PALAVRA COM SENTIDO

PALAVRA COM SENTIDO

“…Soltai brados de alegria… Fazei ouvir os vossos louvores…” (cf. Jeremias 31, 7)

O convite à alegria é permanente, na Palavra do Senhor. A alegria nasce da fé no Senhor que salva o seu povo; é fermento de esperança, na tristeza que envolve a vida; é testemunho do amor que se verga sob o peso da cruz; é proclamação da verdade que nos liberta. O desafio da alegria afronta o ódio, a vingança, a marginalidade, a violência, porque é criador de unidade, de comunhão, de festa, de encontro e de paz… A verdadeira alegria: aquela que vem de Deus e anima a nossa acção missionária. Por ela, somos convidados a louvar e a agradecer as maravilhas que Deus faz em nós e, por nós, no meio do mundo. Cantar a alegria da fé, do amor incondicional, da vida doada em serviço por amor, da fraternidade que construímos na harmonia das palavras e na beleza dos gestos, da esperança que destrói muros e lança pontes de solidariedade e de perdão. Acolher a alegria de Jesus presente no meio de nós…

domingo, 6 de janeiro de 2013

EPIFANIA DO SENHOR



“…A Epifania é uma festa da luz. «Ergue-te, Jerusalém, e sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor está sobre ti» (Is 60, 1). Com estas palavras do profeta Isaías, a Igreja descreve o conteúdo da festa. Sim, veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira, Aquele que faz com que os homens sejam luz. Dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf. Jo 1, 9.12). Para a liturgia, o caminho dos Magos do Oriente é só o início de uma grande procissão que continua ao longo da história inteira. Com estes homens, tem início a peregrinação da humanidade rumo a Jesus Cristo: rumo àquele Deus que nasceu num estábulo, que morreu na cruz e, Ressuscitado, permanece connosco todos os dias até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20). A Igreja lê a narração do Evangelho de Mateus juntamente com a visão do profeta Isaías, que escutámos na primeira leitura: o caminho destes homens é só o início. Antes, tinham vindo os pastores – almas simples que habitavam mais perto de Deus feito menino, podendo mais facilmente «ir até lá» (cf. Lc 2, 15) ter com Ele e reconhecê-Lo como Senhor. Mas agora vêm também os sábios deste mundo. Vêm grandes e pequenos, reis e servos, homens de todas as culturas e de todos os povos. Os homens do Oriente são os primeiros, seguidos de muitos outros ao longo dos séculos. Depois da grande visão de Isaías, a leitura tirada da Carta aos Efésios exprime, de modo sóbrio e simples, a mesma ideia: os gentios partilham da mesma herança (cf. 3, 6). Eis como o formulara o Salmo 2: «Eu te darei as nações por herança, e os confins da terra para teu domínio» (v. 8).
Os Magos do Oriente vão à frente. Inauguram o caminho dos povos para Cristo. Durante esta Missa, vou conferir a Ordenação Episcopal a dois sacerdotes, consagrá-los-ei Pastores do povo de Deus. Segundo palavras de Jesus, caminhar à frente do rebanho faz parte da função do Pastor (cf. Jo 10, 4). Por isso naqueles personagens, que foram os primeiros pagãos a encontrar o caminho para Cristo, talvez possamos – não obstante todas as diferenças nas respectivas vocações e tarefas – procurar indicações para a missão dos Bispos. Que tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição astronómica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente. Provavelmente haveria muitos astrónomos na antiga Babilónia, mas poucos, apenas estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no facto de sermos homens. Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: «Uma estrela sai de Jacob, e um cetro se levanta de Israel» (Nm 24, 17). Eles aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem subtil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as privações e o cansaço dum caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante dum menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objectivo do seu caminho exterior e interior…” ( da Homilia do Papa Bento XVI, na Epifania de 2012 )

PALAVRA DO PAPA



- da Homilia na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, 1 de Janeiro de 2013, em Roma

“…Queridos irmãos e irmãs, eis o fundamento da nossa paz: a certeza de contemplar em Jesus Cristo o esplendor da face de Deus, de ser filhos no Filho e ter, assim, na estrada da vida, a mesma segurança que a criança sente nos braços de um Pai bom e onipotente. O esplendor da face do Senhor sobre nós, que nos dá a paz, é a manifestação da sua paternidade; o Senhor dirige sobre nós a sua face, se mostra como Pai e nos dá a paz. Aqui está o princípio daquela paz profunda - «paz com Deus» - que está intimamente ligada à fé e à graça, como escreve São Paulo aos cristãos de Roma (Rm 5, 2). Nada pode tirar daqueles que creem esta paz, nem mesmo as dificuldades e os sofrimentos da vida. De fato, os sofrimentos, as provações e a escuridão não corroem, mas aumentam a nossa esperança, uma esperança que não decepciona, porque "o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5, 5).
Que a Virgem Maria, que hoje veneramos com o título de Mãe de Deus, nos ajude a contemplar a face de Jesus, Príncipe da Paz. Que Ela nos ajude e nos acompanhe neste novo ano; que Ela obtenha para nós e para o mundo inteiro o dom da paz. Amém!...”

ANO DA FÉ



- da Homilia de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, no dia 1 de Janeiro de 2013, na Sé Portucalense

“…Que oportunidade, irmãos, que responsabilidade tamanha, se verdadeiramente procuramos a paz! Estando Deus aí mesmo, na vida em gestação, dentro ou já fora do ventre materno, como se torna prioritária a promoção e salvaguarda de cada vida humana, no arco total da sua existência terrena! A fragilidade da vida uterina ou a fraqueza e enfermidade que a atinjam depois, são outros tantos apelos a que acorramos céleres – como os pastores do Evangelho – ao seu cuidado preciso, solidário e eficaz. Qualquer hesitação neste ponto, qualquer amolecimento cultural ou legal em relação a ele, é absolutamente um atentado à paz. À paz das consciências, que, quanto a isto, nunca adormecerão tranquilas, antes somarão pesadelos; e à paz das famílias e de sociedades inteiras, se contemporizarem com qualquer tipo de anti natalismo ou reducionismo existencial. A tão mencionada “qualidade de vida”, deve significar, antes de mais, o reconhecimento da qualidade que ela essencialmente tem e sempre conserva, mesmo quando física ou mentalmente atingida. A paz – enquanto harmonia íntima e global de tudo quanto representa a verdade das coisas, começando pela verdade das pessoas – é obra e fruto da justiça, que nos manda dar a cada um o que lhe é devido e pertence. E a vida é a primeiríssima pertença de cada ser humano.

Também aqui não havemos de ter medo, nem de nos sentirmos esmagados por uma responsabilidade aparentemente incomportável, face à insensibilidade de outros em relação a este ponto fundamental. Quando o cristianismo nasceu, no Menino do Presépio, toda a grandeza do céu era pequeníssima na terra, e em grande contraste com o que se fazia naquele imponente Império Romano, no respeitante à vida humana. A escravatura era uma realidade geral e aceite; o aborto prática corrente; e o próprio bebé já nascido estava sujeito à vontade paterna, para continuar ou não a viver… Alguma reflexão filosófica, como a dos estoicos, já criticava estas últimas práticas; mas foi, inegavelmente foi, a progressiva expansão evangélica nas inteligências e nos costumes que, pouco a pouco, conseguiu modificar positivamente as coisas, na legislação inclusive. É por isso muito estranho que alguém se lembre de apresentar hoje em dia como “progressos civilizacionais” autênticas regressões de dois mil anos, desprotegendo a vida em todo seu verdadeiro percurso, pré e pós natal. Sobretudo, quando a ciência nos demonstra agora, com toda a evidência, o desenvolvimento duma mesma vida desde o momento da sua conceção. - Há muito o faz a liturgia cristã, celebrando a Anunciação do Senhor em cada 25 de Março, nove meses precisos antes do seu Natal!
Não tenhamos receio de, também neste ponto, «confessarmos Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da nossa esperança a todo aquele que no-la peça; com mansidão e respeito…» (cf. 1 Pe 3, 15). Ofereçamo-la mesmo a quem não a peça ainda, certos como estamos de que a verdade que nos chama a nós também chama a todos, como os pastores o foram ao pleno presépio de Cristo. Façamo-lo com atitudes concretas de salvaguarda e protecção da vida, respondendo da melhor maneira aos casos que surjam e apoiando todas as iniciativas nesse sentido, como já existem e hão-de aumentar na nossa sociedade.
Há aqui muita urgência, semelhante à pressa com que os pastores acorreram ao pobre lugar onde Deus nascia no mundo. E convençamo-nos da verdade sempre comprovada: a decisão certa que tomamos hoje abre o amanhã que Deus nos oferece. Também aqui poderíamos aplicar a passagem bíblica: «Como deve ser santa a vossa vida e a vossa piedade, enquanto esperais e apressais a chegada do dia de Deus; […] nós esperamos uns novos céus e uma nova terra, onde habita a justiça» ( 2 Pe 3, 11-13). 

PARA REZAR



HINO DE COMPLETAS: EPIFANIA DO SENHOR

Luz terna, suave, no meio da noite,
Leva-me mais longe...
Não tenho aqui morada permanente:
Leva-me mais longe...

Que importa se é tão longe para mim
A praia aonde tenho de chegar,
Se sobre mim levar constantemente
Poisada a clara luz do teu olhar.

Nem sempre Te pedi como hoje peço
Para seres a luz que me ilumina,
Mas sei que ao fim terei abrigo e acesso
Na plenitude da tua luz divina.

Esquece os meus passos mal andados,
Meu desamor perdoa e meu pecado.
Eu sei que vai raiar a madrugada
E não me deixarás abandonado.

Se Tu me dás a mão não terei medo,
Meus passos serão firmes no andar.
Luz terna, suave, leva-me mais longe;
Basta-me um passo para a Ti chegar.

SANTOS POPULARES



SÃO LOURENÇO JUSTINIANO

Lourenço nasceu em Veneza, no dia 1 de Julho de 1380, numa família ilustre e nobre: a família Giustiniani. Desde criança, manifestou apreço pelas virtudes da humildade, do desapego às coisas materiais, de transparente honestidade no corpo, na alma e no uso dos bens que possuía. O que mais o fazia sofrer era saber que a vida dos homens e mulheres da sua cidade era dominada pelo orgulho, pela ganância, pela ambição desmedida e pela corrupção. Já adolescente, viveu uma experiência mística que o marcou para sempre: teve a visão da Sabedoria Eterna - Jesus Cristo, Palavra viva do Pai – e, desde então, decidiu dedicar-se à vida religiosa.  O seu único desejo era amar e servir a Deus. Procurando crescer na perfeição da vida espiritual, tornou-se mendigo na sua própria cidade, chegando mesmo a pedir esmola à porta da casa dos seus próprios pais. Os seus familiares sentiam-se provocados e envergonhados com esta sua atitude e, muitas vezes, tentaram demovê-lo e até desviarem-no do caminho da vida religiosa. As comunidades cristãs da Veneza do século XV eram comunidades cheias de vitalidade e de fervor religioso, abertas a uma verdadeira reforma católica e desejosas de dar prova do seu amor a Cristo, dando frutos de testemunho e de boas obras. Lourenço Justiniano é uma prova de que a renovação da vida de fé e a transformação do coração dá muitos frutos.  Com apenas dezanove anos de idade, já era considerado um modelo de virtude, de austeridade e de humildade. Em 1404, foi ordenado Diácono e uniu-se a outros sacerdotes, entrando para Mosteiro de São Jorge, em Alga, para viver, com eles, em comunidade. Este grupo foi conhecido como "Companhia dos Cónegos Seculares", pioneiros do esforço reformador da Igreja Católica. Eram sacerdotes seculares ( ligados ao mundo no seu apostolado, sobretudo o do ensino e da pregação) mas viviam em comunidade, para se ajudarem mutuamente no esforço da santificação . Para isso, criaram regras muito próprias para a organização da sua vida comunitária e apostólica. Lourenço foi ordenado sacerdote, em 1407 e, dois anos depois, foi eleito superior da Comunidade de São Jorge de Alga. Não sendo um bom orador, tornava a sua pregação eficiente com a sua dedicação ao ministério do confessionário, com o seu exemplo de humilde mendicante e com o seu trabalho de escritor incansável. A sua obra inclui livros para doutores e leigos, incluindo tratados teológicos e simples manuais de catequese. Os seus escritos trazem a matriz da sua revelação original: a ideia da "Sabedoria Eterna", eixo da sua mística, tanto para a perfeição interior como para a rectidão da vida. Apesar de não ser seu desejo, em 1433, foi ordenado bispo de Castello, uma pequena diocese perto de Veneza, pelo Papa Eugénio IV. Em 1451, o papa Nicolau V extinguiu esta diocese e nomeou Lourenço Justiniano para primeiro patriarca de Veneza. Nestas funções, deixou uma marca muito particular, impressa com as suas virtudes. Era considerado um homem sábio, prudente, piedoso e, sobretudo, um homem de caridade, principalmente com os mais pecadores. Mandou construir mais de quinze conventos e inúmeras igrejas, possibilitando que muitas pessoas se aproximassem de Deus e vivessem a verdade da fé com entusiasmo e dedicação. A sua acção apostólica levou a um aumento considerável de crentes, na diocese de Veneza e nos arredores. Foi um modelo e um exemplo de pastor, amado por todos os seus fiéis, que obedeciam à sua pregação e ao seu exemplo no seguimento de Cristo. A sua mensagem acentuava, sobretudo, o dever da fidelidade aos mandamentos do Senhor. Lourenço Justiniano morreu no dia 8 de Janeiro de 1456, com setenta e seis anos. Depois da sua morte, muitos milagres foram atribuídos à sua intercessão, Foi canonizado, em 1690, pelo Papa Alexandre VIII.

Na Igreja Matriz de Santa Maria da Feira, no retábulo-mor, encontra-se uma imagem de São Lourenço Justiniano. Os Cónegos seculares de São João Evangelista, ou “frades lóios” - versão portuguesa dos Cónegos Seculares de São Jorge de Alga, de quem Lourenço Justiniano foi superior e impulsionador – eram muito devotos de São Lourenço Justiniano a quem consideravam como fundador do espírito que os motivava e unia. Esta imagem, agora em restauro, mostra o modo de trajar dos “Frades Lóios” ou “frades azuis” por causa da cor das suas vestes. A sua memória litúrgica já esteve marcada no dia 5 de Setembro, data em que fora nomeado bispo. Depois da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, esta memória é celebrada no dia 8 de Janeiro, data da sua morte.