Os Magos do Oriente vão à frente. Inauguram o caminho dos povos para Cristo.
Durante esta Missa, vou conferir a Ordenação Episcopal a dois sacerdotes,
consagrá-los-ei Pastores do povo de Deus. Segundo palavras de Jesus, caminhar à
frente do rebanho faz parte da função do Pastor (cf. Jo 10, 4). Por isso
naqueles personagens, que foram os primeiros pagãos a encontrar o caminho para
Cristo, talvez possamos – não obstante todas as diferenças nas respectivas vocações
e tarefas – procurar indicações para a missão dos Bispos. Que tipo de homens
eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição
astronómica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e
era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente.
Provavelmente haveria muitos astrónomos na antiga Babilónia, mas poucos, apenas
estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido
como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o
verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não
apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais.
Queriam entender o que é que conta no facto de sermos homens. Provavelmente
ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: «Uma estrela sai de
Jacob, e um cetro se levanta de Israel» (Nm 24, 17). Eles aprofundaram esta
promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com
aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à
procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de
Deus, a sua linguagem subtil e insistente. Mas eram também homens corajosos e,
ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar
quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando
canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia
deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava
era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as
privações e o cansaço dum caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde
que lhes permitiu prostrar-se diante dum menino filho de gente pobre e
reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objectivo
do seu caminho exterior e interior…” ( da Homilia do Papa Bento XVI, na Epifania de 2012 )
PALAVRA COM SENTIDO
PALAVRA COM SENTIDO
“… O Senhor ressuscitou, verdadeiramente!…” (cf. Antífona do Domingo de Páscoa)
Hoje ecoa em todo o mundo o anúncio da Igreja: «Jesus Cristo ressuscitou»; «ressuscitou verdadeiramente»!
Como uma nova chama, se acendeu esta Boa Nova na noite: a noite dum mundo já a braços com desafios epocais e agora oprimido pela pandemia, que coloca à dura prova a nossa grande família humana. Nesta noite, ressoou a voz da Igreja: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» (Sequência da Páscoa).
É um «contágio» diferente, que se transmite de coração a coração, porque todo o coração humano aguarda esta Boa Nova. É o contágio da esperança: «Cristo, minha esperança, ressuscitou!» Não se trata duma fórmula mágica, que faça desvanecerem-se os problemas. Não! A ressurreição de Cristo não é isso. Mas é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não «salta» por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus.
O Ressuscitado é o Crucificado; e não outra pessoa. Indeléveis no seu corpo glorioso, traz as chagas: feridas que se tornaram frestas de esperança. Para Ele, voltamos o nosso olhar para que sare as feridas da humanidade atribulada.
Hoje penso sobretudo em quantos foram atingidos diretamente pelo coronavírus: os doentes, os que morreram e os familiares que choram a partida dos seus queridos e por vezes sem conseguir sequer dizer-lhes o último adeus.
O Senhor da vida acolha junto de Si no seu Reino os falecidos e dê conforto e esperança a quem ainda está na prova, especialmente aos idosos e às pessoas sem ninguém. Não deixe faltar a sua consolação e os auxílios necessários a quem se encontra em condições de particular vulnerabilidade, como aqueles que trabalham nas casas de cura ou vivem nos quartéis e nas prisões.
Para muitos, é uma Páscoa de solidão, vivida entre lutos e tantos incómodos que a pandemia está a causar, desde os sofrimentos físicos até aos problemas económicos.
Esta epidemia não nos privou apenas dos afetos, mas também da possibilidade de recorrer pessoalmente à consolação que brota dos Sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Reconciliação. Em muitos países, não foi possível aceder a eles, mas o Senhor não nos deixou sozinhos! Permanecendo unidos na oração, temos a certeza de que Ele colocou sobre nós a sua mão (cf. Sal 139/138, 5), repetindo a cada um com veemência: Não tenhas medo! «Ressuscitei e estou contigo para sempre» (cf. Missal Romano).
Jesus, nossa Páscoa, dê força e esperança aos médicos e enfermeiros, que por todo o lado oferecem um testemunho de solicitude e amor ao próximo até ao extremo das forças e, por vezes, até ao sacrifício da própria saúde. Para eles, bem como para quantos trabalham assiduamente para garantir os serviços essenciais necessários à convivência civil, para as forças da ordem e os militares que em muitos países contribuíram para aliviar as dificuldades e tribulações da população, vai a nossa saudação afetuosa juntamente com a nossa gratidão.
Nestas semanas, alterou-se improvisamente a vida de milhões de pessoas. Para muitos, ficar em casa foi uma ocasião para refletir, parar os ritmos frenéticos da vida, permanecer com os próprios familiares e desfrutar da sua companhia. Mas, para muitos outros, é também um momento de preocupação pelo futuro que se apresenta incerto, pelo emprego que se corre o risco de perder e pelas outras consequências que acarreta a atual crise. Encorajo todas as pessoas que detêm responsabilidades políticas a trabalhar ativamente em prol do bem comum dos cidadãos, fornecendo os meios e instrumentos necessários para permitir a todos que levem uma vida digna e favorecer – logo que as circunstâncias o permitam – a retoma das atividades diárias habituais.
Este não é tempo para a indiferença, porque o mundo inteiro está a sofrer e deve sentir-se unido ao enfrentar a pandemia. Jesus ressuscitado dê esperança a todos os pobres, a quantos vivem nas periferias, aos refugiados e aos sem abrigo. Não sejam deixados sozinhos estes irmãos e irmãs mais frágeis, que povoam as cidades e as periferias de todas as partes do mundo. Não lhes deixemos faltar os bens de primeira necessidade, mais difíceis de encontrar agora que muitas atividades estão encerradas, bem como os medicamentos e sobretudo a possibilidade duma assistência sanitária adequada. Em consideração das presentes circunstâncias, sejam abrandadas também as sanções internacionais que impedem os países visados de proporcionar apoio adequado aos seus cidadãos e seja permitido a todos os Estados acudir às maiores necessidades do momento atual, reduzindo – se não mesmo perdoando – a dívida que pesa sobre os orçamentos dos mais pobres.
Este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas. Dentre as muitas áreas do mundo afetadas pelo coronavírus, penso de modo especial na Europa. Depois da II Guerra Mundial, este Continente pôde ressurgir graças a um espírito concreto de solidariedade, que lhe permitiu superar as rivalidades do passado. É muito urgente, sobretudo nas circunstâncias presentes, que tais rivalidades não retomem vigor; antes, pelo contrário, todos se reconheçam como parte duma única família e se apoiem mutuamente. Hoje, à sua frente, a União Europeia tem um desafio epocal, de que dependerá não apenas o futuro dela, mas também o do mundo inteiro. Não se perca esta ocasião para dar nova prova de solidariedade, inclusive recorrendo a soluções inovadoras. Como alternativa, resta apenas o egoísmo dos interesses particulares e a tentação dum regresso ao passado, com o risco de colocar à dura prova a convivência pacífica e o progresso das próximas gerações.
Este não é tempo para divisões. Cristo, nossa paz, ilumine a quantos têm responsabilidades nos conflitos, para que tenham a coragem de aderir ao apelo a um cessar-fogo global e imediato em todos os cantos do mundo. Este não é tempo para continuar a fabricar e comercializar armas, gastando somas enormes que deveriam ser usadas para cuidar das pessoas e salvar vidas. Ao contrário, seja o tempo em que finalmente se ponha termo à longa guerra que ensanguentou a amada Síria, ao conflito no Iémen e às tensões no Iraque, bem como no Líbano. Seja este o tempo em que israelitas e palestinianos retomem o diálogo para encontrar uma solução estável e duradoura que permita a ambos os povos viverem em paz. Cessem os sofrimentos da população que vive nas regiões orientais da Ucrânia. Ponha-se termo aos ataques terroristas perpetrados contra tantas pessoas inocentes em vários países da África.
Este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas. Que o Senhor da vida Se mostre próximo das populações da Ásia e da África que estão a atravessar graves crises humanitárias, como na Região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Acalente o coração das inúmeras pessoas refugiadas e deslocadas por causa de guerras, seca e carestia. Proteja os inúmeros migrantes e refugiados, muitos deles crianças, que vivem em condições insuportáveis, especialmente na Líbia e na fronteira entre a Grécia e a Turquia. E não quero esquecer a ilha de Lesbos. Faça com que na Venezuela se chegue a soluções concretas e imediatas, destinadas a permitir a ajuda internacional à população que sofre por causa da grave conjuntura política, socioeconómica e sanitária.
Queridos irmãos e irmãs,
Verdadeiramente palavras como indiferença, egoísmo, divisão, esquecimento não são as que queremos ouvir neste tempo. Mais, queremos bani-las de todos os tempos! Aquelas parecem prevalecer quando em nós vencem o medo e a morte, isto é, quando não deixamos o Senhor Jesus vencer no nosso coração e na nossa vida. Ele, que já derrotou a morte abrindo-nos a senda da salvação eterna, dissipe as trevas da nossa pobre humanidade e introduza-nos no seu dia glorioso, que não conhece ocaso.
Com estas reflexões, gostaria de vos desejar a todos uma Páscoa feliz. (Mensagem do Papa Francisco na Bênção Urbi et Orbe, no Domingo de Páscoa de 2020).
domingo, 6 de janeiro de 2013
EPIFANIA DO SENHOR
PALAVRA DO PAPA
- da Homilia na Solenidade de Santa
Maria, Mãe de Deus, 1 de Janeiro de 2013, em Roma
“…Queridos irmãos e irmãs, eis o fundamento da nossa paz: a
certeza de contemplar em Jesus Cristo o esplendor da face de Deus, de ser
filhos no Filho e ter, assim, na estrada da vida, a mesma segurança que a
criança sente nos braços de um Pai bom e onipotente. O esplendor da face do
Senhor sobre nós, que nos dá a paz, é a manifestação da sua paternidade; o
Senhor dirige sobre nós a sua face, se mostra como Pai e nos dá a paz. Aqui
está o princípio daquela paz profunda - «paz com Deus» - que está intimamente
ligada à fé e à graça, como escreve São Paulo aos cristãos de Roma (Rm 5,
2). Nada pode tirar daqueles que creem esta paz, nem mesmo as dificuldades e os
sofrimentos da vida. De fato, os sofrimentos, as provações e a escuridão não
corroem, mas aumentam a nossa esperança, uma esperança que não decepciona,
porque "o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito
Santo que nos foi dado" (Rm 5, 5).
Que a Virgem Maria, que hoje veneramos com o título de Mãe de
Deus, nos ajude a contemplar a face de Jesus, Príncipe da Paz. Que Ela nos
ajude e nos acompanhe neste novo ano; que Ela obtenha para nós e para o mundo
inteiro o dom da paz. Amém!...”
ANO DA FÉ
- da Homilia de D. Manuel Clemente, Bispo
do Porto, no dia 1 de Janeiro de 2013, na Sé Portucalense
“…Que oportunidade, irmãos,
que responsabilidade tamanha, se verdadeiramente procuramos a paz! Estando Deus
aí mesmo, na vida em gestação, dentro ou já fora do ventre materno, como se
torna prioritária a promoção e salvaguarda de cada vida humana, no arco total
da sua existência terrena! A fragilidade da vida uterina ou a fraqueza e
enfermidade que a atinjam depois, são outros tantos apelos a que acorramos
céleres – como os pastores do Evangelho – ao seu cuidado preciso, solidário e
eficaz. Qualquer hesitação neste ponto, qualquer amolecimento cultural ou legal
em relação a ele, é absolutamente um atentado à paz. À paz das consciências,
que, quanto a isto, nunca adormecerão tranquilas, antes somarão pesadelos; e à
paz das famílias e de sociedades inteiras, se contemporizarem com qualquer tipo
de anti natalismo ou reducionismo existencial. A tão mencionada “qualidade de
vida”, deve significar, antes de mais, o reconhecimento da qualidade que ela
essencialmente tem e sempre conserva, mesmo quando física ou mentalmente
atingida. A paz – enquanto harmonia íntima e global de tudo quanto representa a
verdade das coisas, começando pela verdade das pessoas – é obra e fruto da
justiça, que nos manda dar a cada um o que lhe é devido e pertence. E a vida é
a primeiríssima pertença de cada ser humano.
Também aqui não havemos de
ter medo, nem de nos sentirmos esmagados por uma responsabilidade aparentemente
incomportável, face à insensibilidade de outros em relação a este ponto
fundamental. Quando o cristianismo nasceu, no Menino do Presépio, toda a
grandeza do céu era pequeníssima na terra, e em grande contraste com o que se
fazia naquele imponente Império Romano, no respeitante à vida humana. A
escravatura era uma realidade geral e aceite; o aborto prática corrente; e o próprio
bebé já nascido estava sujeito à vontade paterna, para continuar ou não a
viver… Alguma reflexão filosófica, como a dos estoicos, já criticava estas
últimas práticas; mas foi, inegavelmente foi, a progressiva expansão evangélica
nas inteligências e nos costumes que, pouco a pouco, conseguiu modificar
positivamente as coisas, na legislação inclusive. É por isso muito estranho que
alguém se lembre de apresentar hoje em dia como “progressos civilizacionais”
autênticas regressões de dois mil anos, desprotegendo a vida em todo seu verdadeiro
percurso, pré e pós natal. Sobretudo, quando a ciência nos demonstra agora, com
toda a evidência, o desenvolvimento duma mesma vida desde o momento da sua
conceção. - Há muito o faz a liturgia cristã, celebrando a Anunciação do Senhor
em cada 25 de Março, nove meses precisos antes do seu Natal!
Não tenhamos receio de,
também neste ponto, «confessarmos Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a
razão da nossa esperança a todo aquele que no-la peça; com mansidão e respeito…»
(cf. 1 Pe 3, 15). Ofereçamo-la mesmo a quem não a peça ainda, certos como
estamos de que a verdade que nos chama a nós também chama a todos, como os
pastores o foram ao pleno presépio de Cristo. Façamo-lo com atitudes concretas
de salvaguarda e protecção da vida, respondendo da melhor maneira aos casos que
surjam e apoiando todas as iniciativas nesse sentido, como já existem e hão-de
aumentar na nossa sociedade.
Há aqui muita urgência,
semelhante à pressa com que os pastores acorreram ao pobre lugar onde Deus
nascia no mundo. E convençamo-nos da verdade sempre comprovada: a decisão certa
que tomamos hoje abre o amanhã que Deus nos oferece. Também aqui poderíamos
aplicar a passagem bíblica: «Como deve ser santa a vossa vida e a vossa
piedade, enquanto esperais e apressais a chegada do dia de Deus; […] nós
esperamos uns novos céus e uma nova terra, onde habita a justiça» ( 2 Pe 3,
11-13).
PARA REZAR
HINO DE COMPLETAS: EPIFANIA DO
SENHOR
Luz terna,
suave, no meio da noite,
Leva-me mais
longe...
Não tenho
aqui morada permanente:
Leva-me mais
longe...
Que importa se é tão longe para mim
A praia aonde tenho de chegar,
Se sobre mim levar constantemente
Poisada a clara luz do teu olhar.
Nem sempre Te pedi como hoje peço
Para seres a luz que me ilumina,
Mas sei que ao fim terei abrigo e acesso
Na plenitude da tua luz divina.
Esquece os meus passos mal andados,
Meu desamor perdoa e meu pecado.
Eu sei que vai raiar a madrugada
E não me deixarás abandonado.
Se Tu me dás a mão não terei medo,
Meus passos serão firmes no andar.
Luz terna, suave, leva-me mais longe;
Basta-me um passo para a Ti chegar.
SANTOS POPULARES
SÃO LOURENÇO JUSTINIANO
Lourenço nasceu em Veneza, no dia 1 de Julho de 1380, numa
família ilustre e nobre: a família Giustiniani. Desde criança, manifestou
apreço pelas virtudes da humildade, do desapego às coisas materiais, de
transparente honestidade no corpo, na alma e no uso dos bens que possuía. O que
mais o fazia sofrer era saber que a vida dos homens e mulheres da sua cidade
era dominada pelo orgulho, pela ganância, pela ambição desmedida e pela corrupção.
Já adolescente, viveu uma experiência mística que o marcou para sempre: teve a
visão da Sabedoria Eterna - Jesus Cristo, Palavra viva do Pai – e, desde então,
decidiu dedicar-se à vida religiosa. O seu único desejo era amar e servir
a Deus. Procurando crescer na perfeição da vida espiritual, tornou-se mendigo
na sua própria cidade, chegando mesmo a pedir esmola à porta da casa dos seus
próprios pais. Os seus familiares sentiam-se provocados e envergonhados com
esta sua atitude e, muitas vezes, tentaram demovê-lo e até desviarem-no do
caminho da vida religiosa. As comunidades cristãs da Veneza do século XV eram
comunidades cheias de vitalidade e de fervor religioso, abertas a uma verdadeira
reforma católica e desejosas de dar prova do seu amor a Cristo, dando frutos de
testemunho e de boas obras. Lourenço Justiniano é uma prova de que a renovação
da vida de fé e a transformação do coração dá muitos frutos. Com apenas
dezanove anos de idade, já era considerado um modelo de virtude, de austeridade
e de humildade. Em 1404, foi ordenado Diácono e uniu-se a outros sacerdotes,
entrando para Mosteiro de São Jorge, em Alga, para viver, com eles, em comunidade.
Este grupo foi conhecido como "Companhia dos Cónegos Seculares",
pioneiros do esforço reformador da Igreja Católica. Eram sacerdotes seculares (
ligados ao mundo no seu apostolado, sobretudo o do ensino e da pregação) mas
viviam em comunidade, para se ajudarem mutuamente no esforço da santificação .
Para isso, criaram regras muito próprias para a organização da sua vida
comunitária e apostólica. Lourenço foi ordenado sacerdote, em 1407 e, dois anos
depois, foi eleito superior da Comunidade de São Jorge de Alga. Não sendo
um bom orador, tornava a sua pregação eficiente com a sua dedicação ao ministério
do confessionário, com o seu exemplo de humilde mendicante e com o seu trabalho
de escritor incansável. A sua obra inclui livros para doutores e leigos,
incluindo tratados teológicos e simples manuais de catequese. Os seus escritos
trazem a matriz da sua revelação original: a ideia da "Sabedoria
Eterna", eixo da sua mística, tanto para a perfeição interior como para a
rectidão da vida. Apesar de não ser seu desejo, em 1433, foi ordenado
bispo de Castello, uma pequena diocese perto de Veneza, pelo Papa Eugénio IV.
Em 1451, o papa Nicolau V extinguiu esta diocese e nomeou Lourenço Justiniano para
primeiro patriarca de Veneza. Nestas funções, deixou uma marca muito
particular, impressa com as suas virtudes. Era considerado um homem sábio,
prudente, piedoso e, sobretudo, um homem de caridade, principalmente com os
mais pecadores. Mandou construir mais de quinze conventos e inúmeras igrejas,
possibilitando que muitas pessoas se aproximassem de Deus e vivessem a verdade
da fé com entusiasmo e dedicação. A sua acção apostólica levou a um aumento
considerável de crentes, na diocese de Veneza e nos arredores. Foi um modelo e
um exemplo de pastor, amado por todos os seus fiéis, que obedeciam à sua
pregação e ao seu exemplo no seguimento de Cristo. A sua mensagem acentuava,
sobretudo, o dever da fidelidade aos mandamentos do Senhor. Lourenço Justiniano
morreu no dia 8 de Janeiro de 1456, com setenta e seis anos. Depois da sua
morte, muitos milagres foram atribuídos à sua intercessão, Foi canonizado, em
1690, pelo Papa Alexandre VIII.
Na Igreja Matriz de Santa Maria da Feira, no retábulo-mor,
encontra-se uma imagem de São Lourenço Justiniano. Os Cónegos seculares de São
João Evangelista, ou “frades lóios” - versão portuguesa dos Cónegos Seculares
de São Jorge de Alga, de quem Lourenço Justiniano foi superior e impulsionador
– eram muito devotos de São Lourenço Justiniano a quem consideravam como
fundador do espírito que os motivava e unia. Esta imagem, agora em restauro, mostra
o modo de trajar dos “Frades Lóios” ou “frades azuis” por causa da cor das suas
vestes. A sua memória litúrgica já esteve marcada no dia 5 de Setembro, data em
que fora nomeado bispo. Depois da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II,
esta memória é celebrada no dia 8 de Janeiro, data da sua morte.
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