SANTA INÊS DA BOÉMIA
Inês (Anezka) era filha de
Premysl Otocar I, um rei forte e ambicioso, e de Constância, da dinastia Arpad,
da Hungria. Por parte do pai, Inês era descendente da famosa família dos Santos
Ludmila e Venceslau. Santa Isabel da Hungria era sua prima; Santa Edviges foi
sua tia-avó, e Santa Margarida da Hungria foi sua sobrinha. Inês nasceu, em
1202, na cidade de Praga, actual capital da Checa. Como era costume na época
medieval, os casamentos eram tratados entre as famílias, garantindo alianças,
interesses, poder. Ainda criança, Inês foi prometida em casamento a Henrique
VII, rei da Silésia e da Alemanha. Com três anos de idade, foi enviada –
juntamente com Ana, a sua irmã mais velha – para o Mosteiro de Trebnica, em
Breslau, onde era monja a sua tia Edviges ( Santa Edviges ) que se tornou sua
educadora. Aos seis anos, foi transferida para o Mosteiro de Doksany, onde
aprendeu a escrever. O compromisso matrimonial com o filho do Imperador
Frederico II, tirou Inês, aos oito anos, da tranquilidade do Mosteiro e transferiu-a
para o ambiente mundano da Corte de Viena, onde deveria receber a educação digna
de uma futura imperatriz. Mais tarde, com o seu noivado desfeito, por razões de
desentendimentos políticos do seu pai, foi objecto de interesse de vários
pretendentes nobres, e inclusive, do próprio Imperador Frederico II, que ficara
viúvo. Porém, Inês havia já decidido consagrar a sua vida a Jesus Cristo e, com
decisão e firmeza, não aceitou casar-se. Inês – que ouvira falar das novas
formas de vida religiosa que estavam a surgir naquela época, em Itália, com São
Francisco e Santa Clara de Assis - sentiu-se profundamente atraída pelo
movimento franciscano. Às suas custas, a nobre princesa mandou construir uma
igreja para os Frades Menores (franciscanos) e um hospital para os doentes
pobres, onde ela mesma se dedicava a cuidar deles. As duas construções foram
dedicadas a São Francisco. O hospital foi confiado aos Crucíferos da Estrela
Vermelha, que depois se tornou numa ordem religiosa com a regra de santo
Agostinho e que, segundo consta, ela teria ajudado nas fases iniciais; esta
Ordem, por causa de conflitos políticos e sociais, foi extinta em meados do
século XVII. Inês renunciou à administração direta do hospital para optar por
uma vida de clausura e de pobreza absoluta. Em 1234 - com o desejo de que
houvesse na sua cidade um convento de vida contemplativa, semelhante à
experiência de Clara e das primeiras Clarissas de Assis - construiu, junto da
Igreja de São Francisco, o Mosteiro das Damas Pobres de São Damião de Praga.
Com cinco Clarissas provindas de Trento (Itália) e algumas jovens das famílias
nobres da Boémia, Inês iniciou e organizou a vida religiosa deste Mosteiro: era
a festa de Pentecostes de 1234. Inês, com trinta e dois anos, entrou neste
mosteiro de clausura e aí viveu até ao fim da sua vida. Distribuiu todos os
seus bens pelos pobres e conseguiu que o Papa Gregório IX aprovasse, para este
Mosteiro, a mesma Regra que se vivia, naquela época, no Mosteiro das Clarissas
de Assis. Foram tantas as jovens que se sentiram chamadas a viver este mesmo
ideal que, em poucos anos, o número de Irmãs chegou à centena. Foi necessário
construir um mosteiro maior para acolher todas as vocacionadas. Também noutros
lugares da Boémia, Polónia, Morávia, o exemplo da ilustre princesa foi acolhido
por muitas mulheres e se fizeram monjas e os mosteiros começaram a multiplicar-se.
Inês foi a grande impulsionadora da Ordem de Santa Clara nos países checo eslovacos.
Inês mandou construir, junto do Mosteiro das Damas Pobres, um mosteiro para os Frades
Menores, com o objectivo de receber deles a assistência espiritual; isto fez
realçar o sentido de pertença destas monjas ao movimento franciscano, que ela
tanto amava. Como abadessa das Clarissas de Praga, foi muito activa e dinâmica
na tarefa de implementar a autêntica vivência evangélica da pobreza, no
espírito dos fundadores, Francisco e Clara. Manteve um constante contacto com a
Santa Sé e obteve um bom número de documentos e de cartas papais, como resposta
às solicitações que fazia. A escolha e a vivência da “Forma de Vida de Santa
Clara” - baseada explicitamente na pobreza absoluta - foram, para Inês, uma
luta de toda a vida. A maior parte das cartas e documentos estão relacionados
com o problema crucial de manter vivo o ideal de vida pobre e recolhida,
dedicada à contemplação, conforme as primeiras monjas de São Damião (clarissas
de Assis). Inês exerceu uma notável obra pacificadora entre os membros da sua
própria família e da comunidade religiosa à qual pertencia. Sugeria sempre
soluções inspiradas nos princípios cristãos. Procurou também uma paz duradoura
entre o rei da Boémia e a Cúria papal e, assim, pôde reerguer-se como baluarte de
paz frente à política prepotente de outros reis. A sua vida foi sempre marcada
por cruzes e sofrimentos. Grandes problemas e intrigas da corte, perseguições,
guerras, mortes, abateram-se sobre o reinado do seu irmão Wenceslau e do seu
sobrinho Otocar II. Inês foi sempre de uma fortaleza extraordinária e ajudou-os
com a força da oração e da palavra confortadora. A sua velhice foi entristecida
pela morte cruel do rei Otocar, no ano de 1278, que ela previra interiormente.
Inês da Boémia morreu em 1282, depois de ter vivido com muita radicalidade a sua
vocação e de ter consolidado fortemente a fundação de Praga, com o seu exemplo
de doação e com as suas virtudes. Foi beatificada pelo Papa Pio IX, em 1874, e
canonizada pelo Papa João Paulo II, em 12 de Novembro de 1989. A memória
litúrgica de Santa Inês da Boémia faz-se no dia 2 de Março.