmã, que servia
os pobres e os pequenos na Somália, morreu pronunciando a palavra
"perdão”. Eis o mais autêntico testemunho cristão, sinal pacífico de
contradição e que anuncia a vitória do amor sobre o ódio e o mal ".
No dia 8 de Novembro 2017, o Papa Francisco autorizou
a promulgação do decreto que reconhecia o martírio da Irmã Leonella, motivado
pelo ódio à fé católica.
A Irmã Leonella Sgorbati foi beatificada pelo Papa
Francisco, no dia 26 de Maio de 2018. A celebração, na Catedral de Piacenza -
Itália, foi presidida pelo Cardeal Angelo Amato, em nome e em representação do
Papa.
A sua memória litúrgica celebra-se no dia 17 de
Setembro. (cf. Santi e beati…)
