BEATO LUÍS VARIARA
Luís Variara nasceu em Viarigi, Asti,
Piemonte, Itália, no dia 15 de Janeiro de 1875. Era filho de Pedro Variara,
professor primário, e de Lívia Bussa. Passou a infância com os seus seis
irmãos, entre as esplêndidas colinas de Monferrato, recentemente reconhecida
como Património Mundial da UNESCO. A sua família era profundamente cristã.
Luís era uma criança alta e magra, alegre, vivaz, inteligente e boa, com o dom extraordinário de cantar A sua família era profundamente cristã.
O seu pai, admirador da obra e acção de Dom Bosco, em 1887, levou-o a Valdocco, ao Oratório. Luís ia com relutância, dizendo: “Pai, eu não tenho vocação!”. O seu pai sorriu e explicou-lhe que, no Oratório, muitos meninos puderam realizar a sua vocação e tornar-se sacerdotes. E concluiu, dizendo: «Enquanto lá estiveres, estuda e mantém-te sereno, respeitador e disciplinado. Se não tens vocação, Maria Auxiliadora a dar-te-á”.
Em Valdocco, Luís Variara encontrou-se no meio da ‘multidão selvagem’. No início, passou dias assustados e desolados. O que o conquistou foi a música. Um de seus colegas de escola, Emílio Rossetti, lembra: «Ele tinha uma bela voz de contralto. O Maestro Dogliani entusiasmou-o, preparou-o e fê-lo integrar o grupo dos cantores."
O encontro com Dom Bosco, o santo dos jovens, foi fundamental. Numa noite de inverno, coberta de intenso nevoeiro, Dom Bosco chegou ao Oratório de Turim - Valdocco. Oitocentas crianças gritam e correm umas atras das outras, num jogo frenético que cria um rebuliço festivo. Sobre este acontecimento, Luís Variara, uma dessas crianças, escreveu: «De repente, de um lado e do outro, ouviram-se gritos: Dom Bosco! Dom Bosco! Instintivamente, todos nós corremos na sua direcção. Cercamo-lo como um enxame de abelhas. Dom Bosco parecia exausto. (Era o dia 20 de Dezembro de 1887, restavam-lhe quarenta dias de vida).
Naquele momento, consegui uma boa posição para o ver bem. Cheguei o mais perto possível dele e vi que, levantando o seu doce olhar, fixou-o, durante muito tempo em mim. Esse dia foi um dos mais felizes da minha vida. Tive a certeza de ter conhecido um santo e de que Dom Bosco também descobrira algo na minha alma que só Deus e ele poderiam saber”.
1891 foi o ano decisivo da sua vida. Recolhido em oração, concentrado em sérias reflexões, compreendeu que tornar-se salesiano não significava escolher uma profissão, mas dedicar toda a sua vida a Deus e às pessoas que Deus lhe confiaria.
Durante aquele ano chegaram cartas de muitos missionários. Também chegaram cinco cartas do Padre Unia, missionário entre os leprosos de Água de Dios, na Colômbia. Elas contavam o heroísmo de cada dia, para dar um pouco de alegria e esperança cristã às crianças e aos adultos afectados pela terrível doença da lepra.
Em 2 de Outubro de 1892, com 17 anos, Luís Variara, ajoelhado diante do Padre Rua (já beatificado pela Igreja e sucessor de Dom Bosco) fez votos perpétuos de castidade, pobreza e obediência. E pediu para ser enviado para as missões. Em Turim-Valsalice, no Seminário Salesiano para as missões estrangeiras, iniciou os estudos que o levariam ao sacerdócio. Ali, em Maio de 1894, o missionário Padre Unia chegou doente e cansado. Sentindo-se próximo do fim, veio à Itália em busca de jovens salesianos que ocupassem o seu lugar, entre os leprosos.
Nesta circunstância, eis o que Luís Variara escreveu: «Escrevi, num bilhete, o meu desejo de partir para a Colômbia e pedi esta graça a Nossa Senhora. Coloquei o bilhete junto do coração de Nossa Senhora, entre Nossa Senhora e o Menino, e esperei com a maior fé e esperança: a minha oração foi ouvida. No início da novena, o Padre Unia veio a Valsalice para escolher, em nome do Padre Rua, o seu missionário, entre os muitos clérigos que ali estavam. Que surpresa para mim ver que, entre os 188 clérigos que tinham a mesma aspiração, parando diante de mim, ele disse-me: “Este é meu”. Depois, chamando-me à parte, perguntou-me se eu queria ir para a Colômbia, para o hospital Água de Dios. Eu disse que sim, com uma alegria que parecia um sonho. Sempre atribuí esta graça a Maria Auxiliadora”.
Uma rápida despedida dos seus pais, da sua família!... Depois, quarenta dias de viagem: através do Oceano Atlântico; depois, de barco, durante mil quilómetros, no rio Madalena; depois, quatro dias a cavalo até Água de Dios. «Chegamos! – escreveu o Padre Luís Variara –. A nossa chegada foi quase repentina, mas quanta festa nos fizeram os queridos leprosos: pareciam quase curados à simples visão do Padre Unia, a quem realmente amam muito, muito..." Era o dia 6 de Agosto de 1894.
Água de Dios é a cidade onde viviam, naquela época, 620 leprosos e igual número de familiares saudáveis dos enfermos. O clima é seco e quente, atingindo, normalmente, os 35 graus. Quando o Padre Luís chegou, três Salesianos estavam a trabalhar ao serviço dos doentes: o Padre Unia, o iniciador; o Padre Rafael Crippa, que se tornaria amigo e confidente do Padre Luís; e o salesiano leigo João Lusso. Estavam ali, também, há cerca de dois anos, as Irmãs da Apresentação, que cuidavam, no hospital, dos casos mais graves; dedicavam-se às meninas, as doentes e as saudáveis, e deram início a um florescente grupo de ‘Filhas de Maria’.
A lepra era, naquela época, uma palavra assustadora. Quem estava infectado ficava marcado para sempre e isolado de todos. O Padre Luís Luigi observava que quase todos os leprosos eram levados pela polícia, contra a sua vontade, para a cidade dos leprosos. Eram atirados para ali como se tivessem uma sentença de prisão perpétua. Mesmo os que se curavam e até os filhos saudáveis dos leprosos, quase nunca eram aceites de volta, na sociedade. O maior perigo era o desespero. Antes da chegada do Padre Unia, a embriaguez era uma condição normal; os suicídios eram muito frequentes. Agora, porém, a cidade é um lugar civilizado, com lojas, actividades artesanais, igreja, escola, dispensário médico, centro social administrado pelos próprios leprosos. O Padre Unia chamou o Padre Luís para trazer cantos e músicas, para dar vida e alegria a Água de Dios.
Em 8 de Setembro de 1894, o primeiro grupo de crianças leprosas cantou juntamente com o Padre Luís o cântico a Nossa Senhora: “Tu és pura, Tu és piedosa, Tu és linda, ó Maria...
Em 8 de Setembro de 1897, a banda musical das crianças leprosas deu o seu primeiro concerto diante das autoridades e de todo o povo. É foi um enorme sucesso.
Entre estas duas datas, foi visível a paciência e o verdadeiro heroísmo do Padre Luís. Tendo obtido os instrumentos de um batalhão militar, superou qualquer relutância em dar os instrumentos utilizados às suas crianças, para as ensinar a tocar. A partir desse momento, a banda alegrava as férias, trazendo alegria e esperança. Um leproso escreveu: «A banda torna agradáveis as longas horas da nossa cansada existência; adoça o veneno que temos de engolir».
Entre essas duas datas, o Padre Luís realizou outros ‘milagres’. O Padre Unia morreu quase repentinamente no dia 9 de Dezembro de 1895. Dois meses antes, ele escreveu estas linhas ao Padre Luís: «Alguém receberá a minha coroa. Coragem, Luís: talvez esteja preparada para ti! Estuda e reza. Jamais me esquecerei de ti, nas minhas orações."
O Padre Crippa escreveu ao superior-geral, o Padre Rua, em Turim: «Variara organiza a Companhia de São Luís; dá aulas de religião nas escolas públicas; estuda, canta, trabalha, brinca... e goza de boa saúde!». As mais belas palavras foram-lhe escritas por um leproso idoso: «Que Deus o conserve sempre puro, amável e bom; ele é um modelo de virtude, uma criatura angelical, um ser incomum, que se oferece à admiração e ao respeito da humanidade.”
No dia 24 de Abril de 1898, o Padre Variara foi ordenado sacerdote pelo Arcebispo de Bogotá. Tinha 23 anos. Voltou, rapidamente, de Bogotá para Água de Dios. Quer retomar o seu lugar, sem ser notado. Mas quando atravessa o rio Bogotá, a cerca de 15 quilómetros de Água de Dios, explode um foguete e uma imensa alegria sobe da outra margem do rio: os seus leprosos vieram recebê-lo e acompanhá-lo durante o resto da viagem, com gritos festivos, abraços, aplausos, e, ao chegar à cidade, ao som da “sua” banda. A recepção termina na igreja, com cânticos de agradecimento ao Senhor. Ele celebra sua primeira missa (a Missa Nova), no dia 1 de Maio, com uma celebração indescritível. Um leproso escreveu: “Naquele dia nenhum de nós se lembrava de estar na cidade da dor”.
A missão do Padre Luís foi retomada: no oratório com os meninos, na escola, entre os cantores e os músicos. Mas, agora, contava com dois novos ambientes: o altar e o confessionário. «Ele passa quatro ou cinco horas, todos os dias, no confessionário – escreveu o Padre Crippa –, perdeu muito peso, temo que não resista».
No confessionário, onde comunica a palavra de Deus e dá o perdão de Deus, entra em contacto com as misérias e as grandezas mais secretas. Entre as jovens Filhas de Maria, descobriu numerosas almas capazes de um forte compromisso espiritual, a ponto de quererem oferecer a sua vida inteiramente ao Senhor. São leprosas ou filhas de leprosos e são anjos. O Padre Variara conheceu, em Valsalice, o Padre André Beltrami, sacerdote salesiano que sofria de tuberculose e que se ofereceu, como vítima, a Deus, pela conversão de todos os pecadores do mundo. No confessionário, o Padre Variara começou a mostrar, a alguns jovens, o mesmo caminho: “Fazer da sua doença um apostolado, colocando a sua vida à disposição de Deus”. «A primeira de todas as Filhas de Maria a fazer voto de consagração, como vítima, ao Sagrado Coração de Jesus – escreveu o Padre Ângelo Bianco – foi a jovem Oliva Sanchez, de 30 anos, leprosa. Tornou-se uma preciosa colaboradora do Padre Variara... Poucos dias depois, Limbania Rojas, também leprosa, acompanhou-a na sua consagração... De 1901 a 1904, 23 Filhas de Maria fizeram o voto de consagração de vítimas».
Assim, nasceu o Instituto das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus, sem qualquer alarido. Como leprosas ou filhas de leprosos, não teriam sido aceites por nenhuma congregação.
Comunicaram a sua iniciativa e o seu Regulamento ao Arcebispo de Bogotá, que os aprovou e as exortou a serem santas religiosas. Escreveram também ao Padre Rua: «Somos jovens pobres, atingidas pela terrível doença da lepra – escreveram –, violentamente dilaceradas e separadas dos nossos pais, privadas, num só instante, das nossas esperanças mais vivas e dos nossos desejos mais ardentes... Sentimos a mão carinhosa de Deus, nos santos encorajamentos e esforços compassivos do Padre Luís Variara diante de nossas agudas dores de corpo e alma. Convencidos de que esta é a vontade do Sagrado Coração de Jesus e achando fácil o caminho para realizá-la, começamos a oferecer-nos como vítimas de expiação, seguindo o exemplo do Padre André Beltrami, salesiano. Agora decidimos dar mais um passo: queremos, unidas pelos três Votos, formar a pequena família das Filhas do Sagrado Coração de Jesus: servir a Deus e dedicar-nos ao serviço dos nossos irmãos, em particular dos filhos, no jardim-de-infância...".
O Padre Rua respondeu: “A instituição é linda e deve ser preservada”.
Foram as últimas palavras de consolação que o Padre Variara recebeu. A partir daquele momento, a tempestade irrompeu sobre ele e sobre a congregação nascente. Ele foi caluniado e impedido de exercer a sua missão. Foi retirado de Água de Dios. Chegaram ao ponto de o torturar, proibindo-o de escrever às suas freiras e expulsando-o da Colômbia. A sua provação foi longa, suportada com paciência, em silêncio, entregue a Deus para o crescimento das suas filhas espirituais. Elas sobreviveram e prosperaram. A superiora, a Madre Lozano, escreveu: «Humanamente falando, não tínhamos defesa; mas, o Senhor estendeu a sua mão sobre nós e a sua misericórdia salvou-nos!».
Dói o coração rever os últimos dez anos da vida do Padre Variara. Podemos ver, em primeira mão, como o Maligno também pode usar pessoas consagradas a Deus, com as suas melhores intenções, para torturar um grande servo de Deus. Mas faz bem ao coração ler as últimas palavras que ele pôde escrever às suas filhas espirituais: «Santifiquemos os momentos de vida que ainda nos restam, porque a colheita durará para sempre. Ah, como gosto de pensar no céu! Todos nos encontraremos lá e seremos eternamente felizes. Porque agora vivemos unidos em espírito: obedientes, humildes, puros, mortificados, mas só por amor... Não vos deixo órfãos, pois as minhas orações são incessantes por vós, no desejo de vos ver todas santas."
O Padre Luís Variara morreu no dia 1 de Fevereiro de 1923, com apenas 48 anos, longe de todos, e também (parecia) esquecido por todos. Mas, em 1964 o Papa Paulo VI reconheceu a sua congregação, que prosperava com centenas de freiras, entre as de direito pontifício. E em Abril de 1993, as virtudes do Padre Luís Variara foram reconhecidas pela Igreja como “heróicas”, e o Papa João Paulo II proclamou-o Beato, em 14 de Abril de 2002. O Papa disse na homilia: “…Da Diocese de Asti, partiu, para a Colômbia, o salesiano, Padre Luís Variara, seguidor fiel de Jesus misericordioso e próximo dos desamparados. Desde o início, dedicou a sua energia juvenil e a riqueza dos seus dons, ao serviço dos leprosos. Primeiro salesiano ordenado sacerdote na Colômbia, conseguiu reunir à sua volta um grupo de Jovens consagradas, entre as quais se encontravam algumas leprosas ou filhas de leprosos e, por isso, não eram aceites nos Institutos religiosos. Com o passar do tempo, este grupo transformou-se na Congregação das Filhas dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, Instituto florescente, hoje presente em muitos países…”
A sua memória litúrgica é celebrada, na Igreja, no dia 1 de Fevereiro. Mas, a Família Salesiana e a Diocese de Asti celebram-na no dia 15 de Janeiro.
Luís era uma criança alta e magra, alegre, vivaz, inteligente e boa, com o dom extraordinário de cantar A sua família era profundamente cristã.
O seu pai, admirador da obra e acção de Dom Bosco, em 1887, levou-o a Valdocco, ao Oratório. Luís ia com relutância, dizendo: “Pai, eu não tenho vocação!”. O seu pai sorriu e explicou-lhe que, no Oratório, muitos meninos puderam realizar a sua vocação e tornar-se sacerdotes. E concluiu, dizendo: «Enquanto lá estiveres, estuda e mantém-te sereno, respeitador e disciplinado. Se não tens vocação, Maria Auxiliadora a dar-te-á”.
Em Valdocco, Luís Variara encontrou-se no meio da ‘multidão selvagem’. No início, passou dias assustados e desolados. O que o conquistou foi a música. Um de seus colegas de escola, Emílio Rossetti, lembra: «Ele tinha uma bela voz de contralto. O Maestro Dogliani entusiasmou-o, preparou-o e fê-lo integrar o grupo dos cantores."
O encontro com Dom Bosco, o santo dos jovens, foi fundamental. Numa noite de inverno, coberta de intenso nevoeiro, Dom Bosco chegou ao Oratório de Turim - Valdocco. Oitocentas crianças gritam e correm umas atras das outras, num jogo frenético que cria um rebuliço festivo. Sobre este acontecimento, Luís Variara, uma dessas crianças, escreveu: «De repente, de um lado e do outro, ouviram-se gritos: Dom Bosco! Dom Bosco! Instintivamente, todos nós corremos na sua direcção. Cercamo-lo como um enxame de abelhas. Dom Bosco parecia exausto. (Era o dia 20 de Dezembro de 1887, restavam-lhe quarenta dias de vida).
Naquele momento, consegui uma boa posição para o ver bem. Cheguei o mais perto possível dele e vi que, levantando o seu doce olhar, fixou-o, durante muito tempo em mim. Esse dia foi um dos mais felizes da minha vida. Tive a certeza de ter conhecido um santo e de que Dom Bosco também descobrira algo na minha alma que só Deus e ele poderiam saber”.
1891 foi o ano decisivo da sua vida. Recolhido em oração, concentrado em sérias reflexões, compreendeu que tornar-se salesiano não significava escolher uma profissão, mas dedicar toda a sua vida a Deus e às pessoas que Deus lhe confiaria.
Durante aquele ano chegaram cartas de muitos missionários. Também chegaram cinco cartas do Padre Unia, missionário entre os leprosos de Água de Dios, na Colômbia. Elas contavam o heroísmo de cada dia, para dar um pouco de alegria e esperança cristã às crianças e aos adultos afectados pela terrível doença da lepra.
Em 2 de Outubro de 1892, com 17 anos, Luís Variara, ajoelhado diante do Padre Rua (já beatificado pela Igreja e sucessor de Dom Bosco) fez votos perpétuos de castidade, pobreza e obediência. E pediu para ser enviado para as missões. Em Turim-Valsalice, no Seminário Salesiano para as missões estrangeiras, iniciou os estudos que o levariam ao sacerdócio. Ali, em Maio de 1894, o missionário Padre Unia chegou doente e cansado. Sentindo-se próximo do fim, veio à Itália em busca de jovens salesianos que ocupassem o seu lugar, entre os leprosos.
Nesta circunstância, eis o que Luís Variara escreveu: «Escrevi, num bilhete, o meu desejo de partir para a Colômbia e pedi esta graça a Nossa Senhora. Coloquei o bilhete junto do coração de Nossa Senhora, entre Nossa Senhora e o Menino, e esperei com a maior fé e esperança: a minha oração foi ouvida. No início da novena, o Padre Unia veio a Valsalice para escolher, em nome do Padre Rua, o seu missionário, entre os muitos clérigos que ali estavam. Que surpresa para mim ver que, entre os 188 clérigos que tinham a mesma aspiração, parando diante de mim, ele disse-me: “Este é meu”. Depois, chamando-me à parte, perguntou-me se eu queria ir para a Colômbia, para o hospital Água de Dios. Eu disse que sim, com uma alegria que parecia um sonho. Sempre atribuí esta graça a Maria Auxiliadora”.
Uma rápida despedida dos seus pais, da sua família!... Depois, quarenta dias de viagem: através do Oceano Atlântico; depois, de barco, durante mil quilómetros, no rio Madalena; depois, quatro dias a cavalo até Água de Dios. «Chegamos! – escreveu o Padre Luís Variara –. A nossa chegada foi quase repentina, mas quanta festa nos fizeram os queridos leprosos: pareciam quase curados à simples visão do Padre Unia, a quem realmente amam muito, muito..." Era o dia 6 de Agosto de 1894.
Água de Dios é a cidade onde viviam, naquela época, 620 leprosos e igual número de familiares saudáveis dos enfermos. O clima é seco e quente, atingindo, normalmente, os 35 graus. Quando o Padre Luís chegou, três Salesianos estavam a trabalhar ao serviço dos doentes: o Padre Unia, o iniciador; o Padre Rafael Crippa, que se tornaria amigo e confidente do Padre Luís; e o salesiano leigo João Lusso. Estavam ali, também, há cerca de dois anos, as Irmãs da Apresentação, que cuidavam, no hospital, dos casos mais graves; dedicavam-se às meninas, as doentes e as saudáveis, e deram início a um florescente grupo de ‘Filhas de Maria’.
A lepra era, naquela época, uma palavra assustadora. Quem estava infectado ficava marcado para sempre e isolado de todos. O Padre Luís Luigi observava que quase todos os leprosos eram levados pela polícia, contra a sua vontade, para a cidade dos leprosos. Eram atirados para ali como se tivessem uma sentença de prisão perpétua. Mesmo os que se curavam e até os filhos saudáveis dos leprosos, quase nunca eram aceites de volta, na sociedade. O maior perigo era o desespero. Antes da chegada do Padre Unia, a embriaguez era uma condição normal; os suicídios eram muito frequentes. Agora, porém, a cidade é um lugar civilizado, com lojas, actividades artesanais, igreja, escola, dispensário médico, centro social administrado pelos próprios leprosos. O Padre Unia chamou o Padre Luís para trazer cantos e músicas, para dar vida e alegria a Água de Dios.
Em 8 de Setembro de 1894, o primeiro grupo de crianças leprosas cantou juntamente com o Padre Luís o cântico a Nossa Senhora: “Tu és pura, Tu és piedosa, Tu és linda, ó Maria...
Em 8 de Setembro de 1897, a banda musical das crianças leprosas deu o seu primeiro concerto diante das autoridades e de todo o povo. É foi um enorme sucesso.
Entre estas duas datas, foi visível a paciência e o verdadeiro heroísmo do Padre Luís. Tendo obtido os instrumentos de um batalhão militar, superou qualquer relutância em dar os instrumentos utilizados às suas crianças, para as ensinar a tocar. A partir desse momento, a banda alegrava as férias, trazendo alegria e esperança. Um leproso escreveu: «A banda torna agradáveis as longas horas da nossa cansada existência; adoça o veneno que temos de engolir».
Entre essas duas datas, o Padre Luís realizou outros ‘milagres’. O Padre Unia morreu quase repentinamente no dia 9 de Dezembro de 1895. Dois meses antes, ele escreveu estas linhas ao Padre Luís: «Alguém receberá a minha coroa. Coragem, Luís: talvez esteja preparada para ti! Estuda e reza. Jamais me esquecerei de ti, nas minhas orações."
O Padre Crippa escreveu ao superior-geral, o Padre Rua, em Turim: «Variara organiza a Companhia de São Luís; dá aulas de religião nas escolas públicas; estuda, canta, trabalha, brinca... e goza de boa saúde!». As mais belas palavras foram-lhe escritas por um leproso idoso: «Que Deus o conserve sempre puro, amável e bom; ele é um modelo de virtude, uma criatura angelical, um ser incomum, que se oferece à admiração e ao respeito da humanidade.”
No dia 24 de Abril de 1898, o Padre Variara foi ordenado sacerdote pelo Arcebispo de Bogotá. Tinha 23 anos. Voltou, rapidamente, de Bogotá para Água de Dios. Quer retomar o seu lugar, sem ser notado. Mas quando atravessa o rio Bogotá, a cerca de 15 quilómetros de Água de Dios, explode um foguete e uma imensa alegria sobe da outra margem do rio: os seus leprosos vieram recebê-lo e acompanhá-lo durante o resto da viagem, com gritos festivos, abraços, aplausos, e, ao chegar à cidade, ao som da “sua” banda. A recepção termina na igreja, com cânticos de agradecimento ao Senhor. Ele celebra sua primeira missa (a Missa Nova), no dia 1 de Maio, com uma celebração indescritível. Um leproso escreveu: “Naquele dia nenhum de nós se lembrava de estar na cidade da dor”.
A missão do Padre Luís foi retomada: no oratório com os meninos, na escola, entre os cantores e os músicos. Mas, agora, contava com dois novos ambientes: o altar e o confessionário. «Ele passa quatro ou cinco horas, todos os dias, no confessionário – escreveu o Padre Crippa –, perdeu muito peso, temo que não resista».
No confessionário, onde comunica a palavra de Deus e dá o perdão de Deus, entra em contacto com as misérias e as grandezas mais secretas. Entre as jovens Filhas de Maria, descobriu numerosas almas capazes de um forte compromisso espiritual, a ponto de quererem oferecer a sua vida inteiramente ao Senhor. São leprosas ou filhas de leprosos e são anjos. O Padre Variara conheceu, em Valsalice, o Padre André Beltrami, sacerdote salesiano que sofria de tuberculose e que se ofereceu, como vítima, a Deus, pela conversão de todos os pecadores do mundo. No confessionário, o Padre Variara começou a mostrar, a alguns jovens, o mesmo caminho: “Fazer da sua doença um apostolado, colocando a sua vida à disposição de Deus”. «A primeira de todas as Filhas de Maria a fazer voto de consagração, como vítima, ao Sagrado Coração de Jesus – escreveu o Padre Ângelo Bianco – foi a jovem Oliva Sanchez, de 30 anos, leprosa. Tornou-se uma preciosa colaboradora do Padre Variara... Poucos dias depois, Limbania Rojas, também leprosa, acompanhou-a na sua consagração... De 1901 a 1904, 23 Filhas de Maria fizeram o voto de consagração de vítimas».
Assim, nasceu o Instituto das Irmãs do Sagrado Coração de Jesus, sem qualquer alarido. Como leprosas ou filhas de leprosos, não teriam sido aceites por nenhuma congregação.
Comunicaram a sua iniciativa e o seu Regulamento ao Arcebispo de Bogotá, que os aprovou e as exortou a serem santas religiosas. Escreveram também ao Padre Rua: «Somos jovens pobres, atingidas pela terrível doença da lepra – escreveram –, violentamente dilaceradas e separadas dos nossos pais, privadas, num só instante, das nossas esperanças mais vivas e dos nossos desejos mais ardentes... Sentimos a mão carinhosa de Deus, nos santos encorajamentos e esforços compassivos do Padre Luís Variara diante de nossas agudas dores de corpo e alma. Convencidos de que esta é a vontade do Sagrado Coração de Jesus e achando fácil o caminho para realizá-la, começamos a oferecer-nos como vítimas de expiação, seguindo o exemplo do Padre André Beltrami, salesiano. Agora decidimos dar mais um passo: queremos, unidas pelos três Votos, formar a pequena família das Filhas do Sagrado Coração de Jesus: servir a Deus e dedicar-nos ao serviço dos nossos irmãos, em particular dos filhos, no jardim-de-infância...".
O Padre Rua respondeu: “A instituição é linda e deve ser preservada”.
Foram as últimas palavras de consolação que o Padre Variara recebeu. A partir daquele momento, a tempestade irrompeu sobre ele e sobre a congregação nascente. Ele foi caluniado e impedido de exercer a sua missão. Foi retirado de Água de Dios. Chegaram ao ponto de o torturar, proibindo-o de escrever às suas freiras e expulsando-o da Colômbia. A sua provação foi longa, suportada com paciência, em silêncio, entregue a Deus para o crescimento das suas filhas espirituais. Elas sobreviveram e prosperaram. A superiora, a Madre Lozano, escreveu: «Humanamente falando, não tínhamos defesa; mas, o Senhor estendeu a sua mão sobre nós e a sua misericórdia salvou-nos!».
Dói o coração rever os últimos dez anos da vida do Padre Variara. Podemos ver, em primeira mão, como o Maligno também pode usar pessoas consagradas a Deus, com as suas melhores intenções, para torturar um grande servo de Deus. Mas faz bem ao coração ler as últimas palavras que ele pôde escrever às suas filhas espirituais: «Santifiquemos os momentos de vida que ainda nos restam, porque a colheita durará para sempre. Ah, como gosto de pensar no céu! Todos nos encontraremos lá e seremos eternamente felizes. Porque agora vivemos unidos em espírito: obedientes, humildes, puros, mortificados, mas só por amor... Não vos deixo órfãos, pois as minhas orações são incessantes por vós, no desejo de vos ver todas santas."
O Padre Luís Variara morreu no dia 1 de Fevereiro de 1923, com apenas 48 anos, longe de todos, e também (parecia) esquecido por todos. Mas, em 1964 o Papa Paulo VI reconheceu a sua congregação, que prosperava com centenas de freiras, entre as de direito pontifício. E em Abril de 1993, as virtudes do Padre Luís Variara foram reconhecidas pela Igreja como “heróicas”, e o Papa João Paulo II proclamou-o Beato, em 14 de Abril de 2002. O Papa disse na homilia: “…Da Diocese de Asti, partiu, para a Colômbia, o salesiano, Padre Luís Variara, seguidor fiel de Jesus misericordioso e próximo dos desamparados. Desde o início, dedicou a sua energia juvenil e a riqueza dos seus dons, ao serviço dos leprosos. Primeiro salesiano ordenado sacerdote na Colômbia, conseguiu reunir à sua volta um grupo de Jovens consagradas, entre as quais se encontravam algumas leprosas ou filhas de leprosos e, por isso, não eram aceites nos Institutos religiosos. Com o passar do tempo, este grupo transformou-se na Congregação das Filhas dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, Instituto florescente, hoje presente em muitos países…”
A sua memória litúrgica é celebrada, na Igreja, no dia 1 de Fevereiro. Mas, a Família Salesiana e a Diocese de Asti celebram-na no dia 15 de Janeiro.
